Parte II
Talvez o seu problema fosse cegueira, ponderou ao pensar a respeito. Afinal, sabia que dentre as mulheres de seu circulo de convivência não a encontraria. Mas quando a conheceu, não a reconheceu.
Foi no jantar de noivado de Bingley e Jane. Uma noite agradável de primavera. O salão de festas do Hotel Savoy estava enfeitado com uma decoração suave e o perfume de flores do campo banhava o ambiente.
Darcy comparecera a festa acompanhado de sua irmã, Georgiana – que na época estava para concluir o ensino fundamental e iniciar o curso universitário de sua escolha.
Caroline Bingley, irmã mais nova de Charles, estava presente na festa. Parecia felicíssima com a notícia de que seria madrinha do casamento por parte de Charles e Darcy seria o padrinho. Sendo, assim, o seu par durante as comemorações.
Enquanto que Elizabeth Bennet, irmã de Jane, seria a madrinha por parte da noiva. E um amigo de trabalho de Jane seria o seu padrinho.
Caroline, entretanto, não parecia contente com mais nada. Passara boa parte do jantar sentada ao lado de Darcy e Georgiana difamando a família da noiva. Que, para ela, não estava à altura de seu irmão.
Darcy não conseguia compreender a aversão de Caroline a idéia do casamento. Afinal, conhecera Jane e acreditava que ela faria o seu amigo imensamente feliz ao tornar-se sua esposa e companheira para toda uma vida.
Sabia que Jane, no entanto, não vinha de uma família abastada. Na verdade, sua família era típica classe média inglesa. Mas pensava que este fato não importava tanto, quando presenciava a felicidade do amigo.
Foi somente quando teve um contato direto com a família da noiva, em particular com a sra. Bennet, que entendeu as reservas de Caroline quanto àquela união.
A mulher era simplesmente absurda. Mentalidade pequena e modos incompatíveis com uma sociedade elevada. As suas filhas mais novas seguiam o seu exemplo e eram elogiadas pela matriarca. O pai parecia ausente, desinteressado.
Darcy se perguntava como era possível aquela mulher ter dado a luz e criado Jane. Quando a própria era o completo oposto da mãe.
Sentindo as gotas de água percorrer o seu rosto, fechou os olhos e se perguntou como não a notara naquele instante. Aquela mulher maravilhosa diante de seus olhos e ele realmente não a viu. Viu, mas não lhe deu importância. Não lhe dirigiu um segundo olhar ou pensamento.
--Sr. Darcy, é verdade que o senhor é advogado? – A sra. Bennet lhe questionava.
--Sim.
--E tem o seu próprio escritório? – Ela quis saber, excitada com aquelas informações.
--É uma sociedade, negócio de família. – Darcy esclareceu.
--Mas que maravilha! – A mulher exclamou, de forma escandalosa, chamando a atenção de vários convidados e constrangendo Darcy.
Ele queria que ela o deixasse em paz, mas não poderia ser indelicado com a futura sogra de seu melhor amigo e pedi-la para sair de sua mesa.
--Lizzie? – A mulher chamou, ainda aos gritos. – Lizzie, menina, venha cá. Estou chamando! – Ordenou, dando as costas a Darcy e voltando-se de frente para a mesa em que sua família estava acomodada.
Uma mulher de cabelos castanhos escuros, com traços físicos similares aos de Jane, embora, ao mesmo tempo, diferentes, ergueu-se da cadeira em que estivera sentada e caminhou até a mesa em que sua mãe se encontrava.
--Boa noite. – Cumprimentou os ali presentes, olhando para todos por um breve momento. – Sim, mamãe. Deseja algo? – Voltou sua atenção a senhora logo em seguida.
Ela não se sentou em nenhuma das cadeiras vagas, apenas parou de pé ao lado da cadeira de sua mãe.
--Você sabia, sr. Darcy, que a minha Lizzie faz faculdade de Direito em Cambridge? – A mulher voltou-se de frente para ele de novo, sorridente.
E Darcy previu o que estava por vir. E deduziu que Caroline também, porque sentiu que ela ficou inquieta ao seu lado.
