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Meus sentimentos não podem ser reprimidos. Permita-me dizer-lhe que a admiro e a amo ardentemente. (Jane Austen)

Come Pick me Up and Take me Out - Capítulo LXVIII

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Capítulo 68

 

Foi com muita ansiedade que Will se dirigiu até a casa de seu melhor amigo com sua família na temida noite do jantar. Sentia o seu coração batendo forte contra o seu peito ao atravessar a porta da casa e ser recebido pelo mordomo dos Brown, o sr. Perkins – um homem de cabelos escassos e grisalhos, alto e magro, mas ainda com muito vigor e altivez, qual impunha respeito. Ficava se perguntando se os Abbotts já teriam chegado.

A sra. Brown os aguardava a sala de estar, sorridente. Pediu que se acomodassem e logo os pais de Will e a sra. Brown estavam conversando alegremente. O sr. Brown não demorou a aparecer a sala, tão animado quanto a sua esposa. A princípio, a conversa continuou a ser geral, mas logo as duas senhoras se distraiam com uma conversa paralela, enquanto o sr. Brown e o sr. Darcy iam para o pequeno bar do sr. Brown, preparar seus drinques e discutir sobre os seus respectivos negócios.

Will quis saber onde estava Charles, porque ele ainda não tinha surgido para cumprimentá-los. A sra. Brown informou que o filho estava escolhendo o que vestir quando fora apressá-lo, há cerca de vinte minutos. Aconselhou Will a ir ajudar o amigo, quem parecia estar um pouco nervoso demais com toda a história do jantar. Georgiana sentiu uma vontade incontrolada de rir, recebendo um olhar atravessado do irmão e um reprovador dos pais. Mas o sr. Brown juntou-se a ela e até comentou:

--Cada minuto que passa, fico mais curioso para conhecer a minha nora. – Ganhando a atenção de todos. – Lembro-me bem quando apresentei a minha primeira namoradinha a minha família... – E continuou a rir. – Sei bem pelo que o meu filho está passando! – O sr. Darcy concordou, pensativo; certamente, recordando a sua experiência. – Devo ter gasto o assoalho da biblioteca de meu pai, andando de um lado a outro, aguardando a sua chegada. – Todos riram da forma cativante e jovial com que o sr. Brown relatava tal ocasião.

            Will pediu licença a todos e foi até o quarto de Charles, apressar o amigo. Ao entrar no quarto, encontrou Charles devidamente vestido e perfumado. Estava diante do espelho do seu banheiro, penteando as madeixas. O que mais surpreendeu a Will foi o penteado que seu amigo tentava acomodar o seu cabelo – com o cabelo partido para o lado, devidamente escovado, com um produto de beleza que Will não soube identificar, mas que deixava o cabelo com um aspecto molhado e brilhoso. Parecia que Charles decidira apelar para um penteado ao estilo de “Grease – No Tempo da Brilhantina”, com direito a um topetinho a La Elvis.

--Charles, o que está fazendo? – Will questionou, fechando a porta do quarto do amigo e se aproximando da porta do banheiro.

--Gostou? – Charles questionou, olhando para o amigo nervosamente.

--Não. – Will respondeu, sem delongas.

            Charles voltou a se fitar no espelho e uma expressão triste se apoderou do seu rosto.

--Para que este penteado? – Will questionou.

--Estava só experimentando algo diferente. – Charles replicou, desanimado, à medida que desfazia o penteado e tentava fazer com que o seu cabelo ficasse do jeito normal.

--Por que você está tão nervoso?

--Eu quero que os meus pais gostem de Jane. – Charles respondeu, temeroso. Will franziu a testa com a resposta do amigo e replicou.

--Por que eles não gostariam de Jane? – Voltando a ganhar a atenção de Charles. – Quem, em sã consciência, não gostaria de Jane? – Charles riu, satisfeito com a pergunta do amigo, percebendo que estava agitado sem motivo.

--Verdade. – Concordou e voltou a se olhar no espelho; seu cabelo se recusava a voltar ao seu estilo natural. – Will?

--Sim.

