Capítulo 69
Will encostou-se a parede do salão de jogos da casa de Charles e observou Elizabeth. Por algum motivo, ficava revivendo em sua mente o momento em que Charles os convidou a acompanhá-lo até a sala de jogos após o jantar. Jane seguira Charles prontamente, Georgiana, após se assegurar de que Elizabeth também os acompanharia, foi atrás do casal. Elizabeth seguiu Georgiana, mas parou à divisão da sala quando notou que ele, Will, não se movia.
Will percebeu a sua hesitação em seguir os outros e deixá-lo sozinho. Podia ver o olhar dela sobre ele, com o canto de olho. Mas ela não lhe dirigiu a palavra em momento algum. Apenas olhou em sua direção naquela fração de segundos antes de atravessar a porta. Ele não teve outra reação a não ser pôr-se de pé num pulo e segui-la. E agora não sabia o que fazer.
Charles, distraidamente, explicava às garotas para que servia aquela estranha cadeira, que possuía um volante, marchas e pedais, além de três telas amplas a sua frente.
--É o VRX MACH 4, simulador de corrida que ganhei de presente de aniversário. – Charles dizia as meninas, animadamente. – O primeiro simulador de corridas com quatro telas do mundo; tem quatro Xbox 360 com um total de 4 Teraflops, que comandam as 3 telas LCD Sharp Aquos de 37 polegadas e uma tela de 7 polegadas que simula o espelho retrovisor.
No VRX MACH 4 a sensação de imersão no jogo é completa graças a cadeira italiana Sparco Monza e ao volante Microsoft com Force Feedback, e detalhes como efeitos de luzes LED, um sistema de bebidas parecido com o dos pilotos de verdade e o Virtual Wind System com dois ventiladores da Honeywell, que dá a sensação do vento no seu rosto. O sistema ainda conta com caixas de som da Bose, amplificador da Harmon Kardon e quatro cópias do game Forza Motorsport 2.
As meninas se entreolhavam, obviamente sem conseguir entender metade do que Charles estava lhes dizendo. Mas sentiam-se satisfeitas ao constatar que estavam diante de mais uma prova da obsessão dos homens por carros e tudo mais relacionados com eles. Elizabeth e Jane não deixaram de perceber a disparidade entre a classe econômica delas e a de Charles. Elizabeth admirava-se que o seu último presente de aniversário correspondesse ao seu atual computador – novo, mas não exatamente de último modelo, com todas as novas invenções das marcas mais modernas.
Charles se ofereceu a demonstrar como o simulador funcionava e deixar com que as meninas experimentassem também, mas sua sugestão foi dispensada. Porque preferiram entreter-se com uma atividade em que todos pudessem participar. Desta forma, excluíram o jogo de Pinball, dentre as diversas possibilidades da sala de jogos da casa de Charles – que para as meninas Abbott parecia-lhes mais um parque de diversões de jogos eletrônicos – e começaram um jogo de bilhar.
Charles, galantemente, começou a ensinar Jane como segurar o taco e atingir uma das bolas. Jane falhou miseravelmente e, sorrindo, anunciou que era uma péssima jogadora de bilhar. Will, numa tentativa de ajudar as meninas, ofereceu-se para ensinar a sua própria irmã (desejava ser galante como Charles e ensinar Elizabeth, mas sabia que esta era uma possibilidade fora de seu alcance). Ele conseguiu ser bastante claro e deu dicas simples a sua irmã, conseguindo que Georgiana acertasse a bola, enviando-a, pelo menos, na direção de um dos buracos.
--Aparentemente, eu sou um péssimo professor! – Charles comentou, arrancando risinhos das irmãs Abbotts. – E a mesa de bilhar é minha!
--Não se preocupe, meu amor! – Jane enlaçou os braços no pescoço de Charles ao dizer-lhe isto. – Isto nos torna o par perfeito! – E selou os lábios do namorado (ainda perdido na primeira frase, era a primeira vez que Jane o chamava de “meu amor”) com um beijo suave.
