Citações

A natureza humana manifesta uma tendência muito acentuada para o orgulho, que são pouquíssimos os que não alimentam esse sentimento, fundados em alguma qualidade real ou imaginária! (Jane Austen)

Capítulo 8

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Quando Elizabeth e a Srta. Darcy chegaram à reitoria, o Coronel Fitzwilliam já as aguardava e trouxera Sr. Bingley com ele.

O grupo de Rosings permaneceu com os residentes de Hunsford por meia hora e depois partiu. Durante estes trinta minutos, Elizabeth ficou satisfeita em poder gozar de alguns minutos de conversa particular com o Sr. Bingley. “Como o senhor tem passado o seu tempo em Rosings, Sr. Bingley? Eu espero que o senhor tenha encontrado uma boa diversão durante o seu tempo fora dos aposentos do paciente.”

“Certamente, eu encontrei, Srta. Bennet. O Coronel Fitzwilliam tem me mantido bem entretido.”

“O senhor já decidiu por quanto tempo pretende ficar aqui?”

“Eu estarei voltando para Londres no Sábado. Eu acredito que seja o mesmo dia em que a senhorita estará viajando também.”

“Sim, é. Nós estaremos indo buscar minha irmã Jane antes de voltarmos para Longbourn.”

Os olhos de Bingley cresceram de interesse. “Quanto tempo a senhorita ficará em Londres?”

“Por três semanas. E o senhor?”

“Eu ainda não me decidi. Mas estou determinado a retornar a Netherfiled, no entanto, durante o verão.”

Elizabeth sorriu. “Estas são maravilhosas noticias; eu tenho certeza que o seu retorno ao condado será muito apreciado.”

Ele pareceu satisfeito com a resposta dela. “Eu só queria que Darcy pudesse me acompanhar de novo. Mas ele não sabe por quanto tempo ficará convalescendo e ele me disse para não atrasar o meu retorno por sua causa.”

“Ele disse isso?”, Elizabeth perguntou, surpresa.

“Sim, foi ele quem sugeriu que eu retornasse. Eu já estava considerando esta idéia, mas a sua aprovação fez com que eu tivesse certeza.” Elizabeth sorriu do jeito do Sr. Bingley confiar no julgamento de seu amigo. “Talvez eu possa visitá-la enquanto a senhorita estiver em Londres. Eu acredito que a senhorita estará hospedada com alguns parentes.”

“Sim, com minha tia e tio Gardiner, em Gracechurch Street. Eu ficarei muito feliz com a sua visita, senhor, e tenho certeza que minha irmã, Jane, ficará feliz em revê-lo também.” Esta última observação arrancou um grande sorriso do rosto de Bingley. Mas qualquer outra conversa foi adiada, no entanto, porque a atenção deles foi requisitada pelo restante do grupo. O Coronel Fitzwilliam tinha ouvido pedaços da conversa entre Elizabeth e Bingley e sentia-se mais certo de que os dois estavam apaixonados.

Elizabeth ficou surpresa ao perceber que o Sr. Bingley parecia não ter conhecimento de que o seu amigo acreditava estar noivo ou que Lady Catherine desaprovava tal “noivado”. Elizabeth ficou sabendo que Lady Catherine estava tão agitada na noite anterior que preferiu jantar sozinha, em seus aposentos, e que o Sr. Bingley passou o seu dia ocupado com atividades típicas de homem na companhia do Coronel Fitzwilliam.

Os cavalheiros e a Srta. Darcy finalmente se ergueram para partir quando a hora do jantar se aproximou. Enquanto o Sr. Bingley se despedia da Sra. Collins e da Srta. Lucas, o Coronel Fitzwilliam abordou Elizabeth para despedir-se dela. Ele a levou a um canto mais reservado e perguntou se ela estava se sentindo melhor que esta manhã. Ela respondeu que sim, que a visita de Georgiana havia melhorado o seu estado de espírito. Ela, então, perguntou, secretamente, “Eu estou preocupada que Lady Catherine possa espalhar a noticia deste suposto noivado.”

“Eu não creio que ela irá, já que ela deseja que seja desfeito. A única pessoa que ela poderia contar seria meu pai. Por favor, não se preocupe, Srta. Bennet.” Ele, então, retirou um papel dobrado do bolso de seu casaco e colocou na mão dela, dizendo, “Boa noite, Srta. Bennet.”

