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Nada é mais enganoso do que a aparência de humildade, que é frequentemente apenas a falta de personalidade. (Jane Austen)

SONHAR ACORDADO - Parte 01

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SONHAR ACORDADO

 

PARTE I

William Darcy não carecia de conforto. Já em seu apartamento luxuoso, após deixar seu escritório de advocacia ao fim do último dia de expediente do ano de 2009, afrouxou o nó da gravata e se sentou ao sofá em sua espaçosa sala de estar.

A luz da secretária eletrônica piscava incessantemente à cômoda ao lado, anunciando que havia mensagens para serem ouvidas. Fitou o rosto sorridente de sua irmã mais nova no porta-retrato próximo ao telefone. Sabia que uma das mensagens seria dela.

Através da porta de vidro da varanda, por uma das cortinas parcialmente aberta, viu o dia 23 de dezembro começando a se despedir. Flocos de neve caiam lentamente naquele fim de tarde de inverno.

O seu apartamento estava em total silêncio. Como um patrão generoso, dispensara as empregadas assim que retornou ao apartamento, para que passassem as datas comemorativas de fim de ano com suas respectivas famílias. Encontrando-se, naquele momento, completamente sozinho.

Sabia que a sra. Reynolds, sua cozinheira, cuidara de deixar sua geladeira bem abastecida. Como não estaria recebendo visitas com quem precisasse se preocupar em agradar, o jantar não seria um problema. Não teria dificuldades em providenciar as suas próprias refeições durante os próximos dias.

Ergueu-se do sofá e caminhou até o bar a um canto da sala. Encheu um copo de uísque com gelo e se deliciou com aquela bebida, retornando ao sofá. Ao passar pela secretária eletrônica, decidiu-se por não adiar mais o inevitável. Acionou um dos botões e ouviu todos os recados.

--Will, tem certeza que não prefere que eu vá encontrá-lo? Gostaria de estar com você.

A voz melodiosa e suave de sua irmã soava preocupada.

--Não pense que não estou gostando de passar estes dias aqui na casa de nossos tios. Richard chegou ontem e está cheio de histórias para contar de suas aventuras na América.

O seu tom de voz, para Darcy, ainda infantil, acresceu-se de animação.

--E tia Catherine prometeu comparecer à ceia de Natal, o que significa que Anne virá também. Sei que você não quer instigar as esperanças de tia Catherine de uma futura união sua com nossa prima Anne, mesmo porque não creio que a própria Anne assim deseje... Acho que não seria tão prejudicial se você viesse nos encontrar, se você assim preferir. Só não queria que você passasse o Natal sozinho.

Seu tom de voz voltara a ser ansioso.

--E se você aceitasse o convite de Charles e fosse passar o Natal com ele? Ham?

E voltou a soar levemente animada.

 --Sim, Caroline vai estar lá! – Agora, impaciente. – Mas Charles também estará, assim como Jane. E você terá uma chance de ver como anda seu afilhado... Ele já tem três anos, não? Pelas fotos, está bem crescido... E, segundo Charles, é um pimentinha como a madrinha...

A voz de Georgiana, que pouco antes soara tão animada, sumiu por completo ao fim do discurso. E ela permaneceu em silêncio por um bom tempo. Tempo em que na mente de Darcy se formou a imagem do rosto risonho e corado de Elizabeth. E o seu pobre coração falhou uma batida.

--Ligue pra mim. – A voz de sua irmã tirou-o de seu torpor. – Irei encontrá-lo se quiser. Ou esperarei por você aqui. Mas... me ligue! – Terminou a ligação, suplicante.

            O bipe soou e uma nova mensagem foi ouvida.

--Hei, cadê você? – Era Charles. – Estamos todos lhe aguardando amanhã, cara. Não venha inventar desculpas. Falei com Georgie e ela me disse que você a enviou sozinha para a casa dos seus tios. Ficando em casa sozinho. Isso é deprimente!

Ele o recriminou-o. Darcy suspirou. Lá se foi a sua desculpa.

--Já não sei mais como explicar para o Arthur porque o padrinho dele nunca aparece... Afinal, como se diz para uma criança de três anos que o padrinho, que segundo ao que Lizzie ensinou a ele: madrinha e padrinho são pais substitutos e por isso têm de estar presente na vida do afilhado tanto quanto os pais...

            Pôde perceber pelo tom de voz de Charles, pela forma pausada e perfeitamente clara daquelas palavras, que ele andou ensaiando aquele discurso.

 --Como vou explicar ao Arthur que o padrinho dele não tem tempo para ele? Hem? – Aqui, no entanto, ele soou mais natural.

