Na manhã de sexta-feira, Elizabeth saiu bem cedo, sem conseguir concentrar-se em nada além dos eventos da tarde anterior. Ela lembrava-se da amabilidade das palavras do Sr. Darcy e começou a sentir compaixão pelo sofrimento que agora ele devia estar sentindo. Ela começou a ter dúvidas se houvera sido muito dura ao expressar a sua rejeição e desaprovação.
Ainda assim, aprofundando-se nas lembranças, deixou de sentir pena dele ao pensar na maneira ofensiva com que ele havia se dirigido a ela. Estava certa de que os sentimentos que ele alegou impedi-lo de desejar aprofundar seu relacionamento com ela por tanto tempo o ajudariam a superar a sua rejeição, e ele logo estaria agradecido por ter conseguido escapar tal destino, no qual estaria preso por causa de sua ação imprudente e tola.
Elizabeth sabia que as suas palavras de afeição houveram sido sinceras e não conseguia conciliar estes sentimentos com os de desgosto que ele demonstrou sentir ao imaginar-se se ligando a ela. Ela se deixou vagar por estas idéias por um bom tempo e depois desistiu de entendê-lo.
Quando Elizabeth retornou a casa depois de ter andado sem rumo pelo bosque por mais de uma hora, ela encontrou o Sr. e a Sra. Collins, com expressões severas, concentrados no que lhe pareceu uma conversa muito séria ao hall de entrada. O seu objetivo era passar por eles sem ser notada e ir para o seu quarto, para não perturbá-los, mas Charlotte a chamou.
"Sim, Charlotte?" Ela disse, parando por um momento para fitar a amiga.
Charlotte, olhando para o seu marido, respondeu: "Nós acabamos de receber noticias terríveis de Rosings."
Sr. Collins parecia que estava prestes a interrompê-la quando ela ergueu a sua mão e disse: "Meu caro, Lady Catherine está esperando por você. Eu me juntarei a você em Rosings em um instante."
Sr. Collins deixou a sala e, logo em seguida, a casa o mais rápido possível, deixando as duas damas sozinhas. "O que aconteceu, Charlotte?"; perguntou Elizabeth, preocupada.
"É o Sr. Darcy. Ele caiu do cavalo ontem à noite e machucou a cabeça." Elizabeth deixou escapar uma exclamação de alarme. "Parece que ele estava cavalgando até muito tarde. Ele nos deixou logo após o jantar ontem à noite e ainda não havia retornado até o momento em que saímos de Rosings. Aparentemente, Coronel Fitzwilliam esperou por ele por muitas horas e, quando ele não apareceu, o Coronel foi a sua procura e o encontrou deitado no chão, no bosque. Coronel Fitzwilliam não soube explicar por que o Sr. Darcy iria cavalgar pela floresta no escuro. Foi um ato impensado da parte dele."
Elizabeth afundou-se na cadeira mais próxima e, com uma falsa calma, perguntou: "Como ele está?"
"Ele ainda não acordou. O boticário já o examinou e Lady Catherine já mandou buscarem um médico em Londres, assim como a srta. Darcy. Eles chegarão esta noite. Sr. Simmons acredita que a situação é bastante grave e disse que tudo depende de quando o Sr. Darcy acordar. Somente quando ele acordar será possível determinar a extensão de seu ferimento."
Elizabeth estava abalada com esta noticia e estava completamente sem palavras. Charlotte continuou: "Você deseja me acompanhar até Rosings? Maria decidiu permanecer em casa, ela acabou de ir ao jardim um pouco antes de você chegar."
"Eu acredito que a minha presença não trará nenhum consolo ou assistência àqueles em Rosings, eu só atrapalharia. Eu permanecerei aqui, mas lhe imploro para que me avisem se houver algo que eu possa fazer."
"Mas é claro" respondeu Charlotte, antes de sair de casa e seguir o seu marido.
Elizabeth passou o resto do seu dia com pensamentos inquietos. Ela não conseguiu ficar um segundo quieta com as suas costuras ou pode servir de companhia a Maria por muito tempo. Ela passou muitas horas do seu dia ao ar livre, mas não conseguiu tirar o Sr. Darcy de seus pensamentos. Ela estava sobrecarregada com sentimentos de culpa e remorso. Ela se recriminava várias vezes por ter se deixado guiar por sentimentos de raiva e por ter expressado sua rejeição ao homem em termos tão violentos, que o levaram a se comportar irracionalmente.
