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Não quero que as pessoas sejam muito gentis; pois tal poupa-me o trabalho de gostar muito delas.(Jane Austen)

Come Pick me Up and Take me Out - Capítulo LXVI

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Capítulo 66

 

Terça-feira começou lentamente para todos. Elizabeth e Jane seguiram sua rotina diária antes de ir à escola, já se sentindo acostumada com a perspectiva dos cochichos e olhares atravessados que receberiam – pelo menos, no que se referisse a Elizabeth. Estava ciente de que a sua paciência estava sendo testada repetidas vezes este ano letivo e estava decidida a não se deixar abater.

            Ateve-se a sua antiga tática de evadir certas atenções se refugiando em um bom romance aos intervalos das aulas. E, para auxiliar toda a criação do clima apropriado para se perder no romance que estivesse lendo, voltou a se armar do seu MP3 – o qual fizera questão de sobrecarregar de novas músicas.

Will, por sua vez, estava pisando nos corredores da escola pela primeira vez desde a sexta-feira passada. Não passara pela sensação desconfortável de ser o alvo dos cochichos e olhares alheios no dia anterior, e estava encontrando bastante dificuldade em não se deixar irritar por eles. Desejava, imensamente, que a sua mãe houvesse permitido que ficasse em casa esta manhã também. Mas a sra. Darcy estivera irredutível quanto a ele ir a escola esta manhã, garantindo-lhe que não permitiria que ele negligenciasse seus estudos por motivo algum.

            Assim como Elizabeth, preferiu restringir-se a sua sala de aula durante a maior parte de dos intervalos. Em conseqüência, eles não se encontraram pelos corredores durante os três primeiros períodos de aula àquela terça.

            Durante o recreio, Will seguiu para o refeitório logo após os seus amigos. Desde à tarde do dia anterior, nenhum dos meninos voltou a mencionar Elizabeth. Embora estivessem apreensivos quanto ao momento em que os dois se reencontrassem. Assim, cada um fez a sua bandeja de lanche e dirigiu-se a uma das mesas do refeitório.

            Pouco tempo depois, Charlotte e Jane juntaram-se a eles, cada uma com suas respectivas bandejas de lanche como na manhã do dia anterior. A tensão entre eles só aumentou quando Lydia, Catherine e Elizabeth adentraram no refeitório e foram preparar suas bandejas de lanche.

            Elizabeth já estava quase terminando de selecionar o seu lanche completo quando, distraidamente, olhou na direção em que Will estava sentado, olhando fixamente para ela. Ela estava procurando localizar Jane e não esperava vê-lo, já que imaginara que ele decidira cabular escola esta manhã também quando suas amigas falharam de mencionar a sua presença aos corredores da escola aquela manhã.

            O choque em vê-lo estava evidente em seu rosto. Ela permaneceu a olhá-lo mesmo depois de a servente do refeitório inquirir-lhe o que desejava como sobremesa. Lydia precisou cutucá-la para que Elizabeth voltasse a ter reações físicas. Então, voltou-se para a servente, dando às costas a Will e a mesa em que ele estava sentado com seus amigos e a sua irmã, ainda atordoada.

            A servente voltou a inquirir-lhe o que ela desejava para sobremesa e Elizabeth contentou-se em escolher o potinho de pudim de leite. Quando a servente lhe entregou o potinho, Elizabeth o tomou e se dirigiu a saída do refeitório, deixando sua bandeja de comida para trás, assim como as suas amigas.

            A princípio Lydia e Catherine apenas a observaram ir-se do refeitório sem uma reação imediata. Mas, conforme a servente voltava a solicitar às suas atenções para os seus respectivos pedidos, as duas continuaram a fazer suas bandejas de lanche. Unicamente quando se dirigiram à mesa em que seus amigos estavam sentados descobriram o motivo para a súbita fuga de Elizabeth.

Ambas, no entanto, preferiram manter o real motivo de sua ausência em segredo. Quando Jane perguntou por Elizabeth, Lydia apenas lhe disse que ela lembrara que precisava devolver um livro a biblioteca e, como não estava com fome, iria aproveitar para procurar outro romance para ler. É claro, ninguém acreditou naquela desculpa, apenas fingiram que sim. Tanto que, assim que encerrou o seu lanche, Jane despediu-se de Charles e foi em busca da sua irmã, sendo seguida por Charlotte.