--Arrumem um quarto! – Elizabeth disse, debochadamente, deixando o casalzinho envergonhado e Georgiana prendendo uma risada.
E, seguindo as dicas de Will, Elizabeth tentou dar uma tacada. O jogo prosseguiu sem muitas emoções, apenas muitas gargalhadas com os erros das meninas ao darem suas tacadas – Jane conseguiu a proeza de enviar uma das bolas para fora da mesa com uma de suas tentativas; por sorte, não atingiu ninguém.
Retornaram a sala de estar quando a sra. Brown veio lhes buscar a sala de jogos. O sr. Abbott já estava desejoso de retornar para casa. Assim, o jantar foi dado por encerrado com o devido sucesso na apresentação das três famílias. Charles sentia-se satisfeitíssimo, ao ir se deitar, ao tomar conhecimento de que seus pais aprovaram imensamente Jane e seus respectivos familiares.
No entanto, Will e Elizabeth tiveram uma grande surpresa a caminho de casa quando lhes foi revelado que estavam fadados a passar o Natal juntos. Georgiana e Jane ficaram animadíssimas com tal perspectiva, Will e Elizabeth ficaram receosos e ansiosos, ao mesmo tempo.
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Domingo, as mulheres da família Abbott foram ao shopping fazer compras. Com a mudança dos planos para o feriado natalino na noite anterior, a sra. Abbott acabou acordando bastante cedo àquela manhã para reorganizar os seus planos para aquela estação. Sendo uma mulher metódica em seus afazeres de mãe, esposa e dona de casa, a sra. Abbott tinha o costume de planejar minuciosamente tudo o que precisava fazer para que as coisas decorressem conforme os seus planos e desejos. Assim, deixava pouca margem para possíveis surpresas indesejadas – é claro, com Elizabeth isso não funcionou muito, mas ela nunca desistiu de tentar.
Por isso, este ano decidiu por iniciar as suas compras de fim de ano, as quais geralmente ocorriam no final de novembro e no decorrer de dezembro, ainda no começo do mês de novembro. Desta forma, acordou o marido e as filhas muito cedo para irem às compras. Após muita insistência de sua parte, o sr. Abbott concordou em levá-las até o shopping e ir buscá-las ao fim do dia, mas não tinha nenhuma intenção de acompanhá-las durante todo o processo.
O motivo que levou a sra. Abbott antecipar as suas compras era bem simples. Tradicionalmente, ela e sua família passavam o feriado natalino na casa de sua mãe, juntamente com o restante de seus parentes. Na noite de natal, ocorria a famosa troca de presentes. Como este ano eles não estariam presentes na noite de natal, apenas na virada do ano, acreditava que não faria sentido adiar a entrega dos presentes de natal. Sabia que seus sobrinhos – os mais novinhos, em especial – sentiriam muito a falta de receber os seus respectivos presentes na noite natalina. Por isso, pretendia enviá-los pelo correio de antemão – assim como comumente fazia com os presentes natalinos dos seus parentes por parte do sr. Abbott.
Com uma lista de tudo o que precisava fazer neste dia, guiou as filhas para uma grande loja de conveniência, conhecida por sua variedade e bons preços, e dividiu a lista em três, mandando cada uma em um departamento diferente da loja. Encaminhou Jane para a seção de brinquedos, Elizabeth para a seção de decoração de ambientes e ela mesma se dirigiu a seção de utensílios de cozinha. Cada uma tinha que escolher presentes diversos em cada seção para um parente da sra. Abbott ou do sr. Abbott, ao fim se encontrariam no caixa.
Elizabeth não conseguia compreender como a sua mãe era capaz de se lembrar dos presentes que dava ano após ano a cada membro de sua família. Seus parentes eram tantos e os presentes geralmente se resumiam sempre as mesmas coisas, que Elizabeth acreditava estar sempre comprando o mesmo presente para a mesma pessoa. Mas a sua mãe nunca se equivocava, conseguia lembrar perfeitamente qual presente tinha dado a cada um, de forma a nunca repetir o mesmo presente para mesma pessoa. Parecia-lhe que a sra. Abbott tinha um sistema: primeiro um objeto de decoração, depois um utensílio para cozinha, depois outro objeto de decoração, sempre revezando. E ela tinha sempre a certeza de quem recebera o vaso de flores e quem recebeu o jogo de baixelas no natal anterior.