Como ela pôde acreditar que a desaprovação dele com relação aos seus próprios sentimentos por ela poderia sobrepor-se a paixão que ele sente por ela a ponto de impedi-lo de sentir alguma dor com as palavras que lhe dirigira? Ela tinha presenciado a força de seus sentimentos em seus olhos, em suas palavras e em seu próprio comportamento. Eles foram profundos o bastante para superar as objeções dele, com as quais ele lutara com todas as suas forças; ele não lhe afirmara isso pessoalmente?
Sentimentos como estes não conseguem suportar tamanha hostilidade, como a que ela liberou sobre ele. Por que ela não pode ser mais reservada em sua forma de se expressar? Cada nova avaliação de suas palavras e ações na noite anterior trouxe-lhe mais vergonha e mortificação.
À noite de sexta, os Collinses retornaram com noticias de que a condição do Sr. Darcy não havia sofrido nenhuma alteração e de que o médico e a Srta. Darcy tinham chegado de Londres. Sábado, eles deixaram a casa cedo novamente. Elizabeth estava determinada a manter seus pensamentos em algo mais produtivo de que no dia anterior. Ela não acreditava que poderia lidar com os sentimentos de culpa pela situação em que o Sr. Darcy se encontrava. Ao invés disso, ela concentrou-se em preces para que ele se recuperasse, para que ele estivesse fora de perigo.
Enquanto ela caminhava pelo parque no inicio daquela tarde, Elizabeth ficou surpresa ao encontrar-se com o Coronel Fitzwilliam. "Srta. Bennet."; ele disse, com uma voz agitada.
"Coronel Fitzwilliam, como está o seu primo? A condição dele melhorou de alguma forma?"
Ele a olhou com bastante atenção por um momento e disse, "Nós temos razões para ter fé de que ele irá melhorar. Mais cedo esta manhã, quando a srta. Darcy e eu estávamos em sua companhia, ele começou a se mover e nós pensávamos que ele acordaria. Ele apenas proferiu uma palavra e voltou a cair em sono profundo, do qual nós não fomos capazes de acordá-lo novamente."
Elizabeth ficou emocionada com esta pequena esperança, porque lhe trouxe um pouco de alivio aos sentimentos de culpa que resguardava. Seu amigo, no entanto, interpretou de outra forma a sua evidente satisfação com tal noticia. "Estas são noticias verdadeiramente maravilhosas, não são? O que disse o médico a respeito disso?"
"O médico está esperançoso. Ele acredita ser possível que o meu primo acorde completamente hoje. Há algo que nós acreditamos que poderá ajudar trazer Darcy de volta para nós."
"Então eu espero que os esforços do médico sejam bem sucedidos."
"Eu vim a sua procura justamente para pedir a sua assistência neste assunto."
"Eu ficarei feliz em ajudar no que for possível para que o Sr. Darcy se recupere, mas eu não consigo imaginar em que eu possa ser de muita assistência."
"Srta. Bennet será que eu não posso lhe convencer a ir comigo até Rosings e vê-lo?"
"Este é um pedido estranho, Coronel Fitzwilliam, e eu me pergunto o que o levaria a vir me procurar, de todas as pessoas, para ir visitar o seu primo. Mas seria impróprio para eu entrar nos aposentos do Sr. Darcy, e"; Ela hesitou por um momento, "eu não acredito que a minha presença traria a ele nenhum conforto."
Coronel Fitzwilliam deixou escapar um longo suspiro e disse "Srta. Bennet, você precisa saber que a única palavra que Darcy disse hoje foi 'Elizabeth. '"
Elizabeth dirigiu um olhar penetrante a ele quando ele lhe disse tal coisa. Seu olhar, que transpareceu preocupação e cansaço, estavam implorando a ela. Enfim, ela respondeu: "Eu acredito que o senhor compreendeu algo de errado, Coronel Fitzwilliam. O senhor deve saber que se houvesse algo que eu pudesse fazer por seu primo, eu o faria, mas eu sei que a minha presença trará o efeito oposto ao que o senhor deseja."
"Não há nada que eu possa lhe dizer para que a senhorita mude de idéia?"
"Eu não quero ser responsável por tornar a condição dele ainda pior. Eu acredito que ele terá mais chances de se recuperar se eu me mantiver longe de Rosings o máximo possível."
