Ao chegar em Salvador*, Lizzy encantou-se com tudo o que viu. O flat** em que ficaria hospedada estava além das suas expectativas, realmente a Darcy’s Vision, sabia agradar seus colaboradores. O prédio em que ficava a filial, era conhecido como “torres gêmeas”***. Elizabeth compreendeu que tudo o que se relacionava com a empresa de Darcy era grandioso e imponente, pensou em William com pesar, não deveria ser nada fácil cuidar de um “império” como esse, não deveria sobrar-lhe tempo para pensar em mais nada, muito menos em sua vida particular, aliás ele nem deveria ter uma, seus pensamentos deveriam ser somente para a Empresa, por isso era tão frio e arrogante. Sentiu um arrepio na espinha _ ‘Nossa que vida chata. Ainda bem, que ele não representa mais nada para mim, seria muito difícil partilhar de um mundo desses, deve ser tão cheio de regras e “não me toques”. _ sorriu tentando espantar estes pensamentos, voltando sua atenção para o mar que via ao longe. Começou a fazer planos turísticos, para aproveitar todos os seus horários livres e conhecer a cidade.
Logo, o clima alegre da cidade a contagiou, sentindo-se acolhida, naquele lugar onde tudo era colorido e até o céu parecia mais azul. Porém, a preocupação com Jane também fazia parte de sua rotina, falava com a irmã todos os dias, soube que Charles não retornou suas ligações, nem respondia seus emails, o que fez Jane não mais o procurar. Por acaso, encontrou no shopping uma vez Caroline, que lhe informou que não havia previsão para o retorno de Charles e o mesmo estava se divertindo na companhia de Georgiana Darcy. Ainda, fazendo-se de amiga de Jane, disse para que ela não ficasse triste, pois o irmão era assim mesmo, sempre se interessa por alguém onde quer que fosse e que provavelmente anunciaria seu noivado com Georgiana. Elizabeth percebia o estado de depressão de Jane, embora esta lhe afirmasse que estava bem, transparecia em sua voz a sua profunda tristeza, por este motivo, Lizzy contava os dias do seu retorno a São Paulo para ver Jane.
Apesar de longos, os quinze dias passaram e Elizabeth retornou a São Paulo.
***
Devido ao feriado de Páscoa, Elizabeth viu Jane e os pais rapidamente, Jane passaria o feriado com os tios Gardiner o que deixou Lizzy contente, pois confiava que sua tia seria capaz de animá-la. Lizzy viajaria com Charlotte, por isso, nem desfez as malas, separou algumas peças de roupas em outra mala menor e foi para a casa de Charlotte.
_ Char!!
_ Lizzy! _ abraçaram-se com alegria.
_ Então, para onde vamos?
_ Para a casa de campo de meu namorado.
_ Namorado? Como não me contou nada? Você, heim? Quem é? Eu conheço? _ notou algo estranho no olhar de Charlotte.
_ Conhece ... é ... o ... seu primo Collins. _ disse rapidamente o nome.
_ Quem? _ perguntou Lizzy espantada, achando que não a havia entendido bem.
_ Ora Lizzy, não me olhe assim.
_ Esta louca? Ele é um idiota. _ disse grave.
_ Não fale assim, é meu namorado.
_ Mas, Charlotte ... _ disse tentando tornar-se calma, a campainha tocou e Collins entrou.
_ Querida. _ deu um selinho em Charlotte _ Elizabeth, como vai?
_ Bem! _ respondeu tentando ser o mais natural possível, percebendo o constrangimento de Charlotte.
_ Estão prontas? Vocês irão adorar São José do Barreiro* é um lugar lindo, minha casa é modesta, mas fica próxima a Rosings Park, a propriedade da minha estimada gestora, Catherine De Bourgh.
Elizabeth, mal podia acreditar, sua melhor amiga com Collins, o mundo que conhecerá já não era mais o mesmo e somente havia ficado quinze dias fora. O pior de tudo é que passaria o feriado todo “segurando vela”. Arrependeu-se de não ter ligado para Felipe assim que chegou, talvez ainda o encontrasse em São Paulo para acompanhá-la, restou-lhe juntar os ânimos e preparar-se para todas as desventuras que poderiam acontecer num feriado prolongado ao lado de Collins.
***
Ao chegarem, percebeu que poderia aproveitar o lugar para caminhar e ler, pois levava sempre um livro consigo, desta vez relia “Senhora”* de José de Alencar. A paisagem era linda, a visão da Serra da Bocaina*, maravilhosa e a casa, era bem arrumada. Elizabeth resolveu ficar num quarto, longe do casal, a sala de estar era agradável, haviam três quartos, dois banheiros, uma sala e uma cozinha, a casa era cercada por uma varanda, não havia piscina e o muro era baixo. Enquanto, Charlotte e Collins terminavam de desfazer as malas, Lizzy foi para fora, resolvida a dar uma pequena volta e conhecer o lugar. Ao longe podia ver-se Rosings Park, um casarão em estilo colonial, viu passar um carro preto na estrada em direção a propriedade. Sem dar muita importância, sua atenção voltou-se para um caminho florido e caminhou em sua direção, meia hora depois quando retornou, encontrou Collins e Charlotte aflitos.
