Citações

A natureza humana manifesta uma tendência muito acentuada para o orgulho, que são pouquíssimos os que não alimentam esse sentimento, fundados em alguma qualidade real ou imaginária! (Jane Austen)

Noite Especial

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Hoje é noite de Natal, esta é a data que escolhi para mudar a minha vida.
 
Apesar de minha decisão estar clara e sólida, o resultado não dependerá de mim. Por isso, não posso deixar de me sentir ansioso e talvez temeroso. Uma única palavra poderá modificar de modo permanente o meu presente e o meu futuro.
 
Neste momento, posso resumir minha vida em duas etapas: antes e depois de Elizabeth Bennet. Antes de conhecê-la, eu era um homem totalmente diferente, não que fosse uma má pessoa, sempre me orgulhei do meu caráter, dos meus princípios e da minha justiça. Acho, que este foi o meu pecado, o meu “orgulho”.
 
Sou dono de uma rede de shopping centers e casas noturnas, de uma grande metrópole, conheci Elizabeth há seis meses atrás, num dos meus shoppings, localizados na parte nobre da cidade, estava almoçando com acionistas e meu amigo e sócio Charles Bingley.
 
Há um ano, mais ou menos, vinha me sentindo desanimado, não encontrava razões para sorrir, primeiros indícios de depressão, acho. Perdia o interesse em tudo, a única razão que encontrava para me levantar de manhã, era minha irmã, Georgiana. Somos muito unidos, perdemos nossos pais muito cedo, Georgi, ainda não havia completado 3 anos, hoje ela tem 17.
 
A propósito, sou Fitzwilliam Darcy, tenho 26 anos, meu nome não é nada comum, diria que é até feio, por isso meus amigos me chamam de Darcy, somente Georgi me chama carinhosamente de Will.
 
 
***~***~***~***~***
 
 
No dia em que vi Elizabeth pela primeira vez, estava mais desanimado do que o habitual e não consegui prestar atenção em nada do que era dito na mesa, por sorte, Charles estava comigo e distraiu os demais. Meu olhar vagava sem fixar-se realmente em algo, foi quando eu a vi.
 
Elizabeth estava sentada num desses bancos espalhados pelos corredores dos shoppings, em frente ao restaurante em que me encontrava. Tinha um livro na mão e lanchava, uma dessas comidas rápidas, horríveis, não consigo entender como as pessoas conseguem comer algo, tão horrível, que não traz benefício algum para a saúde. Vestia uma blusa de alça branca, um jeans lavado e um tênis branco, seu cabelo comprido, caia-lhe em ondas pelos ombros, ou seja, totalmente normal, sem maiores atrativos para um olhar masculino. Não que a visão não fosse bela, Elizabeth é uma das mulheres mais belas que conheço, mas sempre gostei dos tipos sofisticados, belas roupas emoldurando o corpo, salto alto e uma maquiagem discreta e, ali estava ela, destoando completamente do ambiente. A princípio, imaginei que fora isso que me fazia olhá-la com tanto interesse, por mais que tentasse desviar o foco do meu olhar, me via a observando com certa persistência. Acompanhei a evolução de seu rápido lanche, me impressionei com a capacidade dela, de comer e ler ao mesmo tempo, sem precisar de uma mesa.
 
Charles chamou minha atenção por diversas vezes para a conversa em nossa mesa, mas eu estava hipnotizado e a não ser que ela se levantasse e fosse embora, eu continuaria a observando.
 
Terminou seu lanche, juntando o lixo, num pequeno pacote, comecei a me preocupar que ela fosse embora, mas para o meu alívio momentâneo, ela voltou a ler seu livro. Percebi pela sua expressão o quanto ela gosta de ler, tentei imaginar qual seria o tema, pois os sentimentos transmitidos pela leitura, passavam em seu rosto como um espelho, diversas vezes ela sorriu, um lindo sorriso. Mas, de todo o conjunto seus olhos expressivos e inteligentes, realmente me prenderam e eles também sorriam.
 