            Darcy soube que Charles estava apelando para o seu sentimento de culpa por ultimamente estar sempre ausente na vida dele – seu grande, fiel e antigo amigo – assim como na de seu sobrinho.

            A última vez que viu Arthur fora em seu aniversário dois anos. O último não pôde ir. Desde então, manteve contato com Charles por e-mails e telefonemas. Algumas vezes chegando a falar com Arthur por telefone.

Mas isso não significa muito para uma criança de três anos, para quem a presença física é realmente necessária para criar-se um vínculo realmente sólido.

--Lizzie vai ficar conosco por estes dias. Quem sabe não é a sua chance, hem? – Charles insinuou, soando esperançoso. – Eu ainda acho que é cedo para você desistir. Agora que sei de toda história, acredito que vocês podem fazer dar certo. Afinal, vocês encontraram um meio termo na relação turbulenta, não?

Argumentou, como se realmente tivesse levado bastante tempo pensando no assunto. Como se ele, Darcy, não houvesse pensado nisso. Era só o que fazia: pensar nisso. Pensar nela!

 --Agora é a hora, camarada! É agora ou nunca, entende?! – Incitou-o. – Ela está solteira há um tempão! Na verdade, desde que vocês... Bem, você sabe. Ela não ficou com mais ninguém.

            Mas ele, Darcy, entendia diferente. Eles não tinham encontrado um meio termo, ela apenas suportava a sua presença. Talvez já não antagonizasse tanto com ele, mas o máximo que poderia esperar dela era aquela velha cordialidade entre meros conhecidos.

Nada mais. Nem mesmo amizade. Ela deixou isso bem claro em várias ocasiões. Não se deixaria iludir com fantasias de tê-la para si.

--Então, vem pra cá. Dá as caras, comparece, meu amigo. E a arrebata! – Charles aconselhou-o. – Vocês vão fazer bem um ao outro. Jane concorda. E sei que Lizzie também pensa assim.

            Darcy negou, com um aceno de cabeça, tomando outro gole de seu uísque.

--Eu vejo nos olhos dela sempre que seu nome surge em uma conversa. – Charles prosseguiu. – É como se ela estivesse esperando por você, cara. Juro!

            Darcy começou a se perguntar por que Charles fazia isso com ele. Entendia que o amigo tinha as melhores das intenções. Mas, ainda assim, era uma tortura!

--Anda, Will.

E lá estava; até a voz de Charles tinha assumido um tom suplicante.

--Vem pra cá. Não fica aí, não. Sozinho. Vem pra cá. Você não vai se arrepender, prometo!

            Darcy suspirou novamente e ouviu Charles fazer o mesmo, pela ligação.

--Olha, se você não vier, eu vou te deserdar[1]! – Ameaçou-o com firmeza. – Bem, deserdar não é exatamente a palavra que eu queria... Mas você entendeu o sentido da coisa. Venha para cá, é uma ordem! Uma intimação[2]! Sei que você vai entender o sentido desta.

            O som do bipe soou de novo. E mais uma mensagem pôde ser ouvida.

--Darcy, meu velho, cadê você?

            O tom debochado da voz de Richard ao se dirigir a ele como meu velho ainda era o mesmo. Uma piada entre primos desde a juventude. Embora tenham a mesma idade, Richard sempre alegou que Darcy era um ancião em termos de alma – sempre sério, centrado e responsável.

Ao contrário dele, Richard, que, mesmo aos trinta e cinco anos, comportava-se como se estivesse ainda na casa dos vinte – solteiro incorrigível, aventureiro, brincalhão e irresponsável.

--Não me faça ir buscá-lo, arrancá-lo da cama de cuecão e trazê-lo para cá, para a ceia de Natal. – O seu tom de voz era risonho. – Porque você sabe que eu faço e dou umas boas risadas durante o processo! – E já deu uma gostosa gargalhada.

            Darcy sacudiu a cabeça, negativamente. Richard não mudara nada mesmo. A viagem a negócios para a América, onde cuidou pessoalmente da transação de domínio comercial da marca de um produto produzido pela empresa de seu pai, não o fizera amadurecer em nada?

Como era possível? Ele parece ter sido bem sucedido em todo o processo, recebendo vários elogios pelo seu trabalho. Darcy não conseguia entender.

--Agora, falando sério. Georgie está muito preocupada.

E, finalmente, no tom de voz do primo, Darcy pôde detectar maturidade.

