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Podem existir sintomas mais otimistas? Não é a desatenção que nos rodeia a própria essência do amor? (Jane Austen)

Midnight Kiss

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Elizabeth desceu do carro e seguiu seus pais adentro a casa de praia de seu cunhado, Charles Bingley, na vila de Morro de São Paulo, na Ilha de Tinharé na Bahia. Uma senhora casa, num estilo bastante litorâneo, com acesso direto a praia. Estava muito ansiosa com relação a esta festa de virada de ano por motivos muito óbvios.

Na festa de réveillon do ano passado, estivera em uma situação parecida com a que se encontrava agora e, ao mesmo tempo, tão oposta que as diferenças eram gritantes. Viera até a casa de Charles – àquela época apenas namorado de sua irmã Jane – solteira e carente. Sonhava com o amor, não imaginando que ele estava bem diante de seus olhos.

Tentava escapar das atenções excessivas de seu primo, Collins, desejava reencontrar-se com um jovem rapaz recém-conhecido, chamado George Wickham, temia as extravagâncias de sua mãe e irmãs mais novas – por si mesma e por sua irmã Jane. Tentava ignorar a esnobe irmã de seu cunhado, Caroline, e o arrogante e orgulhoso melhor amigo, William Darcy.

Muitas coisas aconteceram em sua vida desde então. Altos e baixos, muitos erros e mal-entendidos. Mas estava certa de que agora daria tudo certo. Reconhecia os seus erros e estava disposta a concertá-los. Só precisava de uma nova chance; depois de tudo pelo que passou, estava certa de que não a desperdiçaria de novo.

Arrumou-se para esta noite com um esmero que nunca tivera antes, cada mínimo detalhe em sua roupa, maquiagem, cabelo e perfume foram planejados meticulosamente. Usava um vestido branco e vermelho, justo do busto a cintura, solto nas pernas, que cobria seus pés de tão longo que era. Sandália de dedo rasteira, o cabelo solto ao vento, somados a maquiagem leve e neutra – apenas realçando seus contornos e beleza estonteante – a deixavam bastante orgulhosa de si mesma.

À entrada da casa, recebeu um colar de flores coloridas de um dos empregados da casa, anunciando o tema havaiano daquela festa de Ano Novo. Colocou o colar de flores no pescoço e ajeitou os cabelos, continuando a adentrar pelos cômodos. Procurava por sua irmã Jane, seu cunhado Charles e... ele. O motivo de estar ali àquela noite.

O som dos violões ao vivo alcançou seus ouvidos e a embalou numa doce melodia assim que saiu pela porta lateral da residência, surgindo a uma larga e fresca varanda com vista para o mar. Caminhou até a sacada, entre convidados, cumprimentando aqueles que conhecia e sorrindo para os que nunca vira antes deste dia. Debruçou-se no parapeito da varanda e admirou a praia ali embaixo.

O mar estava calmo, com poucas ondas. O céu estava estrelado, com uma linda lua minguante – que parecia sorri-lhe do céu negro. A brisa beijou-lhe o rosto e balançou-lhe os cabelos; Elizabeth respirou profundamente, fechando os olhos – amava aquele aroma.

Desencostou-se do parapeito e caminhou até uma escada de madeira, descendo os seus vários degraus e pisando na areia da praia. Demorou-se um minuto a mais, retirando as suas sandálias e ficando descalça, sentindo areia alva tocar a sua pele, ao afundar os dedos dos pés nela.

Caminhou tranquilamente entre tochas de fogo espalhadas pela praia e tendas de lona branca, onde algumas mesas com variadas comidas estavam à disposição dos convidados. Avistou a sua irmã e seu cunhado, indo ao encontro deles. Jane a recebeu com um largo sorriso e um abraço apertado. Charles beijou-lhe o rosto, com delicadeza e carinho, elogiando-a profusamente.

--Onde estão papai e mamãe? – Jane questionou, procurando-os entre as pessoas ao redor deles. – As meninas?

