Citações

Meus sentimentos não podem ser reprimidos. Permita-me dizer-lhe que a admiro e a amo ardentemente. (Jane Austen)

Come pick me Up and Take me Out - Capítulo LXVII

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Capítulo 67

 

Will permaneceu em casa aquele fim de semana inteiro. A maior parte do tempo refugiou-se em seu quarto ou na sala de jogos, tentando se distrair ou com o seu computador ou com o seu videogame. Todos em sua casa continuaram a perceber a sua melancolia. Georgiana acreditava que ele ainda continuava muito abatido, mesmo após ter se curado do “resfriado”. E tentou de todas as formas reanimá-lo, o convidando a sair com ela ou a assistir algum DVD juntos, até o fez ouvi-la tocar uma música em seu piano. Mas nada surtiu efeito desejado.

            O sr. Darcy, após conversar com a sua esposa, decidiu intervir naquela situação. Procurando o seu filho um momento em que ele se encontrava sozinho à sala de jogos, tentou conversar com ele.

--Conte-me o que está acontecendo. – O sr. Darcy pediu, sentando-se ao lado de Will. – É a respeito da garota, não é? Lizzie?

--Sim. – Will respondeu, hesitante.

--O que aconteceu? – Sr. Darcy inquiriu, recebendo um olhar constrangido do filho em resposta. – Por que vocês terminaram? – Ainda assim insistiu em sua pergunta.

--Porque eu sou um tremendo idiota. – Will respondeu, veemente.

--E o que você de tão errado para merecer tal título? – O sr. Darcy questionou, observando-o atentamente. Estava sentindo a hesitação de Will em tratar deste assunto com ele.

--Porque... Porque eu terminei com ela. – Will respondeu. – Porque fui incapaz de saber me desculpar direito. – Continuou; ficando mais emocionado a cada resposta que dava. – Porque eu a fiz chorar! – Concluiu, profundamente arrependido e sentindo-se, incontestavelmente, culpado.

--Entendo. – Foi a resposta de seu pai, vindo a ficar em silêncio por um tempo considerável. – E agora você não sabe o que fazer. – Comentou, voltando-se para olhar o filho mais uma vez.

--Não. – Will respondeu, seguro. – Eu sei o que fazer. – Garantiu. – Eu vou ficar longe dela! – E ganhou um olhar compreensivo por parte de seu pai.

            Soube, naquele instante, que seu pai lhe entendia, que ele não tentaria dissuadi-lo de sua decisão como os seus amigos tentaram. Já que o sr. Darcy tinha voltado a ficar em silêncio.

            Mas, não demorou muito, ele disse.

--Eu fiz a sua mãe chorar... algumas vezes! – Conseguindo que Will lhe dirigisse um olhar surpreso. – E ela me perdoou... todas as vezes! – Continuou, notando a reação de seu filho, quem continuava a olhar para ele como se não o reconhecesse. – Ela me perdoou até mesmo quando eu não pude me perdoar! – Garantiu, sem desviar o olhar do filho. – Estas coisas acontecem quando você gosta de alguém e esta pessoa lhe corresponde os sentimentos. – Will continuou a fitá-lo com certo espanto estampado no rosto. – A verdade é que quando você está em um relacionamento com alguém, você tem o poder de magoar esta pessoa de uma forma que ninguém mais pode... Porque é você, também, a única pessoa capaz de fazê-la feliz como ninguém mais consegue! ...As duas realidades estão juntas, interligadas... – Notando que Will ainda lhe dirigia um olhar confuso, completou. – Você só precisa se preocupar em fazê-la mais feliz de que fazê-la chorar daqui em diante! ... Se você conseguir isso, você terá feito a coisa certa!

            Will passou o resto de sua noite pensando no que o seu pai havia lhe dito. No que conseguiu absorver do conselho que recebera, entendia que o seu pai não acreditava que ele devia desistir. E isto o fez reconsiderar a sua própria decisão.

