Capítulo VIII
Adrian Johnston - To the Ball
Embora fosse contrária à natureza da Sra. Bennet uma rápida recuperação após uma perda como a que havia sofrido, era-lhe igualmente impossível deixar de tomar parte na organização do casamento de uma de suas filhas, mesmo que Jane tentasse insistentemente convencê-la de que ela e Elizabeth eram capazes de cuidar de tudo sozinhas. Além disso, Georgiana, Charlotte, Mary e Kitty também ajudariam no que fosse preciso. Mas de nada adiantava tentar isentar a Sra. Bennet das preocupações inerentes às bodas.
Houve alguma discussão relacionada ao local da cerimônia. No final, concluiu-se que Pemberley seria a escolha mais acertada.
Mesmo envolvida com os preparativos, Elizabeth via o tempo passar lentamente. Parecia que o relógio resolvera desacelerar seus ponteiros apenas para torturá-la. Mas, ainda que se arrastando, o tempo passou. E em uma tarde do fim de setembro, Elizabeth viu-se em uma carruagem, sacolejando pela estrada que levava a Pemberley.
Os cavalos mantinham o galope acelerado, arrastando as rodas, que giravam sobre a terra batida e encontravam uma pedra ou outra em alguns momentos, gerando solavancos desagradáveis para os ocupantes. A poeira levantada turvava a vista das janelas, mas isso não impedia que Elizabeth mantivesse seus olhos nelas durante todo o percurso, observando atentamente o passar ininterrupto das campinas de grama alta e esperando capturar a primeira imagem da mansão.
A pequena Jenny ia adormecida em seu colo, enquanto Cassie viajava nos braços da tia Jane, brincando com um de seus cachos de cabelo.
Os Bingleys e Charlotte tagarelavam sobre algo. Elizabeth limitava-se a balançar a cabeça ou responder com um monossílabo quando sua atenção era solicitada. Ela só tinha pensamentos para Pemberley e o seu dono. Seria a mansão tão bela quanto imaginara? Estaria ele esperando na porta para recebê-la?
Ao avistar a construção, ela sentiu o ar fugir de seus pulmões. Quantas vezes havia fantasiado sobre aquele lugar? Quanto sonhara com o dia em que estaria lá, caminhando pelos jardins e pelo parque da propriedade de braços dados com o seu amado?
A Pemberley real superava todas as suas expectativas.
A construção fora erguida sobre colinas cobertas por urzes, abetos e samambaias. O parque estendia-se até onde a vista alcançava, apresentando-se na forma de bosques, em alguns pontos, e charnecas, em outros. Um rio de águas calmas serpenteava pelo terreno. Às margens, cresciam teixos e alguns plátanos.
Uma ponte rústica cortava o rio e ligava a estrada a uma alameda arborizada que conduzia à entrada principal da casa.
Os jardins, que revelavam a arte e o esmero empregados na sua manutenção, traziam variadas espécies em desenhos elaborados. No centro deles, atrás de uma grandiosa fonte, encontrava-se a mansão. Essa era ainda mais incrível do que Elizabeth imaginara.
A fachada escultural dividia-se em doze secções ornamentadas por colunas em estilo jônico. Cada secção apresentava duas janelas retangulares, uma em cada andar. Abalaustrada de pedra abria-se no centro em uma dupla de elegantes escadarias curvas, que ligavam o terraço aos jardins.
O sol se punha a oeste, lançando sobre os campos suas luzes alaranjadas. As pedras da fachada adquiriam um tom róseo sob aquela luz, o que dava ao lugar uma aura mágica. Para Elizabeth, a propriedade inteira parecia cenário de um conto-de-fadas; o seu próprio conto-de-fadas.
No alto da escadaria dupla, seu príncipe a esperava. Elizabeth o viu abrir um largo sorriso ao avistar a carruagem e sorriu de volta.
