Citações

As mulheres sempre superestimam facilmente a admiração dos homens ― e os homens fazem de tudo para mantê-las nessa ilusão!(Jane Austen)

SONHAR ACORDADO - Parte 10

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Parte X

Meia noite já se aproximava quando conseguiu escapar de Caroline. Ao entrar na sala de brincadeiras, encontrou-as sentadas e assistindo a um filme de desenho animado. Arthur ainda estava acordado e dava sua total atenção ao filme.

            Darcy parou a porta da sala por um momento e prestou atenção no filme. Um monstro azul de bolinhas roxas estava carregando um monte de entulho, chorando.

--Sully? – Gritava outro mostro; este redondo e verde, de um olho só. – Sully! Ah, boa noticia amigão...

            Darcy voltou sua atenção a Arthur novamente e o menino continuava com os olhos pregados na televisão, concentrado na história. Observou as outras meninas e percebeu que elas também estavam atentas. Até mesmo Jane e Elizabeth.

            Darcy se aproximou do sofá e voltou a dar sua atenção a televisão.

--Cadê a coisinha?- O monstro de um olho só perguntou ao outro grandão.

            O grandão, choroso, indicou o monte de entulho que carregava nos braços.

--Sully, isso é lixo compactado. – O monstro de um olho só argumentou, fitando o grandão como se este estivesse louco.

            Uma antena do monte de entulho se balançou e caiu para frente.

--Ah não. – O monstro de um olho só disse.

--Eu ainda ouço a vozinha dela. – O monstro grandão choramingou, abraçando o monte de entulho.

--Mike Wazowski! – Eles escutam uma voz feminina de criança.

--Ué, eu também ouvi. – O monstro de um olho só diz, colando o ouvido no monte de entulho.

--Mike Wazowski! – Escutam várias vozes de criança.

--Quantas crianças tem aí?- O monstro de um olho só pergunta, observando o monte de entulho com desconfiança.

            Darcy procurou um lugar para se sentar e assistiu ao filme até o seu final. Divertiu-se muito com o filme Monstros S/A. Há muito tempo não assistia um desenho animado e não imaginava que estes filmes pudessem ser tão elaborados assim.

            Ao final do filme, Jane anunciou que iria colocar Arthur para dormir. As irmãs de Elizabeth, ao notarem sua presença, também decidiram se recolher. Elizabeth, quem estava desligando o aparelho de DVD, demorou a notar sua presença ali.

            Quando lançou o olhar em sua direção pela primeira vez, eles já se encontravam completamente sozinhos.

--Não sabia que você estava aí. – Disse.

--Por quê? Se soubesse, teria inventado uma desculpa para sair daqui? – Darcy questionou-lhe, com o tom de voz normal.

--Não. – Elizabeth contrapôs, ofendida, mas não argumentou a sua defesa.

--Vai dizer que não esteve me evitando? – Darcy ergueu-se e se aproximou dela.

            Ela não respondeu.

            Darcy parou a sua frente, com apenas alguns centímetros os separando.

--Charles não acreditava que você viesse para cá. – Elizabeth comentou, tentando mudar o assunto da conversa.

E aproveitou também para afastar-se dele, dando mais espaço entre seus corpos, ao ir guardar a capa do DVD na estante, juntamente com os outros DVDs.

--Eu vim aqui por sua causa. – Darcy não hesitou em responder.

            Elizabeth voltou a fitá-lo, mas não se reaproximou.

--Você deve saber disso: eu vim aqui por sua causa. – Ele continuou a falar, sem desviar o seu olhar. – Eu sonhei com você ontem à noite. E quando acordei, nunca me senti tão sozinho.

--Um daqueles sonhos, hem? – Ela perguntou; corando furiosamente, mas tentando manter o clima descontraído.

--Na verdade, não. – Darcy respondeu, sombrio. – Pior sonho que já tive. – Foi sincero.

            Os olhos dela se arregalaram, mas ela não replicou nada.

--E o engraçado é que eu não precisava dele para me provar que a minha vida será um lixo sem você. – Darcy comentou, não se detendo pela reação dela às suas palavras. – Os últimos três anos tem sido uma tortura para mim. Eu realmente não precisava daquele pesadelo para saber que só podia piorar.

--Eu não estou entendendo o que você está querendo me dizer. – Ela disse; lutando para se acalmar, ele percebeu.

--Eu amo você. – Darcy respondeu, aproximando-se dela novamente.

--Eu já ouvi isto antes. – Ela contrapôs, cética; dando passos para trás, mas mantendo o contanto visual. – Numa das últimas vezes em que nos vimos... Se lembra? Você me disse isso. E no entanto... – Seu tom de voz era amargurado.

