Elizabeth esperou ao jardim por uns minutos após Lady Catherine ter entrado na reitoria. Não demorou muito tempo para que ela visse a carruagem da senhora retornando a Rosings. Ela se sentiu incapaz de lidar com os Collinses e, ao invés de retornar a casa, voltou-se para o bosque, decidindo caminhar um pouco para por a sua mente em ordem.
O desconforto que ela agora sentia, após a visita de tal ilustre senhora, não seria facilmente superado. Ela estava zangada e horrorizada com a atitude de Lady Catherine, e confusa quanto a sua situação, que agora houvera piorado consideravelmente. Ela estava seriamente estressada com a idéia de que mais uma pessoa estava sofrendo do mesmo mal-entendido quanto ao seu noivado com o Sr. Darcy.
Ela se consolou com a idéia de que seria improvável que Lady Catherine espalhasse a noticia deste suposto noivado. Embora desejasse contar a Darcy à verdade o mais rápido possível, lhe era impossível ir até ele naquele momento.
Ela caminhou por um bom tempo, sem saber em que direção estava seguindo, perdida em seus próprios pensamentos. Ela considerou cuidadosamente cada ofensa que lhe foi feita por Lady Catherine, e só podia sentir indignação e ressentimento em resposta. Cada vez que se lembrava das palavras da grande senhora só ficava mais irritada. Lady Catherine esperava conseguir impor sua vontade a alguém que não tinha nenhuma ligação com ela, fazendo acusações desrespeitosas a cada suspiro, assim como exigências; era simplesmente inacreditável.
Tão pouco podia Elizabeth ignorar a revelação feita por Lady Catherine referente à defesa do Sr. Darcy quanto a sua escolha. A reação dele ao seu ataque provara que ele é um homem de grande caráter e convicção. O conhecimento da profundidade dos sentimentos que ele nutre por ela foi apenas reafirmado. Como ela conseguira ganhar a sua confiança tão facilmente ela não sabia, exceto por ter conquistado acidentalmente a sua afeição. Que ele pôde ser erguer contra os argumentos que ele considerou justos e importantes, agora vindos de uma fonte que podia se impor a ele por questões de dever e obrigações com a sua família, o davam ainda mais créditos. Tal comportamento só servia para elevar a força de caráter, dignos de admiração.
Enfim, enquanto caminhava pelo bosque, sem se importar em que direção seguia, ela se encontrou com o Coronel Fitzwilliam, vindo a cavalo de Rosings, seguindo em direção a reitoria. Assim que ele a viu, parou e desceu do cavalo.
"Srta. Bennet, estou feliz em tê-la encontrado."
Elizabeth mal conseguiu lhe dar uma resposta cordial.
O seu desconforto era evidente em suas feições e o Coronel Fitzwilliam disse, "Espero que a senhorita não esteja passando mal; eu preciso conversar com a senhorita sobre um assunto em particular muito importante."
"Do que se trata?" ela perguntou.
"É a minha tia, Lady Catherine. Darcy contou a ela sobre o noivado de vocês ontem e ela não reagiu muito bem a noticia. Eu temo que ela tente confrontá-la a respeito deste noivado."
"Ela foi até a reitoria esta manhã."
"Ela já esteve lá?"
"Sim, ela veio enquanto tomávamos café da manhã."
"É esta a razão para o seu atual desconforto?"
"Sim, eu confesso que sim. Ela insistiu em falar em particular comigo e tentou fazer com que eu prometesse que romperia o noivado que sequer existe."
O Coronel Fitzwilliam ficou bastante horrorizado com o comportamento da tia. "A senhorita contou a ela a verdade?"
"Eu não poderia contar a ela a verdade sem tê-lo feito primeiro ao Sr. Darcy. E eu estava tão ofendida com a forma com que ela me tratou que eu não acredito que eu poderia ter contado a verdade, embora nunca pretendi mentir para ela. Ainda assim, acredito que a minha defesa do suposto noivado apenas tornou tudo ainda mais grave."
"Nós sabíamos que ela se oporia a esta união, mas nenhum de nós previu que a oposição dela seria tão violenta. Eu nunca testemunhei algo assim tão terrível. Darcy ficou tão enojado com a atitude de minha tia ontem que estava decidido a deixar Rosings assim que a conversa dos dois foi encerrada. Somente o médico e Georgiana conseguiram convencê-lo a ficar, para o bem da saúde dele. Mesmo assim, ele pediu ao seu valete para preparar sua bagagem, seguro de que, embora não está em condições de viajar até Londres, sente-se recuperado o bastante para ir até uma hospedaria mais próxima. Eu espero que ele mude de idéia e permaneça em Rosings."