--Pois sim. – A mulher prosseguiu, mesmo sem receber nenhum encorajamento por parte dele. – E estive pensando, já que o senhor é um grande amigo do sr. Bingley e tem o seu próprio escritório, não se incomodaria de fazer a gentileza de arranjar um estágio para a minha Lizzie, não?
Caroline bufou ao seu lado, indignada.
--Mamãe! – A filha exclamou, constrangida. – Mamãe, eu já tenho um estágio. Na Defensoria Pública, se esqueceu? – Repreendeu a senhora.
--Um estágio que não lhe paga nada, menina. – A senhora reclamou.
--Estágios são feitos para ensinar, dar ao estudante uma prova do que esperar na profissão na prática. – A jovem continuou firme. – Não para enriquecer ninguém.
--Não significa que você não pode juntar o útil ao agradável. – A sra. Bennet contrapôs, pondo um fim àquela discussão. – E então, sr. Darcy, o que me diz? – Questionou-o, voltando sua atenção para ele.
--Você não precisa responder. – A jovem o interrompeu, justamente quando Darcy abria a boca.
E ele a olhou nos olhos pela primeira vez. Era de um castanho amendoado intenso.
--Eu estarei me formando dentro de alguns meses e já não será necessário. – Ela esclareceu, segura. – Passarei no Exame da Ordem e arrumarei um trabalho, não estágio.
--Melhor ainda! – Sua mãe exclamou, animadíssima novamente. – Minha Lizzie será uma ótima advogada, eu lhe garanto. O senhor fará muito bem em contratá-la para trabalhar para o senhor. – A mulher afirmou logo em seguida, antes que a filha pudesse interrompê-la.
--Mamãe, já chega. – Mas nem mesmo a vergonha que via estampada no rosto corado da jovem a deteve de murmurar, raivosamente. – A senhora está passando dos limites. – Antes de dar as costas a todos e retornar para a mesa de sua família.
Passar-se-iam alguns meses antes de vê-la novamente. Ela estaria formada e com a sua carteira de advogada, em busca de um emprego.
Bingley a convenceria a lhe entregar um currículo para que pudesse dá-lo a Darcy. Afirmando que a sociedade de advogados Darcy & De Bourgh estava à procura de novos advogados e seria bom que ela participasse da seleção.
Que não deveria temer ser contratada por Darcy como um favor a Bingley, porque sabia que o seu amigo levava o seu negócio muito a sério e seria completamente imparcial em suas decisões.
Ele, Darcy, fora o responsável por sua entrevista. E foi esta a primeira vez que realmente olhou para Elizabeth Bennet. Durante a entrevista, a jovem de vinte e três anos demonstraria mais uma vez a sua autoconfiança e eloqüência. Transpareceria inteligência e perspicácia admirável, além de um poder de contra-argumentação infindável.
Mas, mesmo ali, Darcy ainda não tinha reconhecido o grau de importância que ela teria em sua vida.
Elizabeth foi contratada juntamente com outro recém-formado de nome Robert Collins. Foi-lhes explicado que existia apenas uma vaga para uma contratação de tempo indeterminado, sendo que aquele que demonstrasse melhor desempenho durante o período de experiência seria àquele premiado com a futura contratação.
Como Darcy fora a favor de contratar Elizabeth e Catherine De Bourgh, sua tia, de contratar Robert Collins, cada um ficaria responsável de designar casos para os seus preferidos; devendo estes se reportar a cada um deles respectivamente.
Acostumado a fazer a maior parte de seu trabalho sozinho, devido à seriedade de cada um dos casos a que era responsável, Darcy não estava acostumado a delegar funções que julgava de extrema importância para seus subordinados.
E foi com surpreendente espanto que se viu questionado por Elizabeth em determinada ocasião.
--Sr. Darcy, com licença. – Ela pediu, entrando em sua sala uma tarde e fechando a porta a suas costas.
Darcy ergueu os olhos de toda a papelada em sua mesa e a fitou com mera curiosidade por um milésimo de segundo e depois voltou a focar sua atenção na papelada a sua frente.
--Com todo respeito senhor, eu estava me perguntando se algum dia o senhor vai me dar algum trabalho de verdade para fazer?