--Ahh... provavelmente ainda dentro da casa. – Elizabeth respondeu, gesticulando em direção por aonde veio. – Eu estava tão distraída com o ambiente que sequer me dei conta de ter me separado deles. – Explicou-se. – Tudo está imensamente lindo, Charles.

--Obra de sua magnífica irmã! – Charles agraciou, passando um braço envolto da cintura de Jane e a beijando no rosto, com amor.

--Onde está a sua irmã? – Inquiriu-lhe, tentando transparecer pouco interesse na resposta. – ...O seu amigo?! – Não resistiu mais que isso, precisava saber dele.

--Caroline está em algum lugar por aqui. – Charles respondeu, jovial. – Will... – Ele hesitou, deixando Elizabeth ansiosa. – Ele precisou retornar a Londres esta tardinha. – Charles enfim respondeu, não deixando de notar a mudança na fisionomia de Elizabeth.

“Ele não está aqui?! Foi embora?! Eu não vou vê-lo?!”

Elizabeth estava tão atordoada com aquela noticia que sequer notou o momento em que Jane se afastou deles para cumprimentar seus pais e irmãs mais novas – que finalmente surgiam à praia. No entanto, Charles a observava com atenção.

--Alguma coisa de... importante aconteceu? – Perguntou-lhe algum tempo depois, não se contendo. – Para levá-lo daqui assim... tão subitamente... – O silêncio de Charles a estava torturando. – Aconteceu alguma coisa com Georgiana?! – Alarmou-se; conhecera a menina e se afeiçoara a ela. Sabia que somente algo de muito grave levaria Will para longe dali de repente, logo deduziu que era relacionado à sua única irmã.

--Não. – Charles a assegurou, procurando tranqüilizá-la. – Georgiana está ótima... Passará o Réveillon com amigas da escola... Finalmente conseguiu fazer boas e verdadeiras amizades. – Elizabeth sorriu com a noticia.

--Então... Eu não entendo. – Disse, franzindo a testa, ao tentar encontrar uma razão para a sua ausência. – Por que ele não está aqui?!

            Charles inclinou a cabeça para o lado e a fitou com atenção. Virando o rosto na direção em que Jane e seus sogros estavam, a certa distancia. Voltou-se para fitar Elizabeth novamente e disse-lhe em um tom reservado.

--Ele foi embora por sua causa. – Olhando-a nos olhos; a vendo abrir a boca para dizer algo e depois fechá-la, permanecendo em silêncio. – Entenda, Lizzie. Ele não podia ficar... Era tortura demais para ele! – Elizabeth piscou os olhos várias vezes, incrédula quanto ao que ouvia.

            “Ele sequer consegue ficar perto de mim! É tortura demais para ele?! ...Eu sou assim tão repulsiva?!”

--Eu nunca vi o meu amigo tão perdidamente apaixonado antes. – Charles prosseguiu, lendo a sua reação àquela noticia de forma equivocada. – Will sempre foi muito reservado e retraído... Ele não é o tipo de homem que se apaixona e desapaixona facilmente... Quando ele dá o seu coração a alguém, este alguém o tem para sempre... – Elizabeth tinha seus olhos arregalados, abismada com o que ouvia. – E o coração dele é seu!

            “Então, por que ele foi embora?! Ele devia estar aqui! Ele devia estar aqui!”

--E ele não agüentou estar perto de você e... não tê-la! – Charles completou seu discurso. – Era agonia demais para ele... Ele precisou ir embora!

            “Oh meu Deus! ...Ele foi embora por minha causa! Eu o fiz partir!”

--Ele não irá voltar? – Elizabeth perguntou, tentando controlar a vontade esmagadora que sentia de chorar. – Irá? – Mal conseguindo disfarçar o desespero de sua voz.

--Não...  – Charles respondeu, triste. – Pelo menos, por um bom tempo.