- http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=resumos/docs/senhora
- http://www.saojosedobarreiro.sp.gov.br/fotos04.html
_ Onde esteve Lizzy?
_ Fui dar uma volta, Char. O que aconteceu? _ perguntou preocupada com o jeito dos dois.
_ Uma grande honra, minha querida prima. Fomos convidados a passar a tarde e jantar com a Sra DeBourgh. Vamos, vamos vista o que trouxe de melhor e não se preocupe, a Sra Catherine não repara nestas coisas. Rápido, estamos atrasados.
Lizzy suspirou resignada, faria qualquer coisa por Charlotte.
***
Ao entrarem no salão, Elizabeth reparou na suntuosidade do local, o mordomo os levou até uma das varandas.
_ Sra DeBourgh! É uma grande honra revê-la. Esta é Charlotte minha namorada e esta é Elizabeth.
_ Ah! Então você é Elizabeth? _ mediu-a de cima abaixo.
_ Sim, senhora. _ Lizzy percebeu e não gostou de sua atitude prepotente.
_ Esta é minha filha, Anne.
Elizabeth a olhou com interesse, lembrou-se das palavras de George sobre o casamento entre ela e Darcy. Anne era franzina e miúda, tinha um aspecto doente _ ‘Talvez devesse tomar um pouco mais de sol’ _ pensou, percebeu que era também, extremamente tímida, um sentimento de pesar tomou conta de Elizabeth _ ‘Ela não merece alguém tão frio como William, precisa de alguém capaz de torná-la feliz.’ _ a Sra Catherine convidou-os a sentarem-se, um ruído chamou a atenção de todos e quando a porta se abriu dois homens entraram, um deles extremamente sorridente.
_ Boa tarde! _ cumprimentou _ FitzWilliam, mas podem me chamar de Fitz, por favor. _ aproximou-se apertando a mão de todos.
_ Boa tarde! _ disse secamente Darcy.
Elizabeth teve a certeza. Pagava todos os seus pecados, seria o pior feriado de Páscoa de sua vida e sequer havia levado um chocolate para consolá-la. Fitz, sentou-se ao seu lado, o que fez Darcy sentar-se próximo a sua prima. Logo, Fitz e Elizabeth, travavam uma conversa animada, o que chamou a atenção de William e da Sra Catherine.
_ Então, Elizabeth? Soube que sua família é grande.
_ Sim, senhora. Somos, em cinco irmãs.
_ Todas mulheres?
_ Todas mulheres?
_ Sim.
_ Sua mãe deve ter ficado escravizada a educação de vocês?
_ Não senhora, pelo contrário.
_ Todas estudam?
_ Eu e minha irmã mais velha somos formadas, uma esta na faculdade e as outras duas cursam o colegial.
_ O que faz sua irmã mais velha?
_ É professora no ensino básico.
_ Oh! Professora? E a senhorita?
_ Sou psicóloga, no momento atuo como Analista de Desenvolvimento Organizacional, como deve saber. _ notou a expressão de surpresa da Sra Catherine a sua resposta.
_ Tem algum conhecimento em artes?
_ Musical.
_ Oh! E o que seria?
_ Canto e toco violão e piano, porém este último muito mal.
_ Piano? É raro hoje em dia uma moça que toque. Deve nos dar este prazer. Pois, não conheço ninguém que aprecie mais o som de um piano como eu. Tenho certeza de que se a saúde de Anne lhe permitisse, ela seria uma excelente concertista. _ Anne mal levantou o olhar a alusão ao seu nome _ Temos um instrumento que é dos melhores. Sabe desenhar?
_ Não, senhora.
_ Suas irmãs sabem?
_ Não, nenhuma.
_ Oh, seus pais deveriam tê-las orientado quanto a isso, apesar de não se dar a devida importância a estas coisas, considero que as moças devem aprendê-las, para demonstrarem maior sensibilidade, mas com certeza vocês não tiveram oportunidade.
_ Não senhora, não foi este o caso. Sempre nos encorajaram a aprender, porém, as que preferiram não estudar, foi lhes feita à vontade. _ Lizzy estava irritada com aquele interrogatório, a Sra DeBourgh a olhou com desdém.
_ Trabalha para nós também, não é? _ perguntou impertinente.
_ Sim, senhora.
_ Há quanto tempo?
_ Cinco meses.
_ Soube que esteve em nossa filial em Salvador?
_ Sim.
_ Me conte como estão às coisas por lá.
‘Trabalhando no feriado. Será que vou ganhar extra?’ _ pensou e discorreu sobre a situação com uma precisão e autoridade que impressionaram a Sra Catherine.