--Como disse? – Darcy ergueu a cabeça, não conseguindo acreditar no que estava ouvindo.
--Corrija-me se eu estiver enganada. – Ela propôs, sustentando o olhar que Darcy lhe lançava, com uma postura decidida. Parada ali, de pé, próxima à porta. – Eu fui contratada como advogada e não como escrivã[1].
Darcy abriu a boca, mas não soube o que dizer. Só o que sabia pensar, naquele instante, era: “Que audácia!”.
--E eu estou gostando de trabalhar aqui, mesmo que neste momento o senhor custe em acreditar. – Ela prosseguiu.
--Sério? – Darcy não conteve o tom sarcástico em sua voz.
--E eu quero muito ser contratada definitivamente ao fim do período de experiência. – Ela não se deteve, no entanto. – Mas não vejo como isto possa acontecer se o senhor não me der uma oportunidade de demonstrar que sou capaz de fazer o trabalho para o qual fui contratada.
Ao fim do discurso, ela permaneceu ali, aguardando uma resposta. E Darcy não pôde deixar de notar que ela tinha coragem. Ficou ponderando suas palavras, enquanto avaliava o seu desempenho nas tarefas a que deixara sob sua responsabilidade até então.
Elizabeth tinha as cumprido com bastante eficiência e dentro dos prazos estipulados – o que para um advogado é fundamental. Os poucos erros que cometera foram facilmente corrigidos e Darcy sabia que seriam completamente evitados uma vez que ela adquirisse experiência.
Tendo concluído isto, percebeu que ela tinha razão em seus argumentos. Por isso, disse:
--Muito bem, você quer mostrar do que é capaz. Pois lhe darei a oportunidade de fazê-lo. – Prometeu-lhe, solenemente.
E viu a jovem mulher soltar a respiração que estivera prendendo até então lentamente.
--A senhorita pode se retirar agora. – Aconselhou-a.
Ela concordou, com um curto aceno de cabeça, ainda um pouco surpresa com a sua aquiescência.
--Obrigada. – Disse, antes de fechar a porta.
No dia seguinte, ao chegar ao escritório, Darcy viu que Elizabeth já ocupava a sua mesa na sala que compartilhava com Collins. Ela estava esperando o computador ligar, enquanto organizava alguns papéis em uma pasta.
Darcy lhe desejou um breve bom dia e entrou em sua sala. Meia hora depois, ao sair da sua sala para a primeira audiência do dia, viu que Collins estava chegando. Parou a porta da sala que os dois dividiam e Collins o cumprimentou com a sua costumeira bajulação – Darcy sabia qual fora o principal motivo para Catherine preferi-lo à Elizabeth: os modos submissos do homem a sua frente.
Darcy dirigiu sua atenção a Elizabeth, quem estava atenta a sua presença, e disse.
--Venha comigo. – Não esperando por uma resposta da sua parte.
Pôde ouvi-la juntando seus pertences e se apressando para acompanhá-lo até o elevador. Mas não voltou a olhar em sua direção. Quando parou diante da porta do elevador e acionou o seu botão, sentiu-a ao seu lado. Juntos, entraram no elevador e as portas se fecharam.
Darcy sabia que um dos momentos que mais assusta o advogado iniciante é a realização de sua primeira audiência. Mesmo tendo assistido e acompanhado alguns procedimentos no período de estágio, é inevitável aquele frio na barriga. A preocupação sobre como se comportar, como orientar o cliente e, até mesmo, onde sentar.
Por isso, se flagrou extremamente ansioso para descobrir como a mulher ao seu lado se comportaria diante de tal desafio. Seguiram em completo silêncio do escritório ao Tribunal em seu carro.
Somente quando estavam diante da porta da sala de audiência, esperando o momento de entrarem, informou-lhe que ela estaria liderando aquela audiência, representando o cliente.
--O que? – Elizabeth não conteve a exclamação.
--Você queria que lhe desse trabalho de verdade, pois então. – Darcy replicou; não sorria, mas por dentro se divertia.
Assistiu-a ficar boquiaberta e com os olhos arregalados. Depois, piscá-los repetidas vezes, tentando se controlar. Era como se pudesse ver os mecanismos de sua mente trabalhando.