--Eu acho que vou ter de tomar outro banho. – Charles afirmou, entrando no banheiro e fechando a porta.

--Mas... e o jantar? – Will exclamou para a porta, mas não recebeu resposta alguma.

Em questão de minutos, ouviu o chuveiro ligado. Saiu do quarto do amigo e retornou a sala de estar, onde já encontrou os Abbotts a espera deles.

_________________________________

            Jane saiu do carro do pai, seguida por Elizabeth, com as mãos suando. Quando o convite do jantar lhe foi feito, o recebeu com tranqüilidade. Mas agora que se via diante da mansão ao condomínio luxuoso onde Charles morava, consciente de que estaria conhecendo os sogros em questões de minutos e de que seria avaliada por eles minuciosamente – já que Charles é filho único e, certamente, os pais dele devem almejar o melhor para o seu filho – não podia evitar de se sentir apreensiva. Queria que eles gostassem dela.

            Elizabeth tentou lhe passar algum conforto, tomando-lhe a mão e apertando-a levemente, enquanto caminhavam em direção a porta de entrada. O sr. Abbott caminhava a frente com a sua esposa, em silêncio. Observava tudo ao seu redor com a sua habitual curiosidade e admiração – o jardim bem cuidado, certamente planejado por um paisagista, e os azulejos de cor azul em perfeita combinação com o mármore branco da fachada de entrada. Enquanto a sra. Abbott não media palavras para proclamar a seu arrebatamento com o que via diante de seus olhos.

Foram recebidos pelo mordomo, o sr. Perkins, e levados até a sala de estar onde os Browns e os Darcys os aguardavam. A sra. Abbott olhava tudo pelo caminho com avidez, querendo lembrar de cada detalhe daquela suntuosa casa para relatar as suas amigas da sede de sua comunidade. Quando foram anunciados pelo sr. Perkins aos Brown, a sra. Brown ergueu-se de seu lugar ao sofá, sorrindo, e veio ao seu encontro, para cumprimentá-los. O seu esposo, assim como os Darcys, também se ergueu de seu lugar ao sofá e aguardou o momento propício para as apresentações.

Elizabeth parou de andar no instante em que viu Georgiana, a sra. Darcy e o sr. Darcy. Não fazia idéia de que eles estariam presentes. Jane sentiu quando ela parou de andar, porque as duas ainda estavam de mãos dadas. Logo, voltou-se para olhar a irmã e a viu com uma expressão surpresa e pálida. Olhou para o que ela estava olhando e entendeu a sua reação. Resolveu que precisava encorajá-la também e puxou a sua mão, para que ela continuasse a acompanhá-la e se aproximasse dos outros convidados.

--Sejam bem-vindos, sr. Abbott, sra. Abbott… - A sra. Brown dizia, gesticulando para que eles se aproximassem.

--É um prazer imenso receber a família da namorada de Charles aqui esta noite. – O sr. Brown a acompanhou, sorrindo amistosamente para todos.

O sr. Abbott trocou um aperto de mão firme com o sr. Brown e um mais suave com a sra. Brown, desejando a todos uma boa noite e agradecendo pelo convite de jantar com eles esta noite. Em seguida, a sua esposa fez o mesmo, aproveitando a oportunidade para elogiar o ambiente em que se encontrava – a magnificência de sua decoração e de seus dos móveis.

            Elizabeth permitiu-se se esquecer momentaneamente da presença dos Darcys e observar os pais de Charles. Pela forma que ambos sorriam – sorrisos largos e acolhedores – pôde jurar que ambos desfrutavam de uma personalidade agradável e solicita igualmente ao filho. E, por isso, sorriu em resposta, feliz por sua irmã.

            O que fez com que ela se lembrasse de Jane e voltasse a fitá-la, notando que Jane retornara ao seu estado de apreensão, olhando todos a sua volta. Elizabeth deduziu que ela estava procurando por Charles, quem, Elizabeth notou naquele momento, não estava presente.

--Desculpem pela falta de modos do meu filho, mas Charles ainda está se arrumando. – A sra. Brown comentou, notando o olhar das duas meninas. – Mas ele não deve demorar muito mais.

