Citações

Metade do mundo não consegue compreender os prazeres da outra metade.(Jane Austen)

Come Pick me Up and Take me Out - Capítulo LXV

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Capítulo 65

 

Richard, George e Charlotte assistiram tudo a distancia. Não podiam ouvi-los, mas puderam deduzir que o pedido de desculpa não deu certo ao verem Elizabeth se levantar da cadeira em que estivera sentada e afastar-se da mesa em que Will ainda permanecia sentado, sem olhar para trás uma única vez. Os três trocaram olhares interrogativos, Richard e George se perguntando se deviam ir até Will e consolá-lo, ou deixá-lo sozinho; enquanto Charlotte ponderava se devia ir atrás de Elizabeth e tentar descobrir como ela estava se sentindo.

            Os três estavam hesitantes de agirem naquele momento; Charlotte estava receosa com a reação de Elizabeth ao vê-la, já que, a este momento, teria se dado conta do que Charlotte lhe aprontara. Richard e George temiam não saber como reanimar Will depois daquele golpe, malmente sabiam como consolar alguém. E quando este alguém se tratava de Will – quem, ao se sentir triste, tornava-se extremamente isolado, arredio e irritadiço – ter sucesso era praticamente impossível.

Antes que qualquer um deles pudesse tomar uma decisão, entretanto, Will também se ergueu de sua cadeira e seguiu o caminho oposto ao que Elizabeth fizera, sem se lembrar dos amigos ou de mais nada. Ele apenas sabia que precisava sair dali o mais rápido que conseguisse.

Os seus passos foram ágeis e logo estava ao estacionamento do shopping, dentro do seu próprio carro, com a cabeça encostada ao volante, deixando as primeiras lágrimas rolarem sobre o seu rosto. Não soube por quanto tempo permaneceu ali, naquele estado deplorável. Só conseguiu ligar o carro quando sentiu as lágrimas secarem em seu rosto e a sua mente adormecer, como se estivesse anestesiado. Então, dirigiu até a sua casa.

Estacionou o carro e fitou a porta de entrada, mas não saiu do carro. A tarde estava se encerrando e o céu já começava a escurecer – Will não se deu o trabalho de se perguntar se tal ocorrência se devia ao fato do dia estar se esgotando mais rápido do que ele percebera ou se era fruto da estação do ano que se aproximava; já que o inverno tinha o poder de encurtar o dia e prolongar a noite. Ele apenas ficou ali, sentado, fitando a porta de sua casa.

Ele estava tão perdido em seus próprios pensamentos que não notou o momento em que seu pai estacionou o seu carro à vaga ao lado do carro de Will, desceu do carro e veio a bater três vezes a janela da porta do motorista do carro de Will. Com um sobressalto, Will virou o rosto na direção da janela e viu o seu pai parado ao lado da porta de seu carro, o observando atentamente. Will desligou o carro – algo que ainda não havia feito – e abriu a porta, saindo deste, cabisbaixo.

--Você está bem? – O sr. Darcy questionou, tentando olhar o filho nos olhos.

--Não. – Will murmurou em resposta, fitando o pai nos olhos brevemente.

            O sr. Darcy conseguiu detectar alguns vestígios de lágrimas ainda em seus olhos e preferiu não se aprofundar naquele assunto; pelo menos, por enquanto. Então, disse-lhe.

--A sua irmã me fez ir à locadora e alugar um filme para nós assistirmos... – Disse-lhe isto exibindo a sacola da vídeo locadora em mãos. – Mas eu acho melhor você ir para o seu quarto e permanecer por lá, se quiser... – Ao que Will agradeceu mentalmente. – Eu falarei com a sua mãe e ela cuidará para que o seu jantar seja levado ao seu quarto mais tarde.

            E, em um mudo entendimento, pai e filho entraram em casa. Cada um seguindo caminhos opostos assim que cruzaram com a escada que levaria aos quartos.

            Um pouco mais tarde, Richard, George e Charles apareceriam à casa de Will, mas a sra. Darcy os mandaria embora sem deixá-los ver Will. Garantindo aos meninos que seria melhor deixá-lo só por enquanto. No dia seguinte eles poderiam conversar com Will à escola.

________________________

  Elizabeth parou à entrada da sala de estar de sua casa ao ouvir a voz de Charles e Jane, conversando sobre ela e Will ao sofá da sala. Desejou haver uma forma de passar por eles, subir a escada e ir ao seu quarto sem ser notada por eles. Mas era impossível; terminaria sendo vista por um deles, senão pelos dois.

