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Deleitar-se em um bom romance não é senão prova de espírito.(Jane Austen)

Armações do Destino - Capítulo 24

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Elizabeth acordou antes de o dia raiar, decidiu caminhar e ver o nascer do sol. Andou por um tempo até que avistou uma pedra que mais se parecia um banco, sentou-se e ficou admirando o sol que começava a aparecer imponente*, não percebeu mas estava sendo observada de longe, fechou os olhos e inspirou profundamente, expirando lentamente, ouviu alguém lhe chamar ternamente, quase num sussurro, por um instante achou estar sonhando, porém a realidade a tocou quando reconheceu a voz, levantou-se assustada, dando um passo atrás.
 
 

_ Não se assuste. _ disse William.
 
_ O que faz aqui? Como me encontrou? _ perguntou brava.
 
_ Sabia que sairia cedo para caminhar. Fiquei esperando e vi quando veio para cá.
 
Elizabeth não respondeu, ele estendeu-lhe uma carta, que ela instintivamente aceitou.
 
_ Por favor, leia esta carta. _ por um breve momento os dois encararam-se, William notou no semblante de Elizabeth, o ar de tristeza e indisposição, sentiu-se culpado como nunca antes se sentira, um forte desejo de confortá-la o acometeu, porém nada poderia fazer a não ser ir embora, virou-se e saiu.
 
Elizabeth confusa, sentou-se novamente na pedra, a curiosidade a fez abrir a carta apressadamente, ficou surpresa com o tamanho dela, leu:
 
“Elizabeth,
 
Não se assuste ao receber esta carta. Não haverá nela a repetição daqueles sentimentos ou a renovação daquela proposta que ontem lhe repugnaram. Não tenho a intenção de aborrecê-la ou de me humilhar insistindo neste assunto. Mas o meu caráter exige que esta carta seja escrita e lida. Desculpe, mas exijo da sua justiça que a leia. Duas foram às acusações que me fez. A primeira foi: que eu tenha separado Charles de sua irmã, indiferente aos sentimentos de ambos. E a outra de ter arruinado a possibilidade imediata e as probabilidades futuras de George Wickham, ferindo vários direitos, desafiando a honra e a humanidade, isto sem dúvidas é uma perversidade incomparavelmente mais grave do que a separação de duas pessoas cuja afeição, embora real, não poderia ter crescido excessivamente no espaço de tempo em que estiveram juntas. Espero que no futuro, não seja tão severa comigo em relação a estes dois casos, depois de ter lido a seguinte explicação dos meus atos e dos seus motivos.
 
Durante o feriado de carnaval, em Netherfield, Charles me contou sobre o desejo de pedir sua irmã em casamento e suas dúvidas em relação aos sentimentos dela. Fiquei espantado por ele ter se apaixonado seriamente, a ponto de pensar em se casar. Já o tinha visto apaixonado muitas vezes antes. Embora, naquela ocasião eu estivesse ocupado com os meus próprios sentimentos e tentando, decifrar os seus, passei a observar Jane e Charles. Mas, foi somente no baile na casa de Charles e ouvindo sem querer, a conversa de sua mãe sobre a certeza de tal casamento, que observei mais atentamente sua irmã e concluí pelas maneiras dela que por mais amável que seja seu gênio, seu coração não é dos mais fáceis de atingir. Neste ponto, se você não se enganou, enganei-me eu. É certo que desejava acreditar na indiferença dela, mas afirmo que as minhas investigações e as minhas decisões não são influenciadas pelas minhas esperanças ou pelos meus receios. Não foi porque o desejasse que acreditei na indiferença dela, foi porque cheguei a esta convicção imparcial e ela é tão sincera quanto o meu desejo. Minhas objeções contra aquele casamento não foram as que lhe disse ontem e que no meu próprio caso, exigiram toda a força do amor para serem vencidas; a desigualdade social, não seria um mal tão grande para o meu amigo, quanto para mim. Mas, existem outras causas para a minha resistência, causas que eu tentara esquecer porque não as via de maneira imediata diante de mim. Essas causas precisam ser ditas. A situação dos seus parentes, não era nada em comparação com a falta total de delicadeza demonstrada por sua mãe, suas três irmãs mais moças e até mesmo por seu pai. Desculpe-me, se isso a ofende, mas saiba que você e sua irmã mais velha estão excluídas desta descrição. Os fatos que se passaram naquela noite confirmaram a minha opinião sobre todas as pessoas em questão e fortaleceram a minha resolução de proteger o meu amigo. Naquela mesma noite descobri que as irmãs de Charles também estavam preocupadas com isso, então resolvi contar a Charles as conseqüências desastrosas da escolha que fizera. É claro que não teria sido suficiente para impedir a sua resolução, se não tivesse afirmado que sua irmã não o amava. Ele acreditava até aquele momento que ela o correspondia com igual intensidade. Mas, Charles é muito modesto, e além disso, confia mais no meu julgamento do que no seu próprio. Convencê-lo de que se tinha enganado não foi difícil. Persuadi-lo de que não deveria encontrá-la e romper a relação foi coisa de um instante. Se, feri os sentimentos de sua irmã, foi sem a intenção de fazê-lo e, embora os motivos de minha conduta lhe pareçam insuficientes, não vejo ainda razões para condená-los. O que esta feito, esta feito.
 
