Citações

A metade do mundo não entende os prazeres do outro. (Jane Austen)

Capítulo 3

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Elizabeth ficou feliz ao ver a sua nova amiga ainda estava animada no Domingo à igreja. Depois dos sermões, o grupo de Hunsford conversou rapidamente com o grupo de Rosings e tomaram conhecimento de que o Sr. Darcy continuava a melhorar. Enquanto os outros conversavam, Elizabeth perguntou a Srta. Darcy reservadamente: "Eu espero que o Sr. Darcy tenha estado bem esta manhã.”

"Sim, obrigada."

"Eu sinto muito que a senhorita não teve oportunidade de permanecer com ele ontem, após ele ter acordado. Eu temo que a minha presença lá a tenha privado dos primeiros momentos com ele quando ele acordou."

"Oh não fique preocupada, porque eu passei o resto da noite com ele após a partida de todos vocês. Nós conversamos por muito tempo. Ele me pareceu muito com o seu antigo eu."

Elizabeth sorriu, "Deve ser um grande alivio para a senhorita vê-lo melhor."

"É um grande alívio para todos nós, tenho certeza."

Depois de retornarem da igreja, os Collinses foram diretamente para Rosings, e Elizabeth permaneceu em casa com a Srta. Lucas.

Mais tarde no mesmo dia, a Srta. Darcy e o Coronel Fitzwilliam foram visitar Elizabeth. A intenção da Srta. Darcy nesta visita foi a de agradecê-la apropriadamente por ter trazido o seu irmão de volta para ela. Depois de conversarem por uns minutos, a Srta. Darcy aventurou-se a dizer: "Ele ficou decepcionado ao não ter o prazer de sua companhia hoje novamente."

"Perdoe-me, Srta. Darcy, eu simplesmente não acho apropriado para eu visitá-lo em seus aposentos."

A Srta. Darcy olhou rapidamente para o Coronel Fitzwilliam, quem disse: "Ele gostaria muito de receber uma nova visita sua e a Srta. Darcy permaneceria com vocês. Não haveria impropriedade alguma."

Elizabeth ia declinar o convite de retornar a Rosings, mas a garantia da Srta. Darcy, no instante seguinte, de que a presença de Elizabeth aceleraria a recuperação de seu irmão fez com que todos os sentimentos de culpa e remorso por ter sido a razão por ele ter se machucado se reacendeu, e ela aceitou. 

Mais uma vez, ao entrar em Rosings, os três evitaram encontrar-se com os demais habitantes da mansão e dirigiram-se diretamente aos aposentos de Darcy. Quando Elizabeth entrou no quarto, Darcy olhou para ela e sorriu. "Aí está você!" Ele disse, olhando para ela com muito carinho, "Eu estava me perguntando o que houvera lhe acontecido."

A Srta. Darcy ocupou aquela mesma cadeira ao canto do quarto e Elizabeth sentou-se a cadeira vaga próxima a cama. Assim que ela o fez, Darcy lhe estendeu a sua mão. Ela hesitou por um momento, mas depois depositou a sua mão sobre a dele suavemente. "O senhor está muito melhor hoje, senhor."

"Já me disseram que a minha aparência está muito melhor hoje, mas, receio eu, que a minha memória me desamparou. Eu consigo me lembrar de muitas coisas, sobre a minha família e a minha vida, mas eu ainda preciso perguntar aos meus parentes sobre várias outras coisas. E há coisas que nem mesmo eles podem me ajudar a lembrar."

Elizabeth ficou surpresa quando o Sr. Darcy levou a sua mão até os seus lábios. Ela olhou rapidamente para a Srta. Darcy, quem estava concentrada em sua costura. Darcy sorriu para ela e disse reservadamente, "Eu temo que não estarei bom rápido o bastante para viajar até Hertfordshire. Eu temo que terei de escrever ao seu pai, ao invés de falar-lhe pessoalmente."

O assombro de Elizabeth estava além de descrições. A princípio, ela não conseguiu entender o sentido de suas palavras. Mas logo não pode se deixar enganar quanto aos seus significados. Ela empalideceu ao tomar conhecimento de que teria de explicá-lo a verdade. Ela teria de magoá-lo mais uma vez.

Ela estava preste a falar, embora não fizesse idéia do que diria, quando ouviu a voz de Lady Catherine à sala ao lado. Ela soltou a mão de Darcy imediatamente e caminhou até a porta, no momento em que Lady Catherine entrava nos aposentos.

"Srta. Bennet, que surpresa encontrá-la aqui." Ela disse.

A Srta. Darcy interferiu e explicou a sua tia que havia convidado Elizabeth para vir lhe fazer companhia. Quando Elizabeth retornou a salinha, encontrou o Coronel Fitzwilliam e, rapidamente, dirigiu-se ao corredor, com a intenção de deixar a propriedade. O Coronel Fitzwilliam, no entanto, a seguiu, chamando por seu nome.