--...Honestamente, eu nunca vi Will gostar de alguém tanto quanto ele gosta de Lizzie... – Charles dizia, condolente.

--Eu nunca vi a minha irmã gostar de ninguém como ela gosta de Will, tão pouco... E é por isso que eu acho que esta armação não vai dar certo. – Jane explicava. – Eu conheço a minha irmã... Enganá-la para que ela vá se encontrar com ele não é a melhor forma de conseguir que ela o perdoe. – Jane insistia com o seu argumento, pela terceira ou quarta vez.

Por mais que explicasse a Charles por que preferiu não os ajudar a armar para Elizabeth ir se encontrar com Will, ele ainda acreditava que Jane estava guardando alguma mágoa de Will por ter terminado com a sua irmã da forma que o fez e por isso não quis ajudá-lo a reatar com Elizabeth.

--Ela só se sentirá mais traída... – Jane completou.

 Elizabeth deu meia volta, aproximou-se da porta e saiu varanda a fora, fechando a porta de sua casa com o devido cuidado para que ninguém a escutasse. Afastou-se da porta para não escutar mais nada do que os outros dois diziam, desceu os três degraus da varanda e saiu pelo jardim de sua casa. Deu a volta entorno da casa e atravessou o jardim lateral, aproximando-se do balanço à copa da árvore que conseguia ver da janela de seu quarto.

Fazia alguns anos desde a última vez que se refugiou neste balanço; pelo que podia se lembrar, tinha doze anos quando brigara com a sua mãe e decidira sair de casa. Mas, como não tinha outro lugar para ir, restringiu-se a ficar ao jardim da sua própria casa, sentada àquele balanço por mais de cinco horas.

Sentou-se ao balanço e segurou as correntes de ferro, balançando-se vagarosamente. Ela não estava usando luvas quando saiu de casa, por isso as suas mãos estavam em contato direto com a corrente de ferro do balanço – a qual estava gelada, por causa do clima frio daquela estação. O céu logo começou a escurecer, assumindo tonalidades acinzentadas, azuladas e negras. O frio apenas aumentava com o chegar do crepúsculo.

Elizabeth somente decidiu entrar em casa quando os seus dedos começaram a ficar recheados por causa do frio. Então, ergueu-se do banquinho e atravessou o jardim, seguindo em direção ao quintal, entrando em casa pela porta dos fundos. O contraste das temperaturas foi instantâneo; assim que entrou em casa, foi acolhida por um ambiente aquecido e confortável.

Atravessou a cozinha, passou rapidamente pela sala de jantar e já estava a sala de estar. Não encontrou nenhum membro de sua família, ou visita. Subiu a escada e entrou em seu quarto, fechando a porta às suas costas. Despiu-se do casaco jeans e seguiu para o banheiro, despindo-se das outras roupas também. Tomou um banho quente bastante demorado; colocou um conjunto de moletom grosso, deitando-se em sua cama logo em seguida.

Jane surgiu em seu quarto um pouco depois, encontrando-a deitada. Elizabeth não estava chorando, estava apenas quieta. Jane fechou a porta do quarto e veio sentar-se à beirada de sua cama, sem desgrudar os olhos de sua irmã caçula um segundo sequer. Quando falou, tinha um tom preocupado em sua voz.

--Como foi a conversa? – Sem fingimentos ou dissimulações.

--Não foi... boa. – Elizabeth replicou, aparentando conformidade.

--Eu sabia que não ia dar certo. – Jane replicou. – Ele devia ter tentado conversar com você sem este tipo de artimanha.

--Não daria certo de forma alguma. – Elizabeth comentou, ainda sob o olhar atento de Jane. – Mas eu estou... – Ela precisou procurar em sua mente pela palavra certa, porque “contente” não era a palavra adequada para descrever como ela estava se sentindo. – aliviada... que nós finalmente conseguimos colocar um ponto final nesta história.

--Então, ... vocês não vão reatar? – Jane questionou, apreensiva.

--Não. – Elizabeth respondeu, decisivamente. – Não vamos.

______________________________

A sra. Darcy entrou no quarto de seu filho naquela manhã de segunda-feira. Ainda o encontrou deitado em sua cama, totalmente coberto com o edredom. Aproximou-se de sua cama e inclinou-se sobre a montanha que deduzia ser ele, o sacudiu lentamente ao chamar pelo seu nome. Ouviu um resmungo em resposta, enquanto ele se revirava em sua cama.