Quando a carruagem parou, uma criada precipitou-se para pegar a pequena Jenny e Darcy ajudou Elizabeth a descer. Charles desceu em seguida e, após Cassie ter sido entregue a uma segunda criada, auxiliou a esposa e Charlotte. Enquanto isso, Georgiana, que também estivera esperando, correu para abraçar a futura irmã.
Logo chegou a carruagem que trazia o restante da família Bennet. Por último, veio a carruagem com as malas.
Ficara estabelecido que todos pernoitariam em Pemberley e que o casamento se realizaria na manhã seguinte.
Os quartos já haviam sido preparados para receber os hóspedes e o jantar aguardava apenas as instruções da Sra. Reynolds para ser servido.
Darcy ofereceu seu braço à noiva e guiou todos para dentro da casa.
O interior da mansão, assim como o exterior, tirou o fôlego de Elizabeth. A antiguidade da casa podia ser vista na decoração, composta por estilos de diversas épocas. Cada proprietário, ao longo da história de Pemberley, parecia ter acrescentado seu próprio toque ao local, mas esses acréscimos combinavam tão bem entre si que apenas enriqueciam o cenário.
Nas paredes, viam-se pinturas de valor incalculável e a própria mobília parecia uma coleção de arte.
Elizabeth, entretanto, viu menos do que gostaria daquela que seria a sua futura casa. Assim como os outros recém-chegados, foi imediatamente conduzida ao seu quarto. Lá, ela se lavou e trocou as roupas sujas com a poeira da estrada por um vestido limpo.
Quando todos se aprontaram, o jantar foi servido.
Uma longa galeria levava à sala de refeições, que superava em muito a de Loundsley. As paredes eram cobertas por painéis e o teto, pintado à mão, trazia a imagem de um céu em estilo barroco, repleto de arcanjos e querubins. Em uma das paredes laterais, via-se uma lareira ornada por esculturas de mármore. Acima dela, havia um espelho de cristal. As janelas, na parede oposta, eram emolduradas por cortinas de fina seda adamascada.
A longa mesa, coberta por uma toalha de linho branco, possuía vinte e seis lugares: onze de cada lado e mais dois em cada cabeceira. Sobre ela, suntuosos candelabros de prata complementavam a iluminação do grande lustre que pendia do teto.
A refeição foi simples para os padrões da aristocracia. Foram servidos apenas uma sopa de legumes, um porco assado, e uma torta de ervas finas. Para a sobremesa, bolo de frutas e pudim.
Após o jantar, os cavalheiros foram tomar o seu vinho do Porto e as damas dirigiram-se à sala de estar para conversar.
A Sra. Bennet não se cansava de admirar em voz alta a suntuosidade e a elegância da residência do futuro genro. Elizabeth e Jane já haviam desistido de tentar fazê-la ser mais discreta. Mary logo se mostrou entediada com a conversa e quis saber onde ficava a biblioteca. Georgiana, educadamente, ofereceu-se para mostrar a ela o caminho. Kitty, que após a perda de Lydia aproximara-se bastante da Srta. Darcy, foi com elas. A pesada atmosfera do luto ainda pairava sobre a família Bennet, mas, aos poucos, tudo voltava, dentro do possível, à normalidade.
A Sra. Bennet acabou adormecendo em um dos sofás de estilo Luís XV. Charlotte, Elizabeth e Jane conversavam a um canto.
- Lizzy, você deve estar tão nervosa! Seu casamento já será amanhã! Se eu, que vou me casar daqui a alguns meses, fico com frio na barriga só de pensar no assunto, imagine você! – exclamou Charlotte.
- Sim, eu estou um pouco nervosa, mas não tanto... Eu estava muito ansiosa mais cedo, mas, agora que o momento se aproxima, estou mais calma. – respondeu Elizabeth surpreendendo a si própria ao perceber que seu coração já não dava mais sinais de que ia sair pela boca.
- Bom, talvez seja porque você já foi casada uma vez. Não deve sentir mais aquele medo do inesperado. – ponderou a amiga.