"Eu sinto muito ser a causa de discórdia em sua família, e tudo por nada."
"A senhorita não é causa disso, Srta. Bennet, e não foi por nada. Lady Catherine está sendo completamente irracional. Quando eu retornei aos aposentos de Darcy, pouco depois da senhorita ter se retirado, ele já havia contado a verdade e minha tia já estava abusando verbalmente da senhorita. Darcy não quis ouvi-la. Ele insistiu que ela saísse de seus aposentos e ela se recusou, então ele começou a se erguer da cama para sair ele mesmo. Foi somente neste momento que ela se retirou, e eu o forcei a retornar para cama."
"Espero que ele não tenha piorado por causa disso."
"O médico está extremamente preocupado com ele. Ele afirmou que Darcy precisa de sossego e tranqüilidade, e não dessa inquietude."
"O senhor percebe agora por que foi errado eu ter ido visitá-lo no sábado?"
"Eu nunca concordarei que foi a coisa errada a se fazer, Srta. Bennet. Eu não saberia dizer quando ele acordaria se a senhorita não houvesse o visitado, se é que ele acordaria. E ele não teria conseguido sobreviver por muito mais tempo se não houvesse acordado. Mas vou concordar que foi errado da minha parte insistir que a senhorita permitisse que ele continuasse acreditando neste noivado. Esta situação infortuna é inteiramente minha culpa."
"E agora, como ele irá descobrir a verdade? O senhor contará a ele? Porque eu não acredito que serei bem vinda em Rosings."
"Eu sei que a situação está cada vez mais difícil, e eu sinto muito pela situação em que a senhorita se encontra neste momento. Ele precisa descobrir a verdade e eu acredito que deverá ser a senhorita a pessoa a contar a ele, embora eu acredito que seja injusto pedir-lhe isto. Mas eu não creio que ele acreditaria se viesse de outra pessoa."
"Ele não acreditaria?" Elizabeth não tinha pensado nisso.
"A senhorita devia ter escutado a forma com que ele a defendeu, a sua expressão de afeição; eu nunca havia escutado ele falar de tal forma, com tanto carinho e convicção ao mesmo tempo. Ele ficaria furioso, eu acredito, se ele soubesse que a minha tia a confrontou. Ele é muito protetor da senhorita. Minha tia riu quando ele lhe disse que a ama. Ela afirmou que a senhorita não corresponde ao amor dele, a acusando de intenções mercenárias." Elizabeth suspirou, pesadamente. "Ele garantiu que sabia que não era verdade. Ele está convencido de que a senhorita o ama."
"Como isso pode ser possível? Eu nunca afirmei tal coisa." Elizabeth inquiriu, alarmada.
"Ele acredita que a senhorita deve ter afirmado e que ele simplesmente não consegue se lembrar. Ele mencionou o olhar da senhorita quando ele acordou na manhã de sábado. Ele garantiu que não precisava de palavras para entender os seus sentimentos."
Elizabeth deixou escapar um suspiro, não podendo deixar de reconhecer nesta atitude do Sr. Darcy a sua vaidade; entretanto, também acreditava que as circunstâncias em que se sucedera o seu despertar e todas as outras a partir deste dia, deu-lhe todos os motivos para pensar da forma que o fazia. Então, ela disse, “O senhor está vendo? Eu não lhe afirmei que este era o caso? Ele interpretou os meus sentimentos de compaixão e alivio por sentimentos mais profundos. A dor que ele irá sentir agora ao saber da verdade será pior que a de quando eu o rejeitei."
Coronel Fitzwilliam estava solene. Ele sabia que ela estava certa, mas estava decidido a fazer mais uma tentativa de dissuadi-la. “E ele precisa passar por este tormento, Srta. Bennet? Ele precisa mesmo saber a verdade? A senhorita não poderia mudar de idéia?"
"Como o senhor pode me pedir isto? Como eu posso me casar com um homem a quem eu não amo ou respeito, unicamente para perpetuar um erro que nunca deveria ter ocorrido desde o começo? O senhor precisa perceber que esta situação não beneficiaria a ele ou a mim. O senhor o pouparia desta decepção unicamente para expô-lo a um mal ainda pior? Eu não posso fazer isto. O Sr. Darcy precisa saber da verdade, e quanto mais cedo melhor."
"A senhorita está certa, obviamente. Perdoe-me por sugerir qualquer coisa diferente. Eu irei preparar tudo para que a senhorita possa vê-lo e a verdade possa ser contada."