Ela olhou para o papel em suas mãos em surpresa, mas imaginando que ali continha informações dos arranjos que ele fizera para que ela fosse ver o Sr. Darcy sem o conhecimento de Lady Catherine, ela escondeu rapidamente em sua manga enquanto os outros caminhavam em direção à porta para acompanhar os cavalheiros e a Srta. Darcy até a carruagem. Em pouco tempo ela se juntou aos outros ao foyer, onde o Sr. Bingley e a Srta. Darcy a aguardavam para se despedir.

Elizabeth foi para o seu quarto para se arrumar para o jantar assim que eles foram embora, e, assim que ficou sozinha, ela abriu a carta, a qual estava selada. Ela a observou rapidamente e ficou surpresa ao descobrir que se tratava de uma missiva do Sr. Darcy, ao invés do Coronel Fitzwilliam.

Minha querida Elizabeth:

Por favor, permita-me me desculpar pela forma que a minha tia lhe tratou esta manhã. Isto não teria acontecido se eu não estivesse nesta condição. Eu estou seriamente irritado desde que ela me contou sobre o encontro de vocês duas, quando retornou a Rosings esta manhã. Custou-me algumas horas para me acalmar o suficiente para escrever-lhe após conversar com ela. Eu estava determinado a deixar esta mansão imediatamente, mas não consegui me erguer quando tentei. Eu ainda não estou recuperado o bastante para caminhar direito.

O Coronel Fitzwilliam, o médico e Georgiana me convenceram a ficar aqui por enquanto. Minha tia, no entanto, recusa-se a recebê-la em sua casa. Eu não posso ficar aqui dentro destas circunstâncias, mas parece-me que sou um prisioneiro. O Coronel Fitzwilliam me aconselhou a permanecer em Rosings. Ele acredita que pode trazê-la para me ver sem que a minha tia tenha conhecimento.

Eu não posso ficar tranqüilo com estes arranjos, e não consigo imaginar que a senhorita deseje ir aonde não é bem-vinda. Mas vou seguir o conselho de meu primo e deixar a decisão em suas mãos. Se a senhorita deseja me ver, eu esperarei por sua visita; se não, eu farei outros arranjos. Eu desejo, entretanto, vê-la.

O Coronel Fitzwilliam me aconselhou também a não contar a Bingley do nosso noivado. Eu não gosto de todo este segredo, mas ainda não mencionei nada a ele. Eu sei que ele planeja voltar a Londres este Sábado e que ele planeja ir fazer uma visita em Gracechurch Street algum dia nesta próxima semana. Eu espero que a senhorita esteja feliz com estas circunstâncias.

Agora, no entanto, eu não posso pensar na partida de Bingley e não me lembrar da sua. Eu tenho certeza que a senhorita estará muito feliz em ir embora, considerando as circunstâncias, mas eu sentirei muito a sua falta. Eu espero estar melhor o suficiente para estar partindo também com apenas dois dias de sua partida, mas o médico acredita que poderá demorar mais.

Eu sei que Georgiana está com a senhorita enquanto eu escrevo esta carta. Eu estou muito feliz que vocês duas estejam se encontrando porque desejo muito que se tornem amigas. Ela me contou que gosta muito da senhorita.

Quando olhei para a janela, pensando no que escrever a seguir, vi duas figuras caminhando pelo bosque. Eu sei que deve ser a senhorita e Georgiana, e aquece o meu coração vê-las juntas. Espero que vocês duas estejam contentes uma na companhia da outra.

Elizabeth, eu esperava vê-la no decorrer deste dia, mas entendo porque é impossível. Por favor, saiba que a senhorita está em meus pensamentos constantemente. Eu não me esqueci de suas palavras ontem antes de partir e estou curioso para saber o que a senhorita não pode mais continuar. A senhorita deve saber o quanto as suas preocupações são minhas também e o quanto eu desejo ser-lhe de alguma assistência. Eu espero poder conversar com a senhorita a respeito quando nos virmos de novo. Até lá, eu continuo sendo

seu eterno devotado,

Fitzwilliam Darcy.