Ela aguardou alguns minutos, esperando que o seu rosto surgisse por debaixo da coberta em algum momento. Mas quando isto não ocorreu, o sacudiu mais uma vez, voltando a chamar por ele.

--Will, querido, acorde. – A sra. Darcy insistiu. – Você precisa ir à escola. – Finalmente conseguindo com que ele retirasse a coberta de sua cabeça e a olhasse.

--Eu não quero ir à escola. – Will disse, decididamente.

            A sra. Darcy o fitou por um momento. Normalmente, sequer cogitaria permitir que ele cabulasse a escola por qualquer motivo. Mas, como uma mãe, era difícil ver o seu próprio filho naquele estado e ainda permanecer inflexível. Sentou-se a beirada da cama e ponderou sobre aquele pedido. Will notou a sua atitude e soube, imediatamente, que a sua mãe estava tentando se decidir se permitiria que ele permanecesse em casa. Continuou a observá-la, aguardando o seu veredicto.

            A sra. Darcy já tinha visto o seu filho sofrer uma decepção antes, mas nada parecida com esta. No ano anterior a este, o viu se envolver em brigas e diversas situações complicadas por causa de uma garota. Mas nada do que passara no ano passado se comparava a este tipo de desolação que via estampado em seu rosto.

Com Madison, a sra. Darcy sabia, nunca existiu um sentimento profundo por parte dele, um verdadeiro envolvimento. Toda a sua revolta se restringiu ao seu orgulho ferido. Com Elizabeth, ao contrário, estava evidente que era paixão; ela até considerava a possibilidade de ser o primeiro amor de seu filho e, conseqüentemente, a primeira vez que ele tinha o seu coração partido também.

            Por isso, disse-lhe.

--Só por hoje. – Ao se erguer da cama e caminhar em direção a porta do quarto. – Mas... tente sair da cama. –Aconselhou-o, antes de sair do quarto e fechar a porta às suas costas.

            O sr. Darcy acabou assumindo a função de levar Georgiana à escola, ao tomar conhecimento que Will ainda estava se sentindo indisposto e não iria a escola aquela manhã através da sua esposa. Georgiana quis saber por que Will não iria a escola e a sra. Darcy apenas respondeu-lhe que ele houvera adoecido, um leve resfriado.

Georgiana desconfiou de tal desculpa, porque não o vira espirrar em momento algum durante aquele fim de semana. Mas preferiu não discutir o assunto, já que nesta estação do ano os resfriados eram ocorrências constantes. Apenas, invejou o irmão. Queria poder ficar em casa, deitada em sua cama e assistir televisão o dia inteiro.

_____________________________

            Elizabeth cruzou os portões da escola na companhia de Jane e as irmãs seguiram calmamente pelos corredores até as suas respectivas salas. Como as semanas anteriores, os cochichos e olhares indiscretos de seus colegas de escola a seguiam pelos corredores e, até mesmo, dentro da sala. Parecia-lhe que a curiosidade dos demais havia se acentuado desde a festa do Hallooween, e não pretendia fingir não saber o motivo. Afinal, ela e Will tenham dado um grande espetáculo em tal ocasião. Entretanto, já estava mais que farta de toda aquela situação.

            Não demorou muito para Charlotte aparecer à porta de sua sala – após ter se encontrado com Jane – e tentar conversar com ela sobre os eventos da tarde anterior. Elizabeth não se negou a sair da sala e procurar um canto reservado da área de recreação do primário para que as duas amigas pudessem conversar a vontade.

--Você está chateada comigo, não está? – Foi a primeira pergunta de Charlotte.

--Decepcionada. – Elizabeth respondeu, após um longo minuto de ponderação.

--Desculpe-me, Lizzie! – Charlotte se apressou a pedir, após ouvi-la dizer-lhe tal coisa com tanta sinceridade. – Eu só... Eu vi como você se sente com relação a ele... e vi como ele se sente com relação a você... Eu só pensei que... se vocês reatassem... tudo ficaria bem de novo!

--Eu sei. – Elizabeth respondeu. – Mas não posso evitar me sentir... traída ...por você. – Ela completou, olhando a amiga nos olhos. – Eu até esperava que Richard e Charles pudessem tentar algo do tipo, porque antes de serem meu amigo e namorado da minha irmã, eles são o primo e melhor amigo de Will... Mais do que evidente que eles iam tomar o partido dele!

