Parte VII
Mas não voltou a sair no corredor, mas se encontrava de volta ao escritório. Darcy olhou a sua volta e notou que não se tratava do mesmo escritório. Este era o seu escritório na sociedade de advogados que divide com Catherine, sua tia.
Estava em sua sala, às luzes estavam apagadas. A única fonte de luz era a tela do seu computador ligado sobre a sua mesa. Ele mesmo, mais velho, estava sentado em sua poltrona atrás da mesa. Mas não olhava para a tela do computador.
Vestia um dos seus ternos feitos sobre medida. A gravata estava frouxa, os dois primeiros botões abertos, cabelo desarrumado e terno desalinhado. A cabeça estava encostada na poltrona e tinha os olhos fechados.
As linhas do seu rosto estavam acentuadas, seus cabelos tinham fios grisalhos e a barba continuava bem feita. Mas tinha orelhas por debaixo dos olhos e um copo de uísque em uma das mãos.
Suspirando lentamente, o seu eu mais velho abriu os olhos e abaixou a cabeça, fitando um pedaço de papel que tinha na outra mão. Darcy se acercou dele e viu que se tratava de uma foto sua com Elizabeth.
Ela estava sentada em seu colo e tirara uma foto dos dois juntos com uma maquina digital, utilizando-se do dispositivo auto-retrato. Os dois estavam abraçados, ela sorria e ele estava lhe beijando o rosto.
--É assim que você passa todas as suas noites agora. – A voz da sra. Reynolds o sobressaltou de novo.
Não notara a sua presença até então e estivera perdido em lembranças daquele dia, quando ainda era feliz e a tinha para si.
--Quando a sua mãe morreu, o seu pai se fechou para o mundo. – A sra. Reynolds começou a lhe dizer com calma. – Ele voltou-se para o trabalho, preocupou-se com a segurança financeira e física de sua irmã e a sua. Mas não estava presente na vida de nenhum dos dois em termos de afeto, porque ele sentia que esta parte dele que podia sentir tais sentimentos havia morrido com a sua mãe.
Ela fez uma pausa, olhando para o seu eu mais velho. Darcy fez o mesmo, mal se reconhecendo.
--E você fez o mesmo, William. – A sra. Reynolds prosseguiu; escutava, mais uma vez, em seu tom de voz a decepção. – Quando sentiu que havia a perdido para sempre, você também se fechou em sua dor e amargura, excluindo todos os outros que o amavam de sua vida.
--Eu não faria isso. – Darcy replicou, descrente em suas palavras. Ele tinha uma irmã em quem pensar, nunca a ignoraria.
--Você se concentrou no trabalho, em manter a aparência de que nada em sua vida havia mudado... Em manter a imagem de inabalável que você gosta tanto de ostentar. – A sra. Reynolds não teve pena. Continuou a dizer tudo o que ele preferia não ouvir. – Focalizou suas energias na parte de sua vida que podia controlar e prever, fechando-se para todo o resto. Evitando, assim, oportunidades de voltar a se machucar.
Darcy negava tudo com acenos de cabeça, mas manteve-se calado. Será que podia ser verdade? Seria covarde a este ponto?
--Ninguém tentou me impedir? – Darcy questionou a sra. Reynolds. – Georgiana sabia... Não importa o que você diga, ela sabia!
--Ela sabia. E ela tentou. – A sra. Reynolds respondeu, calma; um sorriso triste nos lábios. – Ela tentou, assim como Bingley, Jane, Richard...
Ao ouvir o nome do primo, Darcy bufou, indignado. O traidor!
--Todos eles tentaram conversar com você. Mas você não escutou a nenhum deles. – A sra. Reynolds ignorou sua reação ao nome de Richard e prosseguiu. – Até mesmo Catherine tentou falar com você. Convencê-lo a sair do seu estado catatônico e frio. É claro, ela tinha suas próprias razões. – A sra. Reynolds parecia contrariada neste ponto. – Mas, mesmo assim, demonstrou preocupação com você. E tentou. Mas você não a escutou também.
--Oh idiota, levante-se! – Darcy ordenou ao seu eu mais velho. – Vamos, covarde! Faça alguma coisa!
--Ele não pode ouvir você. – A sra. Reynolds disse, impaciente. – E não lhe daria ouvidos mesmo que pudesse!
Ao final desta frase, Darcy viu o seu eu mais velho fitar alarmado o seu braço esquerdo. O copo em sua mão escapou-lhe dos dedos e caiu no chão. E o seu eu mais velho agarrou o braço esquerdo com a outra mão, contorcendo-se de dor.