"Muito obrigada."
Coronel Fitzwilliam respirou fundo, audivelmente, como numa tentativa de ganhar coragem, então prosseguiu. "Srta. Bennet, a senhorita disse algo que eu não posso deixar de questionar: que a senhorita não pode amar ou respeitar o meu primo. Eu entendo que a senhorita pode não amá-lo, por isso, apenas, rejeitá-lo. Mas não posso acreditar que a senhorita não o respeita. Ele é o cavalheiro mais honrado entre todos os meus conhecidos. Sua devoção aos seus princípios, à moralidade e propriedade, é inalterável. Ele é reverenciado como proprietário, patrão e irmão. Eu nunca ouvi alguém falar mal a respeito dele. Eu não posso imaginar o que causou o seu desprezo, ou o que ele pode ter feito para merecer o seu desdém."
Elizabeth estava em silêncio, mas parecia se sentir desconfortável.
Ao perceber que ela não lhe daria nenhuma explicação, o Coronel continuou, "este homem, quem a senhorita despreza, se estabeleceu , aos vinte e dois anos, como o patrão de um dos terrenos mais largos de Derbyshire. Em adição, lhe foi confiado à criação e guarda de sua irmã mais nova. Ele possuiu centenas de arrendatários e serventes que dependem de sua boa vontade. E seu comportamento generoso e justo para com eles só lhe trouxe admiração. Ele sempre agiu de forma justa, até mesmo com aqueles que, talvez, não merecessem. Ele protegeu aqueles que ama ferozmente, e teve as sua cota de mágoas ao tratar com pessoas desonrosas. Este é o homem que você rejeitou e eu não consigo entender."
"Ele é orgulhoso." Soou patético em comparação aos argumentos do Coronel, até mesmo aos ouvidos dela.
"Sim! Com boa razão, porque ele tem muitos motivos para sentir-se orgulhoso. Não lhe é permitido ter um defeito? A senhorita não ouviu as coisas que eu lhe disse em sua defesa? Essas qualidades não superam o seu orgulho? Se esta é a sua única objeção, Srta. Bennet, então eu espero, pelo seu próprio bem, assim como o dele, que a senhorita não tenha tanta pressa ao dispensá-lo. O afeto de um homem como ele é algo a ser valorizado, e faria bem à senhorita avaliar bem as suas ações. Eu não ouso questionar o seu valor, porque a estima que ele tem pela senhorita é o bastante para mim, mas eu acredito que a senhorita subestimou gravemente o valor dele."
"Verdade?” ela replicou, emocionada, "ao proclamar as suas virtudes, o senhor o descreveu como um homem justo. O tratamento que ele dispensou ao Sr. Wickhan foi justo em que sentido?”
Os olhos do Coronel Fitzwilliam brilharam quando ela proferiu aquele nome, mas logo após ele relaxou, "então a senhorita conheceu o Sr. Wickham. Darcy me contou que se encontrou com ele em Hertfordshire. Não é de se admirar, se a senhorita admitiu o Sr. Wickham como um amigo, que a senhorita tenha uma má opinião de Darcy; porque uma pessoa não pode pensar bem dos dois homens. Suponho eu, que dependendo de qual fonte esta pessoa recebeu os fatos da história destes dois, um deles receberá o crédito de ser honrado."
"Eu só recebi informações da história destes dois homens de uma única fonte, porque a outra pessoa capaz de me relatar a sua versão dos fatos não se sentiu inclinado a fazê-lo."
"A senhorita perguntou a ele?"
"Eu mencionei o assunto na noite do seu acidente."
Coronel Fitzwilliam parecia chocado, e disse, com um tom de incredulidade, "ele pede a sua mão em casamento e a senhorita o confronta em defesa do Sr. Wickham? Ele sofreu muito em suas mãos. Eu desejo que ele nunca se lembre deste evento."
"A maneira como ele me tratou aquela noite não está acima de reprovação tão pouco, Coronel Fitzwilliam," ela disse, com ênfase. Após uma pausa, ela continuou, "se ele negou conceder ao Sr. Wickham o legado que o seu pai havia lhe prometido, eu só posso acreditar que seja verdade."
"Sim, é verdade. Ainda assim, isto significa que ele agiu errado ao tomar tal atitude?"
"Eu não vejo como isto pode ser justificado."