--Mas eu não tomei partido de Will, Lizzie! – Charlotte correu a se explicar. – Tomei o seu!

--Como?! – Elizabeth a questionou. – Me encurralando? Atirando-me na presença dele sem um aviso?! – Charlotte não sabia como responder a estas acusações; jurava que as suas ações tinham sido com boas intenções. – Como minha amiga, eu esperava um pouco mais de consideração da sua parte para com os meus sentimentos!

--Eu os considero! Foi pensando nos seus sentimentos que eu agi da forma que agi! – Charlotte argumentou. – Eu queria lhe ver feliz de novo! – Elizabeth fitou a amiga nos olhos e permaneceu calada, dando a oportunidade para Charlotte continuar a se explicar; entendendo a atitude de Elizabeth, Charlotte prosseguiu. – Se você houvesse visto a forma que ele ficou quando você foi embora, na festa do Hallooween... Ele estava tão desolado, Lizzie!

--Ele? – Elizabeth inquiriu, sentindo seus olhos se encherem de lágrimas. – Ele estava desolado, Charlotte?! – E Charlotte pode detectar certo grau de ironia na voz dela. – E quanto a mim, Charlotte?! – Quando sentiu uma lágrima lhe escapar os olhos Elizabeth apressou-se a limpá-la.

            Logo decidiu que aquela conversa só lhe renderia a um estado de tristeza inconsolável e não queria dar mais um show para ninguém. Então, tentou encerrar aquela conversa.

--Olha, deixa isso para lá. – Tentando retornar para sua sala. – Esquece!

--Mas você continua chateada comigo! – Charlotte disse, acompanhando-a. – E não é justo! Eu só queria ajudar, como você me ajudou com Richard! – Charlotte argumentou, conseguindo parar Elizabeth e fazer com que ela voltasse-se para olhá-la.

--Aquilo foi tão diferente! – Elizabeth exclamou. – Quando você escolheu namorar David, eu procurei conversar com você e não... armei uma situação,... como trancar você e Richard em um armário por horas até que você percebesse que era ele o cara certo para você e não David... Embora, eu tenha cogitado esta possibilidade! – Elizabeth argumentou, já ficando um pouco exaltada. – Eu respeitei a sua decisão, as suas escolhas... E você não respeitou as minhas! – Elizabeth fez uma pausa para se acalmar; não queria brigar com Charlotte, realmente não queria. – Eu não quero discutir com você e nem vou deixar de falar com você por causa disso, mas... eu não posso evitar me sentir do jeito que eu me sinto.

            E, dizendo isto, retomou os seus passos, voltando para a sua sala de aula. Charlotte teve atitude igual e seguiu para a sua sala, pensando nas palavras de Elizabeth. Ainda acreditava que tinha agido certo, pois tudo o que fizera foi porque estava preocupada com a amiga e queria vê-la melhor, feliz. Mas ficou ainda mais chateada ao perceber que, ao invés de alegrar a amiga, apenas a tinha deixado mais triste e magoada.

            Após o primeiro período de aula, Catherine e Lydia também quiseram conversar com Elizabeth sobre Will, mas não houve espaço para diálogo. Elizabeth tinha se decidido a não discutir com mais ninguém a respeito dele, deixando isso bem claro para todas as amigas. As suas amigas respeitaram a sua decisão, mas ela não conseguiria impedir seus demais colegas de escola de mencionar o nome dele, embora desejasse poder fazê-lo.

Todos os tipos de rumores já estavam circulando pelos corredores da escola correlacionados ao motivo da sua ausência de Will a escola neste dia – todos eles resumiam-se a Elizabeth, de um jeito ou de outro. E, embora não desejasse, não conseguia deixar de se sentir culpada. Não queria fazê-lo sofrer, por isso tomara a decisão que tomara. Não queria que nenhum dos dois se machucasse mais e realmente acreditava que tinha tomado a decisão certa. Mas ainda se sentia responsável.

  A sua agonia só aumentou quando Richard a procurou. Ela já esperava por esta abordagem, então tentou se refrear. Mas era difícil se controlar quando todos pareciam estar a crucificando, esquecidos de o quanto ele a magoou. O que só a fazia sentir-se com raiva de Will; afinal, ele não tinha vindo à escola, tinha escolhido se esconder. Enquanto ela estava ali, servindo de alvo para todos, bombardeada por todos os lados. 