Quando se tratava dos mais jovens: CDs, jogos de tabuleiros, bonecas ou soldadinhos, ou ursinhos de pelúcia. Já para os homens, adultos, a escolha era a clássica: perfumes baratos, meias, cachecóis, suéteres e gravatas, uma caixa de charutos ou uma boa garrafa de whisky. Jane sempre achou estranho o fato de sua mãe comprar presentes individuais para os homens e crianças, mas comprar objetos para casa quando se tratava das suas irmãs. Quando lhe fez tal comentário em um dos anos, a sra. Abbott simplesmente respondeu que presentes femininos, tais como: perfume, jóias e roupa, eram presentes para serem dados por filhos e maridos, e não por outros membros da família. Quem era Jane para discordar, não é mesmo? São as irmãs da sra. Abbott, afinal!
Elizabeth escolheu diversos tipos de vasos de vidro e de cerâmica, além de duas esculturas bastante intrigantes para duas de suas tias favoritas, e depositou-as em um carrinho, seguindo para a seção de brinquedos. Não teve dificuldade em encontrar Jane, já com a sua lista de brinquedos completa no seu próprio carrinho, mas brincando com um ursinho de pelúcia de uma vaca, cheia de tetas, que vibrava e ria como uma pessoa descontrolada. Jane estava rindo, quase chorando, quando Elizabeth a encontrou e juntou-se a ela na risada.
A sra. Abbott as encontrou meia hora depois, divertindo-se com os brinquedos diversos na seção de brinquedos, e ralhou com ambas. Estivera esperando por elas, com suas compras feitas, por mais de vinte minutos no caixa. As meninas guiaram seus respectivos carrinhos atrás da mãe até o caixa mais próximo, ainda com o brilho do riso nos olhos.
Depois de efetuarem as compras, a sra. Abbott levou as meninas a uma loja de roupas masculinas, onde compravam alguns dos presentes para os tios das meninas. Ao fim, foram a uma loja especializada em bebidas e charutos onde compraram uma garrafa de whisky para um dos irmãos do sr. Abbott e uma caixa de charutos para outro.
A sra. Abbott já estava satisfeita com as suas compras e pronta para ligar para o seu marido, quando Elizabeth alegou que também precisava comprar presentes para as suas amigas. Jane concordou e ambas convenceram a sra. Abbott a acompanhá-las até uma loja de CDs, DVDs e livros em outro piso do shopping, para que elas pudessem comprar, separadamente, os presentes de Charlotte, Lydia, Catherine, Mary e Georgiana.
Elizabeth comprou um livro para Lydia, um DVD para Catherine e Charlotte, e um CD de músicas dançantes para Mary – numa tentativa de influenciá-la a começar a gostar de dançar – e Jane comprou um livro para Georgiana e Catherine, um DVD para Lydia e Mary, e um CD bem romântico para Charlotte. O presente que Elizabeth queria dar a Georgiana era um CD de Vanessa Carlton que não encontrou naquela loja, então convenceu a mãe a acompanhá-las até a loja especializadas em CDs para efetuar a sua última compra.
As três entraram na loja e Elizabeth caminhou tranquilamente pelas estantes de CDs, procurando pelo CD Be Not Nobody, o qual não era o seu CD mais recente e por isso não havia conseguido encontrar na outra loja. Não teve muita dificuldade de encontrá-lo na prateleira de CDs da letra V, entre os demais CDs de Vanessa Carlton.
Quando começou a se dirigir ao caixa, Matthew surgiu a sua frente, sorrindo, ofereceu a sua ajuda. Elizabeth o cumprimentou rapidamente, informando-lhe que já havia encontrado o que procurava e continuou andando até o caixa. Ele a acompanhou, ainda tentando conversar com ela. A sra. Abbott observava os dois a certa distância.