--O que está acontecendo? – Darcy perguntou, assustado.
--Você está morrendo. – Sra. Reynolds respondeu, calma, indiferente ao olhar pasmo que recebeu de Darcy em resposta.
--Estou morrendo? – Não conseguia acreditar na tranqüilidade da senhora diante desta situação.
--Sim. Ataque cardíaco. – A sra. Reynolds explicou-lhe sem se abalar. – Como seu pai. Sabe como é a genética. – Ela explicou, um tanto irônica.
--Mas eu sempre cuidei bem da minha saúde. – Darcy protestou, assustado em ver-se contorcendo na poltrona, agora apertando o próprio peito.
--Você costumava cuidar bem da sua saúde. – A sra. Reynolds esclareceu. – Há muito tempo que não se preocupa com isso. Sempre estressado com o trabalho, sem fazer os seus exercícios regulares, se alimentando muito mal e, às vezes, não comendo nada... Sem falar das noites mal dormidas e, claro, do álcool.
O seu eu mais velho tentou se erguer da poltrona e acabou caindo ao chão, contorcendo-se no tapete.
--Ajude, sra. Reynolds, eu estou morrendo! – Darcy exclamou, desesperado, ajoelhando-se ao lado do seu próprio corpo e tentando virar-lhe, sem conseguir tocá-lo.
--Você vem se matando aos poucos, William. Por que eu deveria me abalar agora? – A sra. Reynolds se dirigiu a porta do escritório, abandonando-o sozinho com o seu eu mais velho.
Logo, seu eu mais velho parou de se contorcer, seus olhos fecharam e sua respiração cessou. Darcy afastou-se, observando-o aparvalhado. Estava morto?
Lentamente, ainda entorpecido em pensamentos confusos diante do que havia presenciado, Darcy se ergueu do chão e caminhou até a porta do escritório, indo atrás da sra. Reynolds.
Ao atravessar a porta, viu-se ao ar livre. O céu estava nublado, cinzento e carregado de nuvens. A sua volta, via estatuas de cimento de anjos e santos. Túmulos simples e outros repletos de ornamentos o rodeavam.
Darcy viu um aglomerado de pessoas, todas vestidas de preto e cores sombrias, envolta de um túmulo recém aberto. Aproximou-se delas e viu a sua irmã. Georgiana parecia ainda mais pálida. Darcy não pode dizer se estava chorando, porque tinha os olhos escondidos por óculos escuros. Mas ponderou que ela parecia estar conformada.
A um de seus lados, estavam: Anne, sua tia Catherine e, ao lado desta, Robert Collins. Do outro lado, um homem alto de cabelos escuros, com uma expressão impassível no rosto.
O que Collins estava fazendo em seu enterro? Estaria acompanhando sua tia? Será que haviam se assumido para seus amigos? E quem era aquele homem indiferente ao lado de Georgiana?
Mas sem ter a sra. Reynolds ao seu lado para responder suas perguntas, continuou a olhar a sua volta.
Um pouco mais afastado, viu Richard e Elizabeth. Cada um segurava uma das mãos de Abigail, que estava no meio dos pais. Ela olhava de soslaio para dois garotos parados ao seu lado. Ambos mais velhos e que lhe dirigiam o olhar, sorrindo de vez em quando. E ao lado dos garotos encontravam-se Jane e Charles.
Darcy ponderou que um dos garotos devia ser Arthur. O mais alto, sem dúvida. Estava cada vez mais bonito. Mas não sabia o nome do mais novo, que parecia ser um ano ou dois mais velho que Abigail.
Caroline Bingley estava parada ao lado do irmão, aparentando estar sozinha. Estava vestida elegantemente, com um véu negro cobrindo o seu rosto. E parecia chorar como se fosse sua viúva.
Mas, tão logo teve este pensamento, um senhor com idade para ser o pai dela parou ao seu lado e passou o braço em sua cintura. E ela inclinou-se sobre o seu peito e chorou mais um pouco, escondendo o rosto dos demais a sua volta.
Seria aquele o seu marido? E ele não se incomodava com o show que ela estava fazendo?
Viu outros rostos conhecidos, pessoas com quem trabalhara ou estudara. E outros desconhecidos. Poucos eram aqueles que pareciam realmente lamentar a sua morte.
O seu caixão foi posto sobre o aparelho do cemitério usado para baixá-lo na cova já escavada. E um padre prosseguiu com a cerimônia. Fez um breve minuto de silêncio e foi permitido aos familiares e amigos que prestassem uma última homenagem.