As duas amigas a encontraram, surpreendentemente, a biblioteca. Elizabeth estava sentada ao chão, em um canto bastante recluso, após milhares de estantes, na sessão de livros de língua estrangeira, onde quase nenhum aluno punha os seus pés – a menos que precisasse fazer algum trabalho escolar. Quando as duas meninas se aproximaram o bastante para se fazerem notar, conseguiram capturar a atenção de Elizabeth. Ela ergueu a cabeça para recebê-las e lhes dirigiu um meio sorriso, aparentando estar calma.

Jane e Charlotte agacharam-se ao seu lado, até que estavam sentadas ao chão também.Inicialmente inquiriram sobre o livro que ela tinha em mãos e Elizabeth deixou que elas vissem a capa do livro de Jane Austen, “Razão e Sensibilidade” (Sense and Sensibility). E, seguidas a isto, Elizabeth passou a comentar sobre o personagem de Marianne Dashwood e sua personalidade espontânea e emocional ao extremo. Intimamente, analisava o personagem em busa de semelhanças com ela mesma e não deixava de se sentir apreensiva. Odiava a idéia de fazer papel de boba, como ocorrera com a personagem em várias ocasiões, em sua opinião pessoal. 

            Entretanto, não demorou muito para que Jane e Charlotte abordassem o motivo de terem vindo procurá-la.

--Você não pode ficar se escondendo aqui, Lizzie! – Jane a advertiu.

--Não estou me escondendo. – Elizabeth defendeu-se, com mais emoção de que pretendia.

--E o que está fazendo aqui, então? Neste canto isolado? – Charlotte questionou, com a intenção de não permitir que Elizabeth tentasse negar o obvio.

--Como você deve saber, Charlotte, não é permitido trazer lanches para dentro da biblioteca. – Elizabeth replicou, mais contida e extremamente segura de sua desculpa. – Com muita habilidade fui capaz de passar pela sra. Trudy sem que ela notasse o meu potinho de pudim, mas não poderia me sentar a uma das mesas da biblioteca e ler o meu livro livremente enquanto lancho sem recear ser expulsa da biblioteca. – A sra. Trudy é a bibliotecária da escola e, embora gostasse de Elizabeth, não permitiria que ela quebrasse as regras e lanchasse dentro da biblioteca. – Então, decidir por ficar por aqui mesmo. – Elizabeth concluiu.

            Jane e Charlotte repousaram seus olhares no potinho do doce, agora vazio, ao chão ao lado de Elizabeth e consideraram a sua resposta. Embora fizesse certo sentido, estavam certas que se tratava de uma desculpa. Até ponderaram que a resposta de Elizabeth parecia-lhes ensaiada.

            A verdade era simples. Ela realmente escolheu por sentar-se ali por causa da regra da escola quanto à proibição de lanches dentro da biblioteca. Mas estava satisfeita de não precisar fingir que não notava os olhares indiscretos de seus colegas de escola sempre que cruzavam o seu caminho, até mesmo dentro da biblioteca. Ali, pelo menos, ela realmente não sentia como se a sua privacidade estivesse sendo invadida.

--Seu problema seria resolvido facilmente se você houvesse lanchado no refeitório com a gente e depois vindo a biblioteca. – Jane replicou, logo em seguida, recebendo um olhar atravessado de sua irmã.

--Eu não posso lanchar naquela mesa. – Elizabeth respondeu, de forma contida, mas sinceramente.

--Por causa de Will. – Charlotte afirmou.

--Eu não posso fingir que a presença dele não me incomoda. – Elizabeth continuou, em um murmúrio, desviando o olhar para o livro que tinha em mãos, como se pretendesse voltar a lê-lo.

            Estivera com certa raiva dele na manhã anterior por ter faltado à escola e permitido que ela enfrentasse seus colegas sozinha. Mas vê-lo era ainda pior. Preferia, imensamente, que ele houvesse cabulado aula de novo.

--E não posso pedir que vocês deixem de se sentar com seus respectivos namorados por minha causa. – Apressou-se em completar, antes que uma das duas amigas sugerisse tal opção, erguendo o olhar para ambas as meninas e falando em seu tom normal de voz. – Não é justo com vocês ou com os meninos que um problema entre Will e eu interfira no relacionamento de vocês.