_ Dá a sua opinião muito decididamente para uma pessoa tão jovem. Diga-me. Quantos anos têm?
_ Com três irmãs mais novas já crescidas, a senhora não pode esperar que lhe dê uma resposta. _ disse educadamente. Lizzy, estava enojada com tamanha demonstração de arrogância, percebeu que a Sra Catherine, ficou atônita com sua resposta e suspeitou que havia sido a primeira pessoa que ousara fazer pouco caso de uma tão pomposa impertinência. William, por sua vez achou graça da resposta de Elizabeth e constrangido com o interrogatório de sua tia, resolveu conversar com esta antes que iniciasse novamente.
Elizabeth observou as maneiras de Darcy para com Anne e não percebeu nada além de afeição entre primos, na verdade eles quase não se falavam, não havia interesse nenhum de ambos.
_ Elizabeth! _ chamou Fitz _ Espero que retorne a Salvador.
_ Eu também, gostei muito de lá.
_ Ótimo, pois sou o responsável pela filial, estava de férias e agora que sei que tem uma tão encantadora Analista no RH, para nos ajudar, darei muito mais atenção a esta área.
Elizabeth sorriu.
_ Não me olhe assim, William. Também gosto dessa área _ riu _ William é muito egoísta, faz questão de tomar para si a responsabilidade pelo RH. Mas também, se todas as analistas forem como você. Posso entender os motivos dele. _ disse malicioso.
_ Pare com isso Fitz, esta sendo inconveniente com Elizabeth. _ retrucou Darcy sério.
_ Estou gracejando. _ retrucou rindo _ Ele é muito sério, não acha?
_ Extremamente.
_ Pois, deixo estes momentos somente para o trabalho, fora gosto muito de uma boa gargalhada.
Continuaram conversando sobre outros assuntos, Elizabeth notou que Darcy sempre se voltava em sua direção, mas não soube definir com qual intenção. Fizeram um lanche e passaram a uma sala de jogos, a Sra DeBourgh e sua filha queriam jogar cartas e Charlotte e Collins às acompanharam à mesa. Darcy e FitzWilliam, decidiram jogar sinuca. Elizabeth, não estava com ânimo para jogos. Caminhou em direção a janela, após olhar a paisagem por alguns segundos, pediu licença para ir até o jardim. Quando saiu sentiu-se aliviada, apesar de FitzWilliam ser muito agradável, não estava com a menor disposição para aturar aquelas pessoas, a natureza sem dúvidas era a melhor companhia. Caminhou lentamente por entre as flores, apreciando o lugar.
Enquanto isso, lá dentro William não conseguia concentrar-se no jogo, errando até as tacadas mais simples. Seu olhar voltava-se constantemente para fora, onde podia ver Elizabeth.
_ Will! _ chamou-lhe Fitz _ O que há?
_ Anh. Nada. _ respondeu confuso.
_ Ah, seu maroto, esta interessado nela? _ riu.
_ Nela quem? Do que esta falando?
_ Na bela donzela entre as flores. _ parou e olhou a janela.
_ Não diga besteiras. Eu interessado em Elizabeth? Claro que não.
_ Não vejo o porquê. Eu mesmo fiquei interessado, ela é muito atraente e ...
_ Não fale desse jeito, Elizabeth trabalha para nós.
_ E daí? Não estamos nas dependências da Empresa, agora. O que tem demais apreciar uma bela mulher? Não estou sendo cafajeste, somente disse que ela é atraente e isso você não pode negar.
William não respondeu, fingiu prestar atenção no jogo.
_ Ainda bem que me enganei.
_ Sobre?
_ Seu interesse por Elizabeth. Assim posso conhecê-la melhor.
_ Te garanto, ela não faz o seu tipo. _ disse tentando esconder o ciúmes.
_ Ah não? E como sabe?
_ Eu ... Eu a conheço a algum tempo, fora do ambiente de trabalho.
_ Conhece como? _ perguntou num tom malicioso.
_ Não é nada do que esta pensando, já fui em algumas festas em que ela estava, só isso.
_ Ah, se é só isso? Não tem problemas, não vou pular em cima dela, vou somente conhecê-la, conversar, posso descobrir sozinho se ela faz ou não o meu tipo. _ na verdade Fitz percebeu que havia algo a mais, mas estava se divertindo vendo o ar de ciúmes que o primo mal conseguia esconder.
_ Como queira. _ retrucou secamente, tinha de ser discreto, se o primo percebeu o seu interesse por Lizzy, não poderia deixar que as outras pessoas ali presentes percebessem, nem Elizabeth. Se bem, que ela lhe parecia tão indiferente, tão distante, deveria ser por causa do rapaz da casa noturna, mas por que ele não estava com ela? Concentrou-se melhor no jogo conseguindo reverter os pontos que havia perdido. No jantar teve o prazer de sentar-se ao lado dela.
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