Elizabeth passou o resto da sua noite e o começo da manhã seguinte consumida por meditações e sentimentos contrários. Ela sentia que não deveria ter concordado fingir ser a noiva do Sr. Darcy, e ressentia não ter a oportunidade de lhe contar a verdade. Ela tinha que admitir para si mesma que se sentia comovida por sua afeição, mas sabia que ele só poderia vir a si sentir humilhado ao saber que ela permitiu que ele continuasse a acreditar naquele mal-entendido. E a Srta. Darcy já estava tão chateada com toda a situação.
Elizabeth também pensou bastante em tudo o que o Sr. Darcy houvera lhe dito a respeito de Jane. Ele realmente acreditou que Jane era indiferente aos sentimentos de Bingley por ela. E, embora Elizabeth continuasse a desaprovar a sua interferência, ela conseguia recordar da observação de Charlotte quanto à reserva de Jane ao demonstrar os seus sentimentos pelo Sr. Bingley.
Ela também ponderou sobre o fato do Sr. Darcy esconder a presença de Jane em Londres do Sr. Bingley. Embora ela não houvesse percebido a extensão de sua duplicidade até aquele momento, a sua raiva com relação a tal fato foi amenizada pelo seu sincero pedido de desculpas e por sua esperança em ver o Sr. Bingley e Jane encontrarem felicidades juntos.
A felicidade de sua irmã sendo a sua prioridade, ela, imediatamente após chegar à reitoria, escreveu a Jane, contando-lhe da presença do Sr. Bingley em Rosings e de sua ignorância quanto a sua presença em Londres. Ela estava ciente que poderia estar dando esperanças a Jane, unicamente para vê-la se decepcionando depois. Por isso, tentou não entrar em muitos detalhes. Ainda assim, sentia que tudo ia dar certo entre eles no final. Sua confiança neste fato se deu pelas palavras do Sr. Darcy referentes à sua irmã e pelo comportamento do Sr. Bingley durante a conversa àquele dia.
Os pensamentos relacionados aos eventos do dia anterior continuaram a invadir a mente de Elizabeth aquela manhã. Ela ainda estava perdida em seus próprios pensamentos durante o café da amanhã, quando todos à reitoria foram surpreendidos pela chegada de Lady Catherine de Bourgh. A surpresa de Elizabeth duplicou quando Lady Catherine solicitou a sua companhia em um passeio pelos jardins. Ela não entendia os motives da senhora ao lhe fazer tal pedido, mas o acatou imediatamente.
Uma vez que elas alcançaram uma área do jardim que proporcionava alguma privacidade, Lady Catherine começou a falar da seguinte forma "A senhorita deve saber muito bem, Srta. Bennet, o porquê de eu ter solicitado a sua companhia em particular esta manhã."
"De forma alguma, madame. Eu não faço a mínima idéia."
"Srta. Bennet, a senhorita deve saber que eu não tolero brincadeiras. Mas, no entanto, a senhorita pode escolher ser o mais fingida que conseguir, não espere que eu me comporte da mesma forma. O meu caráter sempre foi de uma pessoa sincera e franca, e eu não mudarei o meu comportamento em um momento como este. O motivo para o meu desejo em conversar com a senhorita é que o meu sobrinho, Sr. Darcy, me informou que a senhorita está noiva dele. Eu nunca o ofenderia ao supor que isto é possível se não houvesse ouvido isto de seus próprios lábio; mas ele não está em seu perfeito juízo para fazer este tipo de assertiva."
"Se ele mesmo lhe informou isto, eu me pergunto o que a senhora poderia desejar falar comigo."
"Para insistir para que a senhorita acabe com este falso noivado de uma vez, e depois faça as suas malas e retorne a Hertfordshire, onde é o seu lugar."
"Eu temo, Lady Catherine, que os meus planos de viagem foram feitos há muito tempo e não tenho intenção alguma de alterá-los."
"Garota obstinada e inconseqüente! A senhorita não tem vergonha? Como a senhorita pretende permanecer em uma residência tão próxima a da família dele após ter se aproveitado da situação precária em que ele se encontra? Suas táticas de sedução o persuadiram em um momento em que ele padece do juízo perfeito. Ele acredita estar amando! A senhorita o fez esquecer, em um momento de paixão, o que ele deve a si mesmo e a sua família."
"Se eu houvesse agido desta forma, seria a última pessoa a confessar."
"Srta. Bennet, a senhorita sabe quem eu sou? Eu não estou acostumada com este tipo de tratamento. Eu sou praticamente a sua parente mais próxima. É o meu dever protegê-lo de jovens como a senhorita."
"A senhora deve fazer aquilo que achar certo, Lady Catherine, e eu também."
"Deixe-me ser bem clara. Esta união, que a senhorita pretende alcançar, nunca ocorrerá. Nunca. O Sr. Darcy esteve noivo da minha filha muito antes deste acidente. Quanto a isto, o que a senhorita tem a dizer?"