Ela parou ao hall e virou-se, para fitá-lo. "Qual o problema?" Ele perguntou.

Elizabeth estava hesitante em lhe explicar o que estava passando por sua cabeça. Ela não tinha certeza do quanto o Coronel sabia sobre os sentimentos de seu primo com relação a ela e não tinha a mínima intenção de envergonhar o Sr. Darcy ao revelar ao seu primo sobre a sua rejeição.

Se ela permanecesse calada, poderia retornar no dia seguinte e corrigir o mal-entendido, sem que mais ninguém tomasse conhecimento. De repente, no entanto, ela imaginou que se o Sr. Darcy acreditava estar noivo, ele não hesitaria em contar a toda a sua família.

Foi neste momento que ela entendeu o comportamento da Srta. Darcy e do Coronel Fitzwilliam, eles acreditavam que ela e o Sr. Darcy estavam noivos. Se ela esperasse até o dia seguinte, o Sr. Darcy poderá contar a sua tia, ou, ainda pior, escrever para o seu pai antes que ela pudesse impedi-lo.

Tendo decidido que o Coronel Fitzwilliam acreditava que ela e o Sr. Darcy são noivos e sabendo que não teria outra oportunidade de falar com o Sr. Darcy ainda este dia, percebeu que o Coronel Fitzwilliam poderia ser de grande assistência; então, disse: "O Sr. Darcy parece acreditar, senhor, que ele e eu estamos noivos."

A surpresa do Coronel Fitzwilliam foi evidente: "Vocês não estão?"

"Como o senhor pode acreditar que nós estamos? Eu não lhe disse quando soube de seu ferimento de que acreditava que a minha presença em Rosings apenas lhe causaria sofrimento?"

"Sim, mas vocês poderiam estar noivos e apenas terem discutido."

"Nós não estamos noivos, senhor, embora o Sr. Darcy acredite que estamos. Alguém deve contar a ele a verdade. Eu suponho que terei de ser eu. Se vier de outra pessoa, traria maior embaraço para ele."

"Não. Eu lhe imploro para não dizer nada a ele." Ele disse, com emoção.

"Como o senhor me pede para deixar que o Sr. Darcy permaneça enganado?"

"Srta. Bennet, o Sr. Darcy acredita realmente que vocês estão noivos. Eu acreditei ser verdade até este momento, porque ele confidenciou tal noticia a mim ontem mesmo. Ele falou sobre a senhorita afetuosamente. Ele, obviamente, acredita que lhe fez uma proposta de casamento e de que a senhorita o aceitou, e que ele simplesmente não se lembra. A senhorita não pode se ater a uma simples formalidade. Que diferença faria se não houvesse uma proposta de casamento? Não há mal algum em deixar as coisas como estão."

Quando Elizabeth percebeu que o Coronel Fitzwilliam deduziu que o Sr. Darcy não havia feito a proposta de casamento e que, se houvesse feito, ela aceitaria, temeu que teria de lhe revelar toda a verdade, mesmo que odiasse tal idéia. "Coronel Fitzwilliam, o senhor presume além da conta. Não é assim tão simples." Ela desejava que ele não insistisse no assunto.

"Eu não entendo. Por que…" Ele parou de falar de repente, finalmente entendendo as insinuações dela; então, disse: "A senhorita quer dizer que iria recusá-lo?" Ela não respondeu. "Ou já o fez?" Ela continuou em silêncio. "O sonho dele… Aquilo foi o que realmente aconteceu?"

"Ele lhe contou?"

"Ele acredita que tudo não passou de um sonho, mas não me deu muitos detalhes. Ele só me contou que no sonho ele lhe propôs casamento, vocês dois discutiram e a senhorita disse-lhe que o desprezava da forma mais violenta possível. Se esta é a verdade, então deve ter sido por isso que ele estava cavalgando de forma tão imprudente."

"Sim, é tudo minha culpa." Ela disse, sentindo a culpa lhe dominar e as lágrimas começarem a rolar pelo seu rosto.

"Srta. Bennet, a senhorita não pode se culpar."

"Eu fui severa demais e o levei a se comportar de forma irracional, o levando ao estado em que se encontra agora."

"Srta. Bennet, o meu primo é um homem feito, o qual toma as suas próprias decisões. Como a senhorita disse há algum tempo, ele é um homem de bom senso e boa educação. Ele devia saber se cuidar melhor." Percebendo que as lágrimas dela continuaram a rolar pelo seu rosto, o Coronel decidiu tentar outra tática. "Ele não iria culpá-la."

"Oh Ele me culparia sim, se pudesse se lembrar da verdade; eu tenho certeza disso!"

"Ele não culparia. Ele não é assim tão mesquinho e... ele a ama." Ela não respondeu nada. "Ainda assim, eu não entendo porque ele escolheria acreditar que a sua memória é um sonho e crer que algo completamente diferente aconteceu, e que ele somente não consegue se lembrar."

