Capítulo VII
Yann Tiersen - Summer 78
A cerimônia se realizou logo cedo, pela manhã, na pequena paróquia de Lambton. Contrariando os costumes da época, todas as irmãs da falecida Srta. Lydia Bennet, assim como sua mãe, compareceram. Ao fim, o Sr. Darcy, o Sr. Bingly e o Sr. Cavendish ajudaram o Sr. Bennet a carregar o caixão até a carruagem que o conduziria ao cemitério.
O pequeno cortejo fúnebre saiu da igreja, seguindo pela alameda que levava ao topo de uma colina, nos fundos do terreno da paróquia, onde Lydia descansaria para sempre.
Elizabeth acompanhava o cortejo inexpressiva. Ouvia os cascos dos cavalos sobre as pedras do calçamento e o choro de sua mãe. Suas irmãs, que também choravam, tentavam inutilmente confortar a Sra. Bennet. Todas vestiam trajes completos de luto profundo, como mandava a etiqueta. Arrastavam pela alameda seus vestidos de seda cinza escura, com apertadas golas de crepe branco e capas de seda negra, como arrastavam seu pesar. Elizabeth era a única que não chorava. Já havia derramado demasiadas lágrimas enquanto estava sozinha no quarto com o corpo da irmã caçula. Na frente da família ela tinha de aparentar firmeza, como sempre. Precisava ser a rocha onde eles se apoiariam. Precisava transmitir uma força que não tinha.
Entre as folhas das aveleiras que ladeavam o caminho, o sol brilhava solitário no límpido céu azul. A brisa matinal acariciava seu rosto, como uma tentativa da mãe-natureza de consolá-la naquele momento doloroso.
Quando entraram no cemitério, ela se demorou observando os arbustos de flores brancas que adornavam o caminho de terra entre os túmulos. Eram flores belas, mas evanescentes. Não viviam mais do que um dia, abrindo suas pétalas pela manhã e fechando-as ao pôr-do-sol. Desfrutavam sua glória brevemente, antes de desaparecerem para sempre.* Sua existência era curta, como o fora a de sua irmã.
O cortejo seguiu para a parte leste do cemitério, onde Lydia seria enterrada. Lá, todos baixaram a visão para a cova aberta na terra, mas Elizabeth ergueu seus olhos e prendeu a respiração. Dali viam-se os belos campos do Derbyshire estendendo-se até onde começavam as montanhas rochosas, por trás das quais o sol surgia todas as manhãs. Viam-se também rios, que cruzavam tanto bosques quanto vastas propriedades ao longo de seu percurso. Ela sorriu tristemente, mas satisfeita; a última morada de sua irmã tinha uma bela vista.
O pároco disse ainda algumas palavras antes que o caixão fosse enterrado. Elizabeth ouviu-as sem apreender seu significado enquanto segurava a mão do pai, que, como ela, parecia resoluto em não derramar uma lágrima sequer na frente da família. Mas ela o conhecia bem demais para saber que, quando estava longe dos olhares alheios, libertava todo o sofrimento que trazia no peito.
Ao fim do enterro, apenas a inscrição na lápide, sobre um pequeno monte de terra revolvida, marcava a passagem de Lydia Bennet pelo mundo.
A volta para casa foi feita sob um pesado silêncio. A Sra. Bennet já não soluçava. O Sr. Bennet fitava apenas a janela da carruagem. Parecia haver um acordo geral contra o cruzamento de olhares.
Os Bennets desejavam partir para o Hertfordshire imediatamente, mas sob os protestos de Jane e de seu marido, decidiram permanecer por mais algum tempo. Os Bingleys haviam conversado com Elizabeth e concluíram que seria melhor que a família permanecesse reunida, pelo menos durante as primeiras semanas daquele período tão difícil.
O tempo parecia se arrastar em Loundsley. Elizabeth buscava ocupar-se com suas filhas, numa tentativa de fugir da pesada atmosfera que se instalara na mansão. Ela procurava envolver o Sr. Bennet em suas atividades sempre que possível; já havia percebido que o contato com as netas o afastava um pouco da depressão na qual havia mergulhado.
As visitas de William eram a única alegria dela naqueles tempos. Ele ia a Loundsley semanalmente, embora desejasse passar todos os dias lá, na companhia dela. Estava ansioso para levá-la a Pemberley e mostrar a ela todas as belezas da casa onde passariam o resto de suas vidas. Mas era preciso calma. A família de Elizabeth estava de luto e ainda não sabia do envolvimento deles. Haviam decidido que apenas o Sr. Bennet tomaria conhecimento da situação. Deixariam que a Sra. Bennet, assim como Kitty, Mary e Charlotte, tivessem uma surpresa com o noivado, que eles pretendiam anunciar assim que possível.