- Não, não sinto medo. Não o senti em momento algum desde que fiquei noiva de William. Mas confesso que antes do meu primeiro casamento fiquei bastante apreensiva.
- Exatamente como eu disse. Não é mais uma surpresa. Você já passou pela experiência.
- Na verdade, Charlotte, eu não considero o meu primeiro casamento como experiência. Eu convivi com Wickham por menos de dois meses. – Elizabeth estava ficando desconfortável com o rumo daquela conversa. Se havia algo que desejava apagar de sua memória era o período em que estivera casada com Wickham.
- Lizzy, posso perguntar algo? – Charlotte parecia sem jeito.
- Sim. – respondeu Elizabeth apreensiva. Provavelmente acabaria se arrependendo daquela resposta, mas como poderia dizer não?
- Eu não consigo entender este seu noivado com o Sr. Darcy. – começou ela, baixando a voz – Quero dizer, antes de ele chegar a Netherfield, eu acreditava que você estivesse apaixonada pelo falecido Sr. Wickham, mas depois parecia que você só tinha olhos para o Sr. Darcy e que ele também só tinha olhos para você. Muita gente comentava na época que ele não demoraria a fazer o pedido. Mas logo depois que ele foi embora, você ficou noiva do Sr. Wickham, e eu pensei que todos deviam estar enganados; que você sempre estivera apaixonada por ele e nunca havia sentido nada pelo Sr. Darcy; porque conhecendo você, eu só poderia acreditar que se casaria por amor.
Elizabeth baixou os olhos, temendo encarar os da amiga. Charlotte continuou:
- Quando veio a notícia da morte do Sr. Wickham, acreditei que você deveria estar arrasada. Mas quando cheguei aqui, novamente tive a sensação de que algo se passava entre você e o Sr. Darcy. E de uma hora para a outra, mesmo ainda estando de luto por seu marido e por Lydia, você decide se casar com ele! Não consigo entender...
Charlotte fez uma pausa e esperou que Elizabeth se manifestasse. Esta levantou a cabeça para encarar a amiga e viu que tanto ela quanto Jane, que, apesar de ter ficado calada até aquele momento, estivera prestando muita atenção à conversa, esperavam ansiosas por sua resposta.
- Você ainda não me fez pergunta alguma. – limitou-se a dizer.
Charlotte lançou-lhe um olhar de impaciência desconfortável.
- Está bem. – cedeu Elizabeth. Ela respirou profundamente antes de continuar – Eu jamais amei Wickham. Os motivos que me levaram a aceitar a proposta dele já não existem. Quando aceitei o pedido dele, pensava que fosse um homem honrado. Sabia que não o amava, mas imaginava que, com o passar do tempo, poderia vir a desenvolver uma afeição mais profunda por ele. Depois do casamento, vi que estava completamente enganada. Acredite-me, Charlotte, ele não era digno de ter uma morte lamentada.
Pela expressão de Charlotte, Elizabeth percebeu que a amiga estava horrorizada. A própria Jane parecia chocada com as palavras duras da irmã, mesmo sabendo de seus reais sentimentos pelo falecido marido.
- Bom, espero ter saciado a sua curiosidade. – completou.
- Bastante. Mas será que posso perguntar só mais uma coisa? – pediu Charlotte ainda mais desconfortável do que antes.
Elizabeth revirou os olhos. Adorava a amiga, mas aquele interrogatório a estava aborrecendo profundamente. Apesar da atitude pouco encorajadora de Elizabeth, Charlotte continuou:
- Eu ainda não entendi o que a levou a aceitar o pedido do Sr. Darcy. – diante do olhar de incompreensão da outra, prosseguiu - Você me disse que não gostava de Wickham. E, pelo que eu entendi, considerou um erro ter se casado com ele. Eu sei que ele não a deixou numa situação favorável e que seria loucura da parte de qualquer mulher recusar um pedido de um homem como o Sr. Darcy, mas vinda de você, Lizzy, a aceitação desse pedido é de surpreender. Afinal, por que se casar sem amor outra vez? Por que cometer o mesmo erro?