--Mas, certamente, não poderei esperar a sua chegada para descobrir qual destas duas beldades é a minha nora! – O sr. Brown comentou, sorrindo para Jane e Elizabeth.

            Elizabeth riu em resposta e cutucou a irmã, discretamente. Jane parecia ter ficado ainda mais nervosa com o comentário e um tom vermelho inconfundível tomou conta de seu rosto.

--Ahh sim, é minha Jane! – A sra. Abbott respondeu, puxando Jane e fazendo com que ela se destacasse, a aproximando dos pais de Charles. – Cumprimente seus sogros, querida! – Aconselhou, apressadamente.

--Boa noite. – Jane murmurou, fitando o chão.

--Você é linda! – O sr. Brown exclamou, deixando Jane ainda mais vermelha e encabulada.

--Obrigada. – Jane replicou, tentando dar passos para trás e ficar ao lado de sua irmã.

--Na verdade, as suas duas filhas são lindas! – O sr. Brown completou, numa tentativa de deixar Jane mais a vontade.

--Realmente. – A sra. Brown concordou. – Lindas meninas! – Sorrindo para Elizabeth, quem a fitava nos olhos e ria em resposta, ao voltar a segurar a mão da irmã. – Eu queria ter tido uma menina! – Comentou, melancólica; esperou alguns anos após o nascimento de Charles para considerar a possibilidade de ter um segundo filho, mas focou-se demais em seu trabalho e os planos para o segundo filho foram adiados indefinidamente.

            Lembrando-se da presença dos Darcys, a sra. Brown tratou de apresentá-los.

--Ora, que descuido o meu. – Disse, voltando-se para os pais de Will. – Sr. e sra. Abbott, permita-me apresentá-los aos Darcys, uma família de amigos muito querida. – Fez um gesto amplo em direção aos Darcys e logo o sr. Abbott estava apertando a mão do sr. Darcy. – Sr. Abbott e sra. Abbott estes são Frederick Darcy e Hannah Darcy!

--Não há necessidade para formalidades, chame-nos de Fanny e Jonathan. – A sra. Abbott replicou, seguindo a troca de aperto de mãos e os cumprimentos de praxe, afirmando o prazer de conhecê-los.

            Elizabeth olhara rapidamente na direção de Georgiana e a menina dirigiu-lhe um de seus sorrisos contagiantes, ao qual Elizabeth não teve outra resposta a não ser retribuir. Então a sra. Darcy cumprimentou as duas irmãs, com a intimidade de quem já as conhece. A qual tanto Elizabeth quanto Jane responderam a altura. Foi, no entanto, o cumprimento do sr. Darcy a Elizabeth que chamou a atenção de todos a sala.

--Como vai, Lizzie? – Fitando-a com aquela intensidade que a fez recordar-se do olhar de seu filho.

--Bem, sr. Darcy. – Elizabeth respondeu, timidamente, mas o fitando nos olhos.

--Que bom! – Ele replicou. – Agora, lembrar-se do que eu lhe pedi quando fomos apresentados? – Elizabeth o encarou com a testa franzida por um instante, mas logo respondeu.

--Para não chamá-lo de “sr. Darcy”? – Hesitante.

--Precisamente. – Ele afirmou, satisfeito. – Eu sabia que chegaria uma ocasião em que tal tratamento poderia causar certa confusão, como esta noite! Por isso, chame-me de Frederick. – Completou com um sorriso extremamente charmoso; poucas pessoas naquela sala conseguiu compreender aquele comentário.

            Elizabeth respondeu com um curto aceno de cabeça, em concordância. Mas ainda acreditava que não seria capaz de dirigir-se a ele tão intimamente. Para o seu alivio – será mesmo? – a sra. Brown escolheu este momento para exclamar.

--Oh, Will, aí está você! – Fazendo com que todos se voltassem para a direção que a sra. Brown estava olhando e ver a figura daquele jovem rapaz a um canto da sala, quieto. – E Charles?

--Ele ainda está se arrumando. – Will respondeu, controlando o seu nervosismo e caminhando em direção aos recém-chegados. – Boa noite, sr. e sra. Abbott.