--Mas Lizzie... – Jane e Charlotte tentaram remediar, mas Elizabeth voltou a interrompê-las.

--Eu estou bem aqui. ...Por ora. – Disse, calmamente; voltando a olhar para o livro.

--Eu preferia que você ficasse zangada, ameaçasse bater nele... ou mim... – Charlotte comentou, tentando adicionar certo humor no seu comentário, sorrindo para as outras duas meninas. – ao invés de vê-la assim, sentada ao chão e se escondendo. – Mas não conseguiu disfarçar o tom de amargura em sua voz.

--Eu nunca brigaria com você Charlotte. – Elizabeth replicou, seriamente, voltando a olhar para a amiga. – Eu tenho amor pela minha vida, não iria querer morrer pelas suas mãos! – Mas completou com uma piada, fazendo as meninas voltarem a sorrir.

--Ah, não finja ser modesta. – Charlotte decidiu permitir aquele pequeno momento sem muitas conseqüências, em que uma buscava animar o ânimo da outra. – Você é capaz de segurar um touro pelos chifres, não seria capaz de dar conta de mim!

As meninas riram do comentário de Charlotte por uns instantes e depois caíram em um silêncio mórbido que denunciava que retornaram a pensar na situação que as trouxeram ali. Então Elizabeth disse.

--Eu só preciso ficar um pouco sozinha... Sem ter de me preocupar do porque das pessoas estarem olhando para mim ou o que elas andam falando de mim... – Sustentando o olhar sério que as duas meninas lhe dirigiam. – Um pouco de paz. – E as suas amigas assentiram com pequenos acenos de cabeça, em silêncio.

            Instantes depois notaram a expressão do rosto de Elizabeth mudar, de um sério para um mais divertido. E logo ela estava rindo sozinha.

--O que foi? – Jane perguntou, estranhando o seu comportamento.

--Eu só estava me imaginando segurando um touro pelos chifres! – Elizabeth replicou e as meninas voltaram a rir, todas criando uma imagem própria em suas cabeças com Elizabeth e um touro.

            Os dias seguintes foram uma repetição deste. Elizabeth permanecia em sua sala de aula na maioria dos intervalos, durante o recreio passava rapidamente ao refeitório e escolhia o seu lanche. Logo após recolhia-se a biblioteca, refugiando-se dos olhares alheios no seu cantinho reservado.

            Se alguém tivesse duvidas de que Elizabeth estava evitando ficar na presença de Will durante o recreio de terça-feira, seu comportamento cessou todas as dúvidas. Will passou a se sentir ainda pior, percebendo que eles sequer seriam amigos, como ela afirmara que poderiam ser.

November – Azure Ray

So I’m waiting for this test to end

(Eu estou esperando este teste terminar)
So these lighter days can soon begin

(Para que os dias mais tranqüilos possam finalmente começar)
I'll be alone by maybe more carefree

(Estarei sozinha, mas, talvez, mais despreocupada)
Like a kite that floats so effortlessly

(Como uma pipa que voa suavemente)
I was afraid to be alone

(Eu tinha medo de ficar sozinha)
Now I’m scared that’s how I’d like to be

(Agora receio que é como desejo ficar)
All the faces none the same

(Todos os rostos são diferentes)
How can there be so many personalities

(Como é possivel existir tantas personalidades?)
So many lifeless empty hands

(Tantas mãos sem vida e vazias)
So many hearts in great demand

(Tantos corações com muitas exigências)
And now my sorrow seems to far away

(E agora a minha dor parece estar tão distante)
Until I’m taken by these bolts of pain

(Até que eu sou dominada por assaltos de sofrimento)
But I turn them off and tuck them away

(Mas eu logo os escondo)

Till these rainy days that make them stay

(Até que os dias de chuva os façam ficar)
And then I’ll cry so hard to these sad songs

(E eu chorarei muito, acompanhada por estas músicas tristes)
And the words still ring, once here now gone

(E as palavras continuam a soar, uma vez aqui e depois vão embora)
And they echo through my head everyday

(E elas ecoam em minha mente todos os dias)
And I don’t think they'll ever go away

(E eu não acredito que elas irão embora algum dia)
Just like thinking of your childhood home