Não sei por quanto tempo a observei, notei um brilho diferente em seu olhar e lentamente ela levantou o rosto e o olhar em minha direção, com um sorriso leve em seus lábios. Nossos olhares se cruzaram e foi como uma descarga elétrica, pego de surpresa, rapidamente virei o rosto, me protegendo na minha habitual expressão de frieza e distância, tentando fazer parte de uma conversa que sequer sabia qual era o tema. Apesar, da curiosidade que me corroia, levei uns quinze minutos para voltar o olhar em sua direção e para minha decepção ela já não estava mais lá.
 
O almoço terminou, Charles e eu nos separamos do nosso grupo. Charles, estava de namorada nova e queria comprar-lhe um presente, Jane, chamava-se. Enquanto, caminhávamos para uma joalheria, ele enumerava as qualidades de seu mais recente amor e insistia para que marcássemos um encontro, para que eu a conhecesse.
 
Charles é meu melhor amigo, dois anos mais novo, é sem dúvida a melhor pessoa que conheço, porém não confia muito em si mesmo, de certa forma, deixava a meu encargo suas decisões mais importantes e infelizmente para mim, eu me via obrigado a opinar até em seus assuntos íntimos, como no caso, suas namoradas, se por alguma razão eu não simpatizasse com uma delas, ele se desinteressava facilmente.
 
Charles comprou uma bela e delicada pulseira para sua doce Jane. Ao sairmos da loja, parei alguns instantes na vitrine, avaliando um relógio novo para minha irmã. Charles estava a alguns passos em minha frente, até que minha atenção foi despertada, por uma voz de veludo feminina.
 
_ Charles !?! _ parecia surpresa.
 
_ Lizzy! _ Charles a abraçou, sem perceber caminhei na direção do casal _ O que esta fazendo aqui?
 
_ Estou acompanhando Fred, sabe como ele adora uma roupa de marca. _ riram ambos, pareciam bem íntimos.
 
_ E onde ele esta?
 
_ Ali naquela loja, terminando de pagar. _ cheguei neste momento, ela havia se virado para apontar a loja.
 
Finalmente, pude ver a dona do apelido tão singular, parei estático pela surpresa, totalmente sem reação, era a moça do restaurante. Quando me viu, seu sorriso diminuiu de intensidade, porém não desapareceu, mas não era para mim que ela sorria. Charles finalmente me percebeu ao seu lado e nos apresentou.
 
_ Darcy, deixe-me apresentá-lo a Elizabeth, ela é irmã de Jane. Elizabeth este é meu amigo Darcy.
 
_ Prazer. _ disse sob a máscara da indiferença, sem ao menos lhe estender a mão.
 
_ Prazer. _ retribuiu o cumprimento, me encarando, percebi novamente um brilho diferente em seu olhar. Naquele momento, tive a certeza de que ela me reconhecera e a partir, deste momento, seus olhos inteligentes, teimaram em me desafiar.
 
Ela e Charles continuaram sua conversa casual, até que o rapaz que Elizabeth acompanhava juntou-se a nós, a conversa ficou mais animada, Fred é dessas pessoas que fazem um ambiente monótono se animar, a abraçou pela cintura. Elizabeth estava completamente descontraída em seu abraço. Não consegui entender, por que isso me incomodou e apesar, de não estar conversando comigo, dando atenção aos outros dois, não deixava de me sorrir com o olhar. Porém, este sorriso me incomodou, até hoje não posso suportar quando ela me lança um desses olhares, me sinto a pior das pessoas.
 
Comecei a ficar impaciente e Charles, por me conhecer tão bem, percebeu. Despediu-se de seus amigos, Elizabeth o abraçou carinhosamente, em seguida voltou-se para mim, tentei ser mais educado dessa vez e lhe estendi a mão. Ela a olhou e novamente o brilho passou por seus olhos, aproximou-se de mim, ficando na ponta dos pés, beijou o meu rosto, se afastando com um sorriso zombeteiro e um olhar desafiador.
 
Novamente, fiquei sem reação, enquanto, o local em que seus lábios tocaram, estava em brasa. Elizabeth e Fred olharam-se cúmplices, sorrindo, a sintonia entre eles é profunda, como se conseguissem ler os pensamentos um do outro, esta intimidade entre ambos novamente me incomodou.
 
Voltamos para o escritório, no caminho não resisti e fiz um comentário:
 
_ A irmã de Jane e o namorado, são muito simpáticos.
 