Collins foi para perto do padre e com toda a sua pompa, começou a fazer um discurso a seu respeito. Enumerando o que ele deduzia serem as suas qualidades como homem, irmão e membro de uma sociedade elevada.
A única pessoa que parecia ter apreciado o seu gesto foi a sua tia Catherine, que o escutou com atenção e o agradeceu quando ele voltou para o seu lado.
Uma chuva começou a cair e aos poucos a maioria das pessoas começou a ir embora. Ingleses verdadeiros não costumam sair de casa sem um guarda-chuva e, por isso, tantos outros os abriram enquanto seguiam até a saída do cemitério – onde os seus carros os aguardavam.
Collins acompanhou Catherine, segurando para ela o guarda-chuva aberto. Anne a seguiu logo em seguida, deixando Georgiana com o homem de cabelos escuros. Este trocou algumas palavras com Georgiana. Parecia impaciente. E não demorou a ir embora também.
Georgiana continuou no mesmo lugar, agora mais sozinha do que nunca. Fitava o seu caixão fechado. A coroa de flores que o cobria foi retirada e o caixão começou a ser baixado na cova, para que pudesse ser enterrado.
Jane e Charles, com seus filhos, se acercaram dela e trocaram algumas palavras de consolo. Depois também se retiraram. Richard e Elizabeth seguiram o seu exemplo. Eles também trocaram algumas palavras.
Richard abraçou Georgiana por um longo minuto, depois aconselhou a sua filha a fazer o mesmo. Então foi a vez de Elizabeth e as duas mulheres se fitaram em silêncio por um bom tempo.
Darcy sentiu-se compelido a se aproximar, assim que Richard prosseguiu sozinho com a filha em direção a saída do cemitério. Ele a havia carregado no colo e protegia os dois com o guarda-chuva. Deixando Elizabeth sem nenhum abrigo, além daquele provido pelo guarda-chuva de Georgiana.
Darcy parou ao lado das duas mulheres no instante em que Elizabeth abraçou a sua irmã. Georgiana parecia relutante em corresponder, mas cedeu por fim. Abraçando-se a ela e começando a chorar baixinho.
Darcy sentiu o seu coração se contrair.
Quando as duas se separaram, Darcy viu Elizabeth se apressar a limpar as lágrimas que haviam escapado de seus olhos.
Quando Elizabeth tentou seguir o marido, Georgiana a impediu.
--Lizzie, espere. – E Elizabeth voltou a se aproximar. – Eu tenho algo para lhe dar. – Georgiana informou, com um a voz carregada de emoção, enquanto procurava no bolso do seu casaco algo. – Aqui. – Disse, ao estender um pedaço de papel para Elizabeth.
Elizabeth o tomou, fitando o pedaço de papel e aparentando estar surpresa com o que estava vendo.
--Ele estava segurando isto, quando o encontraram... – A voz de Georgiana falhou no final.
Elizabeth parecia perdida olhando para o pedaço de papel em sua mão.
Georgiana respirou fundo e prosseguiu.
--Ele nunca deixou de te amar.
Quando Elizabeth ergueu o olhar para Georgiana, ela já havia lhe dado as costas e seguido em direção à saída do cemitério. Viu-se sozinha, segurando uma foto sua e de Darcy, a qual ela mesma tirara enquanto namoravam escondidos.
A chuva lhe caia sobre o rosto e se misturava às suas lágrimas, as quais ela já não conseguia mais impedir de rolar em seu rosto.
Darcy nunca se sentiu tão impotente antes. Nem mesmo ao si ver morrendo e não poder fazer nada para impedir. Aquilo era devastador. Mesmo depois de morto, ainda a fazia sofrer.
--Ela também nunca deixou de te amar. – Ouviu a voz da sra. Reynolds ao seu lado, solene.
Mas Darcy não se voltou para olhá-la. Virou o rosto em outra direção e limpou as suas lágrimas. Sabia que ela não pensaria se tratar de chuva, porque ele não podia senti-la como qualquer outra coisa real.
--Ela se casou com o meu primo. – Argumentou, com a voz embargada, ao dar as costas a Elizabeth e começar a atravessar o cemitério na direção oposta à que todos foram.
--Sim, casou. – A sra. Reynolds acompanhou os seus passos.
Lado a lado, eles passaram pelo caixão dele. O coveiro começava a jogar terra sobre ele com uma pá.
--Ao contrário de você, que se deixou consumir pela depressão... – Sra. Reynolds lhe explicava, compreensiva. – Elizabeth tentou seguir com a sua vida... Tentou esquecer você. Conheceu e se encantou pelo seu primo.