Ela sabia que não poderia voltar atrás em sua palavra, este momento seria importantíssimo para alcançar o seu objetivo – a contratação definitiva. Então, respirando fundo, resignada, disse.
--Me diga o que fazer.
Darcy sustentou o seu olhar, sentindo uma sensação de orgulho. Era como se naquele instante ela houvesse comprovado o motivo pelo qual ele a escolhera, ao invés de alguém como Collins.
Darcy fez com que se sentasse por um instante e lhe entregou uma pasta contendo as informações necessárias para aquela audiência, explicando o que ela devia fazer.
--Trata-se de uma audiência inaugural. – Disse-lhe. – Neste momento, o advogado da reclamada, nós, iremos apresentar a procuração, carta de preposto e documentos da empresa. – Sob o olhar atento dela. – Antes de qualquer discussão do mérito, devem ser apresentados e resolvidos eventuais incidentes processuais, como exceção de suspeição ou de incompetência, por exemplo.
E assim seguiu-se pelos minutos seguintes. Ele falando e ela ouvindo, ao mesmo tempo em que percorria com os olhos os documentos em suas mãos.
--Depois de qualificadas as partes e verificados todos os presentes, o juiz deve propor a conciliação do litígio. Vencida esta etapa, não havendo acordo, nós devemos apresentar a nossa contestação, assim como pagar eventuais verbas incontroversas e apresentando o rol de testemunhas, se houver necessidade de intimação.
Por fim, disse.
--Ao final da audiência, o juiz irá designar a audiência de instrução[2]. As partes, desde já, estão intimadas. E ele também determinará o prazo para o reclamante se manifestar em sede de réplica às argumentações da contestação e documentos juntados.
Permitiu que ela estudasse os documentos em mão por uns minutos em silêncio. Até que as portas da sala de audiência foram abertas e eles precisaram entrar.
O juiz encabeçava a mesa. O escrivão estava ao seu lado, encarregado da digitação da ata e termos. Ao longo da mesa, do lado direito, era o lugar reservado para a reclamada, enquanto do lado esquerdo o do reclamante.
Após sentar-se, Darcy percebeu que Elizabeth estava extremamente nervosa. Sentada ao seu lado, com as pernas cruzadas, não parava de tremer o pé direito. Darcy pôs a mão sobre o seu joelho, fazendo-a parar de tremer o pé e olhar em sua direção. Disse-lhe ao ouvido.
--Você vai se sair bem. – Em um murmúrio. – Se precisar, pode olhar os documentos em suas mãos e... – Assegurou-a, sorrindo-lhe da forma mais reconfortante que conseguiu. – não se esqueça de que estou bem aqui.
Ela sorriu de volta, de forma nervosa, corando. E Darcy percebeu, pela primeira vez, o quanto ela era bonita.
O tom rosado de suas faces contrastando perfeitamente com o castanho de seus olhos, sombreados pelos longos cílios negros e sobrancelhas perfeitamente delineadas. Sem falar no contorno de seus lábios carnudos e extremamente convidativos.
O juiz deu inicio a sessão e Darcy desviou o olhar dos olhos de Elizabeth, tirando a mão de seu joelho.
Ela se saiu tão bem quanto esperava dentro das circunstâncias naquela primeira audiência. E quando a sessão foi encerrada, a manhã já terminara. Darcy a levou para almoçar, quando os dois finalmente conversaram mais profundamente sobre suas vidas.
Ele tinha consciência de que foi a partir deste momento que os dois formaram um vínculo de cumplicidade. Mas foi somente em junho do ano seguinte, ao tempo do casamento de Jane e Charles, que o relacionamento deles tomou um rumo diferente.
[1] Escrivão é o agente da autoridade responsável por dar cumprimento às formalidades processuais, lavrando autos, termos, mandatos, portarias, ordens de serviço e demais atos do seu ofício.
[2]Audiência de instrução: nesta audiência que o advogado terá como expor toda a sua desenvoltura, perspicácia e talento; oportunidade de testar a sua desinibição, conhecimento da matéria, principalmente do ônus da prova; é fundamental ter um amplo conhecimento dos fatos, a fim de reconhecer qualquer incoerência, contradição ou confissão.
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