_ Namorado? _ perguntou-me Charles com ar confuso.
 
_ Sim, Fred. Não é esse o nome dele? _ recebi risos como resposta, desta vez, eu fiquei confuso _ Do que esta rindo?
 
_ Não me diga que não percebeu?
 
_ O quê? _ continuei tentando entender o que Charles parecia entender tão bem.
 
_ Mas, você esta, realmente distraído hoje. Fred é gay. _ esclareceu num tom de obviedade, como se dissesse que dois mais dois são quatro.
 
O olhei não com surpresa e sim, com alívio, lhe oferecendo o meu sorriso torto de canto de lábio. Com isso, sim me surpreendi, há muito tempo não sorria espontaneamente.
 
_ Darcy, acho que você precisa tirar folga pelo resto do dia. Não sei aonde esta com a cabeça.
 
Aquele realmente não estava sendo um dia normal, pela primeira vez aceitei o conselho de Charles e fui para casa. Georgiana, estava em algum de seus intermináveis cursos extras. Precisava racionalizar o que havia se passado comigo. Fui para a piscina. Nadar sempre me ajudou a colocar as idéias em ordem, a cada braçada a imagem de Elizabeth se fazia viva na minha memória.
 
Conclui, obviamente, que me sentira atraído por ela, porém, sem conseguir compreender o porquê. Elizabeth parecia tão diferente das outras mulheres com que estava habituado a lidar, talvez, fosse isso. Decidi, que se tivesse a oportunidade de conhecê-la melhor, não perderia, ou melhor que isso, criaria esta oportunidade.
 
Tudo parecia novo para mim, como muitas outras coisas, fazia certo tempo que não me interessava realmente por uma mulher, embora não tenha ficado por muito tempo sozinho, eram somente casos passageiros. Percebi que com Elizabeth seria diferente, não era somente desejo físico que me incentivava, eu queria conhecer acima de tudo, sua mente, seus olhos vivos e inteligentes me intrigaram.
 
***~***~***~***~***
 
 
Durante duas semanas, desejei intensamente reencontrá-la, mas não houve oportunidade, os negócios fizeram com que me afastasse em viagem e não pude marcar com Charles, o tão esperado encontro, onde eu teria a oportunidade de conhecer Jane e com minha habilidade de convencer Charles, rever Elizabeth. Foi somente um mês depois, que finalmente meu desejo foi realizado.
 
Nosso encontro seria na Lótus, uma das nossas melhores casas noturnas, eu preferia que fosse num de nossos bares, algo mais calmo e aconchegante, com certo clima romântico, mas Charles insistiu, Jane levaria além de Elizabeth, outras amigas e, elas queriam dançar. Eu detestava locais barulhentos e mais que tudo, detestava dançar e a não ser na noite de inauguração, jamais voltava há uma boate minha. Mas, se esse era o preço para estar de novo com Elizabeth, eu pagaria.
 
Vesti-me impecavelmente como sempre, penteei meu cabelo, dei mais uma olhada no espelho e sorri. Modestamente, sei que sou bonito, nos meus 1,88 m de altura, cabelos castanhos escuros, meus olhos azuis e sei ser irresistível quando quero, jamais perdi uma “vítima”. Para completar, aquela noite estava de excelente humor, Georgiana me cravou de perguntas, vendo-me tão diferente, quase feliz. Quando sai, desejou-me sinceramente que me divertisse e no meu âmago, tinha plena certeza de que não seria diferente, não naquela noite.
 
Quando cheguei, Charles estava lá, muito bem acompanhado. Respirei fundo e me aproximei, não sei explicar, mas me senti nervoso, ao saber que ela estava tão próxima, ainda hoje acontece isso. Na mesa, estavam somente Charles, uma moça loira e uma morena, que não era Elizabeth, confesso que me senti frustrado, Charles fez as devidas apresentações, finalmente eu conhecera Jane, pessoalmente era muito mais bela do que a pintura que Charles havia feito dela, traços finos e regulares, cabelos loiros, tentei localizar semelhanças entre ela e Elizabeth, encontrando-o em seu sorriso, o olhar apesar de ser marcante, transmitia uma bondade e serenidade sem iguais, nada semelhante à vivacidade e inteligência que emanavam do de Elizabeth, a outra moça, Charlotte, era amiga delas, sentei-me, tentando manter meu ar de tranqüilidade, ninguém comentou sobre Elizabeth, estar ou não ali e não sabia como perguntar sem que me traísse.
 