Analisando o seu relacionamento com Elizabeth até então, concluiu que o seu pai estava certo. Ele havia conseguido deixá-la com sorriso nos lábios, como também conseguiu deixá-la furiosa. Apenas não tinha certeza qual destas realidades se sobressaia. Parecia-lhe que a estavam empatadas em um mesmo patamar; para todas às vezes em que a fizera feliz, conseguia se lembrar de um motivo que a fez desejar poder lhe degolar.

            O seu maior problema naquele momento é descobrir uma forma de conseguir com que os momentos felizes fossem os quais prevalecessem em seu relacionamento com ela. Além de desvendar uma forma de fazê-la lhe dar outra chance, já que, desde o dia em que ela recusara lhe perdoar, eles não voltaram a se falar mais.

            E, com estes pensamentos na cabeça, ele foi à escola naquela segunda-feira. Diferentemente da semana anterior, assim que pisou nos corredores da sua sala, a viu conversando com Mary. Ela estava encostada à parede, permitindo a ele uma visão de seu rosto de perfil. Ela estava sorrindo; era a primeira vez que a via sorrir desde a festa do Halloween.

            Will sentiu como se o tempo houvesse parado para ele naquele instante. Todos a sua volta pareciam se mover em câmera lenta. E ele a observou passar a mão no cabelo, colocando uma mexa por detrás da orelha, antes de lhe dar as costas e começar a andar com Mary, seguindo em direção a sua sala de aula. Ele só percebeu que havia parado de andar após Elizabeth ter entrado em sua sala de aula. Então conseguiu despertar de seu devaneio e seguir em direção a sua sala.

            Ao recreio, foi para o refeitório na companhia dos meninos. Não havia comentado com os seus amigos a sua nova decisão, porque estava decidido a fazer tudo sozinho desta vez. O envolvimento dos meninos na sua relação com Elizabeth já houvera trazido problemas para Charles uma vez, não queria correr o risco de arruinar o relacionamento de seus amigos com suas respectivas namoradas mais uma vez.

            Assim, fez a sua bandeja de lanche em silêncio e acompanhou os meninos a sua costumeira mesa. Não muito tempo depois, Jane e Charlotte se juntaram a eles e, seguidas a elas, Catherine e Lydia também. Não havia sinal de Elizabeth em parte alguma no refeitório. Lydia e Catherine sequer se deram o trabalho de inventar uma desculpa para a sua ausência.

            Will se martirizou ainda mais. Cada vez mais consciente de que se reaproximar dela seria uma tarefa bastante complicada, a qual ele não fazia idéia de por onde começar. Fitava a sua bandeja de comida de forma ausente, sem realmente comer nada do que havia selecionado para o seu lanche àquela manhã.

Então sentiu a sua bandeja ser deslizada para mais perto de seu corpo, quando outra bandeja foi depositada à mesa à sua frente. Um silêncio imediato se apoderou dos outros ocupantes de sua mesa e quando ele ergueu a cabeça, viu Elizabeth ocupando a cadeira vaga a sua frente. Will não conteve a expressão de surpresa que se apoderou de seu rosto naquele instante e passou a se perguntar se estava fantasiando aquilo.

Notando a reação de todos a sua presença, Elizabeth dirigiu o seu olhar, que estivera fixo em sua bandeja até então, para Will. Desviou o seu olhar para os outros rapidamente e inquiriu.

--O que foi? – Demonstrando impaciência. – Quem morreu? – Conseguindo que os seus amigos tentassem disfarçar a sua surpresa ao se concentrarem em seus respectivos lanches.

--Meu cão, na verdade. – Richard, quem estava sentado ao seu lado, respondeu, tomando um pouco de seu suco e a fitando nos olhos.

--Mesmo? – Elizabeth questionou, arrependida de sua pergunta.

--Nah! – Richard respondeu, ainda seriamente.

--Garoto mau! – Elizabeth exclamou e lhe deu um tapa no ombro, fazendo Richard se esquivar, e causando um pequeno assomo de risos em alguns dos seus companheiros de lanche.