--...ele fez muitas besteiras, eu sei. – Richard argumentava. – Mas ele é apaixonado por você, Lizzie! Como ele nunca foi apaixonado por nenhuma garota antes! – Ele a fitou nos olhos, enquanto Elizabeth teimava em transmitir aquele ar impassível. – E mesmo que você ache que eu não lhe conheço há bastante tempo para dizer isso com muita convicção, eu estou certo de que você sente o mesmo! – Ele defendeu o seu ponto de vista com paixão.

--Eu não vou tentar fingir que você está errado, Richard. – Elizabeth respondeu, surpreendendo Richard. Não esperava que ela admitisse que ainda gosta de seu primo, esperava que ela tentasse negar. – Eu só... estou cansada! ...Desde que eu conheci o seu primo, eu me sinto confusa, perdida, magoada... A gente briga mais que qualquer outra coisa. – Elizabeth argumentou, tentando deixar o seu ponto de vista bem claro. Não pretendia ter esta conversa uma segunda vez. – Nós não conseguimos nos entender e por causa disso acabamos agindo da pior forma possível, fazendo aquilo que sabemos, muito bem, irá magoar o outro! – Richard permaneceu calado enquanto ela se explicava. – Eu finalmente entendi o que você me disse há alguns dias… Todo mundo tem o seu limite e eu alcancei o meu! Eu não vou insistir no mesmo erro! – Elizabeth concluiu.

--Não! Está cometendo um pior! – Richard rebate, exasperado. – Você irá se arrepender, Lizzie! Acredite em mim!

            Elizabeth não via à hora desta manhã terminar e ela poder voltar para casa. Até mesmo George tinha algo a lhe dizer a respeito de Will este dia.

--Foi minha culpa. – George garantiu, pronto para aceitar qualquer recriminação da parte dela. – Fui eu quem encheu a cabeça de Will de asneiras e o fiz terminar com você!

--Eu sei... – Elizabeth respondeu, serena. – Engraçado, não? Enquanto eu convencia Lydia a terminar com Mark, porque ela sempre gostou de você, você estava convencendo Will a terminar comigo! – Elizabeth não pretendia ser mordaz com ele, mas não conseguiu evitar; há muito se cansara de ter de se explicar com todos. – Irônico, não acha?! – E, dizendo isto, afastou-se de George, deixando-o se sentindo ainda mais culpado.

            À hora do intervalo, quando todos se reuniram a uma mesa do refeitório para lanchar, o clima entre aquele grupo era o mais triste, abatido e silencioso que já houvera sido antes.

_________________________

            Quando Georgiana chegou da escola e procurou o seu irmão à sala de jogos, esperando encontrá-lo aproveitando a sua “folga” para jogar videogame, não o encontrou lá. Procurando Mirian e inquirindo por ele, imaginando que ela lhe informaria que ele resolveu sair para passear – já que seus pais não estavam por perto para descobrir que ele não estava doente, mas apenas fingia estar para não precisar ir à escola – e foi informada que ele não saiu de seu quarto momento algum esta manhã.

            Estranhando tal comportamento, cogitou a possibilidade de Will estar verdadeiramente gripado. Foi até o quarto do irmão e o encontrou deitado em sua cama – cama desfeita, edredom atirado para longe, lençóis desorganizados e Will abraçado ao seu travesseiro, deitado de costas para a porta. Georgina chamou por ele e Will virou-se em sua direção, lentamente. Inquiriu-lhe se ele estava se sentindo bem.

--Estou. – Will replicou.

            Georgiana notou que os olhos de Will estavam inchados e vermelhos, também notou que a sua voz estava estranha, mais rouca e abafada que o normal. Logo mudou de idéia quanto o seu desejo de ter passado a manhã em casa, como ele. Will parecia mesmo estar doente, estava com uma aparência horrível – “parece um bagaço!”, ela pensava, ao fitá-lo de forma piedosa.

--Quer que eu peça a Mirian para preparar um chá para você? – Questionou-lhe, aproximando-se dele. – Está com dor de cabeça? – Colocou a mão sobre a sua testa, numa tentativa de descobrir se ele estava com febre.

--Eu estou bem, Georgiana. – Disse isso retirando a mão dela de sua testa. – Não preciso de nada. – E voltou a virar-se para o outro lado, fechando os olhos.