A conversa continuou na mesa, do ponto em que haviam parado quando cheguei. Tentei parecer interessado e não disperso, tarefa que não estava sendo nada fácil. Até que para a minha felicidade, Charlotte comentou sobre Elizabeth estar na pista de dança com Fred. Senti certo ciúmes, apesar de saber que Fred não tinha nada com Elizabeth, ao que tudo indicava, eram inseparáveis. Sabia como lidar com uma “melhor amiga”, mas não sabia o que fazer com um “melhor amigo”, por alguns segundos refleti sobre isso, quando a vi se aproximar, tudo parou, era como se só houvesse ela e mais ninguém, seus cabelos soltos, num leve ondulado, davam-lhe um ar ao mesmo tempo jovial e sensual, uma maquiagem leve, realçava ainda mais sua beleza e seus olhos tão expressivos, vestia um vestido preto, decote em “v”, de alças finas, nada vulgar, que realçava o contorno de seu corpo, para completar uma sandália preta, com um salto razoavelmente alto.
 
Senti-me nervoso como um adolescente, nossos olhares se encontraram e seus lábios e olhos me sorriram de um modo que jamais vou me esquecer, foi como encontrar o paraíso. Levantei-me antes que ela chegasse à mesa, num impulso. Fred, vinha logo atrás dela, com um sorriso malicioso, que ignorei. Eu havia esperado por muito tempo por aquele encontro, ninguém me tiraria do sério, a não ser que esse alguém fosse a própria Elizabeth. Enfim, ela se aproximou, parando a minha frente, com seu sorriso iluminado e desta vez, o sorriso era somente para mim.
 
_ Boa noite, Elizabeth.
 
_ Olá, Darcy. _ sua voz de veludo, acariciou meus ouvidos.
 
Mais uma vez ela me surpreendeu, esperei que me beijasse no rosto e ao contrário me abraçou, como se fossemos velhos conhecidos que não se viam há tempos, cheios de saudades. Fiquei desnorteado, sem saber o que fazer, até que Fred, apertou minha mão num cumprimento amistoso. Sentamos-nos, para completar o meu estado de graça, Elizabeth sentou-se ao meu lado. Logo, todos estavam novamente conversando e tive que me controlar para não beijá-la ali mesmo, tamanha a minha euforia.
 
Elizabeth esforçava-se para travar um diálogo ao mesmo tempo comigo e com os demais, mas eu não colaborava, estava muito hipnotizado para parar de admirá-la, Charles não notou o meu interesse, porém em meus breves momentos de lucidez, notei que Jane, me olhava com um ar benevolente.
 
Elizabeth ia além de minhas expectativas: inteligente, independente, eloqüente, perspicaz, madura, segura de si. Em pouco mais de vinte minutos ouvindo sua conversa, havia me decidido. Eu a queria.
 
Depois de certo tempo, Fred voltou sozinho a pista de dança e as amigas foram ao toalete. Fiquei sozinho com Charles.
 
_ E então, Darcy? O que achou de Jane?
 
_ Linda e extremamente simpática, gostei muito dela, Charles. Dessa vez, você se superou. _ brinquei.
 
_ Obrigado.
 
_ A propósito onde a conheceu? Nunca as vi entre o nosso círculo de amigos. _ englobei Elizabeth a conversa.
 
_ Lembra-se daquele evento beneficente da ONG Florescer?
 
_ Vagamente.
 
_ Aquela que contribuímos, para as crianças aidéticas.
 
_ Ah, sim.
 
_ Fui ao evento. Foi onde a conheci. Aliás, a todos eles, são voluntários na ONG.
 
_ Voluntários! _ exclamei admirado, mais uma qualidade para a minha lista particular de qualidades para Elizabeth.
 
_ Você não as encontraria em nosso círculo de amigos.
 
_ Por que não?
 
_ Simplesmente, por que não freqüentam.
 
_ E por que, não? Não são da cidade?
 
_ São sim, de Lorante. _ disse Charles, sem nenhuma ruga de preocupação.
 