(É como pensar em sua infância)
But we can’t go back we’re on our own

(Mas nós não podemos voltar, estamos sozinhos)
Oh…
But I’m about to give this one more shot

(Mas eu estou preste a dar-me mais uma chance)
And find it in myself

(E encontrar em mim mesma)
I’ll find it in myself

(Eu encontrarei em mim mesma)
So were speeding towards that time of year

(Então, estamos nos aproximando daquela época do ano)
To the day that marks your not here

(Do dia que marca a sua ausência)
And I think I’ll want to be alone

(E eu acho que quero ficar sozinha)
So please understand that I don’t answer the phone

(Então, entenda se eu não quiser atender ao telefone)
I'll just sit and stare at my deep blue walls

(Eu ficarei sentada e fitarei as minhas paredes azuis)
Until I can see nothing at all

(Até que eu não possa enxergar mais nada)
Only particles some fast some slow

(Apenas, algumas particulas; algumas rápidas e outras lentas)
All I can see is all I know

(Tudo o que vejo é o que conheço)
Ohh..
But I’m about to give this one more shot

(Mas eu estou preste a dar-me mais uma chance)
And find it in myself

(E encontrar em mim mesma)
I’ll find it in myself

(Eu encontrarei em mim mesma)

_______________________________

Durante aquele fim de semana, Elizabeth decidiu por fazer programações que a levariam sair de casa. Sabia que se ficasse em casa, Jane ficaria tentada a lhe fazer companhia e tentaria se desfazer de seu próprio namorado em seu beneficio. Como Charlotte, Lydia e Catherine, assim como Jane, tinham seus respectivos namorados com quem ocupar o seu fim de semana, Elizabeth recorreu a Mary.

Elizabeth descobriu em Mary uma discrição imensurável. Embora soubesse que Mary tinha conhecimento dos eventos entre Elizabeth e Will, não lhe fizera nenhuma pergunta sobre o ocorrido durante aquela semana. Ao contrário, conversava sobre qualquer coisa, exceto Fitzwilliam Darcy, a festa do Halloween ou o seu relacionamento amoroso fadado ao fracasso.

Por isso, estava certa que o seu fim de semana seria maravilhoso; ou pelo menos, mais tranqüilo que se houvesse decidido permanecer em casa ou, até mesmo, sair com suas outras amigas. Parecia-lhe que as outras meninas estavam sempre a tratando como se ela fosse feita de porcelana. Está certo que ela tinha pedido um pouco de paz, mas não precisavam tratá-la como um bebê recém-nascido.

Como Mary não tinha nenhum evento para participar este fim de semana, afora o seu costumeiro trabalho no Basement, as duas garotas decidiram ocupar o seu tempo com os programas mais comuns aos adolescentes. Combinaram de ir ao cinema e depois Elizabeth acompanharia Mary em algumas compras.

            As duas meninas chegaram ao cinema no começo da tarde de sábado e assistiram ao filme “Homem de Ferro” (Iron Man). Após saírem do cinema satisfeitas e sorridentes, comentando as partes do filme mais engraçadas – embora trate-se de um filme de ação –, foram lanchar. Elizabeth estava se sentindo muito melhor, o melhor que já se sentira durante toda aquela semana. Então, estava mais que disposta a sair com Mary pelas lojas, para que a amiga pudesse fazer suas compras.

            Surpreendeu-se quando Mary a levou a uma loja de aparelhos eletrônicos, ao invés de ficarem passeando pelo shopping, olhando vitrines de roupas e sapatos – em sua mente, deduzia que Mary a levaria a uma destas lojas especializadas em roupas góticas.

            Mary entrou na loja demonstrando intimidade com o ambiente e os vendedores. Foi cumprimentada rapidamente pelo atendente ao balcão próximo a porta de entrada da loja e logo caminhou em direção aos stands de exibição ao fundo da loja, próximo a outro balcão. Elizabeth a seguiu de perto e ouviu algumas explicações sobre os aparelhos eletrônicos que encontravam pelo caminho – todos diretamente relacionados à atividade exercida por um DJ. Mary indicava os mais novos modelos de aparelho de mixagem dos fabricantes mais conhecidos – Pioneer, Technics e Numark – enquanto continuava a sua caminhada. Selecionou alguns CDs virgens e outros acessórios que alegara estar precisando e se dirigiu ao balcão ao fundo da loja, onde se encontrava o caixa.

