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Não tenho medo de mostrar meus sentimentos e de fazer coisas imprudentes, pois acredito que o que não se mostra, não se sente.(Jane Austen)

SONHAR ACORDADO - Parte 08

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Parte VIII

Mas ninguém respondeu.

            Tentou correr e continuar a chamar por ela, mas não parecia estar saindo do lugar. Até que começou a ouvir um barulho. Um barulho irritante, como um toque incessante de telefone. Que foi crescendo e crescendo.

            Darcy continuou correndo em direção ao som, gritando pela senhora Reynolds. Uma luz começou a brilhar no fim do túnel e Darcy correu para ela. Mas depois percebeu que ela parecia correr na direção dele.

            Confuso, ficou parado. Apenas olhando para luz e ouvindo aquele barulho. Então se deu conta que não era o toque de um telefone, mas a buzina de uma locomotiva. Uma locomotiva que vinha rapidamente em sua direção e o mataria.

            Darcy virou-se na outra direção e tentou correr o mais rápido que pôde. Mas ainda lhe parecia que não conseguia sair do lugar. E a luz ficava cada vez mais perto e o barulho cada vez mais alto.

            Tropeçou nos próprios pés e caiu de cara no chão.

Quando abriu os olhos, encontrou-se beijando o piso frio do seu quarto em seu apartamento, enrolado no cobertor de sua cama e vestido com as mesmas roupas confortáveis com que fora se deitar na noite passada.

            O seu quarto estava iluminado com a luz fria do sol daquela manhã de Véspera de Natal. E o telefone da sala tocava. Alguém estava ligando para ele. 

            Darcy estava atordoado. Fora só um sonho. Um sonho maluco, que não tem nada a ver com a realidade. Tentou convencer a si mesmo, enquanto desprendia as pernas da coberta e erguia-se do chão. Jogou o cobertor sobre a cama e entrou no banheiro.

            Parou diante do espelho e fitou o próprio rosto pálido. Abriu uma das torneiras da pia e encheu as mãos com água, jogando-a no rosto em seguida. Precisava acordar!

            Quando terminou de usar o banheiro, aliviado e feita a sua higiene pessoal, adentrou no quarto e ouviu o telefone ainda tocar na sala. Embora o barulho não fosse tão alto àquela distancia, ainda parecia-lhe irritante.

            Darcy saiu do quarto e seguiu pelo corredor, apreensivo. Dizia a si mesmo que não havia motivos para ficar esperando que a sra. Reynolds surgisse ao seu lado de repente ou que se deparasse com um ambiente desconhecido ao cruzar a soleira da porta da sala.

            Atendeu o telefone, antes que o bip da secretária eletrônica fosse acionado.

--Alô? – Resmungou.

--Finalmente. – Richard exclamou. – Sabe há quanto tempo estou ligando para você? Pensei que tivesse morrido...

--O que quer, Richard? – Perguntou, enraivecido.

--Que você abra a porta, oras! – Richard reclamou. – Estou aqui há mais de meia hora, batendo nesta porta e sendo ignorado por você.

--Abrir a porta? – Darcy estranhou esta ordem, voltando-se de frente para a porta do seu apartamento.

--Eu lhe disse que viria lhe buscar, não disse?Você não acreditou?

--Você disse depois do feriado. – Replicou.

--Não. Disse que se você não desse noticias até o feriado, viria lhe buscar. – Richard argumentou. – Mas Georgie está muito preocupada, então vim logo. – Após uma breve pausa, resmungou. – Você vai me deixar entrar, ou não?

            Darcy desligou o telefone e foi abrir a porta do apartamento para o seu primo.

--Nossa, que cara horrível. – Richard elogiou-o, recuperando o seu bom humor. – Passou a noite em claro fazendo o que? Hum, safado, deu uma festinha particular! – Ele adentrou o apartamento e fechou a porta às suas costas. – Foi por isso que mandou Georgie lá para casa sozinha?

--Não diga asneiras, Richard. – Darcy rebateu, seguindo para a cozinha.

            Precisava tomar café e certificar-se de que não voltaria dormir. Não queria ter outro sonho daqueles.

--E por que esta cara, então? – Richard o seguiu.

--Não dormir muito bem esta noite. – Darcy replicou, já preparando para si uma xícara de café preto e amargo.

            Richard observava-o com atenção, mas Darcy tentava ignorá-lo. Sempre que olhava para o primo, lembrava-se do sonho que tivera e sentia raiva dele, Richard, por ter ousado desposar Elizabeth.