_ Lorante !?! _ não podia ser, Lorante é um bairro de classe média, fora do perímetro do que eu considerava como sendo um lugar descente para se viver.
 
O meu preconceito se fez presente, assim que conclui que ela não era como eu. Escolhia a dedo as pessoas que fariam parte de meu círculo, e decididamente alguém oriundo de Lorante, não poderia estar entre esta seleção. Fiquei mudo. Meu estado de espírito estava em metamorfose.
 
_ O que houve? Não esta se sentindo bem? _ perguntou-me Charles, preocupado.
 
_ Não é nada, estou bem. O que elas fazem? _ continuei tentando manter Elizabeth na conversa, precisava de maiores informações.
 
_ Jane é professora universitária e Elizabeth é assistente social e professora de dança.
 
_ Moram sozinhas?
 
_ Não, moram com os pais e irmãs. Não acredita como a família dela é grande. São ao todo cinco irmãs, todas mulheres.
 
_ Isso dá um novo significada à frase: Não tem televisão em casa. _ respondi soturno, Charles deu-me um sorriso amarelo.
 
Em seguida, fechei-me em meu ostracismo e vesti a máscara da indiferença, meus pensamentos fervilhavam. Elizabeth precisava de dois empregos para sobreviver? Isso era demais para mim, não consegui me imaginar tendo um relacionamento, com alguém tão diferente socialmente de mim. Neste, momento criei um abismo entre nós, mas ainda restavam algumas pontes, que poderiam nos ligar. Porém, quanto mais eu pensava, mais eu derrubava estas pontes. Fui interrompido pela chegada das moças.
 
Elizabeth sorria para mim, mas por mais que ela me fascinasse, eu travava naquele instante uma luta interna para mudar meus planos originais com relação a ela. Vi novamente aquele brilho em seu olhar, tinha a certeza de que ela notara a diferença em meu comportamento, por mais que eu me esforçasse para ocultá-la.
 
Sem perceber, nos vi sozinhos na mesa. Elizabeth me encarava, um leve sorriso ainda pairava em seus lábios. Mas, os olhos haviam mudado, estavam me analisando, talvez se perguntasse o que havia acontecido, enquanto estiveram afastadas. Tentei falar algo, mas nada me vinha à mente. Desta vez foi ela quem não colaborou, nitidamente deixava a meu encargo o início de uma conversa.
 
_ Estava distraído. Onde foram todos? _ perguntei estupidamente sem jeito.
 
_ Dançar. _ bebericou seu drinque, sem tirar os olhos de mim, estavam me desafiando novamente _ Você esta indisposto?
 
_ De forma alguma. _ menti, fazia isso muito mal.
 
_ Esta mais parecido agora, com o sujeito de quando nos conhecemos.
 
_ Bem, espero que seja um elogio. _ tentei sorrir.
 
_ Não estou pensando em ofender ninguém, mas de certa forma, é bem diferente do que um elogio. _ ela sorriu, mostrando-me que neste jogo, podia ser melhor do que eu _ Você dança? _ mudou o tom de voz, dando um timbre mais animado a sua voz de veludo.
 
_ Só se for obrigado.
 
_ Oh, e ninguém quer isso aqui. Não é mesmo? _ me encarou mais uma vez, mas logo baixou o olhar, virando o rosto em direção a pista de dança, percebi que não queria mais jogar o meu jogo, sem voltar-se para mim, levantou-se _ Com licença. _ foi em direção aos amigos.
 
Naquele momento, eu havia derrubado mais uma ponte. A noite para mim havia acabado, todos os planos que fizera haviam caído por terra, não sobrara quase nada da minha empolgação e convicção original. Levantei-me e fui ao bar, pedi um uísque duplo, fiquei algum tempo ali, de costas para a pista. Quando resolvi voltar, encontrei Charles, me procurando.
 
_ Onde estava?
 
_ No bar.
 
_ Por que não dança? Detesto vê-lo assim, quando há tantas mulheres bonitas na casa?
 
_ Charles, você esta com a única mulher realmente bonita do local. _ Charles sorriu satisfeito com meu elogio _ Sabe muito bem, que detesto dançar.
 