            As meninas continuaram conversando enquanto aguardava ser atendidas; na verdade, Mary falava e Elizabeth acenava com a cabeça em concordância, mas não conseguia entender realmente boa parte das coisas que Mary, entusiasmadamente, tentava lhe explicar sobre as novas melhoras dos aparelhos que acabaram de ver, não deixando de fazer uma comparação aprofundada entre as marcas dos fabricantes.

            Então, foram atendidas.

--Konnitiwa (boa tarde)! – Um jovem rapaz japonês cumprimentou Mary, sorrindo-lhe. – Oguenki desu ka (como está você)? – Ganhando um sorriso tímido de Mary, deixando-a levemente corada.

            Elizabeth sentiu a sua curiosidade com relação àquele rapaz aguçar-se. Embora não entendesse o que ele houvera dito a Mary, acreditava que a amiga sim. E, mais importante, deixara Mary com um brilho no olhar que nunca vira antes.

            Os dois prosseguiram com uma conversa paralela por uns minutos, já conversando em inglês, permitindo a Mary ser muito mais comunicativa – embora houvesse entendido o que o rapaz japonês havia lhe dito, não se sentia confiante em respondê-lo em sua língua. Não acreditava que dominava o idioma o suficiente para tentar manter uma conversa com ele sem que cometesse algum garfe. 

            A sua distração foi tanta, que se esquecera de apresentar Elizabeth ao rapaz. Prosseguiu com a sua conversa e efetuou a sua compra tranquilamente, não deixando de corar ou sorrir quando o rapaz dispensava atenção demasiada a sua venda que às demais que efetuara até então.

--Sumimasen (com licença). – Mary decidiu se arriscar, ao terminar a sua compra e despedir-se do rapaz. Quem lhe devolveu um largo sorriso ao ouvi-la lhe dirigir em japonês pela primeira vez.

--Matta (até breve)! – Replicou, continuando a sorrir para ela.

--Ja ne (tchau)! – Mary disse, dando-lhes as costas e indo em direção a saída da loja.

            Elizabeth ainda permaneceu próxima ao balcão por uns instantes, mas logo a seguiu. Antes de sair da loja, voltou-se para olhar o rapaz e riu quando ele se despediu dela também, ao se curvar breve mente para frente – num gesto que lhe fez lembrar o costumeiro cumprimento de adversários em combates de karatê.

            Elizabeth apressou os seus passos e não demorou muito a alcançar Mary. Caminhou ao seu lado em silêncio, prendendo o seu riso, esperando que Mary voltasse a notá-la. Quando ela finalmente o fez, voltou a ficar ruborizada ao perceber a expressão de entendimento no rosto de Elizabeth. O que causou um riso em Elizabeth.

--Como ele se chama? Há quanto tempo vocês se conhecem? Há quanto tempo você gosta dele? – Disparou a perguntar.

--Calma, Lizzie! – Mary exclamou, mais constrangida ainda. – Eu não gosto dele! – Tentou negar, mas Elizabeth lhe dirigiu um olhar atravessado, meio desconfiado. – Talvez... um pouquinho... Quem sabe... – Mary replicou, ainda mais incomodada com o olhar que recebia de Elizabeth.

--Qual é o nome dele? – Elizabeth questionou-lhe, excitada.

--Oguri Shung. (Sobrenome e nome)– Mary respondeu. – Eu o conheci pela internet, em um site de bate-papo. – Mary comentou.

--E? – Elizabeth apressou-se a inquirir, curiosíssima.

--E... mais nada! – Mary rebateu. – A gente conversou... – Mary completou, quando percebeu que Elizabeth não deixaria o assunto morrer. – Eu contei que era DJ, ele me contou que trabalhava aqui... Que, na verdade, a loja é do pai dele... E eu vim conhecer... a loja... – Disse, hesitante.

--E ele! – Elizabeth completou, alegremente. – Há quanto tempo vocês se conhecem?

--Um ano, mais ou menos. – Mary respondeu, um pouco mais calma.

--E há quanto tempo você gosta dele? – Elizabeth a cutucou, quando Mary fingiu não ouvir a sua pergunta.

--Um ano, mais ou menos. – Ele respondeu, em um murmúrio.