A primeira idéia de Elizabeth, após ler a carta, foi a de destruí-la. Ela não podia deixar para trás nenhuma evidência deste falso noivado. A primeira prova concreta daquele noivado a fez se questionar pela primeira vez se aprisionara em um casamento. E, ainda assim, ficou mais surpresa ao perceber que estava menos adversa aquela idéia do que imaginara que estaria e, por mais que tenha segurando aquela carta sobre as labaredas da lareira, ela não conseguiu destruí-la.

Seus pensamentos logo tomaram o rumo das informações que recebera durante aquele dia longo. Que o Sr. Darcy era o melhor dos homens, ela não podia mais duvidar. A interferência dele na relação de Bingley e Jane, embora errônea, fora com as melhores das intenções. E quanto ao Sr. Wickham, o Sr. Darcy fora inocentado de todas as acusações. As únicas objeções que ainda lhe restavam era a sua opinião dele. E, ainda assim, ela já começara a duvidar desta opinião também.

Era bastante obvio que ele não é a pessoa que ela pensava que ele era. Ela considerava cuidadosamente as palavras do Coronel Fitzwilliam, ao alertá-la para não descartar Darcy tão rapidamente. O Coronel Fitzwilliam estava certo, o amor de Darcy é algo valioso. Ela não podia deixar de se comover por suas demonstrações de carinho. Ela nunca vira suas maneiras tão desprovidas de arrogância desde Sábado.

Ela mesma tinha presenciado seu carinho e afeição com a sua irmã. Em adição, suas palavras para ela naquela carta demonstraram uma preocupação excessiva pelo que a estava deixando preocupada. Ele não era egoísta, e ela percebeu que ao defini-lo desta forma ela estivera errada.

Quanto a ele ser arrogante e esnobe, ela não podia descartar estas observações tão prontamente. Ela entendia que o fato dele acreditar que ela aceitou a sua proposta de casamento era uma presunção arrogante de sua parte, mas precisava conceder-lhe que as circunstâncias podiam tê-lo influenciado. 

Ela se lembrava do questionamento do Coronel Fitzwilliam a respeito se não era permitido a Darcy ter um defeito. Ela sabia que o seu orgulho empalidecia ao lado de suas inúmeras qualidades. E a admiração de todos que o conheciam intimamente também não devia ser menosprezada.

Ela se lembrava da própria falha ao julgá-lo da forma que o fez. O orgulho dele é pior que o seu próprio preconceito? Ele havia identificado bem a sua falha, quando disse-lhe que o seu defeito era compreender errado os outros propositalmente. Quanto o seu próprio defeito, ela diria que era orgulho, mas ele disse que era o ressentimento e não saber perdoar. Estes pensamentos a fizeram se perguntar se ela algum dia iria conseguir o seu perdão por tê-lo enganado durante estes últimos dias. Ela estava um pouco surpresa ao descobrir que desejava o seu perdão.

Isto, por sua vez, a lembrou de que ela precisava lhe dizer a verdade, e ela temia a dor que lhe causaria. Então ela se lembrou das palavras do Coronel Fitzwilliam, ao afirmar que ele não precisaria passar por aquele sofrimento se ela mudasse de idéia. Ela considerou que, talvez, o seu acidente foi obra do Destino, para conceder-lhe uma oportunidade de descobrir a verdade a seu respeito e corrigir o seu erro ao recusá-lo.

Contudo, lembrando-se daquela ocasião, até mesmo agora que ela conhecia melhor o Sr. Darcy, ela não podia considerar a sua recusa um erro, ao pensar na maneira em que ele a tratou. A sua falta de modos cavalheirescos na ocasião são imperdoáveis. Entretanto, agora, quase uma semana depois, sua raiva e indignação foram amenizadas pelo que ela descobriu a seu respeito.

Ela estaria disposta a aceitá-lo agora, mas estava em seu direito agir desta forma? Poderia ela retirar sua recusa só porque ele não se recorda dela? Ela percebeu o quanto errado seria se ela continuasse com aquela encenação. Mesmo que ela mudasse de idéia a respeito de casar-se com ele, ela teria de lhe contar a verdade. Ela não podia evitar isto.

Estas meditações preocuparam Elizabeth pelo resto da noite. Ela se recolheu logo após o jantar e, após tentar ler um livro, ela passou mais horas em um devaneio solitário; deitou-se em sua cama, mas o sono não veio tão cedo.

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