            O sr. Abbott respondeu ao seu cumprimento com um aceno de cabeça curto, permanecendo em silêncio. Will logo percebeu que sua expressão ficou sombria ao fitá-lo, mas sua atenção foi capturada pela sra. Abbott, quem, ao contrário do marido, o cumprimentou efusivamente.

--Olá, querido! Há quanto tempo! – Sorrindo abertamente. – Você não apareceu mais lá em casa!

            Will não soube como responder, Elizabeth deixou escapar um gritinho baixo e ficou ruborizada pelo comentário de sua mãe. Sentiu o olhar de Will procurar o dela, mas não teve coragem de olhá-lo.

--Minha querida, você sabe como são os jovens. – O sr. Abbott veio ao socorro de sua filha ao dizer isto. – Certamente, o sr. Darcy deve ter estado ocupado com outras coisas mais importantes. – Completou o seu comentário voltando a olhar para Will, seriamente.

            A tensão entre todos permaneceu por uns segundo, até que Frederick disse, bem humorado.

--Eu não lhe disse! – Sorrindo para Elizabeth. – Era sobre isto que eu estava falando. Por pouco eu não acreditava que o seu pai estava falando sobre mim. – O seu comentário foi tão descontraído que a tensão do momento anterior desapareceu.

Logo as pessoas àquela sala que não haviam entendido a alusão de Frederick com relação ao seu nome finalmente conseguiram compreendê-la.

--Eu concordo com Fanny; não há mesmo necessidade para formalidades! – Ele continuou. – Vamos deixar os “senhores” e “senhoras” de lado!

            Todos concordaram e a sra. Brown pediu para que ficassem a vontade, aconselhando-os a se sentar. O sr. e sra. Abbott acomodaram-se em um sofá, de frente para os Brown e os Darcy. Enquanto Elizabeth e Jane sentavam-se ao lado de Georgiana e trocavam algumas palavras com a menina, reservadamente. Will permaneceu de pé, imóvel, por uns instantes; até que sentiu o olhar dos adultos voltar-se para ele. Logo afirmou que ia apressar Charles, retirando-se da sala pela segunda vez.   

____________________________

            Will entrou no quarto do amigo, fechou a porta e se aproximou de uma poltrona próxima a estante de livros. Largou-se sobre esta poltrona e repassou a cena daquela sala em sua mente. Teve certeza que o sr. Abbott lhe dirigiu um olhar um tanto hostil quando o viu a primeira vez esta noite, totalmente diferente daquele olhar curioso que lhe dera nas vezes em que esteve em sua casa por um motivo ou outro; e o seu comentário fora uma alfinetada com certeza. O que fazia se perguntar se Elizabeth teria lhe dito alguma coisa sobre o fim do namoro dos dois, porque, parecia-lhe obvio que o motivo para tamanha animosidade era por ele ter feito Elizabeth sofrer.

            Já a sra. Abbott continuava a mesma, carinhosa ao extremo. Sentiu o seu estômago embrulhar quando pensou no que ela tinha dito e, mais ainda, na expressão do rosto de Elizabeth em resposta. Certamente, a sra. Abbott não sabia sobre eles, senão não teria feito este comentário. Mas como era possível o sr. Abbott saber e a sra. Abbott não? Talvez o sr. Abbott não soubesse, ou talvez Elizabeth houvesse contado somente ao sr. Abbott. Ele só não conseguia imaginar a possibilidade da sra. Abbott saber e ainda agir daquela forma.

            Charles saiu do banheiro, vestindo a blusa, com os cabelos molhados e desordenados, encontrando Will sentado a poltrona de seu quarto, perdido em seus pensamentos. Cuidou de ajeitar a sua blusa e começar a passar perfume pela segunda vez, ao inquirir a Will se havia algo de errado. Will demorou a escutá-lo e quando conseguiu, respondeu-lhe.

--Os Abbotts já chegaram. – Alarmando Charles.