--Senti saudades suas! – Richard cochichou para ela, inclinando-se em sua direção e falando em seu ouvido.

--Vou dizer a Charlotte! – Elizabeth replicou, o impulsionando para o lado com o seu ombro e sorrindo para ele.

--Dizer o que? – Charlotte questionou, fingindo-se de ciumenta.

--Que ele é louco por você. – Elizabeth replicou, piscando para Richard, quem concordou veemente com acenos de cabeça. – O que vocês conversavam antes de eu chegar? – Ela questionou, para não deixar que o silêncio se abatesse entre eles novamente.

--Charlotte conheceu os pais de Richard este domingo. – Catherine replicou.

--Mesmo? – Elizabeth perguntou a Charlotte, excitada com aquela novidade.

            E logo eles haviam retomado a conversa animada de antes de ela chegar. No entanto, Will permaneceu em silêncio, apenas a fitando atentamente.

All We Are – One Republic

I tried to paint you a picture, the colors we're all wrong

(Eu tentei pintar-lhe uma foto, as cores estavam todas erradas)

Black and white didn't fit you

(Preto e branco não combinam com você)

And all along

(E esse tempo todo)

You we're shaded with patience and strokes of everything

(Você estava sombreada com paciência e pancadas de tudo)

That I need just to make it, and I can see that...

(E o que preciso é ter sucesso e percebo que...)

Lord knows I've failed you, time and again

(Deus sabe que eu falhei com você, uma e duas vezes)

But you and me are all right

(Mas você e eu, nós estamos bem)

We won't say our goodbye's, you know it's better that way,

(Nós não vamos nos despedir, você sabe que é melhor deste jeito)

We won't break, we won't die, it's just a moment of change

(Não iremos romper, não vamos morrer, é apenas um momento de mudança)

All we are, all we are is everything that's right

(Tudo o que somos, tudo o que somos é o que há de mais certo)

All we need, all we need, a lover's alibi

(Tudo o que precisamos, tudo o que precisamos é um álibi para o amor)

I walked a minute in your shoes, they never would have fit

(Eu tentei ver as coisas por seu ponto de vista, mas não deu certo)

I figured there's nothing to lose

(Eu descobri que não tenho mais nada a perder)

I need to get some perspective on these words, before I write them down

(Eu preciso encontrar perspectivas nestas palavras, antes de escrevê-las)

You're an island and my ship has run aground

(Você é uma ilha em que meu navio ancorou)

Lord knows I've failed you, time and again

(Deus sabe que eu falhei com você, uma e duas vezes)

But you and me are all right

(Mas você e eu, nós estamos bem)

We won't say our goodbye's, you know it's better that way,

(Nós não vamos nos despedir, você sabe que é melhor deste jeito)

We won't break, we won't die, it's just a moment of change

(Não iremos romper, não vamos morrer, é apenas um momento de mudança)

All we are, all we are is everything that's right

(Tudo o que somos, tudo o que somos é o que há de mais certo)

All we need, all we need, a lover's alibi

(Tudo o que precisamos, tudo o que precisamos é um álibi para o amor)

And every single day that I can breathe,

(E todos os dias em que posso respirar)

You change my philosophy,

(Você muda a minha filosofia)

I'm never gonna let you pass me by

(Eu nunca vou deixar você me esquecer)

So don't say your goodbye's, you know it's better that way,

(Portanto, não diga “adeus”, você sabe que é melhor assim)

We won't break, we won't die, it's just a moment of change

(Nós não vamos romper, não vamos morrer, é apenas um momento de mudança)

All we are, all we are is everything that's right

(Tudo o que somos, tudo o que somos é o que há de mais certo)

All we need, all we need, a lover's alibi

(Tudo de que precisamos, tudo de que precisamos é um álibi para o amor)
_____________________________

O resto da semana prosseguiu sem muitas surpresas.  Elizabeth continuou a sentar-se com todos ao refeitório a cada recreio e conversava de forma animada. E até mesmo quando encontrava com o seu grupo de amigos pelos corredores, ao intervalo entre aulas, demorava-se em sua companhia por alguns minutos. Mesmo que Will estivesse entre eles.