Darcy não queria ouvir nada disso.
--Não digo que ela não tenha se apaixonado por ele. – A sra. Reynolds, no entanto, não tinha a intenção de se calar. – Ele a fez feliz e lhe deu uma filha... E ela escondeu o sentimento que tinha por você em um lugar que não mais pudesse machucá-la tanto. Mas não significa que este sentimento não exista.
--Se ela tivesse me amado de verdade, não teria se casado com ninguém. – Darcy resmungou.
--Você preferia que ela ficasse eternamente sozinha? – A sra. Reynolds o interrogou, com tom de censura. – Esta é a vida que você deseja pra mulher que diz amar? Uma vida cheia de amargura e solidão?
Darcy parou de andar e fitou-a longamente, com um semblante sombrio.
--Eu queria que ela ficasse comigo... – Com ênfase, exclamou. – Casasse-se comigo.
--Como você queria que ela soubesse disso, William? – Sra. Reynolds contrapôs. – Você nunca lhe disse isso.
--Você pode me levar de volta agora? – Darcy pediu.
Estava cansado daquele delírio, presságio, ou o que quer que fosse. Não queria ver mais nada daquele futuro bizarro.
--Eu ainda não terminei. – A sra. Reynolds proclamou. – Há coisas que ainda preciso lhe mostrar.
--Eu não quero ver mais nada. – Replicou, exasperado.
Quando tentou dar as costas a senhora e ir embora, viu-se em outro cenário. O cemitério sumira e agora estava de pé numa ampla sala de cores neutras e mobilhas clássicas. Era um ambiente elegante e estava repleto de rostos conhecidos.
Sua tia, prima e Collins estavam sentados em um sofá, conversando com o homem de cabelos escuros que Darcy vira no cemitério ao lado de sua irmã. Outros funcionários do escritório e colegas de profissão estavam espalhados pelo ambiente. Assim como famílias de renome na sociedade. Todos perdidos em conversas paralelas, embora em tons de vozes baixos e agourentos.
Darcy procurou por sua irmã, porque não a via em parte alguma.
O homem de cabelos escuros recebeu uma ligação no celular e, desculpando-se com suas companhias, pediu licença para ir atendê-lo. Ergueu-se do sofá e caminhou na direção de Darcy, afastando-se das pessoas ali presentes.
--Quem é ele?
Darcy ainda tinha esperanças de que ele não fosse namorado, noivo, ou, pior, marido de sua irmã. Ele lhe aparentou ser um homem frio e alguém que não lhe dava valor algum.
--Ele é o marido de Anne?
--Anne nunca se casou. – A sra. Reynolds respondeu; Darcy não voltou-se em sua direção para conferir a sua presença ao seu lado. – Sua tia nunca perdeu as esperanças de que você um dia a desposaria. E por isso nunca lhe deu a liberdade para escolher por si só.
Darcy, então, olhou para a sra. Reynolds. Interrogando-a com o olhar.
--Ele é o seu cunhado, o marido de Georgiana. – Ela respondeu.
--Como isso aconteceu?
--Depois que Richard e Elizabeth se casaram e você se fechou completamente, Georgiana deixou-se convencer pela sua tia a se casar com o sr. Keith Cohen. – Com desgosto, a sra. Reynolds continuou. – Um jovem brilhante advogado criminalista, de família renomada e o perfeito partido para ela.
Keith passou por Darcy e a sra. Reynolds e entrou no corredor atrás deles.
--Não, meu amor. – Keith dizia para alguém ao celular. – Não posso sair daqui ainda. A minha casa está cheia de abutres velando a alma do falecido. – Dizia com nenhuma consideração. – Prometo que vou te encontrar assim que for possível. ...Não, eu não estou segurando a mãozinha da minha esposa... Na verdade, não sei nem onde ela se meteu.
--Claro que ele nunca amou. – A sra. Reynolds comentou o obvio. – E ela sabe.
--Sim, eu prometi. Não prometi? – Keith argumentava. – Agora que o irmão faleceu e ela herdou a sua parte da herança da família, eu vou poder me divorciar e ficar com metade de tudo que é dela.
--Ela perdeu as esperanças, William. – A sra. Reynolds explicou – E, como você e seu pai, guardou o seu sofrimento para si e se isolou, presa nas aparências. – Ela não tinha o mesmo tom banal ao tratar de Georgiana; parecia triste por ela.
--Claro que para me casar com você. – Keith proclamou, amoroso.