--Jane está aqui! – Quem caminhou apressadamente em direção a porta (com os cabelos ainda desordenados) e a abriu, saindo corredor afora. – Você não vem? – Mas retornou a porta quando sentiu que Will não o estava seguindo. – Anda, Will! – Ele precisou segurar o amigo pelo braço e forçá-lo a se erguer, para que Will o acompanhasse.

--Seu cabelo, Charles! – Will disse, enquanto caminhava em direção a sala.

--Ohh!!! – Charles reclamou, chateado, enquanto passava as mãos no cabelo e tentava deixá-los acomodados sem precisar penteá-los.

            Assim que ambos entram na sala, o sorriso iluminou o rosto de Jane – quem passou a se sentir mais confiante. Charles cumprimentou os pais de Jane e os pais de Will, desculpando-se por sua demora, e depois se sentou ao lado de sua namorada – não deixando de lhe dizer ao ouvido o quanto ela estava bonita esta noite, deixando Jane corada.

            Will viu-se obrigado a ir se sentar ao lado da sra. Abbott, porque já não restavam mais lugares aos outros sofás. Mas, para o seu alivio, o sr. Perkins não demorou de anunciar o jantar e todos foram encaminhados a sala de jantar da casa dos Brown, onde uma longa mesa de jantar feita de carvalho envelhecido e cadeiras muito bem trabalhadas no mesmo material, acolchoadas, os aguardavam.

            As senhoras sentaram-se próximas, a uma extremidade da mesa, enquanto os senhores sentavam-se a outra. Charles sentou-se ao lado de Jane e Will sentou-se ao seu lado. Elizabeth e Georgiana sentaram-se de frente para eles.

O jantar preparado pela cozinheira dos Brown, especializada em comida italiana, consistia: como antepasto Bruschetta (feito à base pão, que é tostado em grelha com azeite e depois esfregada com alho, por cima da fatia de pão: tomates e manjericão), seguida por Minestrone (um sopa italiana muito espessa, composta por uma grande variedade de legumes cortados; os mais usados são: feijões, cebolas, cenouras, aipo e que leva obrigatoriamente arroz ou massa cortada e também um pouco de toucinho), e famoso prato de massa Fettuccine à bolonhesa. De sobremesa foi servido uma deliciosa torta de morango.

--Deve ser bastante perturbador ver suas filhas já trazendo namorados para lhe conhecer. – O sr. Brown comentou com o sr. Abbott. – Todos nós sabemos que é muito diferente a relação entre um pai e um filho da relação entre um pai e uma filha!

--Certamente. – O sr. Abbott concordou. – Mas, por sorte, nunca tive problemas neste sentido com as minhas filhas. Jane é um anjo e, conseqüentemente, tem um gosto muito similar para rapazes... Lizzie, no entanto, tem um gênio mais difícil e, por certo, dá mais trabalho aos meninos do que a mim! – Tanto o sr. Brown quanto o sr. Darcy sorriram do comentário cheio de orgulho do sr. Abbott com relação às suas filhas. – O que o senhor acha, pessoalmente? – Dirigiu-se em seguida ao sr. Darcy.

            Este, por sua vez, perguntou-se por um breve momento se o sr. Abbott pedia a sua opinião sobre Elizabeth, já que devia saber que seu filho e ela tiveram um romance; mas logo percebeu que ele se referia a Georgiana e, antes de responder-lhe aquela pergunta no primeiro sentido, a compreendeu e respondeu conscientemente.

--Eu ainda não me preocupo com isto! – Disse tranqüilo, olhando para Georgiana. – Minha filha ainda é muito nova e quando atingir a idade para se interessar por garotos já estará na universidade e, nesta fase, estará ocupada demais com estudos para realmente me dar qualquer trabalho neste sentido.

            Elizabeth, quem estivera entreouvindo a conversa entre os senhores, ficou boquiaberta com o comentário. Ouvira de Will algo parecido, mas não tinha realmente levado a sério as suas palavras. Olhou para ele momentaneamente e notou que ele lhe dirigia um olhar de compreensão. Queria poder exclamar: “eu pensei que você estava brincando com aquela história de jogar os namorados de Georgiana para fora de casa enquanto o seu pai a distrai!”, mas se conteve. Baixou o olhar para o prato e continuou a comer.