"Somente isto: se isto fosse verdade, ele não estaria lhe informado de seu noivado comigo."
Lady Catherine hesitou por um momento, então disse, "O noivado dos dois é uma questão muito delicada. Eles foram prometidos um ao outro desde a infância. Era o desejo de sua mãe, assim como é meu. Nós planejamos a união dos dois quando eles ainda estavam no berço; e, agora, que o desejo de nos duas pode ser realizado, ser impedido por uma jovem de classe inferior, de nenhuma importância no mundo, completamente estranha a família! A senhorita não dá nenhuma importância ao desejo de seus amigos – com relação ao noivado tácito dele com a Srta. de Bourgh? A senhorita não tem nenhum sentimento de propriedade e decência? A senhorita não me ouviu dizer que desde as suas primeiras horas ele foi destinado a sua prima?"
Elizabeth estava ficando com raiva. Embora ela não possuísse nenhuma intenção de se casar com o Sr. Darcy, ela ainda não havia conseguido esclarecer as coisas com ele e ela não pretendia ceder aos abusos de sua tia, confessando a falsidade daquele noivado, sem ter contado a verdade para ele antes. E, como uma motivação a mais, ela não tinha desejo algum de satisfazer Lady Catherine. Fingir ignorância não tinha trazido nenhum sucesso com a senhora, quem parecia estar bastante decidida em seu propósito. "Sim, eu lhe ouvi antes. Mas o que isto tem a ver comigo? Se não há outra objeção ao nosso casamento, além do desejo da mãe dele e de sua tia de que ele se case com a Srta. de Bourgh. As duas senhoras fizeram o que podiam fazer, ao planejar o casamento; o seu sucesso depende de outros. Se o Sr. Darcy não está, seja por honra ou afeição, comprometido com a sua prima, por que ele não pode fazer outra escolha? E se sou eu a escolhida, por que eu não poderia casar-me com ele?"
"Por causa da honra, decoro e prudência – até mesmo o interesse os proíbe! Sim, Srta. Bennet, interesse; porque não espere ser recebida por seus familiares e amigos, se a senhorita ignorar propositalmente o desejo de todos nós. A senhorita será censurada, rejeitada e abominada por todos aqueles que tiveram alguma relação com ele. A sua aliança seria uma desgraça; o seu nome nunca será mencionado por nenhum de nós."
Elizabeth agora se lembrava da forma que Darcy escolhera lhe propor casamento; ele mesmo tinha ponderado todas estas objeções. Isto não só inspirou mais sentimentos de raiva com relação à Lady Catherine, como também reacendeu a fúria que ela sentiu durante a proposta de casamento. No entanto, não pode deixar de perceber que a reprovação dos parentes dele parecia ainda mais severa que a que ele demonstrou. E, mesmo assim, ele desejou se casar com ela. "Esta seria uma situação desagradável, certamente," Ela, finalmente, disse, "mas, certamente, não o suficiente para me levar a agir de forma desonrosa, de forma a romper um noivado."
Uma vez que Elizabeth tinha começado a defender o seus suposto noivado, não podia, nem queria, reconsiderar sua postura, ao lidar com o comportamento hostil de Lady Catherine. Mas agora ela começou a se sentir pior por continuar com aquela farsa. Ela agora não só estava deixando que Darcy acreditasse naquele noivado, como estava fazendo a sua tia acreditar nele também. Ela precisava por um ponto final nesta história.
"Como ousa falar em honra? A senhorita que se aproveitou de Darcy da forma mais vil! A senhorita que o está privando de cumprir suas obrigações consigo mesmo e com a sua família. Esta é a sua forma de agradecer por minha atenção para com a senhorita? A senhorita acha que não me deve nada?A senhorita deve entender, Srta. Bennet, que eu vim aqui determinada a ter sucesso em meus propósitos; e não serei dissuadida deles. Eu não estou acostumada a ceder às vontades de outros. E não estou acostumada a ter os meus desejos desobedecidos."
"Isso só tornará a situação da senhora mais digna de pena; mas não terá nenhum efeito sobre mim."
"Eu não serei interrompida! Escute-me em silêncio! Minha filha e meu sobrinho foram feitos um para o outro. Eles descendem, do lado materno, da mesma linha sanguínea nobre; e, do lado paterno, de famílias respeitáveis, honrada e antigas, embora desprovidas de título nobre. A fortuna de ambos os lados é incontestável. Eles são destinados um ao outro pela vontade de ambas as famílias; e o que os separará? O desejo de uma jovem interesseira desprovida de família renomada, conexões ou fortuna? Será isto tolerado? Não deve ser e não será tolerado! Se a senhorita tem algum bom senso, não desejará deixar a esfera em que nasceu!"
"Eu não estarei deixando a esfera em que nasci ao me casar com o seu sobrinho. Ele é um cavalheiro e eu sou filha de um cavalheiro; por tanto, somos iguais!"
"Verdade. A senhorita é filha de um cavalheiro. Mas e a sua mãe? Quem são os seus tios e tias? A senhorita acredita que ignoro a situação deles?"