--A única coisa que ela queria e se permitiu ter esperanças fora de ter um filho. Alguém que ela poderia amar e ser amada incondicionalmente. – A sra. Reynolds prosseguiu, com tom penoso. – Mas ela tinha problemas para engravidar e o tratamento era longo e difícil. Ela precisaria de todo o apoio do marido, o que não conseguiu.
--E por que ela não pensou em adotar uma criança? – Darcy propôs.
--Ela cogitou esta possibilidade. Até chegou a mencionar o assunto com o sr. Cohen. – A sra. Reynolds não parecia gostar nada do marido de Georgiana. – Mas ele não queria filhos que não fossem seus legítimos.
--Como? – Darcy não conseguia entender. – Por que isto aconteceu? Por que ela se casou com ele?
--Ora, William, ela seguiu o seu exemplo. – A sra. Reynolds replicou, impaciente. – Ela desistiu.
--Eu não posso ser o culpado de tudo de ruim que acontece com as outras pessoas. – Darcy contrapôs, exaltado.
--Você acha que suas ações e omissões não têm conseqüência na vida das pessoas ao seu redor? Especialmente daquelas mais próximas a você? – A sra. Reynolds questionou-lhe, com aquele mesmo olhar de censura. – Em particular, na vida de sua irmã e de sua prima, as quais sempre lhe viram como um exemplo a seguir?
Darcy não sabia o que responder. A sra. Reynolds lhe deu as costas e seguiu pelo corredor, em direção a uma escada larga de mármore.
--Venha. Vou lhe mostrar o que você fez. – Ela chamou por ele ao começar a subir a escada.
Darcy a seguiu, temeroso. Tudo o que vira até então fora horrível. Mas, pelo tom de voz da sra. Reynolds neste instante, só poderia concluir que o que estava prestes a ver seria ainda pior. E ele sabia que não queria ver mais nada.
Chegou ao segundo andar e a viu parada a uma porta ao fim do corredor. Caminhou até a sra. Reynolds, com o coração batendo apressado no peito e as mãos suando, de apreensão.
Ao parar ao seu lado, viu-se numa grande suíte. Decoração suave e de bom gosto. Tudo simples e delicado, ao gosto de sua irmã.
Georgiana estava sentada na beirada da cama, do outro lado do quarto, de costas para a porta e para ele. Mas Darcy tinha uma visão perfeita dela, sentada de frente para uma janela.
--Eu os conheci desde muito jovens. Ajudei o seu pai a criá-los. – A sra. Reynolds dizia-lhe, emocionada. – Vir-lhe crescer e se tornar um homem sério, inteligente e de boa índole. E a sua irmã se tornar uma jovem meiga, sincera e amorosa. E tive muito orgulho dos dois. – Em seu tom de voz mesclava carinho, ternura com tristeza e pesar. – E agradeço a Deus não estar mais neste mundo para presenciar isto! – Concluiu, lúgubre, apontando para as costas de Georgiana.
Darcy rodeou a cama e se aproximou da irmã. Georgiana estava curvada e fitava algo que tinha em mãos. Um frasco de comprimidos. Ela abriu a sua tampa e encheu uma mão com vários comprimidos.
--Não faça isso! – Darcy exclamou, quando entendeu o que ia acontecer a seguir.
Georgiana respirou fundo e estendeu a mão, hesitante.
--Sra. Reynolds, faça alguma coisa! Impeça isso! – Darcy exclamou, assustado. Olhando da senhora para a sua irmã, nervoso.
Georgiana fechou os olhos e abriu a boca, colocando todos os comprimidos nela. E depois tomou um pouco de água, que estava num copo na cômoda ao lado da cama. Depois repetiu o gesto, enchendo a mão de novos comprimidos e colocando todos na boca, engolindo-os com um pouco mais de água.
--Sra. Reynolds, faça alguma coisa! – Darcy estava desesperado. – Ela não pode se matar!
Darcy queria pegar a irmã pelos ombros e sacudi-la. Mas foi obrigado a assistir Georgiana engolir todos os comprimidos do frasco e depois se deitar na cama, encolhida como um feto no útero da mãe. E chorar.
--Sra. Reynolds, por favor, faça alguma coisa. – Darcy implorou, com os olhos vermelhos e cheios de lágrimas. – Por favor, ainda dá tempo.
--Não. É tarde demais. – Ela respondeu, sombria, dando-lhe as costas e saindo do quatro.
Darcy correu atrás dela. Precisava trazê-la de volta e forçá-la a ajudar a sua irmã. Mas, ao atravessar a porta do quarto, se viu dentro de um túnel escuro. Não havia nada ou ninguém por perto. Somente ele.
--Sra. Reynolds! – Gritou, desesperado.
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