--E eu estou começando a ficar preocupado também. Que história é esta que ouvi de que você só está se enterrando em trabalho e não tem mais tempo para nada? Nem mesmo para as ocasionais visitas familiares em datas festivas e saídas para drinques de fim de expediente com o seu amigo Bingley?

            Darcy resmungou consigo mesmo pelo fato de Georgiana ter verbalizado preocupações ao seu respeito para Richard. E quem sabe a quem mais? Era perfeitamente capaz de cuidar de si. Afinal, não recebera a guarda de sua irmã aos vinte e quatro anos, quando seu pai faleceu? E desde então não foi capaz de cuidar dos dois, sozinho?

--Tudo bem, diga qual é o nome dela e o que aconteceu. – Richard exigiu.

            Darcy se perguntou por que Richard deduziu que o problema dele estava relacionado com alguma mulher.

            Ao fundo da mensagem, ouviu um barulho e logo Richard exclamou.

--Quem é Lizzie?!

--Georgiana! – Darcy exclamou, furioso, empertigando-se no sofá da sala.

--Vou querer saber esta história todinha, do começo, viu Darcy?! E vou querer conhecer esta destruidoras de corações.

--Era tudo o que eu precisava! – Darcy resmungou.

--Bom, se você não der notícias até o feriado natalino, apareço aí e te arrasto para rua a força. – Ameaçou-o. – E não estou brincando. Prazo prescricional... Ou seria decadencial[3]? Ahh... você deve saber melhor do que eu.  De qualquer forma, o que estou dizendo é: te vejo em alguns dias, camarada!

E lá estava o mesmo tom de ameaça, embora mesclada por seu jeito debochado e brincalhão. E a ligação foi novamente encerrada.

Bom, pelo menos só teria que retornar duas ligações. Já que duvidava que, quando ligasse para Georgiana, Richard não desejasse falar com ele de imediato.

Mas não pensaria nisto agora. Deixaria para fazer as ligações amanhã, quando houvesse pensado direitinho no que iria dizer. Precisava de um bom argumento para sua defesa.

Terminou o drinque e ergueu-se do sofá, deixando o copo vazio sobre a cômoda em que ficava o telefone. Caminhou até o seu próprio quarto, arrancando a gravata do pescoço e começando a despir-se do blazer do terno.

Entrou pelo quarto, colocou o blazer sobre a poltrona a um canto, enquanto se dirigia a porta da varanda. Abriu as duas cortinas ao mesmo tempo, puxando-as com ambas as mãos – cada uma para um lado. Abriu as portas da varanda e respirou o ar frio daquele fim de tarde de inverno.

A nevasca se intensificava com o cair da noite e Darcy sabia que logo os seus dedos das mãos ficariam dormentes. Em seguida, sue corpo começaria a tremer. Mas buscava aquelas sensações com um prazer mórbido. Como se aquela dormência pudesse alcançar a sua mente e o impedisse de pensar nela mesmo que por um segundo.

Mas até mesmo aquele frio o fazia se lembrar dela. De como ela adora passar noites de inverno sentada no aconchego de uma sala bem aquecida, com uma caneca de chocolate quente na mão e um bom filme para assistir – preferencialmente, um romance de época.

Fechou as portas da varanda e caminhou até o banheiro, terminando de se despir. Uma peça atrás da outra caia no chão, enquanto caminhava em direção ao chuveiro. Lembrando-se de como tudo havia começado.

Há cerca de cinco anos atrás. Charles Bingley, seu amigo de infância, colega de ensino médio, voltara a fazer parte de sua vida após um período de pouco contato – em que cada um seguiu um plano de vida profissional diferente da do outro. Bingley se formando em Mecatrônica[4] e Darcy em Direito.

E quão surpreso Darcy ficou ao descobrir que o amigo estava envolvido em um relacionamento firme com uma jovem psicóloga chamada Jane Bennet. Ele mal conseguiu acreditar.

Lembrava-se perfeitamente do fim de tarde chuvoso de abril em que se encontrou com o amigo em um pub próximo ao seu escritório para tomar um drinque de fim de expediente.  

--Honestamente, Bingley, presenciei vários arroubos seus por garotas durante nossa adolescência. – Darcy comentou. – O que torna esta vez assim tão diferente?

--A mulher, obvio! – Bingley replicou, prontamente. – Jane é maravilhosa, Darcy. – Exclamou, empolgado. – Acho eu achei a mulher certa para mim. – Disse, sonhadoramente. – Acho que vou pedi-la em casamento.

--Uau! – Darcy não conseguiu disfarçar seu assombro. – Tem certeza, Bingley? Não está se precipitando?