--Quando eu fui ao seu apartamento naquele dia e Wickhan estava lá, eu pensei... – Darcy começou a se justificar, defensivo.

--Eu não o convidei, se é o que você está pensando. – Elizabeth interrompeu-o, irritada.

--Você poderia ter fechado a porta na cara dele, como fez comigo inúmeras vezes. – Darcy contrapôs, igualmente irritado.

--Ele já estava dentro do apartamento quando eu cheguei a casa. – Elizabeth argumentou.

            Isto não serviu para amenizar a raiva de William, apenas a agravou.

--Acho que você levou a sério a história de morar juntos, se ele tinha a chave do seu apartamento. – Comentou, contrariado.

--Eu não lhe dei uma cópia da chave. Ele fez sem que eu soubesse. – Elizabeth disse-lhe, ainda mais enraivecida com a atitude dele. – George sempre gostou de esbanjar mais dinheiro do que realmente possuía. E se ele levasse as suas conquistas para o albergue que dividia com dois outros colegas elas descobririam que ele não tinha tanto dinheiro quanto alegava ter. Por isso, ele as levava para o meu apartamento quando eu passava as noites na casa de Jane e Charles, ou dos meus pais.

            Darcy estava boquiaberto com aquela revelação. Nunca poderia imaginar.

--Como você acha que eu descobri que ele me traia? – Elizabeth prosseguiu. – Eu precisei trocar a fechadura do meu apartamento.

            Eles ficaram em silêncio, um observando o outro. Até que ela disse.

--O engraçado é que naquela noite, quando eu abri a porta e o vi ali... – Ela sorriu, mas sem alegria alguma nos olhos. – eu tive a fantasia boba de que você ia entrar o meu apartamento e pô-lo para fora.

            Darcy ficou bestificado com esta confissão. “Ela queria isto?”

--E o que foi mesmo que você disse? Ah é... que não tinha importância. – Ela comentou, magoada. – Como se eu não lhe importasse.

            Darcy queria que o chão se abrisse e o engolisse. Fora tão idiota.

--E eu me senti tão estúpida. Eu tinha acreditado novamente no que você tinha me dito e tinha esperanças de que você fosse ter coragem para lutar por nós dois. – Cada uma de suas palavras era carregada de emoção há muito reprimida. – E você me deu as costas e se afastou de novo. Por que eu devia acreditar que agora vai ser diferente?

--Porque eu não vou desisti desta vez. – Darcy respondeu. – Você pode se recusar a voltar pra mim quantas vezes quiser, eu não vou desisti de você. Eu vou insistir até que você mude de idéia e me dê outra chance.

--Verdade? – Ela questionou, sua voz carregada de cepticismo.

--Sim. – Darcy caminhou até ela, procurando no bolso de sua calça uma caixinha de jóias que guardara ali ao se arrumar para o jantar. – Eu quero que você seja minha mulher, Elizabeth. – Disse, ao tirar a caixinha do bolso e depositar na mão dela. – Eu quero me casar com você.

            Ela arfou, os seus olhos se encheram de lágrimas e ela fitou a caixinha em suas mãos boquiaberta por alguns segundos. Antes de erguer o olhar para ele e dizer.

--Você é inacreditável. – E pelo tom de voz dela, assim como o seu olhar, Darcy soube que aquilo não era um elogio. – Você acha que pode vir aqui e colocar um anel no meu dedo e me fazer fingir que não estivemos separados este tempo todo... Ou esquecer o quanto você me magoou?

--Não. – Darcy protestou. – Eu não quero que você finja nada, Lizzie.

            Respirou fundo, para acalmar os seus nervos, antes de prosseguir. Com raiva não poderia pedi-la em casamento. Afinal, que tipo de proposta seria esta?

--Eu cometi muitos erros com você, sei disso. Mas não posso voltar no tempo e mudá-los. – Argumentou. – Só posso lutar pelo futuro que quero aqui no presente. E eu quero você. Pra sempre.

            Ela o escutou em silêncio. E pôde ver, através de seus olhos, que suas palavras estavam dissolvendo suas defesas.

--Este anel é como o meu coração. – Darcy não hesitou mais. – É seu. Você o querendo ou não. Nunca irá pertencer a outro alguém. – E sentiu os seus olhos começarem a pinicar e a sua voz a falhar. – Eu vou rezar para que você um dia o aceite e o use... Mas se isso não acontecer, não o devolva para mim. Porque eu não vou saber o que fazer com ele. – Ao fim do discurso, percebeu que não conseguia dizer mais nada. Um nó se formara em sua garganta e ele mal conseguia respirar.