- Não é óbvio? – Elizabeth estava pasma. Ou a capacidade de compreensão de Charlotte estava abaixo do normal naquele dia ou a amiga desejava torturá-la fazendo-a dizer em voz alta tudo o que desejava deixar implícito
- Não para mim. – ela respondeu cruzando os braços.
Elizabeth avaliou por um momento como responderia àquilo da melhor forma possível. Acabou decidindo que não usaria meias palavras. Charlotte a estava cravando de perguntas indiscretas. Por que ela devia se preocupar em tornar a explicação mais amena? Resolveu responder da maneira mais direta.
- Você estava certa. Havia algo entre o Sr. Darcy e eu no período anterior ao meu casamento com Wickham. Algo que ficou mal resolvido e inacabado. Felizmente, quando nos reencontramos aqui há alguns meses, pudemos conversar e resolver nossas pendências. Não vejo porque devamos adiar mais a nossa felicidade.
Charlotte parecia, novamente, horrorizada pelo descaso que a amiga demonstrava ter pelas normas sociais.
- Entendo. – foi tudo o que respondeu, mas a Elizabeth não parecia que ela entendia coisa alguma. Pelo contrário; Charlotte começava a olhá-la de forma diferente. Seu choque inicial era gradualmente substituído por um certo desprezo.
- O que foi? – perguntou Elizabeth irritada.
- Por mais que eu tente não consigo compreendê-la, Lizzy. Você não parece mais a mesma pessoa. Eu sempre soube que tinha esse espírito livre e que não se importava com o que pensassem a seu respeito, mas agora vejo que você está se degradando cada vez mais. – Charlotte não escondia o seu horror.
- Eu valorizo a minha felicidade e não a opinião de pessoas que nada significam para mim. Não vou me sacrificar apenas para ser bem vista. – respondeu ela com frieza.
Elizabeth conhecia Charlotte o suficiente para saber como a amiga se importava com os ditames da sociedade. Importava-se tanto que estava prestes a se casar com seu primo Collins, por quem, Elizabeth sabia, não sentia nada. Casaria apenas por ser aquela a única proposta que ela recebera em seus vinte e sete anos de vida. Evidentemente o pouco caso de Elizabeth com a opinião da sociedade, fazia com que Charlotte se sentisse superior a ela.
Irritada e decepcionada, Elizabeth levantou-se anunciando que estava cansada e que ia se recolher. Georgiana, que já havia voltado da biblioteca e conversava com Kitty a um outro canto da sala, ofereceu-se para chamar uma criada para acompanhá-la. Elizabeth recusou, dizendo que se lembrava do caminho do quarto. Na verdade, ela apenas desejava ficar sozinha.
Ao subir para o segundo andar pela escadaria principal, entretanto, ela percebeu que não se recordava do caminho. Havia descido para o jantar por uma escada secundária. Seguiu pelo corredor na tentativa de encontrar o quarto, mas não teve sucesso. Aquela mansão era muito maior do que Loundsley e possuía uma infinidade de quartos. Havia tantos corredores parecidos que era fácil perder-se ali.
Desistiu de procurar o quarto. Continuou andando pelos corredores, tomando caminhos desconhecidos, na esperança de cruzar com alguma criada que pudesse lhe dar a indicação correta.
Feist - La Même Histoire
Acabou chegando à galeria que levava à nursery. Imediatamente sentiu seu coração encher-se de ternura e decidiu entrar para ver as filhas.
Encontrou uma pequena saleta oval, que servia como átrio para os outros cômodos que compunham a nursery. Havia quatro portas na saleta. Elizabeth abriu cuidadosamente cada uma para descobrir onde estavam as pequenas.
A primeira levava à sala de lições, onde, futuramente, suas meninas aprenderiam a ler e a escrever. A segunda conduzia ao quarto de brinquedos, que estava quase vazio; as gêmeas ainda eram muito pequenas para brincar. Atrás da terceira porta, ela descobriu o quarto das babás, onde duas delas dormiam pesadamente. E, finalmente, na quarta tentativa, ela encontrou o quarto de dormir.