--Você vai me contar sua história com Elizabeth Bennet agora? – Richard questionou, ganhando um olhar fulminante de Darcy.

--Não sei como isso possa ser do seu interesse. – Replicou de imediato, não tentando esconder sua raiva.

--Tudo ao seu respeito me interessa. Sou seu primo. – Richard argumentou.

--Não se meta na minha vida, Richard. – Darcy ordenou.

--Georgiana está muito preocupada, Darcy. E, olhando para você agora, eu também estou começando a ficar. – Richard argumentou, não desistindo. – Seja honesto comigo, Darcy. Quem é esta Elizabeth Bennet e o quão sério é o seu envolvimento com ela?

            Darcy queria expulsá-lo de seu apartamento sem lhe dar explicação alguma. Mas o aviso da sra. Reynolds durante o sonho ficava soando em sua mente. “É sua culpa Elizabeth ter se casado com o seu primo... Você queria preservar o que sobrou do seu orgulho ferido. E mentiu.”

            Se mentisse ou se omitisse agora, seu futuro seria àquele do sonho? Estaria ele se condenando àquele pesadelo neste instante? “É sua culpa...”, a voz da sra. Reynolds exclamou em sua mente, como se a senhora estivesse parada ao seu lado naquele instante.

--Mais sério que você possa imaginar. – Viu-se responder, irritado. – Então não se meta!

--Calma, Darcy. O que você acha que farei? – Richard questionou-lhe, estranhando o seu comportamento.

--Eu vou me casar com ela, Richard. – Darcy informou, seguro de si ao olhar o primo nos olhos e desafiá-lo a contradizê-lo.

            Richard parecia surpreso. Mas logo sorriu.

--Você está noivo? E por que está escondendo isto da gente? – Questionou, confuso. – Somos sua família, Darcy, ficaríamos felizes por você. Bem, talvez não tia Catherine, mas... – E, rindo, continuou. – Quando você vai apresentá-la a família? Anunciar o noivado? – Desatou a falar, empolgado. – Georgiana preocupada com este seu comportamento misterioso e você estava escondendo um noivado! – Exclamou, divertido. – Ela vai ficar nas nuvens quando descobrir. Parece que ela também caiu de amores por esta Lizzie. Deixou-me até curioso para conhecê-la.

--Não estou noivo. – Darcy respondeu, refreando a excitação do primo com a novidade. – Pelo menos, ainda não. Mas vou ficar! – Assegurou, confiante. – Eu vou me casar com ela. – Concluiu, em tom de aviso.

--Ok. – Richard respondeu, erguendo as mãos no ar, como sinal de rendição; confuso novamente. – Você está muito estranho, Darcy.

Darcy não argumentou com o primo a este respeito. Sabia estar agindo de forma curiosa. Mas não tinha intenções de entrar na discussão dos pormenores com Richard. Tomou o seu café em silêncio.

--Olha, se você não quer conversar sobre isso agora, tudo bem. Não precisamos conversar. – Richard propôs. – Vá tomar um banho, troque de roupa e vamos lá para casa. Todo mundo está nos esperando e eu não vou sair daqui sem você. – Completou, retomando o seu ar brincalhão ao fazer aquela ameaça.

--Vai sim. – Darcy respondeu, sério. – Eu não vou a lugar algum com você. Tenho outros planos.

--Qual é, Darcy? – Richard resmungou, perdendo a paciência. – Você não quer dividir comigo seus problemas, tudo bem. Mas Georgiana está te esperando. Deixa de ser egoísta e pensa um pouquinho nela.

--Eu estou pensando na minha irmã. – Darcy resmungou, ofendido. – Ela vai entender o que estou fazendo. – Terminou de tomar o seu café preto, sem se incomodar em comer mais nada. – Agora, se você me dá licença. Eu não tenho mais tempo a perder. – Saiu da cozinha e seguiu para o próprio quarto, deixando Richard sozinho na cozinha.

            Enquanto tomava banho, Darcy tentava se acalmar. Sabia que seu primo estava preocupado com ele e não fazia idéia do porque deste antagonismo de sua parte. Mas sentia muita dificuldade de se esquecer daquele sonho e não sentir rancor de Richard pelo que lhe fizera (mesmo que realmente não o tenha feito).

            Trocou de roupa, pensando no sonho e no caminho horrível que sua vida tomara nele. Não queria aquele futuro para si, ou para aqueles a sua volta. E precisava impedi-lo de se tornar realidade.