            Will também estava entreouvindo a conversa que seu pai estava tendo com bastante atenção. Era muito difícil não fazê-lo, quando Charles e Jane jantavam e conversavam entre si, e Elizabeth e Georgiana faziam o mesmo. No entanto, ao ouvir o comentário do sr. Abbott a respeito de Lizzie, voltou-se para olhá-la. Ela estava olhando para ele e percebeu uma troca de olhar entre pai e filha, cheio de divertimento e compreensão.

Quando o seu pai foi inquirido pelo sr. Abbott, a viu ficar ainda mais interessada na conversa. E o seu assombro pela resposta era evidente. Continuou a fitá-la, até que ela olhou para ele. Naquele instante, jurava que podia ler o seu pensamento. Conseguia imaginá-la fazendo um de seus comentários impertinentes e depois rindo-se dele. Era a primeira vez que partilhavam um olhar de compreensão; ao perceber isso, não pode deixar de notar a ironia da situação. Agora que podia jurar que sabia alguma coisa relacionada à forma com que ela pensa, de nada lhe servia, porque sequer sabia como demonstrar isto ou sentia que tivesse este direito.

A altura em que a sobremesa foi servida, Elizabeth não acreditava que poderia comer mais nada. Sentia-se mais satisfeita que já se lembrara estar antes. Mas a visão da torta de morango a fez reconsiderar a sua decisão de não comer mais nada e ceder à tentação que aquela miragem lhe oferecia. 

No decorrer do jantar, os senhores conversavam sobre as suas respectivas profissões. Tanto o sr. Brown como o sr. Darcy ficaram bastante curiosos quanto as atividades do sr. Abbott, quem trabalhava em uma editora de livros como editor chefe. Uma profissão completamente diferente daquelas exercidas pelos outros dois cavalheiros, os quais trabalhavam em um ramo mais empresarial; o sr. Brown, dono e administrador de uma concessionária de carros nacionais e importados, e o sr. Darcy, chefe executivo de uma grande corporação.

Aproveitando o assunto profissional, após o jantar, o sr. Brown decidiu levar o sr. Darcy e o sr. Abbott até a sua garagem, onde poderia finalmente mostrá-los os seus mais preciosos brinquedos. Nada poderia ter preparado o sr. Abbott para o que estava preste a ver. À medida que caminhava com os senhores pelos outros aposentos, admirava os cômodos elegantes daquela mansão; no entanto, ao ser guiado por uma escada a um andar inferior, surgindo em um salão amplo repleto de carros diversos e motos, o qual o sr. Brown tinha o disparate de chamar de “garagem”, o sr. Abbott perdeu o dom da fala por alguns segundos.

O sr. Brown tratou de explicar, enquanto caminhavam entre os carros, que escolhera seguir a sua atual profissão porque sempre nutriu uma paixão por automóveis. Comentou que quando se formou em Administração e informou aos seus pais a sua intenção de montar um negocio de venda de carros não foi bem visto entre seus familiares. Mas que, após alguns anos de trabalho duro, conseguiu ter sucesso na sua profissão, montando uma rede de concessionária de nacional e importados de prestígio em seu país, com grandes planos de expandir para o exterior brevemente. Transparecendo toda a sua felicidade ao se realizar em uma profissão que amava.

Foi com bastante orgulho que ele mostrou minuciosamente ao sr. Abbott o seu MG-TC 1946, motor 4 cilindros, vermelho, de interior de couro branco; o Jaguar XK 120 1951, verde musgo com o interior igualmente de couro branco; o Ford Mustang 1968, preto, com o interior de couro creme, com motor V8 big-block, de 7,0L, qual a potência podia chegar a 390HP. Em seguida deixou as mãos passear pela Harley Davidson, vermelha e branca, de banco de couro preto; deixando por último a sua mais nova aquisição: CBR 1000, explicando ao sr. Abbott e ao sr. Darcy, quem via pela primeira vez esta compra do sr. Brown dentre as demais aquisições de colecionador, as modificações feitas na moto.