            Ela estava decidida a voltar ao seu normal. Considerando que Charlotte estava certa ao lhe dizer que ela não podia se esconder para sempre; sabia que quanto mais cedo lidasse com o problema, mais cedo ele seria resolvido.

            Entretanto, não houve sequer uma conversa em que Elizabeth e Will participassem ao mesmo tempo. Sempre que um decidia por dar sua opinião em algum assunto, o outro se mantinha em silêncio. Como Elizabeth sempre estava bem mais disposta para qualquer tipo de conversa, Will mantinha-se em silêncio com muito mais freqüência.

E quando acontecia de serem deixados sozinhos, um na companhia do outro, por seus amigos, Will ou Elizabeth inventava uma desculpa para ir embora o mais depressa possível. Will comumente tomava tal atitude sem muita cerimônia. Embora desejasse permanecer na companhia dela e conversar com ela, não conseguia imaginar uma conversa entre os dois que não terminasse com ele implorando a ela para aceitá-lo de volta.

Ele via nesta mudança drástica do comportamento dela uma prova de que ela estava tentando cumprir com a sua palavra, quando lhe garantira que poderiam continuar a serem amigos. Sabia que ela continuava a visitar a sua irmã e que as duas tinham uma relação de amizade verdadeira – o que o deixava cada vez mais admirado; não conhecia muitas meninas da sua idade que dedicariam tanto do próprio tempo a uma menina mais nova. E, ainda assim, ao observá-las juntas, percebia que ela o fazia de bom grado, sem segundas intenções. Unicamente porque gosta da sua irmã.

Pessoalmente, queria estabelecer algum tipo de relação com ela. Mesmo que tivesse de se contentar com a sua amizade por enquanto. Mas sabia que para isto precisaria ter uma postura mais neutra, conversar com ela sobre coisas triviais apenas. E não sabia como fazer isto. Era difícil o bastante permanecer em sua presença e manter a sua postura de indiferente; nunca seria capaz de fazer isto se conversassem sobre o que quer que fosse. Acabaria se entregando, demonstrando o quanto gosta dela e sente a sua falta. Nunca seria capaz de ser só mais um de seus amigos!

Continuava a ter o objetivo de reconquistá-la. Mas sabia que agora não era o momento para tentar uma reconciliação. Os dois precisavam de um recomeço, um sem mal-entendidos e confusões. Acreditava que se se tornassem amigos, poderia reaproximar-se dela, conseguir que ela lhe desse uma segunda – na verdade, segunda, não. Segunda foi há muito tempo. Uma nova chance! Apenas não sabia como fazer isto!

Por mais de uma vez encontrou a sua irmã ao piano, em sua casa, tocando alguma peça musical bastante triste. Em uma destas vezes, quando ele lhe inquiriu onde ela conseguiu tal partitura, ela lhe respondeu que fora Elizabeth quem lhe dera. Afirmando, também, que já estava começando a gostar daquele tipo de música e conseguia encontrar beleza em suas melodias melancólicas.

Por isso, recentemente, tinha a letra de Samson de Regina Spektor ecoando em sua mente sempre que a via pelos corredores da escola.

You are my sweetest downfall

(Você é a minha doce ruína)
I loved you first

(Eu te amei primeiro)

            Charles, após tomar conhecimento de que Richard houvera apresentado Charlotte aos seus pais e irmãos, ficou preocupado por não ter feito o mesmo até aquele momento com Jane. Receoso que Jane pudesse entender o seu descuido nesta parte por falta de sinceras intenções para com o relacionamento dos dois, tratou de informar a sua mãe que estaria trazendo a namorada a sua casa para que os conhecessem.

            A sra. Brown fitou o filho admirada. Sabia muito bem que Charles tivera várias namoradinhas em Johnson’s High, mas nunca o tinha visto se preocupar em apresentar qualquer uma de suas namoradas a ela ou ao seu pai. E, no entanto, ali estava ele, diante dela, com uma postura de um perfeito homem, informando-lhe que estaria trazendo a sua namorada em casa.