--Como você tem passado? – Ele dizia. – A última vez que te vi foi no casamento de ...sua prima, estou certo?
--Sim, está. – Elizabeth replicou, entregando o CD a uma jovem que estava ao caixa e começando a procurar a sua carteira em sua bolsa.
--E então? Como você está? – Matthew persistiu na primeira pergunta.
--Bem. E você? – Elizabeth respondeu, encontrando sua carteira e a abrindo, retirando o dinheiro e entregando a atendente.
--Estou bem. – Ele respondeu, ainda sorrindo. – Trabalhando, estudando...
--Isso é ótimo.
--E o namorado? – Ele questionou, conseguindo que ela concentrasse o seu olhar exclusivamente nele pela primeira vez.
--Namorado? – Ela repetiu, franzindo a testa.
--Sim. Aquele rapaz que estava com você no casamento de sua prima... – Ele replicou, distraidamente. – Não consigo me lembrar o nome dele.
--Ele não é... Nós não estamos mais… - Elizabeth gaguejou; então a atendente lhe deu o troco e uma sacolinha com a sua compra.
--Oh... – Matthew sorriu, confiante.
--E a minha prima? – Elizabeth rebateu, alfinetando-o, ao guardar a carteira na bolsa e tentar se afastar dele, caminhando na direção de Jane e da sra. Abbott.
--Madeleine? Ok... eu acho. – Matthew respondeu, estranhando a sua pergunta. – Pelo menos, quando cruzo com ela pela faculdade ela me parece estar bem.
--Bem, ham... Eu preciso ir agora... – Elizabeth já havia alcançado a sua mãe e irmã, e ambas escutavam o diálogo que ela estava tendo com Matthew. – Então, tchau!
--Espere. – Ele pediu, conseguindo detê-la por mais um minuto. – Eu estava me perguntando... se você não gostaria de sair comigo neste fim de semana?
--Eu? – Elizabeth foi pega de surpresa pelo convite e não soube como responder imediatamente.
--Meus amigos da faculdade estarão dando uma festa, vai até ter música ao vivo... Será divertido! – Ele argumentou, tentando convencê-la a aceitar o seu convite.
--Eu.. eu... – Elizabeth começou a gaguejar pela segunda vez, olhando para sua irmã, esperando que ela viesse socorrê-la.
--É claro que ela aceita, querido! – A sra. Abbott respondeu, deixando Elizabeth e Jane a fitando com os olhos arregalados e Matthew sorrindo para ela.
--Ótimo. – Ele exclamou. – Se você me der o seu telefone, eu ligo para você e a gente combina tudo. – Apressou-se a dizer a Elizabeth, quem ainda olhava para a própria mãe, boquiaberta.
--Eu lhe dou o número do telefone de lá de casa e o nosso endereço também. – A sra. Abbott replicou, colocado as suas sacolas de compra no chão e abrindo a sua bolsa.
--Mamãe! – Jane murmurou, tentando chamar a sua atenção. Mas a sra. Abbott prosseguiu, retirando um caderninho e uma caneta da bolsa, fez as suas anotações e entregou a Matthew.
--Aqui, querido! – Entregando-lhe o papel, fechou a sua bolsa e pegou as suas sacolas do chão. – Agora, nós precisamos mesmo ir. Tchauzinho! – E deu-lhe as costas. – Venham, meninas! – Apressando as suas filhas.
Jane precisou empurrar Elizabeth para que ela começasse a se locomover, porque Elizabeth estava atônita com o que acabara de lhe acontecer.
--Mamãe! – Ela disse, enfurecida, quando conseguiu alcançar a sra. Abbott. – Por que você fez isto?
--Fazer o que, Lizzie? – A sra. Abbott replicou, indiferente ao seu melodrama.
--Aceitou aquele convite por mim. – Elizabeth respondeu, exasperada. – Eu não queria sair com ele!
--E por que não? – A sra. Abbott perguntou. – Ele me pareceu um rapaz gentil, atencioso, educado... E bonito também! – Ela argumentou, direcionando um olhar cheio de significados para a filha. – Além do mais, estou cansada de vê-la pelos cantos de casa nos fins de semana enquanto sua irmã sai para se divertir.