            Elizabeth queria um buraco para se esconder, queria ir embora, sumir da face da Terra. Ele tinha ido embora... por sua causa. E não irá voltar... até que a tenha esquecido! E justamente quando ela finalmente descobrira que o amava... O amava mais que qualquer um em toda a sua vida. O que ela faria?! O que podia fazer? Esperar não lhe adiantaria nada. Ele não voltaria! E quando o fizesse, seria tarde demais! Porque ele já não a amaria mais!

            O seu pai e mãe se aproximaram deles, cumprimentando Charles. Elizabeth aproveitou a oportunidade para se afastar deles, vagando pela praia.

....................................................

William Darcy observava a chegada e a partida de barcos na marina. Não sabia o que ainda estava fazendo ali àquela hora da noite. Havia horas que deixara a casa de veraneio de Charles, já deveria estar na metade do caminho para Londres. No entanto, ainda continuava naquela maldita ilha.

Como era possível não haver mais passagens para a travessia de barco? Não! Como era possível nenhum avião fazer frete de última hora? Afinal, ele é William Darcy! Dinheiro não era problema! Pagaria o que fosse preciso, mesmo que viajasse em um barco pesqueiro. Ele até tem seu próprio jatinho!

“Por que eu não vim com o meu jatinho?! Não estaria passando por este problema agora se o tivesse feito!”

Riu com desgosto de sua má sorte. Que ironia do destino! O que não daria para estar preso em uma ilha paradisíaca do oceano Atlântico com ela? E ali estava ele, preso naquela ilha... Tão perto, mas tão longe!

Ergueu-se da enorme pedra em que estivera sentado, contemplando o nada. Como se ao ficar assim fosse resolver todos os seus problemas. Caminhou de volta para a pracinha, não tinha outra escolha: voltaria para a casa de Charles. Trancar-se-ia em seu quarto até o dia seguinte e tentaria ir embora de novo. Mas não a veria! Faria de tudo para se manter longe dela.

‘O que os olhos não vêem, o coração não sente!’, como ele queria que isto fosse verdade.

Desceu pela rua com passos lentos, não tinha pressa. Para que ter pressa, quando o que almejava em seu futuro imediato eram quatro paredes de um quarto vazio. Olhou para o céu e fechou os olhos ao fitar a lua minguante – que ria-se dele, zombeteira. Desceu o caminho de pedra até a areia da praia e prosseguiu por ela, tomando o caminho de trilha pela encosta da enseada.

 Trazia consigo sua pequena e pratica mala de mão. Pessoas cruzavam o seu caminho, animadas. Riam alto e conversavam entre si. O cumprimentavam, desejando-lhe “Boas Festas” e “Feliz Ano Novo”.

“Ohh sim, ‘feliz’! Até parace!”

 Ao se aproximar da casa de veraneio de seu amigo, escolheu o caminho que o guiaria a uma porta dos fundos da residência. Não queria ser visto por ninguém, principalmente Caroline. E, especialmente, não queria ver ninguém. Em particular, ela! Sabia que ela já estaria ali, em algum lugar... Feliz... sem ele!

Atravessou a área de serviço, sendo observado por empregados curiosos, que aparentavam estar surpresos de vê-lo de volta. Não cumprimentou ninguém, não tinha ânimo algum sequer para ser educado. Atravessou a cozinha e seguiu para o corredor que os empregados usavam para chegar ao andar dos quartos.

Quando já estava alcançando a porta do quarto em que estivera instalado antes de decidir ir embora, ouviu a voz estridente de Caroline.

--Will! – Fazendo seu coração gelar. – Você está de volta! – Ela exclamou, contentíssima, caminhando em sua direção.

            Will hesitou, ponderando suas escolhas – nenhuma! – e voltou-se para fitá-la. Caroline usava um mini vestido laranja, decotado, com um colar de flores brancas em seu pescoço. Cabelos presos no alto da cabeça, deixando o seu longo e esguio pescoço avista.