--Mais leve em relação ao modelo anterior, a CBR 1000 está com o novo escapamento, que esteticamente confere uma nova feição para a motocicleta, pois está mais curto, porém mais largo; mais sofisticada eletrônica, possui a possibilidade de mapear de três formas diferentes os sistemas de injeção e ignição; motor (com dimensões internas alteradas), câmbio, quadro, painel de instrumentos e carenagem receberam tantas modificações; foi melhorada a centralização de massas e, portanto, a ciclística e o equilíbrio do conjunto; freio a disco dianteiro com pinça radial monobloco, motor com mais amplitude de giros, radiador mais eficiente e exclusivo amortecedor com controle eletrônico estão entre os vários melhoramentos. – Foi o discurso vigoroso do sr. Brown aos seus companheiros, deixando ambos cavalheiros extremamente fascinados. – Charles só falta me pedir de joelhos para dar uma volta nela, mas... Não sinto confiança em deixá-lo. – O sr. Brown comentou, admirando a sua moto. – A porcentagem de acidentes em motos é muito alta e ele é só um menino para correr este risco. – Encontrando uma concordância por parte dos outros dois homens.

Os senhores admiraram toda a coleção magnífica do sr. Brown por meia hora, conversando sobre os novos modelos de carro e inovações tecnológicas aplicadas neste ramo, enquanto passeavam no quintal do sr. Brown, em meio a pista de kart. E quando retornaram a sala de estar, encontraram as senhoras igualmente entretidas numa conversa amistosa; não havia, no entanto, sinal dos mais jovens.

Os senhores se encaminharam até o bar e permaneceram conversando entre si, permitindo que as senhoras prosseguissem com a conversa que estavam tendo sem interrupções desnecessárias. O sr. Abbott conversava com os dois cavalheiros que estavam em sua companhia desinibidamente, mas não deixava de perceber as diferenças de vidas entre eles.

As diferenças também foram sentidas entre as senhoras. Tanto a sra. Brown quanto a sra. Darcy possuíam suas respectivas graduações na área de ciências humanas, da psiquiatria e odontologia respectivamente. Enquanto a sra. Abbott ocupava os seus dias com as atividades corriqueiras da sua sede da comunidade.

Mas não só na vida profissional, como nas experiências e oportunidades de vida. A sra. Abbott escutava admirada contos de viagens de férias das duas outras senhoras, as quais sempre tinham opiniões formadas sobre um lugar ou outro, enquanto ela mal conhecia a própria Inglaterra por um todo.

Foi durante esta conversa que a sra. Darcy comentou sobre o seu chalé ao norte de Yorkshire, onde a sua família, juntamente com os Browns e os Mavericks, passavam as férias de fim de ano.

--A irmã de Frederick estará se juntando a nós este fim de ano, com a sua filha Annabelle... – Hannah comentava com as duas senhoras.

--É verdade? – A sra. Brown inquiriu. – Mas ela não estava nos Estados Unidos?

--Sim, Emma, ela estava. – A sra. Darcy respondeu e com ar de reservas, explicou. – Mas divorciou-se do seu último marido neste mês passado e se recusa a permanecer por lá durante o feriado natalino.

--O americano? Não diga! – A sra. Brown comentou, surpresa. – E voltará para cá?

--Está certa! Para que ficar longe da família se já não está mais casada com o americano, não é mesmo? – A sra. Abbott fez está pergunta retórica e a sra. Brown concordou com aceno de cabeça, silenciosamente.

            Inicialmente, a sra. Darcy e a sra. Brown ficaram surpresa com a forma a vontade com que a sra. Abbott conversava, sem mostrar inibições ou reservas até mesmo quando desconhecia do assunto por completo. Mas foram se acostumando com o seu jeito no decorrer da noite e até achavam a sua personalidade extrovertida bastante divertida.

--Pois bem, ela trará Annabelle e ficarão hospedadas conosco por algum tempo. – A sra. Darcy continuou. – Frederick está acreditando que Eleonor não retornará aos EUA tão cedo, por isso já começou a procurar uma boa residência para sua irmã caçula.