--Oh, William, aí está você. – Caroline os interrompeu, entrando na sala.

            Darcy tossiu e se apressou a enxugar os olhos. Enquanto Elizabeth fechava a mão sobre a caixinha de jóias e a escondia em suas costas; assim como virava o rosto, tentando escondê-lo de Caroline. Não permitir que Caroline percebesse que ela estava chorando.

 --Venha! – Caroline segurou-o pelo braço e começou a arrastá-lo para fora da sala. – Papai estava falando sobre...

--Caroline, na verdade, eu estou cansado. – Darcy a interrompeu. – Eu vou dormir. – E retirou-se da sala sozinho, seguindo para o seu quarto.

            Ao entrar no quarto e fechar a porta, não soube mais o que fazer. Não sabia o que pensar. Se aquela conversa com Elizabeth fora benéfica ou não. Sabia que era necessária. Mas estava consciente de que não tivera o resultado desejado.

            Ele mentira. Queria sim que ela aceitasse o anel e voltasse para ele naquele instante. Queria pedir desculpas e ser perdoado imediatamente. Sabia que era uma esperança vã. Uma ilusão. Mas não foi capaz de matá-la dentro de si.

            Queria tê-la de volta. E a idéia de que isso podia nunca se tornar realidade, agora que se permitira ter esperanças de novo, era um tormento.

            Ficou andando no quatro, de um lado para o outro. Incapaz de deitar na cama e pensar em dormir. Ficou ouvindo a cada inteira ir silenciando, à medida que seus habitantes se recolhiam para dormir.

            Imaginou Elizabeth em seu quarto. Ela estaria no mesmo estado de nervos em que ele? Conseguiria dormir? Ou ficaria andando de um lado para o outro? Fitando aquela caixinha de jóias, tentada a abri-la e espiar o anel ali dentro? Colocaria o anel no dedo só para ver como fica?

            Bufando, deitou-se na cama e ficou olhando para o teto. Mas pulou dela no segundo seguinte. Não queria dormir. E se sonhasse de novo? E neste sonho eles continuassem separados. Teria forças para persistir no dia seguinte?

            Voltou a caminhar pelo quarto. Quando suas forças começaram ceder lugar ao cansaço, Darcy decidiu se trocar. Colocar uma roupa mais confortável e se deitar na cama. Não ia dormir, mas ficar inquieto também não ajudaria em nada.

            Darcy ouviu aquele barulho baixo de batidas na porta. Abriu os olhos relutante. Estava deitado em sua cama, no quarto de visitas da casa de campo de Bingley.

--...tio, acorda! Acorda! – Mais batidas na porta. – É Natal, tio! Acorda!

            Darcy detectou a voz infantil de seu afilhado. Estava tão tagarela que Darcy às vezes se espantava que estivesse apenas com uma pouco mais de três anos. 

--Acorda, tio! – Ele continuava a chamar e a bater na porta. – Presentes!

            Darcy sorriu consigo mesmo ao constatar o motivo do excitamento do menino.

--Arthur, deixe o seu padrinho dormir mais um pouco. – Ouviu a voz de Jane tentando remediar com o garoto. – Ele deve estar muito cansado.

--Mas é Natal. – O menino justificou. – Presentes!

--Vamos fazer assim. – Jane propôs. – Descemos nós dois, tomamos o café enquanto esperamos seus avós e tios acordarem. Tenho certeza de que quando você tiver terminado de tomar o seu café e for abrir os seus presentes, todos eles estarão lá embaixo também.

--Minha dinda já deve estar lá embaixo, não é? – Ouviu o menino questionar a mãe. – Não estava na cama.

--Acho que sim. – Jane respondeu e a voz dela foi ficando distante. – Lizzie gosta de acordar cedo... – Até que Darcy não a escutou mais nada.

            Mas não conseguiu voltar a dormir. A noticia de que Elizabeth não estava em seu quarto, dormindo, o despertou por completo. Tentou lembrar-se de algum sonho que tivera aquela noite, mas não conseguiu.

Rolou na cama, encostando as costas no colchão e fitando o teto, espreguiçando-se. Até que notou com o canto do olho um volume diferente ao seu lado na cama.

            Virou o rosto naquela direção e admirou-a, espantado. Como ela viera parar ali? Estaria sonhando? Um daqueles sonhos? Será que isto significa que irão ficar juntos? Que ela irá perdoá-lo? Aceitará o seu pedido de casamento?