            Sorriu-lhe amorosamente ao concordar com a sua decisão. Desejava muito conhecer a menina que capturara o coração de seu único filho. Entretanto, ao pensar melhor em toda a situação – afinal, estaria conhecendo a primeira namorada de seu filho; pelo menos, a primeira namorada que ele considerara importante o suficiente para conhecer seus pais – soube que não poderia deixar este evento passar em branco.

            Disse-lhe para adiar a visita de sua namorada para um fim de semana – isto porque Charles queria trazê-la em sua casa no dia seguinte, no meio da semana – porque pretendia fazer um jantar familiar. Sim, familiar. Estendendo o convite para os pais e irmã de Jane. 

 Charles não falhou em informar a Jane no dia seguinte sobre o jantar em família. Além de lhe pedir milhões de desculpas por não ter se lembrado de tomar tal decisão antes, assegurando que fora por mera falta de atenção e não por insegurança quanto aos sentimentos que nutria por ela. Jane estava completamente pasma com as alegações do seu namorado, porque se quer lhe ocorrera que ainda não havia sido apresentada à sogra e ao sogro. Tão pouco pensaria que Charles a “ocultara” de seus pais com propósitos escusos.

A atitude de Charles ainda trouxe sorrisos entre as amigas de Jane, as quais não conseguiam deixar de achar graça da forma como a mente de Charles bolava cada idéia mirabolante. Nenhuma delas conseguia entender como ele chegara a tal conclusão após ter ouvido o relato de Charlotte, quanto a conhecer os sogros.

Mas nenhuma reação das meninas pode superar a da sra. Abbott àquela noticia. A senhora não continha-se em si mesma após aquele convite pomposo de um jantar em família na residência dos Brown àquele fim de semana. E não media elogios ao genro por sua atenção para com ela e seu marido, assim como para com a sua filha mais nova. Garantindo a Jane que ela encontrara um bom partido, um que, obviamente, a adorava mais que tudo.

Entretanto, as surpresas estavam apenas se acumulando. Porque Charles, observando o seu amigo, notou a mudança de seu comportamento. Sabia o que Will estava fazendo, ou imaginava que sabia – ainda acreditava que Will estava decidido a desistir de seu relacionamento com Elizabeth. E, como um bom amigo e cunhado, desejando o bem para os dois – também notando que, embora Elizabeth sorrisse e brincasse com todos normalmente, seu semblante continuava abatido e entristecido – resolveu ignorar o pedido de seu amigo, e decidiu tentar mais um de seus planos para reaproximá-los.

Assim, pediu a sua mãe para convidar os Darcys para jantar com eles na mesma noite em que estariam recebendo a família de Jane em sua casa pela primeira vez. Pediu-lhe também que fizesse o convite de forma a parecer que fora sua idéia e não dele, Charles. Não queria que o seu amigo desconfiasse de nada.

A sra. Brown franziu a testa ao ouvir a segunda parte do pedido, mas, por fim, apenas riu-se da atitude do filho, quando este lhe explicou que estava tentando atuar como cúpido para o amigo e este não poderia saber disto. Sabia muito bem da profundidade da amizade de Charles e Will, consciente que ambos se consideravam praticamente irmãos – já que Charles não tinha outros irmãos e Will apenas uma irmã, os dois tinham um vínculo tão grande de cumplicidade e respeito que a deixava admirada.

Desta forma, acatou este pedido do filho de bom grado. Há algum tempo que não conversava com a sua boa amiga, Hannah Darcy, e ficaria imensamente feliz em receber toda a família Darcy em sua casa. Ciente que o sr. Brown sentiria-se da mesma forma. Já o ouvira proclamar que pretendia mostrar ao sr. Abbott seus “brinquedinhos” mais preciosos – sua coleção de carros e motos – além da sua obra-prima – a pista de Kart em seu “quintal”; acreditava que a presença do sr. Darcy só serviria para aumentar a sua excitação com o evento, já que os dois senhores pareciam desfrutar deste interesse por automóveis.