Eleonor Burges, como passou a se chamar após o seu primeiro casamento – recusando-se a deixar de usar o nome de seu primeiro ex-marido, porque construiu uma empresa com o sobrenome de casada – já fora casada três vezes. As duas primeiras com ingleses de família de renome, com a qual elevou o seu poderio empresarial; vindo a se casar a terceira com um americano, quando viajou pela primeira vez ao continente para avaliar a expansão de seus negócios.

Embora seja a filha mais nova de três filhos, sendo os dois mais velhos homens, Eleonor provou a sua família ter um tino para os negócios superior aos homens de sua família. Inteligente e autoconfiante, era uma mulher independente e autoritária.

--... chegou até a sondar com a Austen House se há algum problema com relação a transferência de estudantes esta época do ano... – A sra. Darcy continuou. - ...Caso ela se decida por ficar aqui, Annabelle precisará freqüentar a escola que os meninos, ou outra.

--Certamente. – A sra. Abbott replicou. – O seu marido é bastante atencioso.

--Ohh sim... Ele não admite, mas é super-protetor com as mulheres de sua família. – A sra. Darcy afirmou, olhando com afeição na direção do bar, onde o seu marido se encontrava. – Fanny, gostaria de passar os feriados de fim de ano conosco? – A sra. Darcy perguntou, surpreendendo a sra. Abbott. – Seria maravilhoso ter a companhia de sua família durante o feriado natalino.

--É verdade. – A sra. Brown a ajudou, também aprovando aquela idéia. – A região é linda, não faltando atividade para os jovens.

--Ohh, eles certamente são os que mais aproveitam! – A sra. Darcy continuou. – E não faltarão companhia para as suas meninas! Annabelle é praticamente da mesma idade que elas e, confesso, Georgiana amará saber que terá mais companhias femininas, além de sua prima.

--Realmente, a sua filha geralmente fica um tanto solitária no meio de tantos meninos. – A sra. Brown comentou.

--Eu agradeço pelo convite… - A sra. Abbott começou a responder. – Não há como expressar o quanto lisonjeada estou, mas... nós costumamos passar as férias natalinas na casa da minha mãe, aqui em Londres. – A resposta da sra. Abbott pareceu abater as duas outras senhoras, as quais estavam realmente animadas com aquela possibilidade.

--É uma pena! – A sra. Darcy comentou, quem, após descobrir através de seu marido que Will tentara voltar com Elizabeth e não tivera sucesso, pensava ter encontrado uma oportunidade para consumar uma reaproximação entre os dois. – O norte de Yorkshire fica lindo coberto de neve,... – E passou a relatar várias de suas maravilhas, não deixando de comentar sobre férias natalinas passadas entre seus familiares naquela região.

            Foi com muio admiração que a sra. Abbott escutou tudo, ficando realmente animada com o que ouvia das duas senhoras. Para completar, a sra. Darcy solicitou a ajuda de seu marido em seu propósito, chamando-o para a sua conversa e refazendo o seu convite. Logo, tanto o sr. Darcy quanto o sr. Brown estavam insistindo para que os Abbott aceitassem passar, pelo menos, parte das férias do fim de ano ao chalé dos Darcys.

            A sra. Abbott refletindo, percebeu que seria um grande erro desperdiçar tal oportunidade para com as suas filhas de conhecer lugares diferentes, experimentar coisas novas. E foi com um olhar inquiridor ao marido que deixou transparecer a sua dúvida em rejeitar aquela proposta tão prontamente.

--A decisão é sua, minha cara. Afinal, é com a sua família que passamos todos os anos os feriados natalinos. – O sr. Abbott respondeu, lendo em seu olhar a sua pergunta.

--Eu acho que não faria mal algum se não passássemos este natal com a minha família... – Ela respondeu, incerta. – ...Contanto que estejamos presente durante o Ano Novo, minha mãe não ficará tão chateada.

--Então, vocês aceitam o nosso convite? – A sra. Darcy perguntou, alegremente, conseguindo que a sra. Abbott dirigisse um breve olhar ao seu esposo mais uma vez, então concordasse com um aceno de cabeça. – Maravilhoso!

 

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