_ Jane é linda, realmente. Mas, existem outras. _ olhou ao redor _ Elizabeth.
 
_ Elizabeth? _ será que ele havia desconfiado do meu interesse inicial?
 
_ Sim, ela também é muito bonita.
 
_ Tolerável, mas não o suficiente para me tentar.
 
_ Você é sempre tão severo. _ criticou-me Charles, me deixando sozinho novamente.
 
Ao me virar para ir a mesa, dei de cara com Elizabeth, seus olhos sorriam daquela maneira que me fazia sentir-me mal. Juntou-se aos amigos, dizendo-lhes algo, rindo. Charlotte e Fred, olharam-me rindo também. Tive a certeza de que ela me ouvira. Não restava mais nada a fazer ali, julguei que naquele momento havia derrubado todas as pontes e nada nos aproximaria novamente. Fui embora.
 
 ***~***~***~***~***
 
 
Encontramo-nos em diversas ocasiões, pois o relacionamento entre Charles e Jane, ficava cada vez mais sério. Mas, o nosso próprio relacionamento não existia. Percebi que Elizabeth me evitava, porém eu tentava sempre ficar próximo a ela, era como um vício que não consegui controlar, sua inteligência me fascinava.
 
Conheci sua família, um verdadeiro terror. Seu pai apesar de aparentar a mesma inteligência que Elizabeth, era negligente, às loucuras de sua esposa e suas filhas mais novas. Sua mãe não tinha travas na língua, falava alto e tinha uma idéia fixa de casar suas filhas, temi por Charles, mas ele tinha que escolher sozinho seu próprio caminho, eu não interferiria dessa vez. As irmãs mais novas eram mais tolas do que as adolescentes normais, em minha opinião. Mas, eu não poderia jamais, julgar Elizabeth e Jane da mesma forma, apesar de toda a loucura de sua família, a conduta das duas era irrepreensível.
 
 
***~***~***~***~***
 
 
Eu racionalizava constantemente, pois não havia um minuto sequer que não pensasse nela. Estava enlouquecendo, agora ela fazia parte dos meus momentos conscientes e inconscientes, pois passei a sonhar com ela todas as noites. Georgiana, percebeu meu estado de espírito. Agora, além de mim, eu fazia minha irmã infeliz. Numa noite, acordei com Georgi velando o meu sono.
 
_ O que há com você, Will? _ perguntou-me com um sorriso triste nos lábios.
 
_ Não é nada Georgi, só ando muito cansado. _ sentei-me na cama, estendendo-lhe os braços, ela sentou-se ao meu lado.
 
_ Quem é Elizabeth? _ perguntou-me timidamente.
 
 
_ Elizabeth? _ perguntei surpreso.
 
_ Você chama por ela enquanto dorme. _ senti-me envergonhado por minha fraqueza, não lhe respondi _ Você gosta dela? Ela não o quer? Esta te fazendo sofrer? _ transpareceu raiva em sua doce voz.
 
_ Não Georgi, não sinta raiva de Elizabeth. Ela não sabe de nada. Na verdade não gosto dela, é coisa de homem. Sei que me entende?
 
_ Não, não sou homem. Se sente algo por ela, por que não lhe conta? Por que não fica com ela?
 
_ Não é tão fácil assim, Georgi. Não posso ficar com Elizabeth. Não quero.
 
_ Então, por que chama por ela?
 
_ Não sei. Não se preocupe comigo, farei algo para não fazê-la triste por mim. _ ela não respondeu, somente deu um longo suspiro.
 
 
***~***~***~***~***
 
 
Decidi que tentaria ser amigo de Elizabeth, talvez com isso, aquela fixação me deixasse. Esta tarefa tornou-se mais difícil, Elizabeth deixou de me evitar, porém, acabávamos sempre em alguma discussão, passei a ansiar por estes momentos, eram os únicos que me permitia ter com ela. A minha admiração só crescia, Elizabeth não me bajulava como as outras, não fazia questão de me agradar ou de concordar comigo, quaisquer que fosse o assunto.
 
 
***~***~***~***~***
 
 
Passamos o feriado de novembro, na casa de campo de Charles, foi lá que ouvi algo, que me impulsionou a tomar a decisão dessa noite. Caminhava a esmo pelo pequeno bosque, até que ouvi um choro abafado e sussurros, aproximei-me e reconheci aquela voz de veludo, que eu tanto apreciava, carregada de tristeza.
 