            Ainda não sabia como poderia influenciar tanto a vida de outras pessoas, a ponto de a vida delas depender de como levava a sua. Não acreditava que futuro de tantas pessoas estava em suas mãos. Afinal, não era nenhum cientista responsável por encontrar a cura de alguma doença rara ou algo do tipo.

            Ao surgir à sala, com uma pequena mala em mãos, encontrou-se novamente com Richard. Ele o aguardava sentado ao sofá, pacientemente o esperando. Ao vê-lo arrumado para sair, pôs-se de pé mais animado.

--Ainda bem que você mudou de idéia quanto a ir comigo. – Richard comentou, caminhando em direção da porta.

--Eu não mudei de idéia. – Darcy respondeu, pegando as chaves do seu carro sobre uma peça próxima a porta e seguindo em direção ao primo.

--Onde você vai então, Darcy?

--A casa de Charles. – Darcy respondeu, tentando controlar o seu gênio.

--Elizabeth está lá, não é? – Richard questionou, finalmente parecendo compreender tudo.

--Está. – Darcy não negou e aguardou que o primo o recriminasse.

--Eu entendo. – Richard, no entanto, não pareceu surpreso. – O que devo dizer a Georgiana? – Foi somente o que quis saber.

--Eu vou ligar para ela e converso com ela ainda hoje. – Darcy alegou, mais brando.

            Os dois seguiram juntos para a porta e saíram do apartamento. Tomando o elevador para o estacionamento do prédio.

--Perdoe-me por ter sido rude com você... – Darcy começou a se desculpar, sem fitar o primo nos olhos ao fazê-lo. – Sei que você só está preocupado...

--Não se incomode em se explicar. – Richard o interrompeu. – Acho que se estivesse em seu lugar eu também não gostaria se alguém ficasse se intrometendo na minha vida.

            Seguiram o resto da viagem em silêncio. Quando as portas do elevador se abriram, cada um seguiu em uma direção.

--Boa sorte. – Richard lhe desejou, antes que Darcy entrasse em seu carro.

--Obrigado. – Darcy replicou, sabia que ia precisar.

Entrou no carro, colocou sua mala no banco do passageiro ao seu lado e deu partida no carro.

Pelo relógio do pulso, percebeu que a manhã já estava se despedindo. Não notara até então que dormira além da conta. Principalmente, porque a manhã estava excessivamente fria e tivera a impressão de ser bem mais cedo ao despertar daquele pesadelo esta manhã.

As ruas de Londres, ao centro, não estavam vazias. Era Véspera de Natal e algumas pessoas ainda estavam fazendo suas compras de última hora. Darcy não gostava de ter de enfrentar uma multidão numa situação como esta. Por isso, geralmente comprava os presentes de familiares e amigos com antecedência.

Este ano não fora diferente. Fora com Georgiana comprar os presentes de seus tios, primos e amigos. Georgiana chegava a acusá-lo de não gostar de presentear as pessoas. Seu problema não era este. Mas a falta de talento ao escolher os presentes. Por isso, optava por ser prático.

Para os homens, comprava uma garrafa do mais antigo uísque ou uma caixa de charutos de difícil aquisição. Para as mulheres, uma jóia. Não havia como errar. E contava com o bom gosto e tato de Georgiana na hora de escolher as jóias, a depender do estilo de cada mulher a que fosse presentear. 

Como se tornara costume os Bennet passar o Natal com Bingley, Darcy passara a comprar presentes para os mais novos membros da família de Bingley também. Georgiana, pessoalmente, escolhera um par de brincos elegantes para a sra. Bennet e pulseiras delicadas para as srtas. Bennet. Em especial, escolhera uma corrente com um par de brincos para Elizabeth.

Quanto a ele coube apenas comprar a caixa de charutos para o sr. Bennet e o presente de Arthur, seu afilhado. Como Bingley declarara que Arthur estava aficionado em aviões ultimamente, Darcy comprara para ele um helicóptero de controle remoto de tecnologia avançada. 

Os enviara para a casa de Bingley com os demais presentes, juntamente com o pedido de desculpa por não poder participar das comemorações de fim de ano com eles. Alegando ter a intenção de passá-lo com sua própria família na casa de seus tios.

Não que esta desculpa vá lhe poupar de ouvir um sermão de Bingley quando aparecesse em sua casa de repente. Sabia que o amigo já tomara conhecimento de que estava mentindo, já que deixara isto bastante claro em sua mensagem na secretária eletrônica – Georgiana lhe informara que fora enviada para a casa dos tios sozinha.