--Mamãe, eu já lhe disse que não preciso que a senhora fique arranjando pretendentes para mim! – Elizabeth reclamou.
--E quando foi que eu arranjei um pretendente para você, Elizabeth? – A sra. Abbott disse, exasperada. – Eu só pensei que vocês fossem amigos... E que mal há em sair com um amigo? Ham? Me diga!
--Mamãe, nós não somos amigos! – Elizabeth replicou, tentando se acalmar. – Eu mal o conheço!
--Passa a conhecer! – A sra. Abbott rebateu, caminhando em direção a saída do shopping.
--Ele foi ao casamento de Chloe como acompanhante de Madeleine! – Jane tentou ser de algum auxilio a sua irmã.
--E daí? – A sra. Abbott não pareceu dar muita atenção a esta informação. – Olha, Elizabeth! Eu não estou lhe dizendo para namorá-lo, apenas para sair com ele e tentar se divertir... fazer um novo amigo! Só isso! – E, concluindo aquela discussão, disse. – Agora, ligue para o seu pai e diga para ele vir nos buscar!
Elizabeth ainda ficou enfurecida, mas permaneceu em silêncio enquanto Jane ligava para o sr. Abbott.
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Segunda-feira, quase assim que chegou a escola, Elizabeth teve mais uma surpresa. Ela se separou de Jane a porta de sua sala e foi guardar os seus materiais escolares, não encontrando Lydia ou Catherine à sala. Decidiu sair já que ainda tinha alguns minutos antes da primeira aula do dia começar, resolveu ficar no corredor. Talvez encontrasse Charlotte e pudesse lhe contar o que a sua mãe aprontou este fim de semana.
Ao atravessar a porta de sua sala, precisou desviar de um colega de turma que acabava de chegar e, nesta tentativa de evitar se esbarrar neste colega, acabou se esbarrando em uma pessoa totalmente diversa ao corredor de sua sala. Virou-se para esta pessoa, com um sorriso complacente, e começou a se desculpar.
--Aii... me perdoe, eu não estava olhando aon... – Mas sentiu as palavras lhe fugirem a mente quando fitou um par de olhos verdes com alguns pontinhos azuis.
--Não foi nada. – O jovem rapaz loiro, de cabelos cacheados, respondeu, com um sotaque incomum.
--Ahhh...Lizzie! – A voz excitada de Catherine retirou-a do seu estupor momentâneo. – Deixe-me lhe apresentar ao meu novo vizinho, Gabriel James Ferris... – Catherine exclamou, animadíssima, ao indicar o rapaz com quem Elizabeth colidiu. – Gabriel, esta é Elizabeth Ann Abbott, uma das minhas melhores amigas...
--É um prazer conhecê-la, Elizabeth. – Gabriel disse, estendendo a mão.
--Igualmente. – Elizabeth respondeu, aceitando a mão que ele lhe oferecia e o cumprimentando.
--Gabriel irá estudar aqui em Austen House... Não é uma ótima notícia, Lizzie? – Catherine prosseguiu com os seus comentários com a mesma animação.
--É sim. – Elizabeth replicou, observando a amiga com maior atenção desta vez.
--‘Lizzie’? – Gabriel inquiriu, ganhando de volta a atenção de Elizabeth.
--Apelido… – Elizabeth explicou, naturalmente. – Os meus amigos me chamam de Lizzie para não ter de pronunciar o nome Elizabeth.
--Entendo. – Gabriel disse e, com um sorriso mais malandro, comentou. – Devo presumir, pelo seu comentário, que terei de fazê-la gostar de mim antes de ter o privilégio de chamá-la de ‘Lizzie’.
--... – Elizabeth voltou a fitá-lo com interesse mais uma vez, esquecendo-se de Catherine, e respondeu, com bom humor. – Creio que sim.