_ Lizzy, não chore. _ consolava-a Fred.
 
_ Não posso evitar, Fred. Não consigo suportar por mais tempo, essa indiferença. Eu o amo tanto. Não queria, mas não consigo evitar.
 
_ Conte a ele.
 
_ Não. _ sua voz soou desesperada.
 
_ Lizzy, tenho certeza de que ele sente algo por você. Não percebe?
 
_ Desprezo. Não vê como ele me olha? Parece que esta sempre procurando algum defeito em mim.
 
_ Dê-se uma chance. Só vai saber se contar a ele o que sente?
 
_ Não. Preciso arrancar isso do meu peito. _ respondeu enxugando as lágrimas.
 
_ O amor não se arranca do peito.
 
_ Então, estou condenada a ser infeliz pelo resto dos meus dias.
 
_ O amor não é um sentimento que traz infelicidade, não é a sua essência.
 
_ Então, vou ter que aprender a transformar este sentimento em algo produtivo. _ sorriu, tentando mostrar-se confiante.
 
_ Isso, garota. A melancolia não é algo que combine com você. Sabe que pode contar comigo, não é?
 
_ Sei, Fred. Obrigada.
 
_ Mas, ainda acho que ele deve saber. Se você não quer contar, deixe-me fazer isso por você?
 
_ Não, Fred. Ele jamais saberá.
 
Afastei-me, meu coração estava dilacerado, Elizabeth amava outro. A minha Elizabeth, amava e não era a mim. O pior de tudo, estava sofrendo com sua indiferença. Como este crápula poderia não amá-la? Por mais que eu fosse egoísta, não suportava a idéia de vê-la sofrer, o tom de sua voz, seu rosto contraído pela dor. Fora demais. Senti-me impotente. O que eu poderia fazer? Por mais que eu tentasse não éramos amigos, ela jamais me contaria quem ele era e eu tampouco, conhecia as pessoas com quem ela convivia, a não ser sua família, Fred e Charlotte.
 
Nos poucos dias em que passamos juntos, a observei mais atentamente, como se isso fosse possível. Elizabeth disfarçava muito bem, mas seus olhos continham um resquício de tristeza, a não ser quando me olhava, sempre me lançando o seu olhar desafiador, mas naquele feriado não discutimos. Afinal, eu também estava triste por não ser amado, a consciência de não ser para ela o que ela era para mim, me fez realmente perceber que a amava, de uma forma que jamais pensei. A perdi sem ao menos ter tido a chance de realmente tê-la.
 
 
***~***~***~***~***
 
 
Os dias que se seguiram foram cheios de decisões, as palavras de Fred, ecoavam na minha mente. _ Conte a ele! _ decidi usar isso para mim, contaria a Elizabeth o meu amor por ela, mesmo sabendo que era em vão. Mas, este amor não me pertencia, era meu com o único intuito de dá-lo a ela. Planejei como contaria, resolvi ter convidados para a ceia do Natal, sempre gostei desta data, seria meu presente a Elizabeth.
 
Convidei toda a sua família, para que ela não deixasse de comparecer com alguma desculpa. Meus poucos parentes e os parentes de Charles também foram convidados, pela primeira vez em anos, minha casa estaria repleta de pessoas. Georgiana transbordava de felicidade, sempre fora seu sonho, ter a casa em festa.
 
 
***~***~***~***~***
 
 
Meus convidados começaram a chegar, não poderia mais me deter em meu quarto. Respirei fundo, me preparando para o meu futuro, fosse qual fosse.
 
Logo, todos haviam chegado, meus olhos eram somente para Elizabeth, negligenciei a maioria de meus convidados. Ela estava linda, com um vestido longo, vermelho, que deixava suas costas nuas a mostra, seu ar era de distanciamento.
 
Observei minha irmã conversar com Elizabeth, parecia que se entendiam completamente.
 
_ Eu a adorei, irmão. _ sussurrou-me em meu ouvido, quando passou por mim.
 