Elizabeth fechou a porta com cuidado atrás de si. O quarto era iluminado apenas pelo luar. As enormes janelas eram adornadas por longas cortinas brancas, que dançavam suavemente com a brisa noturna. Em um canto escondido pela sombra, ela avistou os berços.
Ao se aproximar mais, ela se surpreendeu ao distinguir os contornos de um homem debruçado sobre eles. Imediatamente ela sentiu o perfume de William no ar e sorriu.
Ele estava tão entretido que não a ouvira entrar. Aproveitando-se disso, ela caminhou sem fazer barulho e abraçou-o por trás, depositando um beijo em seu rosto.
- Eu também não me canso de admirá-las. – ela sussurrou no ouvido dele.
- Fui ao meu gabinete pessoal buscar um livro para mostrar ao seu pai, mas no caminho passei pela escada secundária da ala sul e não resisti; tive que subir para vê-las. Dispensei as criadas quando entrei. – ele explicou enquanto virava-se para dar lugar a ela ao seu lado.
- Eu as vi dormindo no quarto ao lado.
- Não se preocupe. Se as meninas chorarem elas virão imediatamente. – ele capturara uma mecha do cabelo dela e enrolava entre os dedos.
- Assim espero. – disse ela com falsa irritação.
William riu e começou a depositar pequenos beijos no topo da cabeça dela. Ela se aninhou nos braços dele e ambos permaneceram naquela posição, admirando as filhas em silêncio por vários minutos.
Elas dormiam tranqüilamente. Cassie movimentava-se de vez em quando e se curvava em posição fetal, enquanto Jenny parecia ter um sono mais pesado, dormindo relaxada e movendo-se minimamente, com seus bracinhos e perninhas esparramados.
Elizabeth acariciava os cachos louros de uma, enquanto William afagava os cabelos lisos da outra. Os quatro estavam ligados por laços eternos. Não eram correntes impostas pelo sangue, mas fios delicados, tecidos pelo afeto, o que fazia dos laços conexões inexplicavelmente mais fortes. Seus destinos, embora trilhassem caminhos diferentes, ditados pela vida, fundiam-se num só, tornando-os inseparáveis.
Aquela cena familiar tocava os corações de Elizabeth e William. Antecipavam a repetição daquela imagem por muitos e muitos anos. O tempo passaria e traria lágrimas e sorrisos para cada um dos quatro, principalmente para as gêmeas, que ainda tinham toda uma vida pela frente. Os pais sabiam que suas próprias alegrias e tristezas seriam aquelas sentidas por suas filhas. Tinham consciência de que seu futuro giraria em torno de sua prole. Mas não importava o que os aguardava; seriam sempre uma família.
- Preciso voltar lá para baixo. Seu pai e Charles devem estar achando que me perdi na minha própria casa. – ele disse enquanto se afastava dela, relutante.
- Por falar em se perder, eu não consigo encontrar o caminho para o meu quarto. Você não quer me ajudar? – ela perguntou enquanto se encaminhavam para o corredor.
- Não me tente, Lizzy. – ele respondeu com um sorriso malicioso.
- William! – ela fingiu indignação.
- Eu sei, eu sei. Só falta mais um dia. Mas acredite, meu amor, é melhor não colocarmos o meu autocontrole à prova.
Ela balançou a cabeça, tentando parecer séria, mas cometeu o erro de olhá-lo nos olhos e acabou rindo.
- Só mais um dia... – ela ecoou as palavras dele.
- Sim. Amanhã você será a Sra. Darcy e eu, a pessoa mais feliz que já pisou sobre a Terra.
- A segunda pessoa mais feliz. – corrigiu-o.
- Acho pouco provável. – ele disse antes de beijá-la rapidamente na testa – Vou chamar uma criada para levá-la ao seu quarto. – ele disse fazendo menção de descer a escada, mas ela o puxou pela mão e depositou um demorado beijo em seus lábios.