--Não sabe o quanto estou feliz que tenha decidido ficar! – Ela caminhava em sua direção, fazendo um barulho alto a cada passo que dava por causa do salto agulha de sua sandália de tiras finas. – A virada do ano não seria a mesma sem você aqui! – Murmurou, sedutora, deslizando uma das mãos sobre o seu braço.

--Caroline, eu preciso entrar... – Will disse, sem muita paciência para inventar uma desculpa, colocando a mão sobre a maçaneta da porta.

--Claro, querido. – Caroline concordou, prontamente. – Vejo que acabou de chegar. – Observou, fitando sua bagagem de mão. – Não vou atrasá-lo ainda mais. Entre e troque-se... Venha para festa rápido... ou virei buscá-lo! – Disse a última parte com um olhar de felina.

            Will entrou no quarto assustado por causa de sua ameaça e fechou a porta, a trancando. Agora estava perdido! O que faria? Teria de ir à festa ou Caroline viria buscá-lo; na verdade, provavelmente tentaria ficar em seu quarto com ele – aquela idéia o apavorou ainda mais.

            Will colocou sua bagagem de mão sobre uma poltrona ao canto do quarto e o atravessou, abrindo a porta da varanda. Escutou o som dos violões distante, entre o barulho de vozes. Aproximou-se da sacada e admirou a vista – via a longa praia iluminada pelas tochas, o topo das tendas de lona branca, as centenas de pessoas à areia da praia, umas bem próximas as outras. E uma figura solitária mais afastada, próxima do mar.

            Era difícil não notar aquela pessoa ali, sozinha, afastada dos outros. Seus cabelos balançando ao vento, assim como a saia longa de seu vestido branco e vermelho. Deu-lhe às costas, não pensando muito naquela figura – não a reconhecera. Tinha problemas demais em sua mente para se ater a uma figura ao longe, de costas para ele.

            Entrou no quarto e abriu sua bagagem de mão, retirando dela a sua roupa para a ocasião. Seguiu para o banheiro e tomou um banho frio, refrescante. Não sabia se podia demorar-se demais, embora não desejasse sair daquele quarto momento algum. A ameaça de Caroline pendia sobre a sua cabeça.

            Fez a barba, a qual se esquecera de fazer aquela manhã por descuido. Vestiu-se: cueca branca, bermuda branca, a blusa sem manga de botões igualmente branca. Ajeitou o seu colarinho, deixando alguns botões de cima desabotoados. Penteou o cabelo, passando a mão sobre ele ao final para despenteá-lo – sacudindo as últimas gotas de água.

            Saiu do banheiro e apagou a sua luz, calçou as suas sandálias havaianas, apagou a luz do quarto e saiu. Inspirou e expirou lentamente, frustrado. Atravessou o corredor dos quartos e desceu a escada principal, aparecendo à sala. Algumas pessoas ali presentes voltaram-se para ele, quando o notaram ali, e o cumprimentaram – conhecia boa parte dos convidados.

            Um empregado da casa trouxe-lhe um colar de flores colorido e Will o colocou envolta do pescoço de má vontade, mas agradeceu pela atenção do empregado. Caminhou lentamente entre os convidados, procurando por Charles. Ao menos desejar-lhe-ia um “Feliz Ano Novo”, já que estava presente em sua festa. Depois, talvez, escapasse para qualquer lugar, onde pudesse ficar sozinho com os seus demônios.

            Saiu por uma porta da lateral e apareceu a uma varanda, ouvindo com mais clareza a música tocada ao violão. Desceu a conhecida escada de madeira e estava pisando na areia da praia. E o som dos violões cessou, as pessoas tiveram suas atenções requisitadas por Charles – quem anunciou a contagem regressiva para o fim daquele ano e o começo de um novo.

--Apenas um minuto, pessoal! – Charles exclamou, animado.