"Pouco importa as minhas conexões;" Elizabeth disse, "se o seu sobrinho não tem objeções quanto a eles, a senhora tão pouco!"
"Isto não será tolerado! Srta. Bennet, eu insisto que em ter sucesso em meus propósitos. Diga-me de uma vez, a senhorita promete-me que irá desfazer este noivado com ele?"
"Eu não farei nenhum tipo de promessa neste sentido!"
"Srta. Bennet, eu estou chocada e admirada. Eu esperava encontra-me com uma senhorita mais razoável. Mas não sinta-se segura de que irei embora sem ter a minha promessa feita pela senhorita."
"Eu nunca a farei. Eu nunca cederia aos seus desejos, nem mesmo se eles correspondessem aos meus. O que quer que aconteça entre o seu sobrinho e eu, é um assunto que diz respeito somente a nós dois. Ele pode desejar dividir suas preocupações com a senhora, se desejar; mas eu não tenho nenhuma obrigação de fazer o mesmo! E ainda mais, o seu pedido é irracional. A senhora deseja que o Sr. Darcy se case com a sua filha; mas será que se eu fizesse a promessa que a senhora deseja o noivado deles tornar-se-ia realidade? Se ele sente afeições por mim, a minha rejeição ao seu pedido de casamento o levaria a propor casamento a sua prima? Permita-me dizer-lhe, Lady Catherine, os argumentos que a senhora usou para forçar a sua vontade sobre mim foram tão insanos quanto o pedido em si. A senhora interpretou muito mal o meu caráter, se verdadeiramente acredita que eu posso ser influenciada por sua vontade. O quanto o seu sobrinho aprova a sua interferência em seus assuntos eu não posso dizer; mas a senhora não tem direito algum de se intrometer com os meus. Eu devo lhe pedir, por tanto, a não me importunar mais com este assunto."
"Não com tanta pressa, por favor. Eu ainda não terminei. A senhorita supõe que eu ficarei de braços cruzados e deixarei o meu sobrinho sucumbir às artes de uma jovem que não possui nada para recomendá-la? Deixá-lo cometer um erro que nunca aconteceria se a sua mente estivesse em perfeito estado? Um erro muito bem arquitetado por uma jovem manipuladora, mercenária e ordinária, quem se aproveitou dele quando ele sofreu uma perda de memória após um acidente que quase o matou! Por céus e terra, o que a senhorita está pensando? Será que o terrenos de Pemberley ficarão tão poluídos? Não! Eu usarei de todo o meu poder para protegê-lo. Eu não hesitarei em usar das minhas posses e conexões para impedi-lo de se deixar envolver ainda mais pela senhorita. A senhorita irá perceber que eu sou uma adversária formidável, Srta. Bennet."
"A senhora não deve ter mais nada a dizer," Elizabeth afirmou, ressentida. "A senhora já me ofendeu de todas as formas possíveis. Eu devo retornar a reitoria."
Ela deu-lhe as costas, ao lhe dizer isto, indo em direção a reitoria. Lady Catherine a seguiu, enfurecida.
"A senhorita não tem nenhuma preocupação quanto à honra e créditos do meu sobrinho?! Garota egoísta e ingrata! A senhorita não sabe que estará o desgraçando ao se unir a ele?"
"Lady Catherine, eu não tenho mais nada a lhe dizer. A senhora já conhece os meus sentimentos."
"A senhorita está, então, resolvida a casar-se com ele?"
"Estou resolvida a agir de forma honrosa, sem me deixar influenciar pela senhora ou por qualquer outra pessoa que não tenha nenhuma relação direta comigo."
"Tudo bem. A senhorita se recusa a me atender. A senhorita se recusa a atender às minhas argumentações de dever, honra e gratidão. A senhorita está determinada a arruiná-lo, tornando-o desprezível perante seus amigos e todo o mundo."
"Nem o dever, ou honra, ou gratidão," replicou Elizabeth, "tem qualquer efeito sobre mim no presente momento. E nenhum dos princípios mencionados pela senhora será violado com o meu matrimonio com o Sr. Darcy. E quanto ao ressentimento da família dele ou indignação do resto do mundo, se o Sr. Darcy está feliz com o nosso casamento, a mim pouca preocupa o desdém alheio."
"E esta é a sua real opinião! Esta é a sua decisão final! Muito bem, então. Eu agora sei muito bem como agir. Não imagine, Srta. Bennet, que a sua ambição será bem sucedida. Eu vim aqui para conversar com a senhorita; esperando encontrar com a razão; mas, a situação sendo esta, eu tomarei minhas próprias providências." À medida que se dirigia a reitoria, Lady Catherine concluiu, "Eu não me despedirei da senhorita, Srta. Bennet, a senhorita não merece tal atenção da minha parte. Eu estou seriamente desgostosa." Elizabeth permaneceu ao jardim enquanto Lady Catherine entrava na reitoria.
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