"Entendo." Disse o Coronel Fitzwilliam, antes de se despedir e retroceder os seus passos.
Uma hora mais tarde, Elizabeth e srta. Lucas estavam na sala de estar. Elizabeth continuava a ter pensamentos tumultuosos, enquanto tentava se concentrar em seu trabalho de costura. Quando o som de carruagem pode ser ouvida, ela desejou que quem quer que fosse estivesse trazendo boas noticias. Logo, o Coronel Fitzwilliam e a srta. Darcy foram anunciados.
Coronel Fitzwilliam apresentou a srta. Darcy as damas e depois convidou a srta. Lucas a dar um passeio com ele pelo jardim. Quando elas estavam sozinhas, a srta. Darcy dirigiu um olhar tímido a Elizabeth.
Elizabeth tentou iniciar uma conversa, "Srta. Darcy, eu estou muito feliz em conhecê-la. Eu ouvi coisas maravilhosas a seu respeito." Ela fez uma pausa e depois disse: "Eu sinto muito pelo estado em que se encontra o seu irmão. Eu espero que ele melhore logo."
"Obrigada." Srta. Darcy murmurou em resposta, os olhos dela cheios de lágrimas. Então, reunindo toda a sua coragem, ela completou, "Eu estou muito feliz em conhecê-la também. Eu tenho desejado poder conhecê-la há algum tempo. O meu irmão falou muito bem a seu respeito."
Srta. Darcy falou como se fosse um grande esforço proferir todas aquelas palavras. Elizabeth começou a perceber que a menina era muito tímida, e qualquer que fosse o seu propósito em vir até ali, deve ser um motivo muito importante porque estava evidente que ela precisou de muita coragem para fazê-lo. Elizabeth ficou surpresa ao saber que o Sr. Darcy houvera falado sobre ela para a sua irmã e começou a se perguntar se ele houvera confessado a profundidade de seus sentimentos por ela.
"Eu só queria que nós pudéssemos ter nos conhecido em uma situação mais agradável."
"Assim como eu." Garantiu a srta. Darcy. Então, após uma pausa, em que respirou fundo, ela disse: "Eu vim aqui para implorar que a senhorita reconsidere a sua decisão em não vê-lo."; tão rapidamente que demonstrou o seu desejo de parar de falar o mais depressa possível.
"Srta. Darcy," disse Elizabeth, com compaixão pela pobre garota, "eu faria qualquer coisa que estivesse em meu poder para acelerar a recuperação dele, mas eu realmente acredito que a minha presença só servirá para piorar a sua condição. Eu temo que nós não estávamos nos dando muito bem quando nos falamos pela última vez."
A srta. Darcy ficou em silêncio por um bom tempo mais uma vez e parecia-lhe que ela estava enfrentando uma luta interna. Enfim, ela disse, com a voz falhando: "Srta. Bennet posso ser sincera com a senhorita?"
"Mas é claro."
"Eu não sei o que há entre a senhorita e o meu irmão, mas eu sei que, após um dia e duas noites dormindo, ele acordou e falou o seu nome esta manhã, de todas as palavras que ele poderia ter dito. Eu não posso deixar de imaginar que a mente dele esteja repleta de pensamentos da senhorita. E se este for o caso, então há a possibilidade de que a senhorita possa alcançá-lo. Ele sempre fez tudo por mim, e agora, neste momento de necessidade, eu sou incapaz de ajudá-lo. Não há mais nada que eu possa fazer a não ser tentar persuadi-la de ir vê-lo. A senhorita é a nossa única esperança, srta. Bennet. A senhorita não tentará nos ajudar? A senhorita não virá conosco e tentará falar com ele?"
A esta altura, lágrimas estavam rolando pelo rosto da Srta. Darcy. O seu pedido foi tão emocionado e a sua afeição pelo seu irmão tão sincera, que Elizabeth não pode evitar se sentir tocada. Elizabeth segurou a mão da Srta. Darcy e disse: "Muito bem, eu tentarei."
Srta. Darcy sorriu e começou a enxugar as lágrimas de seu rosto. Elizabeth a deixou se recompondo enquanto ia à busca do Coronel Fitzwilliam ao jardim. Quando ele a viu, ela pode ler a pergunta em seus olhos. Ela lhe respondeu ao dizer: "Parece-me que eu estarei acompanhando o senhor e Srta. Darcy a Rosings, senhor."
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