A reação de Will ao convite para jantar a casa de Charles na mesma noite em que o amigo estaria recebendo a família da namorada em casa foi exatamente a que Charles esperava. Ele aguardou um momento em que pudesse conversar com Charles à escola e o pôs contra parede.

--O que é que você está aprontado?

--Eu não faço idéia do que você está falando, Will? – Charles replicou, descaradamente.

--Você fez a sua mãe convidar a minha família para o jantar em sua casa na mesma noite em que Lizzie estará lá!

--Minha mãe convidou a sua família para jantar lá em casa? – Charles o questionou, rindo-se com uma fingida excitação a noticia, como se fosse uma novidade para ele.

--Charles, você sempre foi péssimo em pôquer! – Will afirmou. – E sabe por quê? Você não sabe blefar! – Argumentou, irritado. – Pare de se fingir de inocente! Eu sei o que você está fazendo!

--Ora, Will, que estresse por causa de um simples jantar! – Charles rebateu. – Você e Lizzie têm lanchado todos os dias na mesma mesa, uma noite não irá matá-lo. – E, com isto, deixou o amigo espumando de raiva.

            Will não queria mais que nenhum dos meninos tentasse ajudá-lo. Preferia agir sozinho desta vez; tomar suas próprias decisões, sem se sentir pressionado, e assumir as conseqüências de todos os seus atos.

_____________________________

Sábado à tarde, Elizabeth estava à casa de Catherine, juntamente com Lydia. As três meninas possuíam um trabalho de Literatura para terminar e resolveram passar aquela tarde tentando concluí-lo. As três meninas estavam sentadas sobre o tapete do quarto de Catherine, formando um circulo, com o material escolar espalhado ao seu redor.

O trabalho que precisavam concluir correspondia a 30% da nota da 2ª Unidade daquela matéria e consistia em uma narrativa criativa de 50 a 70 folhas. Resumidamente, as meninas deviam criar uma história fantasiosa de qualquer gênero – drama, ficção ou romance – inventando personagens e tramas.

Até aquele momento, elas conseguiram criar uma história no estilo comédia-romântica, de treze capítulos cheios de momentos hilários e emocionantes. Entretanto, encontrava-se em um impasse quanto ao final da história. Elizabeth, cansada com os finais de conto-de-fadas, queria dar ao fim da história um estilo mais dramático, um tanto funesto e mórbido. Lydia e Catherine rejeitavam suas sugestões homicidas, recusando-se em assassinar qualquer um de seus personagens.

 Como já havia digitado os capítulos prontos, restando apenas criar e digitar o último capítulo e o epílogo, sentiam-se estagnadas naquela situação. Catherine e Lydia queriam ligar para Charlotte, para pedir-lhe que viesse até a casa de Catherine, lesse a história e desse uma opinião de como deveria ser o final. Mas Elizabeth se opunha a esta sugestão, alegando que deveriam ser elas a criar o final da história.

--Vamos, meninas! Faltam só mais dez páginas! – Elizabeth dizia.

--Só?! – Lydia reclamava.

--Meu cérebro está em pane! Eu não posso mais pensar em nada! – Catherine choramingava, jogando o seu caderno, onde escrevia o suposto “último capítulo”, para o lado.

--Vamos ligar para Charlotte! – Lydia sugeriu, pela quarta vez.

--Sim! – Catherine concordou e, dirigindo um olhar clemente a Elizabeth, disse. – Por favor!!!!!

--Sim, por favor!!! – Lydia se juntou a ela. – Nós fizemos praticamente a história toda, não faz mal se ela nos ajudar com uma coisinha à toa!

--O final não é uma coisinha à toa, Lyd! – Elizabeth exclamou, indignada.

--Por favor, Lizzie! – Catherine insistia. – Nós não queremos estragar a história escrevendo um final ruim!