            Virou o corpo por completo em sua direção, deitando-se de lado e fitou-a longamente. Há quanto tempo não tinha o privilégio de admirá-la em um momento com este? Ver o seu rosto sereno, os olhos fechados, os cabelos negros e encaracolados emoldurando o seu rosto e cobrindo o travesseiro. Sentir a sua presença assim tão perto de si; o calor de seu corpo, o seu cheiro.

Elizabeth estava deitada de lado na cama, de frente para ele. Uma das mãos estava debaixo do travesseiro e a outra segurava o cobertor junto ao peito. O seu ombro, assim como os dedos da mão, estava por fora do cobertor. Não havia sinal do anel que lhe dera.

Então, o que este sonho poderia significar? Ela o perdoaria, mas não aceitaria se casar com ele? Ou era apenas um indicio que estava indo no caminho certo? Que dera o primeiro passo para reconquistá-la? Que não devia desistir?

Chegou um pouco mais perto, mas sem tocá-la. Queria acariciar o seu rosto e sentir a textura de seus cabelos por entre os seus dedos. Mas lembrava-se de que não conseguia tocar nada ou ninguém nestes sonhos/premonições que tinha. Lembrava-se de ter tentando tocar em Abby, quando pensara ser sua filha e de Elizabeth, mas não conseguira.

Contentou-se em admirá-la em silêncio e permitir que o seu coração se enchesse de esperanças. Este sonho só podia ser um bom sinal – tinha de ser! Ele não estaria sonhando com Elizabeth deitada ao seu lado na sua cama se ela não fosse predestinada para ele.

Não soube dizer por quanto tempo ficou ali, olhando-a dormir. Feliz em poder ouvir sua respiração serena e imaginar quais sonhos ela estaria tendo. Se nesta realidade alternativa ela estaria sonhando com ele.

Até que sentiu que ela começava a despertar. Ela se remexeu, coçando o rosto com a mão que estivera segurando o cobertor próximo ao peito. E admirou-se como tão inocente e meiga aquela imagem lhe parecia.

Elizabeth abriu os olhos letamente e depois os fechou. Em seguida, abriu-os de novo, esfregou os olhos com o punho fechado e murmurou um sonolento:

--Bom dia.

--Você pode me ver? – Darcy perguntou, espantado. Em seus sonhos/presságios ninguém além da sra. Reynolds conseguia vê-lo.

--Ham? – Elizabeth perguntou-lhe, ainda sonolenta.

--Você consegue me ouvir? – Darcy estava ainda mais assombrado.

Olhou a sua volta, com medo de encontrar mais alguém ali (alguém como o seu primo, talvez). Seu coração batia apressado em seu peito e uma angustia revirou o seu estômago com aquela mera possibilidade.

Mas não havia mais ninguém. Então, voltou a olhar para Elizabeth.

--Você é de verdade? – Darcy questionou-a, receoso em tocá-la e vê-la desaparecer.

--É claro que sou de verdade, William. – Elizabeth respondeu, mais desperta e estranhando seu comportamento. – Você está se sentindo bem? – Ela ergueu a sua mão até o rosto dele e o tocou suavemente.

            Darcy sentiu um choque elétrico atingi-lo e arfou, surpreso, ao constatar que ela era de verdade. Ele estendeu a mão até o seu rosto e, hesitante, tocou-lhe a face e acariciou-lhe os cabelos, demoradamente.

--Eu não estou sonhando. – Exclamou, sentindo seu coração bater ainda mais acelerado em seu peito. – Você realmente está aqui. – Disse, emocionado.

--Estou. – Ela murmurou em resposta, incapaz de ficar indiferente ao sentimento profundo que via espelhado em seus olhos.

            Darcy acomodou sua mão na nuca dela e aproximou seus rostos. Encostou sua testa na dela, suspirando, fechou os olhos e permitiu perder-se na sensação de sentir seus hálitos se misturando. Seu nariz se encostou ao dela, segundos antes da boca macia e quente de Elizabeth tocar a sua. 

Permitiu que suas mãos percorressem as costas dela e a envolvessem com carinho. Puxou o corpo dela para cima do seu e apertou-a em seus braços com mais força, intensificando aquele beijo. Sentindo-a corresponder ao seu beijo como a mesma intensidade e paixão de antigamente.

Aquele beijo foi a resposta para todos os seus anseios. Darcy se permitiu saboreá-lo sem medos. Ele podia não saber exatamente o que o seu futuro lhe reservava. Mas sentia-se seguro de que qualquer que este fosse, Elizabeth estaria ao seu lado. E, naquele instante, tudo o que queria era aproveitar o seu presente.

“O passado é história

O futuro é mistério

E hoje é uma dádiva.

Por isso é chamado de presente!”

Deepak Chopra.

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