A meia-noite, chegou. Todos se cumprimentaram alegremente, com abraços, ceamos. Após, os convidados espalharam-se em grupos, para conversarem ou fazerem outras atividades. Percebi quando Elizabeth, dirigiu-se sozinha para a varanda, era o momento que tão ardentemente havia desejado a noite toda. Sem me fazer notar, fui em sua direção, fechando a porta ao passar. Elizabeth estava absorta em seus pensamentos, olhando o céu estrelado, não notando minha presença.
 
_ Elizabeth! _ ela sobressaltou-se.
 
_ Ah! Olá, não ouvi você chegar. _ sorriu-me levemente, voltando-se a observar as estrelas _ Eu adoro olhar para o céu.
 
_ Também, gosto. Mas, ainda acho coisas bem mais interessantes aqui na Terra. _ comentei me aproximando, ela sorriu, me encarando.
 
_ Acho que nunca concordaremos com algo. _ disse divertida _ Somos como a água e o óleo, não é mesmo? _ isso não me agradou, estava tentando ser galante.
 
_ Bem, não foi isso que eu quis dizer.
 
_ Tudo bem. _ voltou-se pensativa.
 
_ No que esta pensando?
 
_ No amor. _ olhou-me surpresa, por ter dito isto _ Humm .. _ tentou dizer algo, mas estava sem graça.
 
_ Você ama? _ continuei no assunto, não poderia deixar a chance me escapar.
 
_ Sim. _ baixou os olhos.
 
_ Posso saber quem é? _ na verdade eu não queria saber.
 
_ Narciso. _ seus olhos desafiadores, tornaram a aparecer e encarar-me.
 
_ Narciso!?! _ estava confuso, nunca ouvi alusão a este nome.
 
_ Conhece a estória de Eco e Narciso. _ continuou me desafiando.
 
_ Mitologia! _ exclamei aliviado _ Conheço, mas o que tem haver com você?
 
_ Eu amo Narciso, porém sou Eco. Ele jamais olhará para mim, com deleite, sou uma aberração para ele. _ havia angustia em sua voz _ Mas, ele também não consegue enxergar mais ninguém, além dele mesmo.
 
_ Como assim?
 
_ Ele não ama a ninguém, pelo menos nunca mencionaram algo, não sai com ninguém, esta sempre só e considera a maioria das mulheres insignificantes demais para chamar-lhe a atenção. _ estas palavras me soaram estranhamente familiar.
 
_ Talvez ele seja gay. _ tentei brincar.
 
_ É uma possibilidade. _ sorriu, fez-se um silêncio constrangedor, chegara o momento.
 
_ Elizabeth, tenho algo a lhe revelar, que não posso e não quero mais guardar somente para mim. _ seu rosto foi de incompreensão, permaneceu muda _ Desde o momento em que a vi, algo brotou em meu peito, levei muito tempo para compreender o que sinto. _ fiz uma pausa, soando ser obvio.
 
_ Não compreendo, o que esta dizendo.
 
_ Eu a amo. _ seu olhar foi de espanto _ A amo como jamais pensei ser capaz de amar. A minha vida antes de lhe conhecer, era uma sombra, não havia razão para minha existência. Você trouxe uma luz, que até então me era desconhecida. É a sua imagem que vejo, logo que acordo e é a sua imagem a última que vejo, quando adormeço. Mesmo dormindo é com você que sonho. A amo tanto, que mesmo sabendo que ama outro, quero que seja feliz, mesmo que não possa vê-la mais. Você é minha vida, Lizzy. _ sem perceber estava próximo demais, tive o ímpeto de beijá-la, mas me controlei, seus olhos inteligentes, me encaravam com um brilho diferente, que jamais havia visto, um sorriso resplandecente tomou conta do seu rosto e ela quebrou a curta distância entre nós, dizendo-me num sussurro.
 
_ É a você que eu amo, Narciso.
 
Não houve mais palavras, tomei-a em meus braços, capturando seus lábios, com intensidade e amor. Naquela noite de Natal, naquela noite especial, ambos mudamos nossas vidas, unindo-as para sempre.
 
 
***~***~ FIM ~***~***
 

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Netherlands flag <1%Netherlands (291)
United Kingdom flag <1%United Kingdom (273)
Germany flag <1%Germany (269)
Latvia flag <1%Latvia (149)