            Várias pessoas procuraram por seus entes queridos no meio da festa, desejando estar com eles no exato momento da virada do ano. Will viu Charles se acercar de Jane e envolver a sua mulher pela cintura, quem transpassou os braços pelo seu pescoço e sorria-lhe de forma amorosa. Viu o sr. e a sra. Bennet ali perto, assim como as suas filhas mais novas.

            Seus olhos procuraram por ela... Uma sensação de déjà vú o atingiu. No réveillon do ano passado fizera o mesmo, procurara por ela entre seus familiares e amigos. Mas não a encontrou. Ela tinha se escondido – de Collins, mas ele não sabia disso na época. Queria tanto tê-la abraçado, desejado-lhe um bom ano... Talvez houvesse roubado um beijo... – suspirou, inconformado.

            “E a história se repete!”

...................................................

            Elizabeth ouviu o momento em que os violões foram interrompidos e quando Charles anunciou que o fim do ano se aproximava. Começou a caminhar em direção às tendas de lona branca; mais precisamente, indo à direção que deixara seus pais, irmãs e cunhado ao caminhar em direção ao mar.

            À medida que se aproximava, começou a ouvir a contagem regressiva – quinze, quatorze, treze... – entre os convidados eriçados. Observou vários casais juntos, abraçados. Sentia-se cada vez mais deprimida, angustiada. Seus olhos estavam acumulando novas lágrimas, as quais ela lutava para não derramar.

            Dez, nove, oito... – então o viu, bem ali. Era um sonho, uma miragem! Só podia ser! Ele tinha ido embora, não podia estar ali!

            Então, ele olhou diretamente para ela. Elizabeth sentia-se como se não tivesse forças para se sustentar de pé. Seus joelhos fraquejaram, sentia-se quase derreter sobre aquele olhar – cinco, quatro...

            Ele começou a caminhar em sua direção, letamente. Elizabeth não conseguia erguer o seu pé e dar nem mais um passo adiante – três, dois... Ele parou a sua frente, muito próximo dela. E a fitava dentro dos olhos, intensamente. Um!

--Feliz 2009!

Ouviu-se uma algazarra entre os outros convidados, mas eles apenas se fitavam.

--Oi. – Ele disse, timidamente, com um fio de voz (rouca).

--Você voltou! – Elizabeth exclamou, incrédula.

--Voltei. – Respondeu-lhe, admirando-a sem disfarces. Ela era, sem dúvida, a mulher mais bonita que já vira em toda a sua vida. – Elizabeth... – Murmurou, com emoção.

            Elizabeth ouviu-o pronunciar o seu nome como se estivesse lhe fazendo uma declaração de amor eterno. Seu coração batia a mil por hora; sorriu-lhe e uma lágrima escapou-lhe dos olhos – não acreditava que estava chorando!

--Posso? – Ele perguntou, hesitante, ao dar um passo a sua direção e esticar um braço até ela (como se pretendesse abraçá-la).

            Ao notar o olhar confuso dela quanto a sua pergunta, olhou as pessoas a sua volta – indicando-a para fazer o mesmo. Elizabeth o fez e os viu se abraçar, desejando um ao outro um “Feliz Ano Novo”. Voltou a fitá-lo e sacudiu a cabeça, confirmando. Não tinha voz para respondê-lo, mas queria mais que tudo senti-lo.

Will deu mais um passo em sua direção, sua mão a enlaçou pela cintura lentamente. Sentiu-a se esticar na ponta de seus pés para envolvê-lo pelo pescoço. Escondeu o rosto em seu longo cabelo esvoaçante, sentindo a fragrância de freesia (uma flor de perfume doce) e fechou os olhos.

            “Então é esta a sensação de tê-la em meus braços: como se estivesse voltando para casa... Como se estivesse completo, finalmente!”

            Aquilo o deixou de coração dilacerado. Ali estava a prova final de que a amava e que nunca amaria outro alguém. Mas o máximo que teria dela era um abraço na virada do ano e nada mais.