Passaram quase um mês vendo-se apenas durante as visitas semanais de Darcy. Ele geralmente trazia Georgiana consigo, que fazia companhia a Mary e Kitty no quarto da Sra. Bennet. Elas permaneciam lá, cuidando da mãe, que passava a maior parte do tempo sob o efeito dos calmantes receitados pelo médico para seu problema de nervos. Enquanto isso, Darcy, Elizabeth, Jane e Charles faziam suas caminhadas pelos jardins. Evidentemente, durante esses passeios, os Bingleys se afastavam para dar privacidade a Elizabeth e Darcy.
Yann Tiersen - Father and Mother
Um dia, Darcy chegou a Loundsley decidido a falar com o Sr. Bennet. Ele acreditava que já haviam esperado tempo suficiente. Era hora de resolver a situação deles. Elizabeth concordou. O Sr. Bennet foi chamado e ele e Darcy trancaram-se na biblioteca durante toda a tarde.
Darcy contou a ele sua história com Elizabeth desde o dia em que se conheceram. Ele falava com dificuldade, escolhendo as palavras com o maior cuidado possível. Mas isso não evitou a indignação do Sr. Bennet ao saber do noivado secreto dos dois e, mais ainda, do dia em que haviam dormido juntos. Ele acusou Darcy de ser o mais indigno dos homens. Disse que sua conduta havia contrariado todos os princípios de um cavalheiro e que ele era um conquistador da pior espécie. Darcy ouviu a tudo calado. Sabia que o Sr. Bennet tinha razão. Ele realmente se comportara como um conquistador, mesmo que sua intenção não fosse aquela.
Quando o Sr. Bennet finalmente terminou de dizer todos os desaforos que conhecia, Darcy continuou sua narrativa, explicando os motivos que o levaram a afastar-se. Falou de sua relação com Wickham, de como ele havia enganado sua irmã e de sua intervenção fatal nos destinos dele e de Elizabeth.
O Sr. Bennet permaneceu calado durante essa parte do relato. Parecia ter, por um momento, canalizado a revolta que sentia contra Darcy para Wickham. A cada frase de Darcy, seus olhos se arregalavam mais e seu queixo caia. Obviamente, ele omitiu a parte em que Wickham aparecia na estufa ajudado por Lydia e acabava morto.
- Céus! Mas então você é o pai das meninas! – ele exclamou ao fim.
- Sim. – respondeu Darcy com um pequeno sorriso diante da menção das filhas.
- Eu realmente não sei o que dizer depois disso tudo... – estava atordoado depois de toda a história que fora despejada sobre ele em apenas algumas horas – Eu já desconfiava de que você e Lizzy tinham algum tipo de envolvimento. Já os vi passeando pelos jardins de mãos dadas diversas vezes. Nunca disse nada porque confio no discernimento de minha Lizzy e acho que ela já é madura o suficiente, sendo viúva e mãe de duas meninas, para saber o que faz. Mas eu jamais esperei algo assim. Eu estou realmente pasmo.
- Eu compreendo o seu choque, Sr. Bennet. Todas as acusações que fez contra mim são verdadeiras. Eu realmente não mereço a sua filha depois de tudo o que fiz a ela, mas quero que saiba que eu sempre a amei. Errei, sim, é verdade, mas desejo consertar esses erros. Foi por isso que quis conversar com o senhor. Quero casar-me com Elizabeth o quanto antes.
- Acredito que este não seja o melhor momento para isso, meu caro. A perda de Lydia ainda é muito recente. Além disso, Elizabeth ainda não passou por todo o período de luto depois da morte de Wickham. O casamento de vocês seria um verdadeiro escândalo.
- Sei que este não é o momento mais adequado, mas o senhor há de convir que eu e sua filha já esperamos mais do que o suficiente por nossa parcela de felicidade.
- Certamente, mas o senhor também há de convir que um homem da sua posição, casando-se com uma viúva, mãe de duas filhas e que nem sequer completou o período de luto, vai proporcionar bastante assunto para a sociedade durante a próxima season.
- Realmente não me importo com o escândalo. Esses falatórios passam e, de qualquer forma, eu e Elizabeth esperaremos algum tempo antes de participarmos de uma season. Prefiro encarar os mexericos dessa sociedade hipócrita a esperar mais três anos para me casar com Elizabeth. Eu quero ver as minhas filhas crescerem, Sr. Bennet. Acho que já fui privado em demasia da companhia delas.
- Naturalmente, você entende que, diante da sociedade, elas nunca serão suas filhas, não é?
- Como já lhe disse, a sociedade pouco me importa. – ele fez uma pausa antes de prosseguir – O senhor dará a sua benção para o nosso casamento?