--Não, não estou. – Bingley assegurou-o. – E você entenderá, uma vez que a conhecê-la. – Garantiu-lhe.

            Bingley não demorou ao marcar um jantar para apresentar o amigo à mulher dos seus sonhos. E, como lhe fora garantido, Jane era realmente maravilhosa.

Uma mulher entre seus vinte e cinco/vinte e seis anos, com uma fisionomia elegante e esguia, lindos olhos esverdeados e cabelos castanhos dourados, longos e levemente cacheados. Quanto à personalidade, meiga e gentil, extremamente inteligente e de educação exemplar.

            Mas o que mais deixou Darcy admirado foi a sintonia em que o casal se encontrava. Neles viu uma harmonia de idéias e comportamentos. Embora Jane fosse mais reservada – o que Darcy apreenderia como timidez posteriormente – enquanto Charles alegre e muito expansivo, compartilhavam a mesma bondade e confiança em sempre esperar pelo melhor do próximo. 

 --Então, o que me diz? – Charles não demorou em inquirir ao amigo, assim que Jane se retirou para usar o banheiro do restaurante.

--Maravilhosa. – Darcy concordou; não havia como negar.

--Sabia que você pensaria assim. – Charles sorriu, satisfeito. – Vou pedi-la em casamento esta noite. – Informou ao amigo, retirando uma caixinha de jóias do bolso e exibindo o anel de compromisso há muito tempo adquirido. – Estive esperando o momento certo, sempre o trazendo comigo. Acho que esta noite é A NOITE.

--Você está falando sério sobre isso. – Darcy se admirou.

--Seriíssimo, meu amigo. – Charles afirmou, guardando a caixinha de volta no bolso de blazer. – Quando você tem a sorte de uma mulher como a Jane surgir em sua vida, se você não agarrar a oportunidade quando lhe é dada, outra pessoa pôde vir a fazê-lo por você. E eu não vou deixar isso acontecer comigo!

            Darcy recordava-se perfeitamente do sentimento de inveja que sentiu do amigo naquela noite. Não que houvesse cobiçado Jane para si momento algum, longe disso. Ficara muito feliz de que Charles houvesse se apaixonado verdadeiramente por alguém e era igualmente correspondido.

            O que invejou fora aquele relacionamento. Algo que não tinha em sua vida. Na verdade, nunca possuiu. Sim, tivera várias namoradas. E, por escolha própria, preferia manter os seus relacionamentos em um nível de comprometimento mais brando possível. Para não dizer, quase não existente.

            Buscava mulheres que visavam suas vidas profissionais antes de suas vidas amorosas. Pois assim não corria o risco de encontra-se em dia numa relação em que ele buscava a satisfação física, enquanto a mulher buscava uma solitária no dedo anelar.

            E nunca se perguntara se estava perdendo alguma coisa. Deixando de viver algo mais significativo. Pelo menos, até aquele momento. Porque ali, aos seus trinta anos e já com a vida profissional encaminhada, vendo o seu amigo avoado e namorador pensando em sossegar com uma mulher maravilhosa – não conseguia pensar em outra palavra para descrever Jane – se perguntava se não deveria estar buscando pelo mesmo.

            Afinal, a probabilidade de Charles Bingley se casar antes dele, Darcy, sempre lhe pareceu remota. E, no entanto, era o que estava acontecendo. Pois Darcy não via a mínima possibilidade de encontrar a mulher da sua vida e, ainda, noivar e casar-se com ela antes de Charles e Jane.



[1] Deserdar: privar do direito de herdar; excluir da herança;

[2] Intimação: é uma comunicação escrita expedida por juiz e que leva às partes o conhecimento de atos e termos do processo, e que solicita às partes que façam ou deixem de fazer algo, em virtude de lei, perante o poder judiciário.

[3] Prescrição é a extinção de uma ação judicial possível, em virtude da inércia de seu titular por um certo lapso de tempo e a Decadência é a extinção do direito pela inércia de seu titular, quando sua eficácia foi, de origem, subordinada à condição de seu exercício dentro de um prazo prefixado, e este se esgotou sem que esse exercício tivesse se verificado.

[4] Mecatrônica: é uma área que utiliza as tecnologias de mecânica, eletrônica e a tecnologia da informação para fornecer produtos, sistemas e processos melhorados, sendo uma das áreas mais novas da engenharia, bem como no nível técnico-profissionalizante, em todo o mundo; atualmente destacam-se o desenvolvimento de projetos de equipamentos inteligentes, projetos de linhas produtivas automatizadas, o desenvolvimento e implantação de softwares para a área industrial e o controle e manutenção de equipamentos.

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