- Obrigada. – disse por fim.
Ele sorriu e puxou-a para mais um beijo.
- Espere aqui que mandarei uma criada vir encontrá-la. – falou ele enquanto se afastava.
- Boa noite. – ela murmurou entre um sorriso luminoso.
- “Boa noite! Boa noite! A despedida é uma dor tão doce que estaria dizendo ‘Boa noite’ até que o dia chegasse.” – ele citou o fragmento de Romeu e Julieta, antes de assoprar mais um beijo para ela e sair.
Elizabeth ficou no corredor esperando por menos de cinco minutos. Logo a criada chegou e conduziu-a ao quarto, que ficava em outra ala da mansão.
Ela vestiu a camisola e desfez o penteado, arrumando os cabelos em uma trança. Já estava pronta para se deitar quando ouviu uma batida leve.
- Entre.
A porta se abriu lentamente e uma Charlotte envergonhada entrou.
Elizabeth a olhou friamente e perguntou:
- Deseja alguma coisa?
- Eu só queria pedir desculpas, Lizzy, pela cena da sala. Eu não deveria ter feito perguntas tão indiscretas e não me cabia julgá-la daquela maneira. Perdoe-me, por favor.
Elizabeth inspirou profundamente e soltou um riso cansado.
- Está certo, Charlotte. Fiquei muito magoada pelo que me disse, mas já passou. Eu a perdôo.
- Obrigada, Lizzy. – Elizabeth viu que ela tinha lágrimas nos olhos.
- Venha cá. – Elizabeth abriu os braços para recebê-la, sentindo as lágrimas brotarem também em seus olhos.
As duas se abraçaram e fizeram as pazes. Logo se ouviu uma nova batida e Jane juntou-se a elas.
- Vejo que já se acertaram. Fico contente. – disse a recém-chegada com um largo sorriso. Conhecendo a personalidade conciliadora da irmã, Elizabeth desconfiava da participação dela naquele pedido de desculpas.
Charlotte e Elizabeth puxaram Jane para o abraço. As três riram como nos tempos de adolescência e ficaram conversando por um longo tempo, até que Jane, ao perceber a hora avançada declarou que Charles já devia ter adormecido de tanto esperá-la e Charlotte lembrou que Elizabeth precisava descansar.
Mesmo após a saída das duas, entretanto, Elizabeth não conseguiu dormir. Ficou horas e horas virando-se de um lado para o outro na cama. Acabou adormecendo, mas seu sono não durou muito.
Jonathan Larson - Seasons of Love
Logo ela despertou com o canto da cotovia. Decidiu levantar-se e foi até a janela. Debruçou-se no parapeito e sentiu a brisa, que trazia o aroma dos abetos das colinas. Seu quarto ficava na ala leste da mansão, o que lhe proporcionava a vista das montanhas onde a aurora começava a surgir.
Arrastou uma poltrona para perto da janela e deixou-se ficar lá, observando enquanto o sol se erguia lentamente.
A não ser por umas poucas nuvens dispersas, o céu estava límpido. Não havia sinais de chuva. Aquele seria um dia bonito, ela pensava. Parecia o presente de casamento da natureza para ela.
Levantou-se e foi até uma mesinha onde havia uma jarra com água e uma bacia de louça. Despejou a água da jarra na bacia e lavou o rosto. Depois chamou a criada para ajudá-la a se vestir.
O vestido havia sido presente de William e era a roupa mais elegante que ela já havia usado. Era de seda azul, decorado com fitas prateadas no busto e nas mangas. O corte correspondia à última moda de Londres, segundo Jane, que estava mais atualizada no assunto do que a irmã.
A cerimônia, que se deu na sala de estar de Pemberley às nove da manhã, foi bastante simples e reservada. A decoração, composta por belos arranjos de rosas da china, havia sido cuidadosamente supervisionada por Georgiana, Jane e a Sra. Bennet. Compareceram todos os que haviam pernoitado em Pemberley, além do Sr. Cavendish, a quem um convite havia sido enviado contra a vontade de Darcy. Charles seria o padrinho do noivo e Jane a madrinha da noiva.