            Suas mãos começaram a soltá-la, relutantes, enquanto lutava para se controlar e afastar-se dela. Mas ouviu-a dizer em seu ouvido.

--Não me solte! – Com a voz embargada.

            Seu coração deu um pulo.

--Não. – Respondeu; as suas mãos percorrendo a sua cintura e alcançando as suas costas, nuas por causa do decote do vestido. – Nunca! – E a abraçou tão apertado que sentia que logo estaria tirando os pés dela do chão.

            Sentia-a suspirar e abraçá-lo com igual intensidade. “Pode ser verdade?! Ela está mesmo em meus braços?! E não quer que eu a solte?! ...Meu Deus!”

            Elizabeth sentia as mãos fortes e largas dele acariciarem as suas costas nuas, em um gesto tão suave. As pontas de seus dedos percorrendo a linha de sua coluna até alcançarem a sua nuca. Ele afastou o seu cabelo de seu rosto e encostou o nariz em seu pescoço, inspirando profundamente. Elizabeth sentiu a sua pele áspera, de barba recém-feita, e estremeceu, encravando as unhas em seus ombros.

            A ponta de seu nariz percorria o seu pescoço até alcançar a sua orelha. E foi a vez de seus lábios brincarem com ela, provocando-a. Ele respirava perto de seu ouvido, enquanto os lábios deixavam uma trilha de ardor pela extensão de seu lóbulo. Ela queria que ele a beijasse... Não sabia por quanto tempo mais poderia agüentar aquela doce tortura.

--Will... – Murmurou, suplicante.

            Sentiu-o responder ao seu pedido mudo, ao sentir os lábios dele percorrerem a linha de seu rosto até o queixo. Ela nem notara que estava de olhos fechados, até sentir o hálito quente dele sobre os seus lábios. Abriu os olhos e fitou-o. Will passou uma das mãos pelo seu rosto, acariciando-a ao mesmo tempo em que afastava seu cabelo de seu rosto.

            Elizabeth afrouxou o seu enlaço de seu pescoço quando ele segurou a sua face com as duas mãos firmes. Aqueles olhos azuis penetrando a sua alma. Will encostou os seus lábios aos dela e Elizabeth fechou os olhos, ele também. Ela sabia que derreteria como uma manteiga com aquele mero toque, se isto fosse fisicamente possível.

            Seus lábios se abriram e se encontraram em tão perfeita sintonia, lentamente. As mãos dele acariciaram seus cabelos e voltaram a enlaçá-la, comprimindo seu corpo de encontro ao dele. Ela gemeu, baixinho, em sua boca, enquanto suas mãos acariciavam os ombros dele, seu pescoço e percorreram seu cabelo. Queria ficar assim para sempre!

            Os dedos dele apertaram a pele nua de suas costas e ela sentiu os seus pés deixarem o chão. Delicioso não era uma palavra boa o suficiente para descrever aquele beijo. Ele era indecente, tentador, irresistível... E não lhe importava que outras pessoas estivessem ao seu redor – entre elas os seus pais, irmãs e cunhado – presenciando-o.

            Mas ninguém ousou interrompê-los. Nem mesmo Caroline – quem espumou de raiva ao vê-los daquele jeito!

            Charles comemorou, exultante, ao vê-los; Jane cobriu a boca, que ficara escancarada ao presenciar aquele beijo. O sr. Bennet preferiu fingir que não notara e observava as flores de seu colar havaiano. A sra. Bennet o puxava pelo braço e apontava para filha, mas não conseguia dizer nada. Kitty e Lydia riram-se e se foram, a procura de alguém para beijar; Mary revirou os olhos, reprovativa, por tamanha demonstração de falta de decoro.

            Will a colocou no chão novamente e afastou os lábios dos dela, mas não a soltou.

--Nunca! – Repetiu, prometendo-lhe muito mais que só aquele momento. Ele nunca a soltaria!

 

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