--Mary! – Deixando Elizabeth boquiaberta, mas sorrindo; o que só serviu para deixar Mary ruborizada. – E o que você já fez ou vai fazer a respeito? – Elizabeth inquiriu, pronta para encorajá-la.

--Nada. – Mary rebateu, decidida e indignada com a pergunta de Elizabeth.

--Por que não? – Elizabeth estranhou.

--Ele tem namorada. – Mary explicou, desiludida.

--Oh... – Deixando Elizabeth desapontada. – Você comprou tudo o que precisava? – Elizabeth inquiriu, numa tentativa de mudar de assunto.

--Eu não precisava de nenhuma destas coisas. – Mary confessou, timidamente. – Eu apenas gosto de vir aqui de vez em quando, conversar com ele... – Voltando a deixar Elizabeth admirada. – Eu até tentei aprender um pouco de japonês... para falar com ele...

--Mary! – Deixando Elizabeth novamente admirada.

--Não conte a ninguém! – Mary apressou-se a pedir.

--Não contarei. – Garantiu-lhe.

            Então Mary sentiu-se mais segura a falar sobre Shung e passou a relatar a Elizabeth exatamente como os dois haviam desenvolvido aquela amizade. Contou-lhe tudo o que sabia sobre ele: de como sua família é originalmente de Osaka, é uma cidade japonesa localizada na província de Osaka, na ilha de Honshu (a maior ilha do arquipélago japonês); em como, no entanto, ele (Shung) nasceu no território inglês, onde morou toda a sua vida (vinte e dois anos); sobre quantos irmãos ele tinha; que curso universitário estava se graduando; e sobre a sua namorada.

            Enquanto Mary relatava-lhe isto, Elizabeth pensava em como Lydia ia ficar impressionada se soubesse por quem Mary se interessara. Shung, sem sombra de dúvida, é um admirável espécime de rapaz, com os seus olhinhos puxados, cabelos extremamente lisos e negros. Agora que houvera pensado a respeito, não estava mais admirada que Mary houvera se interessado por ele. Shung possuía aquele jeito despojado na forma de vestir parecido com o de Mary. E ele trabalhava numa loja de eletrônicos, então os dois realmente tinham muitas coisas em comum. Era uma pena ele ter namorada.

--...a família dela, também de Osaka, conhece a família dele... e eles namoram há muito tempo. – Mary prosseguia com o seu relato. – As famílias esperam que eles se casem algum dia.

            “É, realmente, uma pena! Ele me pareceu um rapaz legal e... tratou Mary muito bem durante as nossas ‘compras’...”, Elizabeth ponderava, enquanto ouvia os comentários de Mary. 

_______________________________

            Charlotte e Richard lutavam para se manterem concentrados no jogo de boliche. Mas desde que chegaram à casa de Richard, àquela tarde de domingo, não conseguiam parar de conversar sobre Elizabeth e Will. Estando os dois a sós e cada um conhecendo muito bem a versão da história de ambas as partes, sentiam-se seguros para discuti-la abertamente entre si e tirarem as suas próprias conclusões. Aquilo que um não tinha conhecimento, o outro tratava de lhe preencher a lacuna.

            Ao fim, estavam convencidos de que, embora compreendessem a lógica de Will e Elizabeth em quererem permanecer separados, acreditavam que a melhor solução para ambos era a reconciliação. Estavam testemunhando a solidão e tristeza de cada um deles por estarem separados durante aqueles dias e não lhes parecia que a situação melhoraria tão cedo, se Will e Elizabeth insistissem em permanecer desta forma.

            Mas também concordavam que não podiam mais se intrometer. A intervenção deles provara ser um fracasso, repetidas vezes; caso em que, ao invés de reaproximá-los, acabava os afastando ainda mais. Sendo assim, não tinham nada a fazer quanto aquele assunto, a não ser aguardar que Will e Elizabeth se reaproximassem sozinhos. Decisão que não agradava nem a Richard nem a Charlotte.

            Quando Richard teve a brilhante idéia de se esquecer de Will e Elizabeth temporariamente, aproximando-se de Charlotte no intuito de poderem namorar – aproveitando o fato de estarem completamente sozinhos na pista de boliche em sua casa – os seus irmãos gêmeos decidiram impedir o seu plano, adentrando no salão de jogos e fazendo uma algazarra naquele exato instante.