Elizabeth caminhava de um lado para o outro no sagão, enquanto esperava a sua hora de entrar na sala. Sentia seu estômago afundar e, por mais que dissesse a si mesma o quanto estava sendo ridícula, não conseguia evitar aquela sensação. Esfregava as mãos no vestido para secar o suor que teimava em brotar delas quando estava nervosa.
- Lizzy, relaxe! – disse Kitty. Ela entraria antes de Elizabeth com um cesto cheio de pétalas de rosas, que jogaria pelo caminho até o altar improvisado, onde o noivo esperava com os padrinhos, o clérigo e o sacristão.
- Eu não consigo! – ela exclamou em desespero.
- Se continuar andando de um lado para o outro desse jeito, seu penteado vai se estragar e eu nem quero pensar no que mamãe vai dizer se vir o seu cabelo desarrumado. – avisou a irmã antes de entrar na sala.
- Sua irmã está certa. – falou o Sr. Bennet, que assistia à impaciência da filha com divertimento.
Poucos minutos após a saída de Kitty, os primeiro acordes de uma melodia que Georgiana tocava ao piano anunciaram que era hora da noiva entrar. Ela pegou o buquê de jasmins que havia deixado sobre um aparador, tomou o braço que o pai lhe oferecia e entrou.
Quando seus olhos encontraram os de William, tudo desapareceu. Não havia mais ninguém naquela sala. Não havia sequer uma sala. Ela ouvia uma melodia ecoando distante e sentia o cheiro de jasmins, mas todas aquelas sensações pareciam pertencer a uma outra realidade. Tudo o que sentia era a paz e a segurança que emanavam daqueles olhos azuis.
Quando o pai a beijou na testa e entregou a mão dela a William, lágrimas quentes surgiram em seus olhos, turvando a visão.
- Eu amo você. – ela pôde ler nos lábios dele, antes de se virarem para o sacerdote.
O ritual seguiu normalmente. Elizabeth e William fizeram seus votos de fidelidade e companheirismo. Ambos imprimiram emoção a cada palavra. Estavam conscientes do significado de seus votos e os faziam com sinceridade. Não havia mais dúvidas em seus corações. Sentiam como se tivessem vivido apenas para chegar àquele momento.
Suas almas já estavam ligadas desde que haviam sido criadas. Não eram feitas da mesma matéria, mas de substâncias complementares. Ali, diante do sacerdote, aquela união eterna era oficializada aos olhos da sociedade. Finalmente poderiam viver o que sentiam sem impedimentos.
Após os votos, trocaram as alianças. Elizabeth sentia sua mão tremer enquanto William deslizava o anel por seu dedo e depositava um beijo ao terminar. Ele sorriu e ela viu que não era a única a tentar segurar as lágrimas.
Ao final, os noivos selaram a aliança com um beijo, assinaram no livro de registros da paróquia e todos seguiram para a sala de refeições, onde seria servido o desjejum.
A mesa estava repleta com variados pães, frios, torradas e geléias. Havia também chá e chocolate quente. No centro, um belo bolo de casamento marcava a ocasião.
Após a refeição, todos voltaram para o salão, onde dançaram ao som de diversas peças executadas por Georgiana ao piano. Mary já havia desistido de tentar competir com o talento da Srta. Darcy e permaneceu sentada, mas a alegria e descontração do ambiente impediam que ela ficasse emburrada.
Entretanto, em um determinado momento, ao perceber a vontade de Mary de tocar e o seu próprio desejo de dançar com o Sr. Cavendish, Georgiana cedeu seu lugar ao piano.
A comemoração prosseguiu até o final da tarde, quando todos os presentes decidiram partir para dar privacidade ao novo casal. Georgiana fora convidada por Jane para passar a noite em Loundsley e aceitara. Ela e Kitty estavam se tornando boas amigas.