--Exatamente! – Lydia exclamou. – Por favor, Lizzie! – Passando as duas meninas a implorar.

--Por favor!

--Tudo bem! – Elizabeth acabou cedendo!

--Ehhhh!!!! – Permitindo que as outras duas fizessem uma algazarra.

            Assim, Catherine ergueu-se do chão, correu a pegar o telefone e ligou para Charlotte, solicitando a sua presença em sua casa por causa de um assunto de extrema urgência. Encerrou a ligação e, juntamente com as duas outras meninas, foi para a varanda do seu quarto, ficar vigiando a rua para a chegada de Charlotte.

            Após cinco minutos de espera, Catherine chamou a atenção das meninas para um carro que acabara de ser estacionado em frente à casa vizinha a sua. Um jovem rapaz alto, com um porte físico esbelto, cabelos loiros cacheados desceu do carro pela porta do passageiro, a fechando logo em seguida. Um homem de cabelos igualmente loiro e ondulados, assim como o jovem, alto e bem apessoado desceu do carro pela porta do motorista, e ambos caminharam até o porta-malas do carro.

            O homem abriu o porta-malas e começou a tirar sacolas de compras do carro, carregando duas de cada vez, caminhou em direção a casa. O jovem fez o mesmo, carregando duas sacolas de compras e seguindo o homem até dentro da casa.

--Meus novos vizinhos. – Catherine explicou às duas amigas. – Se mudaram têm uns três dias.

            Logo o homem e o jovem reapareceram, indo até o carro e continuando a tirar as sacolas de compras. Catherine e Lydia apoiaram o cotovelo na barra de proteção da sacada e o queixo na palma da mão, suspirando logo em seguida em união, chamando a atenção de Elizabeth para o olhar sonhador que ambas dirigiam ao jovem rapaz que carregava mais duas sacolas para dentro da casa.

--Aii aii, se Danny e George estivessem aqui! – Elizabeth brincou.

--Etah, Lizzie! Olhar não tira pedaço! – Lydia reclamou.

--Lyd, eu pensei que você já houvesse apreendido com os seus erros! – Elizabeth rebateu. – Já se esqueceu como tudo começou da última vez!

--Aff, Lizzie, você é uma estraga prazeres! – Lydia replicou, dando as costas para a varanda e entrando no quarto.

            Catherine não demorou a segui-la, em silêncio, deixando Elizabeth na sacada completamente sozinha. Elizabeth dirigiu um breve o olhar ao jovem rapaz enquanto ele retirava a última sacola do porta-malas e, alongando bem os músculos do braço, fechou o porta-malas com uma das mãos. Ele olhou rapidamente em sua direção, fazendo com que Elizabeth desviasse o olhar do dele, dando-lhe as costas, com o intuito de entrar no quarto.

--Lizzie! – Mas foi obrigada a retroceder seus passos ao ouvir seu nome.

            Elizabeth debruçou-se sobre a barra de proteção da sacada e avistou Charlotte, acenando para ela. Acenou de volta e desencostou-se da sacada, não deixando de olhar para a casa do vizinho ao ver o jovem ainda olhando para ela. Elizabeth retornou para o quarto e avisou as meninas que Charlotte havia chegado.

            Após Charlotte ter lido os capítulos que as meninas tinha feito até àquele momento, concordou com Lydia e Catherine que assassinar um dos personagens seria um fim totalmente desconexo, para o desgosto de Elizabeth. A única coisa que agradou as três meninas foi o fato de Charlotte ter amado o enredo da história, além do nome da personagem principal e seus dois amigos inseparáveis.

            Uma jovem menina de quinze anos chamada Brownie – como o bolinho de chocolate, comumente servido em cafés – nutre um amor platônico pelo menino mais inteligente, mais bonito, mais simpático (em sua opinião) da sua escola. Este jovem galã, Reymond, dois anos mais velho que Browne, nunca lhe dirigira o olhar, embora Brownie o siga em todos os lugares – até mesmo nos lugares mais impróprios, envolvendo em diversas situações engraçadas.