--Olha só o que temos aqui! – Thomas exclamou, caminhando na direção de Charlotte quando ela e Richard voltaram-se para vê-los.

--Queridinho-da-mamãe e a sua namoradinha! – Matthew completou, rindo-se, também se aproximando do casal.

--Olha só, que casal fofo eles formam! – Thomas debochou-se deles.

--Diga-me, Richard: esta é a mesma garota por quem você passou uma noite em claro porque ela tinha um namorado?! – Matthew inquiriu, olhando Charlotte dos pés a cabeça e depois se voltando para fitar o irmão mais novo, percebendo que as orelhas de Richard estavam vermelhas. – O que foi? Ela não sabia?! – Matthew questionou, demonstrando falsa preocupação. – Ou não é ela?! – Completou, rindo-se.

--Ooohhh!!!! – Thomas troçou. – Não faça isso, Matthew. Você não quer afugentar a menina, quer?! – Já começando a rir.

--Vão embora! – Richard gritou, empurrando Thomas em direção a porta.

--Então não é ela?! – Matthew perguntou, olhando para Charlotte, quem ainda estava sem reação diante dos gêmeos, e lhe dirigiu um sorriso maroto, além de erguer-lhe uma das sobrancelhas.

--É ela! – Richard respondeu. – Eu sou o namorado dela agora! Vão embora! – Ele completou, retornando para perto do seu outro irmão e passando a empurrá-lo em direção a porta.

--Quer dizer que o senhor Don Juan Richard não perdeu o seu charme e conseguiu ficar com a garota?! – Thomas disse, voltando a se aproximar de Charlotte agora que Richard não estava em seu caminho. – Diga-me: o que você viu no meu irmãozinho? – Questionou-a, ao passar o seu braço pelo ombro de Charlotte e começar a encaminhá-la em direção ao sofá do salão de jogos.

--Tire as mãos dela! – Richard ordenou, correndo para separar Thomas de Charlotte.

--Irmãozinho, você já apresentou a sua namoradinha a nossa mãe? – Matthew interrogou, acercando-se dos outros quando Richard puxava Charlotte para longe de Thomas, deixando o irmão com um sorriso de satisfação no rosto. – Tenho certeza de que ela ficará encantada em lhe conhecer! – Disse a Charlotte, quem já estava começando a sorrir para os seus cunhados, considerando-os bem divertidos.

--Concordo plenamente! – Thomas exclamou. – Vamos chamá-la aqui!

--E o papai também! – E logo os gêmeos se foram, deixando um Richard vermelho de constrangimento e raiva, e uma Charlotte aos risos.

--Seus irmãos são um barato! – Ela exclamou, entre risos, recebendo um olhar de inconformidade de Richard.

            Pouco tempo depois, os gêmeos retornaram na companhia do pai. O sr. Marverick é um coroa bem apessoado. Charlotte acreditava que conseguia identificar muitas semelhanças entre Richard e seu pai, ficando ainda mais certa de que Richard seria um homem muito bonito quando alcançasse a sua idade.

            Em adição ao porte e charme do homem maduro em sua frente, o sr. Marverick tinha uma personalidade jovial, semelhante ao dos seus filhos mais velhos. Riu-se das provocações dos gêmeos, para o desgosto de Richard, e tratou Charlotte com muita cordialidade. Não deixando de lhe dizer que estava muito contente de tê-la como nora, pois agora acreditava que Richard iria sossegar um pouco, ao invés de ficar se envolvendo em confusões com o primo – o que só serviu para deixar as orelhas de Richard ainda mais vermelhas de constrangimento.

            Ela foi convidada a jantar com eles e, durante o jantar, teve o prazer de conhecer a sra. Marverick. Ela, por sua vez, embora houvesse tratado Charlotte com toda a educação e cordialidade de uma legitima anfitriã, não demonstrou o mesmo animo do marido em conhecê-la. A idéia de que seu filho caçula já tinha uma namorada séria, a ponto de trazê-la a sua casa para que pudessem conhecê-la, não lhe agradava muito, evidentemente.

            Após o jantar, Richard decidiu-se por levar Charlotte para casa. O sua tarde com ela não fora como imaginara, quase não namoraram. Consolando-se, apenas, com os beijos que trocaram antes de ela ter de entrar em casa.

 

 

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