--Gabriel é segundo ano... então, ele não será da nossa sala, mas... – Catherine, alheia ao sorriso de canto de boca que Gabriel adquiriu ao ouvir a resposta de Elizabeth ou o olhar de divertimento que ela dirigia a ele ao dar-lhe tal resposta, prosseguiu com os seus comentários.
--Bem, .. eu devo ir procurar a minha sala. – Gabriel disse, despedindo-se das duas meninas e seguindo o seu caminho pelo corredor.
Catherine logo empurrou Elizabeth para dentro da sala e começou a relatar como o pai de Gabriel houvera feito amizade com o seu pai no decorrer do fim de semana e em como, ao sair de casa para vir à escola esta manhã, foi surpreendida quando o pai dele ofereceu uma carona até a escola, já que estaria trazendo Gabriel até Austen House pessoalmente. E não tardou a lhe passar todas as informações sobre ele que conseguiu juntar nos últimos dias, acrescidas àquelas da conversa que tivera com ele e seu pai esta manhã a caminho da escola.
--O pai dele é secretário da embaixada australiana e passa dois a três anos em um país a trabalho, para depois ser enviado a outro... – Catherine dizia, cheia de si por saber tais informações sobre ele. – Ele tinha sete anos quando os pais dele se divorciaram e o pai dele foi morar na Espanha, deixando-o na Austrália com a mãe... Mas, uns anos depois, a mãe dele se casou novamente e ele decidiu ir morar com o pai, quem, a aquela altura, já estava morando nos Estados Unidos... E nos últimos dois anos e meio foi onde ele morou. – Ela disse, num tom de voz de quem concluiu o seu relato. Até o seu rosto tomar uma feição iluminada e ela prosseguir. – Ahh... você sabia que ele só conseguiu a transferência para cá porque o pai dele tem conexões com a Embaixada, é claro! - Ela disse, com mais ênfase. – Senão ele teria que procurar outra escola para estudar, visto que Austen House estava relutante em recebê-lo a princípio, porque nós já estamos no meio do ano letivo e tudo mais... – Ela não prosseguiu com o seu comentário imediatamente, porque Lydia entrou na sala e logo Catherine precisou recomeçar o seu discurso.
As meninas continuaram conversar sobre Gabriel até o momento que o professor entrou na sala e iniciou a sua aula. Elizabeth esqueceu-se temporariamente do que a sra. Abbott fizera com ela no dia anterior e não comentou nada com as amigas neste momento. No primeiro intervalo das aulas, quando lembrou-se de tal episodio encontrou as amigas rodeadas pelos seus respectivos namorados, então preferiu não mencionar o assunto na frente de nenhum deles.
No intervalo de aulas do segundo horário, no entanto, em quanto tentava conversar com Charlotte, aproveitando que Richard ainda não havia se juntado à namorada, esbarrou-se mais uma vez em Gabriel. Ele tentou fitá-la nos olhos quando ela, distraída ainda com Charlotte, começou a se desculpar pelo esbarrão.
--Desculpe-me! – Ela disse, olhando na direção da pessoa em que se esbarrara e voltando-se para Charlotte rapidamente. – Aí ela... – E tentou continuar a sua conversa, mas a voz dele fez com que ela voltasse a olhar para ele.
--Não se preocupe! – Ele disse com um tom irônico, ganhando a atenção de Charlotte também. – Eu já estou me acostumando. – Ele completou, desviando de ambas e seguindo o seu caminho, deixando Elizabeth boquiaberta e Charlotte com a testa franzida.
--Hei, eu não me esbarrei em você de propósito, sabia?! – Elizabeth exclamou, virando-se na direção em que ele seguira.
--Eu não disse que você tinha feito isto. – Ele replicou, virando-se para ela e começando a andar de costas. Para em seguida, dar-lhe as costas e continuar o seu caminho, com aquele mesmo sorriso de canto de boca.
--Quem é ele? – Charlotte perguntou, com um olhar inusitado para Elizabeth.
--Gabriel. – Elizabeth replicou, dando as costas a figura em retirada dele e continuando a sua caminhada. – O novo vizinho de Kitty.
--Hum-hum... – Charlotte murmurou, com um sorriso malicioso.