            Brownie nunca pensou em se declarar a Reymond, contentava-se em poder admirá-lo a distância. Embora muito bonita, possuía uma beleza comum e muitas vezes subestimada. Reservava-se a conviver com os seus amigos mais próximos, os quais sabiam da sua idealização de Reymond; uma menina de sua mesma idade chamada Apple – como a fruta: maçã – e Coco, namorado de Apple.

            Consigo sempre estava o seu caderno de desenho, repleto de caricaturas de colegas e professores. Além de intermináveis imagens de Reymond. Quando encontrava-se entediada, Brownie simplesmente sentava-se e desenhava por horas a fio.

            Como em todas as histórias a presença do vilão é indispensável e ele se materializou nesta história sob o nome de Shawn. Ele, por sua vez, também é dois anos mais velhos que Brownie e, em termos de beleza, superava Reymond facilmente; mas para Brownie, ele não passava de um menino egoísta, encrenqueiro, brigão e cafajeste. O oposto da imagem de bom moço que Reymond esbanjava.

            Por um golpe de azar – ou seria sorte? – Shawn decidiu fazer de Brownie sua próxima vítima, ao encontrar o seu caderno de desenhos e descobrir a sua paixão secreta por Reymond, passou a chantagear a menina, querendo fazer dela sua escreva pessoal. Temendo ser humilhada em público, Brownie cedeu às chantagens de Shawn e passou a servi-lo como se fosse sua empregada, levando-lhe os lanches, segurando seus livros, atendendo a todos os seus desejos.

            A implicância entre os dois era palpável em cada linha daquela trama e, embora tentasse negar seus próprios sentimentos, o relacionamento dos dois foi se aprofundando a cada dia. Até que Reymond resolveu notar a pequena Brownie.

--Você não pode matar nenhum destes personagens! – Charlotte exclamou, quando Lydia explicou-lhe o que Elizabeth queria assassinar Reymond ou Shawn, para a Brownie não ter de escolher entre eles, ou a própria Browne. – Você vai matar os seus leitores de desgosto.

--O que você sugere? – Catherine questionou.

--Brownie tem de ficar com Shawn. – Charlotte exclamou, excitada.

--Por que? – Elizabeth questionou; embora possuísse no inconsciente de sua mente o mesmo desejo, não queria admiti-la.

--Porque eu estou apaixonada por ele! – Charlotte replicou, com um ar sonhador, causando risinhos nas meninas. – Sério agora; embora Reymond seja realmente o mocinho, o amor de Brownie por ele é uma fantasia, uma ilusão. Ela sequer o conhece direito. Já o Shawn...

--A peste! – Lydia exclamou, e ela e Catherine começaram a rir.

--A relação deles, embora conturbada, é mais... realista. – Então, Charlotte voltou algumas páginas do arquivo no computador e releu uma parte da história, comentando em seguida. – Ele a beijou! ...Tudo bem que foi para irritá-la... Mas é tão obvio que os dois gostaram do beijo, foi só no que conseguiram pensar nos dias seguintes! E a forma estranha que passaram a se comportar um com outro... Até Coco e Apple perceberam que algo tinha mudado.

--Mas é um fim tão obvio! – Elizabeth replicou; este, na verdade, era o seu grande problema com o final. Queria inovar!

--Não é não! – Charlotte rebateu. – Garanto que se você pedisse para Jane ler, ela pensaria que Brownie ficaria com Reymond, porque ele já está se aproximando de Brownie e é uma fofura também!

            As meninas passaram os trinta minutos seguintes ponderando algumas sugestões de Charlotte e em pouco tempo estavam começando o último capítulo. Ao fim da tarde, Elizabeth fazia as correções ortográficas no computador, enquanto as meninas discutiam o título e a capa.

            Antes das meninas irem embora, Catherine imprimiu o trabalho de título “Brownie – o Amor é doce?”, em que a capa consistia em um brownie em formato de coração. 

 

 

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