Com relação à outra acusação, a mais grave, a que diz respeito a George, só poderei refutá-lo, contando-lhe toda a história das suas relações com a minha família. Ignoro se ele fez alguma acusação particular a meu respeito, mas acerca da verdade do que vou lhe contar, posso dar mais de uma testemunha. George é o filho de um homem muito respeitável, que durante muitos anos foi assessor de meu pai, sua fidelidade mereceu a gratidão do meu pai. E para com George que era seu afilhado, meu pai sempre foi muito generoso, amando-o como um filho. Pagou os seus estudos no colégio e na faculdade, mesmo depois da morte de seu pai, continuou o ajudando dando-lhe um cargo de gerência na empresa. Meu pai gostava muito da companhia dele e o admirava. Quanto a mim, tinha outro conceito dele. As suas inclinações viciosas, a falta de escrúpulos, que ele tinha o cuidado de esconder do seu amigo, não poderiam passar despercebidos a um rapaz da sua idade, que o observava e tinha a oportunidade de vê-lo em momentos de descuido. Aqui terei novamente que magoá-la. Até que ponto, não sei. Mas quaisquer que sejam os seus sentimentos por ele, a suspeita que tenho acerca da natureza desses sentimentos não me impedirá de mostrar o verdadeiro caráter dele. Nos últimos momentos de vida, meu pai me recomendou que mantivesse George nas empresas e lhe deixou em testamento uma grande soma em dinheiro. Mantive a promessa que lhe fiz, porém logo George gastou todo o dinheiro que recebeu com a herança no jogo, passando a desviar dinheiro da empresa, lugar no qual ele quase não permanecia a não ser para desviar altas somas. Bem, ele foi descoberto e demitido e em nome da lembrança de nossos pais, não deixei que fosse preso, deste dia em diante cortamos relações e não ouvi mais falar nele até que o ano passado, se meteu novamente em meu caminho. O que vou lhe contar agora eu gostaria de esquecer, só uma obrigação tão forte quanto esta poderia me induzir a contar a alguém. Confio na sua discrição. Minha irmã é dez anos mais nova que eu e foi deixada sobre minha tutela e de meu primo FitzWilliam, no ano passado veio ao Brasil, passar as férias em nossa casa de praia, ficou em companhia de uma governanta, Sra Yonge, pessoa que me enganei quanto ao caráter. George ajudado por ela, ficou sabendo que Georgiana estaria sozinha no litoral e foi para lá no intuito de seduzi-la, Georgiana que guardava boas lembranças dele da sua infância, se deixou envolver e consentiu em ser raptada. Cheguei inesperadamente, ao litoral dois dias antes da projetada fuga. E Georgiana incapaz de me desgostar, contou-me tudo. Você pode imaginar como me senti e como agi. Para não prejudicar a reputação de minha irmã e não ofender seus sentimentos, eu me abstive de qualquer ato de represália em público. Sem dúvidas, George queria se apoderar da fortuna de minha irmã, mas não posso deixar de pensar que o desejo de se vingar de mim também o tenha influenciado.
 
Esta é toda a verdade e se não a considerar falsa, espero que me absolva daqui por diante de ter agido com crueldade para com George.
 
Talvez você se surpreenda por não ter lhe dito isto ontem, mas naquele momento não tinha controle suficiente sobre mim mesmo. Quanto à verdade de tudo o que contei, posso apelar para FitzWilliam, que conhece todos os detalhes desses acontecimentos. Se a antipatia que tem por mim, tirar o valor das minhas asserções, a mesma causa não a poderia impedir de confiar no meu primo, e para que haja a possibilidade de consultá-lo, procurarei entregar-lhe esta carta pela manhã.
 
Com carinho,
 
William Darcy”

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