Mas não era isto que o deixava ansioso. Seu nervosismo estava mais relacionado ao presente que estava prestes a comprar agora. Algo que ele sabia, caberia somente a ele escolher dentre tantas possibilidades.

Demorou um pouco para conseguir estacionar o carro, já que as vagas estavam escassas na rua. Precisou parar muito afastado da loja e percorrer o espaço a pé, desviando de tantas outras pessoas que estavam circulando pela calçada, cheias de sacolas e olhando vitrines.

Ao entrar na loja, uma atendente vestida elegantemente veio ao seu encontro, prestar-lhe seus serviços.

--Como posso ajudá-lo? – Ela questionou, sorrindo-lhe amistosamente.

--Eu preciso de uma aliança. – Darcy não hesitou. Este era um momento decisivo em sua vida e não fraquejaria.

Ao sair da loja, com o pequeno embrulho dentro de uma sacola de tamanho razoável, Darcy caminhou até o seu carro com pensamentos dispares. Sentia-se esperançoso e convicto de sua nova atitude. Mas também sentia uma terrível apreensão e medo. E se tudo fosse em vão?

Ficou sentado em seu carro com a sacola do presente em mãos, pensativo. Resolveu ligar para sua irmã e conversar com ela. Acreditava que se ouvisse a voz de Georgiana conseguiria se acalmar.

 Ela atendeu ao seu celular após o terceiro toque e parecia felicíssima ao falar com ele.

--Will, que bom que você ligou. – Exclamou, animada. – Você não está zangado comigo, não é? – Perguntou em seguida, um pouco apreensiva.

--Zangado com você? – Darcy se surpreendeu com esta pergunta. – Por que estaria?

--Porque eu acabei fazendo Richard ir te buscar... – Sua irmã respondeu. – Eu estava tão preocupada... – E apressou-se a se justificar.

--Eu não estou zangado, Georgie. – Assegurou-a sem demora. – Eu estou ligando justamente para tranqüilizá-la. – “E a mim mesmo também”, pensou.

--Então, você já está a caminho daqui? Quando vocês chegam? – Georgiana voltou a ficar animada.

--Na verdade, eu não estou a caminho daí. – Darcy respondeu, hesitante.

--Não está? – Georgiana soou decepcionada. – Mas eu pensei que você viria... Que Richard conseguiria convencê-lo a não ficar sozinho hoje.

--Eu não vou estar sozinho, querida. – Darcy prometeu-lhe. – Eu estou a caminho da casa de Bingley.

--Está? – Ela soou surpresa.

--Mas... Se você fizer questão, eu posso ir para aí. – Darcy apressou-se em garantir.

--Ah não, não... Vá para casa de Charles. – Georgiana afirmou. E ele detectou na sua voz uma nova excitação.

            Ambos ficaram em silêncio, ponderando o significado desta atitude de Darcy. Ele sabia que sua irmã não podia prever exatamente o que ele estava preste a fazer, mas deduziria que ele tentaria ao menos uma reconciliação com Elizabeth.

--Georgie, eu estou ligando também para lhe dizer algo muito importante. – Disse-lhe, solene.

--O que é? – Ouviu-a se alarmar com a seriedade em sua voz.

--Eu quero que você saiba que não há nada que você não possa conversar comigo. Eu sou seu irmão, eu te amo e sempre estarei ao seu lado. Não importa o que aconteça. – Disse-lhe tudo isso com calma, clareza e sentimento.

--Eu não gostei nada disso. – Ouviu-a murmurar, com a voz chorosa.

--O que? Por quê? – Perguntou-lhe, surpreso.

--Você soou como se estivesse se despedindo. – Georgiana explicou, ainda com um tom de voz temeroso. – Você não está pensando em fazer nada estúpido, está?

            Darcy não conteve o riso com a interpretação que ela deu às suas palavras.

--Não, sua boba. – Replicou, aliviado. – Eu só estou tentando lhe fazer entender que você tem a mim. Que você pode contar comigo para qualquer coisa. – Repetiu, por fim, a sua promessa. – Eu vou estar sempre ao seu lado.

--Eu sempre soube disso. E eu te amo também. Muito. – Ela respondeu, já com um tom de voz mais afável. – Não se esqueça de dar um beijo em Arthur por mim. – Ela pediu, ele riu. – Feliz Natal, irmão.

--Feliz Natal. – Darcy desejou-lhe antes de desligar o telefone.

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