Naquela noite, enquanto escovava os cabelos na penteadeira de seu novo quarto, a Sra. Darcy admirava o anel dourado em sua mão esquerda.
- Eu também não consigo parar de olhar para o meu. – disse o marido entrando no quarto.
Ela o encarou pelo reflexo do espelho e sorriu. Ainda não acreditava que tudo aquilo fosse real. Tinha a sensação de que a qualquer momento alguém a despertaria daquele sonho maravilhoso.
Estava casada com o homem que sempre amara. Finalmente a manhã surgira após as sombras que haviam coberto sua vida nos meses anteriores.
Um ano havia se passado. Naquele período, Elizabeth soubera o que era estar apaixonada; conhecera o sofrimento que a decepção e o afastamento podiam causar; descobrira a desgraça de um casamento sem amor; vira os piores defeitos de um ser humano em seu primeiro marido; vivera a alegria de ser mãe; fizera amizades verdadeiras; sofrera com a morte da irmã e aprendera que apenas o amor sobrevivia a todas as circunstâncias.
Passaram-se dias, noites, crepúsculos e alvoradas. Ela suportara separações de milhas e descobrira que as maiores distâncias podem estar entre pessoas em um mesmo cômodo. Ela rira e chorara durante quatro estações, que transformavam as folhas das árvores como transformavam a ela própria. Mas, através das mudanças de curso trazidas por cada estação, sua vida prosseguia como um rio, que atravessa montanhas e planícies para invariavelmente desaguar no oceano.
E quando William a abraçou e beijou naquela noite, ela soube que poderia suportar invernos mais tenebrosos e verões mais escaldantes. Sempre encontraria, no refúgio dos braços dele, a suavidade do outono e a renovação da primavera. Sempre encontraria o amor.
FIM
Seasons of Love
Estações do Amor
Five hundred twenty-five thousand six hundred minutes
Quinhentos e vinte e cinco mil e seiscentos minutos
Five hundred twenty-five thousand moments so dear
Quinhentos e vinte e cinco mil momentos bons
Five hundred twenty-five thousand six hundred minutes
Quinhentos e vinte e cinco mil e seiscentos minutos
How do you measure
Como se mede
Measure a year?
Mede um ano?
In daylights, in sunsets?
Em dias, em pores-do-sol?
In midnights, in cups of coffee?
Em madrugadas, em xícaras de café?
In inches, in miles?
Em polegadas, em milhas?
In laughter, in strife? Em risos, em conflitos?
In five hundred twenty-five thousand six hundred minutes
Em quinhentos e vinte e cinco mil e seiscentos minutos
How do you measure a year in the life?
Como você mede um ano na vida?
How about love? (3x)
Que tal medir em amor? (3x)
Measure in love
Meça em amor
Seasons of love (2x)
Estações do amor (2x)
Five hundred twenty-five thousand six hundred minutes
Quinhentos e vinte e cinco mil e seiscentos minutos
Five hundred twenty-five thousand journeys to plan
Quinhentos e vinte e cinco mil jornadas para planejar
Five hundred twenty-five thousand six hundred minutes
Quinhentos e vinte e cinco mil e seiscentos minutos
How do you measure the life of a woman or a man?
Como medir a vida de uma mulher ou de um homem?
In truths that she learned
Em verdades que ela aprendeu,
Or in times that he cried
Ou nas vezes que ele chorou
In bridges he burned
Em pontes que ele queimou,
Or the way that she died
Ou no jeito como ela morreu?
It's time now to sing out
É agora a hora de cantar
Tho' the story never ends
Pois a história nunca termina
Let's celebrate
Vamos celebrar
Remember a year
Lembrar um ano
In the life of friends
Na vida de amigos
Remember the love (3x)
Lembre do amor (3x)
Measure in love
Meça em amor
Measure, measure your life in love
Meça, meça a sua vida em amor
Seasons of love (2x)
Estações do amor(2x)