--Está certo. – A irmã disse, voltando para a porta do quarto. – Descanse, então. – Recomendou, ao sair e fechar a porta.

            Quando sua mãe chegou, disse-lhe que Will não estava nada melhor. Que talvez fosse bom chamar um médico para examiná-lo. Mas a sra. Darcy não pareceu estar tão preocupada com o que ouvia, ou pelo menos acreditava que não era necessário chamar médico algum. Visitou o filho em seu quarto brevemente antes do almoço e o convenceu a tomar banho, para que se juntasse a elas e almoçassem juntos.

            Quando estava indo para a sua clinica àquela tarde, ao abrir a porta, deparou-se com George, Richard e Charles. Sorriu para os meninos e os deixou entrar. Disse-lhes que encontrariam Will à sala de jogos – onde o deixara, após insistir muito para que ele não retornasse a se trancafiar em seu quarto – e, despedindo-se, seguiu para a sua clinica.

Todos os meninos notaram que Will, embora já bem vestido e com os cabelos devidamente penteados, ainda tinha uma aspecto terrível. Estava cabisbaixo, ombros curvados e os olhos ainda estavam inchados. A princípio aquela imagem os intimidou um pouco, deixando-os sem reação. Mas logo Richard assumiu o controle do seu espanto e decidiu seguir adiante com o seu propósito de vir ali. Então, começou a lhe contar, ainda de pé, o que conversara com Elizabeth aquela manhã. 

--… e ela disse que não ia tentar negar… - Richard relatava. – O que, indiretamente, é o mesmo que confessar que gosta de você.

--Jane disse que nunca tinha visto Lizzie gostar de alguém antes como ela gosta de você. – Charles comentou, recebendo o olhar dos três meninos. – Que acreditava, apenas, que a forma que encontramos para que vocês dois conversassem é que foi equivocada. – Completou, permitindo que Richard voltasse a falar.

--Então, você só precisa conversar com ela em outro momento, ...desculpar-se de novo. – Richard aconselhou, tomando o comentário de Charles como uma evidência de que estava certo.

--Não. – Will murmurou, mas os três meninos conseguiram ouvi-lo.

--Não? – George questionou, duvidando que houvera escutado direito. – Por que não?!

--Você não ouviu o que eu acabei de dizer? – Richard interpelou, exasperado. – O que nós acabamos de dizer? Lizzie gosta de você!! – Completou, emocionado.

--Eu sei que ela gosta! – Will rebateu, da mesma forma. – Ela me disse isso pessoalmente. – Explicou, o que só serviu para confundir ainda mais os meninos!

--Então, por que você está assim? – George inquiriu. – Richard está certo; você só precisa se desculpar!

--Nós podemos... – Richard começou a arquitetar mais um de seus planos, mas Will o interrompeu antes que ele se prolongasse.

--Não! – Bastante decidido. – Eu vou deixá-la em paz! – Deixando os amigos atônitos. – Nós vamos deixá-la em paz!! – Exclamou, autoritariamente, olhando cada um dos meninos nos olhos.

--Will!! – Richard e Charles exclamaram em união. Mas Will não lhes deu chance de falar, os interrompendo mais uma vez.

--Ela chorou! – Ele disse; o sentimento de culpa estava claramente evidente em seu tom de voz. – Lizzie chorou... em minha frente. – Silenciando os meninos, deixando-os perplexos com aquela revelação. – Eu a fiz chorar!

            Richard não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Não conseguia imaginar Elizabeth chorando, não a Elizabeth que conhecia! A Elizabeth que vira derrubar David com um soco, a mesma que houvera rendido o seu primo sem palavras milhares de vezes enquanto discutiam. A idéia de que ela não só chorou, mas, também, permitiu que Will a visse chorando é bastante perturbadora. 

--Will... – Mas Charles ainda não quis se dar por vencido.

--Não, Charles! – Will, no entanto, estava irremediável. – Ela chorou! – Repetiu, com veemência. – E se fosse Jane? – Interrogou o amigo. – O que você faria se ela chorasse em sua frente... por causa de algo que você fez a ela?! – Silenciando Charles pela segunda vez. – Eu não vou mais fazê-la chorar! – Will concluiu, decididamente. – Eu vou deixá-la em paz! ...E vocês também!!! – Ordenou logo em seguida.

 

 

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