Coronel Fitzwilliam suspirou, frustrado. "O meu tio era cego quanto ao verdadeiro caráter do Sr. Wickham. Mas Darcy e eu o conhecíamos muito bem. Nós pudemos vê-lo nos momentos de descuido, coisa que meu tio nunca presenciou. Ele se provou, ainda quando jovem, ser um rapaz sem caráter, propenso aos vícios e desejoso de princípios. Meu tio Darcy nunca conheceu sua verdadeira natureza, e, desejando que ele se dedicasse a igreja, deixou-lhe um meio de prover a vida em Kympton, uma paróquia próxima a Pemberley. Ele não possuía interesse em dedicar sua vida a igreja, o que muito aliviou o meu primo, e solicitou três mil libras adicionais. Ele retornou dois anos depois, após gastar todo o dinheiro, e requisitou os seus direitos no legado. Darcy o recusou."
Elizabeth permaneceu imóvel, assombrada, fitando o Coronel Fitzwilliam. "Isso não pode ser verdade," ela finalmente disse.
"É a verdade, eu lhe garanto."
Ela continuou o fitando por um breve momento, então disse. "Eu não posso acreditar. Eu não tenho motivos para duvidar do Sr. Wickham, além da sua palavra, a qual pode ser influenciada por um desejo de favorecer o seu primo."
"A senhorita não pode acreditar que os relatos do Sr. Wickham a respeito dos eventos passados tenham sido desinteressados!"
"O senhor me censura por ter acreditado nele prontamente e ainda assim espera que eu aceite a sua versão dos fatos à dele mais prontamente ainda, versão esta que é da mesma forma influenciada por interesses particulares."
"A senhorita não tem mais razões para acreditar em mim que tinha para acreditar nele, isto é verdade; mas a senhorita também não tem mais razões para acreditar nele ao invés de acreditar em mim. Portanto, a senhorita deve permitir que a minha versão dos fatos a façam ponderar sobre a versão dele."
"Eu já não sei mais em quem acreditar, Coronel Fitzwilliam."
"Se a senhorita decidir que a minha versão dos fatos for à verdadeira, então o seu respeito por Darcy deverá crescer."
"Sim," ela replicou, de má vontade, "deverá crescer."
Coronel Fitzwilliam sorriu, "Talvez se a senhorita ficar convencida da inocência de Darcy neste assunto, talvez a senhorita esteja disposta a rever a sua decisão quanto à necessidade de Darcy conhecer a verdade sobre o noivado de vocês."
"Coronel Fitzwilliam, eu aprecio a sua tentativa de esclarecer este assunto comigo, mas, mesmo que eu aceite a sua versão dos fatos, minha mente não mudará quanto à necessidade de o Sr. Darcy saber a verdade."
Após um momento de ponderação, e uma mudança de opinião de sua parte, ele disse, sua voz pesada por resignação, "Eu suponho que seja o melhor a ser feito. A dor ao saber a verdade deverá ser passageira, eu suponho; é preferível esta dor àquela que resulta ao se casar com uma mulher que está apaixonada por outro."
Elizabeth observou o Coronel Fitzwilliam, evidentemente surpresa, então corou ao lembrar-se da insinuação do Sr. Darcy ao interesse dela no Sr. Wickham. Claramente, ele suspeitava que ela nutria sentimentos por ele; será que o Coronel Fitzwilliam também tinha estas mesmas suspeitas agora?
Ao vê-la corar, o Coronel Fitzwilliam continuou, "a senhorita não precisa confirmar as minhas suspeitas, senhorita, eu posso ver que estou certo. Não pode haver outra razão para sua rejeição e persistência nesta decisão após termos discutido as suas objeções quanto a ele. Eu acredito que faço idéia da identidade do rival dele por sua afeição. Será mais uma causa de sofrimento para o meu primo, quando ele descobrir a verdade."
"O senhor está errado em suas suposições, senhor," ela disse, indignada. "Minhas razões para rejeitar o seu primo estão diretamente ligadas a ele."
"Se este é o caso, senhorita, eu espero que a senhorita considere as minhas informações."
"Eu as levarei em conta."
"Sendo assim, eu a deixarei com os seus pensamentos."
"Coronel Fitzwilliam, antes que o senhor vá, posso lhe pedir um favor, senhor?"
"Qualquer coisa."
"Eu planejava visitar a Srta. Darcy hoje. Eu prometi ao Sr. Darcy que falaria com ela. Mas eu não acredito que poderei ir até Rosings, nas circunstancias atuais. Posso lhe pedir para levá-la a reitoria?"
"Com certeza. Eu a levarei até lá assim que retornar. Eu a deixarei com a senhorita e voltarei para buscá-la mais tarde, para jantar em Rosings."
"Obrigada, senhor."
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