--O que? – Elizabeth inquiriu, desconfiada.
--Nada. – Charlotte disse e riu-se.
--Lizzie, você contou a Charlotte o que nossa mãe fez? – Jane as encontrou e não demorou a perguntar, fazendo com que Elizabeth se esquecesse Gabriel.
--Estava tentando. – Elizabeth replicou. – Onde eu estava mesmo? Ahh... – E retomou o seu relato de onde houvera parado.
Tentou narrar o episodio do convite de Matthew a Charlotte da forma mais concisa e rápida possível, imaginando que Richard não tardaria a juntar-se a elas. E quando encerrou Charlotte não teve tempo de expressar sua opinião quanto ao que ouvira porque seu namorado se acercou delas e Elizabeth fez-lhe um sinal para que ela mantivesse aquele assunto em segredo dele.
No entanto, este era um segredo que não fora feito para durar. Depois que Lydia tomou conhecimento deste novo fato, ela fez questão de divulgá-lo de forma que a pessoa quem Elizabeth temia que descobrisse, ficasse sabendo e não tivesse dúvidas quanto à sua veracidade. E a reação dele a notícia, embora não fosse a que ela esperava, lhe satisfez.
Elizabeth até chegou a estranhar que Lydia houvesse escutado o seu relato na mais pura tranqüilidade, sem fazer nenhum comentário maldoso. Mas não podia imaginar que Lydia ficara em silêncio para não despertar as suspeitas de nenhuma das meninas quanto ao que ela planejava fazer com aquela informação.
Ao recreio, quando todos estavam sentados a uma das mesas do refeitório e lanchavam, Lydia observou o comportamento desconfortável de Elizabeth perante Will, enquanto ele continuava a agir da mesma forma que vinha agindo durante a semana passada. E apenas teve certeza de que o que estava preste a fazer era a coisa certa a ser feita. Então, disse, animadamente.
--Lizzie, onde Matthew pretende te levar no encontro de vocês este fim de semana?
O silêncio imperou naquela mesa nos segundos seguintes à pergunta de Lydia a Elizabeth. Todos a mesa viraram o rosto na direção de Lydia e depois na direção de Elizabeth. Jane e Charlotte observaram Lydia com feições incrédulas por um bom tempo, mas logo redirecionaram o olhar para Elizabeth, a encontrando com o rosto pálido e a boca entreaberta. Richard, Charles, George e Daniel olhavam de Lydia para Elizabeth, para depois redirecionar os seus olhares interrogativos para as suas respectivas namoradas, como se lhes dissesse: “Eu não sabia disso. Por que você não me contou nada?”.
Ninguém esperava que Will fosse a pessoa a quebrar aquele silêncio, muito menos ele. Quem há algum tempo não dirigia a palavra a Elizabeth diretamente.
--Você vai ter um encontro este fim de semana?! – Ele exigiu saber, olhando-a compenetradamente. Em seu tom de voz transpareceu a sua surpresa e, até mesmo, a sua angustia com aquela novidade.
Elizabeth voltou o seu olhar para ele lentamente e respondeu, temerosa.
--... – Ela abriu a boca, mas não conseguiu produzir nenhum som. Os olhos azuis dele parecia penetrar a sua alma, e ela conseguia sentir as suas mãos começarem a suar e o seu coração bater acelerado. – Foi a minha mãe quem arranjou este encontro para mim. – Justificou-se a ele.
O silêncio seguiu-se a resposta dela durante os minutos seguintes. Minutos estes em que os dois se olharam profundamente. Então, Will desviou o olhar, ao lembrar-se onde estava e com quem, e tentou voltar a lanchar. Mas na não conseguiu comer mais nada. A pergunta de Lydia e a resposta de Elizabeth a sua pergunta repetiam-se em sua mente, uma se sobrepondo a outra, deixando-o louco de ciúmes.
Ninguém fez qualquer outro comentário sobre aquele assunto ou qualquer outro até o intervalo terminar. Will foi o primeiro a se retirar da mesa e do refeitório.