"Porque quando ele acordou eu estava de pé ao lado da sua cama, segurando a sua mão! Eu estava sorrindo para ele, falando com ele e eu não me opus quando ele me chamou pelo meu nome de batismo! Não é de se admirar que ele acredite que estamos noivos, considerando a natureza de seu ferimento. Eu sabia que não deveria ter ido até ele."

"Por favor, não diga isso. É por sua causa que ele finalmente acordou, Srta. Bennet. A situação dele era grave, como a senhorita bem sabe. Quanto ao que a senhorita presume que o levou a acreditar neste noivado, creio eu que faz total sentido. Ele se esqueceu de outras memórias. E o aborrece muito que ele tenha se esquecido do momento em que a senhorita aceitou o seu pedido de casamento."

"Esta é mais uma razão para que eu tenha que corrigi-lo."

"Srta. Bennet, eu só lhe peço para que aguarde até o momento em que ele esteja recuperado para lhe contar que vocês não estão noivos. Eu não creio que ele possa agüentar tal reviravolta em seu estado atual."

As palavras dele fizeram com que Elizabeth pensasse no que a sua rejeição já houvera causado a Darcy. Ela temia magoá-lo de novo, principalmente ele ainda estando adoentado. Entretanto, ela disse: "Eu não posso fingir que estou noiva dele."

"A senhorita estará indo embora do condado em poucos dias. O médico garantiu que os primeiros dias são os mais preocupantes. Ele estará mais forte ao final desta semana. Será que a senhorita não poderia deixar com que ele seja feliz por apenas alguns dias?"

A oportunidade de trazer qualquer tipo de conforto ao Sr. Darcy era muito atraente para Elizabeth, porque a ajudaria a abrandar os seus sentimentos de culpa. Estava em seu poder permitir que ele fosse feliz por alguns dias, ela iria lhe negar isso? Mas a dor dele não seria ainda maior ao saber de toda a verdade depois? Finalmente, ela respondeu: "Ele afirmou que odeia todos os tipos de falsidade."

"Isto é verdade, mas eu não estou lhe pedindo para enganá-lo. Apenas de adiar o momento de contar-lhe que está enganado."

"Mas ele me disse que pretende escrever para o meu pai."

"Eu me assegurarei de que ele não fará isso."

"Tudo bem. Mas se ele continuar a falar comigo sobre o nosso noivado, eu serei culpada de enganá-lo ao não revelar a verdade. E nada o está impedindo de contar a outros." Os argumentos dela estavam enfraquecendo e a sua decisão se esvaindo.

"Por favor, Srta. Bennet, eu só estou lhe pedindo para dar-lhe alguns dias, para esperar até sexta-feira para contar-lhe a verdade."

Enfim, ela cedeu: "Muito bem, Coronel Fitzwilliam, eu não contarei a verdade a ele por enquanto, mas somente porque não desejo atrapalhar a sua recuperação. Mas o senhor não pode ficar esperando que eu venha aqui sempre, para lhe fazer companhia. Eu pude perceber que a sua tia ficou muito irritada com a minha presença aqui hoje."

''Ele estará esperando vê-la. Eu espero que a senhorita aceite passar algum tempo com ele. “Quanto a minha tia, não se preocupe com ela.”

"Mas e se o Sr. Darcy contar a ela que estamos noivos?"

"Eu acredito que ele não contará a ninguém, principalmente a Lady Catherine, até que tenha conseguido a permissão de seu pai. Ele só contou a mim e a Georgiana até agora, mas eu falarei com ele e o aconselharei a não contar a mais ninguém. Eu também terei de contar a Georgiana, ela ficará muito decepcionada ao conhecer a verdade."

"Eu sinto muito por isso."

Com isso, Elizabeth partiu e retornou a reitoria, depois que o Coronel acertou de ir buscá-la na manhã seguinte para visitar Darcy, como houvera feito nestes dois dias. Elizabeth caminhou até a reitoria com o coração pesado. Ela não desejava continuar mentindo, ainda assim acreditava que devia poupar Darcy de mais este sofrimento enquanto estivesse se recuperando. Ela ficava repetindo para si mesma que ele seria capaz de agüentar tal decepção quando estivesse recuperado. Ela estava na posição desconfortável de não saber o que era a coisa certa a se fazer.

Por sua vez, o Coronel Fitzwilliam ficou ponderando sobre o que acabara de saber. Ele não conseguia compreender como era possível uma mulher, uma em particular que não tinha fortuna, família renomada ou conexões, rejeitar a corte de seu primo. Darcy é um homem saudável e de boa aparência, assim como honrado, sensível e generoso. Se o sonho dele é, na verdade, uma memória do que realmente aconteceu, então a Srta. Bennet despreza Darcy; mas por quê? Ele não conseguia encontrar a resposta desta pergunta, mas ela permaneceu em sua mente.

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