- Preciso conversar com a minha filha primeiro, Sr. Darcy. Vocês dois foram muito imprudentes, mas sofreram com os seus erros. Acho que aprenderam alguma coisa com eles, não é?
- Sim, senhor.
- Uma delas deveria ter sido não agir impulsivamente. Ainda acho essa idéia de casamento muito precipitada. Já que não consigo chamá-lo à razão, vou tentar colocar um pouco de juízo na cabeça de Lizzy. – ele suspirou – E eu acreditando que ela era a mais sensata das minhas filhas! Poderia esperar algo assim de Lydia, mas... – as palavras ficaram subitamente presas em sua garganta, em um nó que teimava em se formar diante da simples menção do nome de Lydia.
Darcy pediu licença e se retirou da biblioteca. Ouviu o som do piano vindo da sala de música e dirigiu-se para lá. A melodia era bonita e evoluía alegremente até que uma nota soou estranha, seguida de uma pausa na música e o horrível som de alguém batendo com raiva nas teclas do instrumento.
- Lizzy, acalme-se. Vamos, comece do início da partitura. – ele ouviu a voz macia de Jane.
- Como posso me acalmar? Eles passaram a tarde inteira naquela biblioteca! Preciso saber o que está acontecendo. – escutou o som do banco do piano se arrastando – Eu vou até lá.
- Não, você não vai. – ele abriu a porta a tempo de ver Jane tentando forçar Elizabeth a sentar-se novamente ao piano.
- William! – Elizabeth exclamou em uma mistura de surpresa e alívio.
- Lizzy já estava indócil. Tentei fazê-la tocar para se distrair, mas ela não conseguia passar da segunda página sem errar uma nota e despejar a sua irritação no pobre piano. – Jane também parecia aliviada.
- Afinal, o que papai disse? – Elizabeth disparou antes que a irmã sequer terminasse de falar.
- Ele quer conversar com você. Está esperando na biblioteca.
Elizabeth parecia desconcertada.
- Bem, eu suponho que já deveria esperar por isso. – ela suspirou cansada – O que exatamente você contou a ele?
- Tudo. Exceto a parte da estufa, é claro.
Jane arrepiou-se. Ela soubera de toda a história da morte de Wickham por Charles, mas ainda tinha dificuldade em lidar com o fato de que um assassinato ocorrera na sua casa, sendo sua falecida irmã caçula a assassina.
Yann Tiersen - Mother’s Journey
Elizabeth dirigiu-se à biblioteca como um condenado ruma para a forca. Ela não sabia como encararia o pai depois de toda a história que William contara a ele.
Diante da porta do aposento, ela parou e respirou fundo antes de bater levemente.
- Entre. – ouviu a conhecida voz paterna responder.
Ela abriu a porta cuidadosamente, como se o barulho das dobradiças de ferro pudesse, de alguma forma, piorar as coisas. Dirigiu-se à cadeira diante da escrivaninha a passos lentos e sentou-se fitando os próprios pés.
- Lizzy, eu não sei nem como começar... – o pai parecia encontrar dificuldade em escolher o tom com que levaria aquela conversa. Tentava imprimir alguma dureza à voz, mas, ao mesmo tempo, sentia uma angústia muito grande por tudo o que a filha havia sofrido.
- O senhor tem todo o direito de estar decepcionado comigo. Eu me comportei de maneira leviana e não medi as conseqüências dos meus atos. – ela despejou as palavras rapidamente, como se tivesse medo de que elas lhe fugissem se demorasse a falar.
- A vida já se encarregou de puni-la o suficiente por essa sua conduta inconseqüente. – ele inspirou longamente antes de continuar – Lizzy, o Sr. Darcy veio pedir a minha benção para o casamento de vocês.
Como ela permaneceu calada, ele continuou:
- É isso mesmo o que você quer, minha filha?
Elizabeth levantou a cabeça e encarou o olhar do pai pela primeira vez. Não havia acusação ou reprovação nos olhos azuis que ela conhecia tão bem. Havia apenas preocupação.
- Sim, papai. Amo William com todo o meu coração. Já ficamos separados por tempo demais. Tudo o que mais quero no mundo é casar-me com ele. Mas mesmo que eu não quisesse, não é como se eu tivesse alternativa, não é? Afinal, as minhas perspectivas não são muitas. Eu preciso criar Jenny e Cassie, e Wickham não me deixou numa situação muito confortável. Não posso depender de Charles e Jane para sempre. Estou surpresa por o senhor ser contra o meu casamento.
- Em primeiro lugar, você não está desamparada. Se ficar aqui lhe incomoda, você sabe que, enquanto eu for vivo, Longbourn será sua casa. Em segundo lugar, não sou contra o casamento, Lizzy. Sou contra a precipitação de vocês. Querida, esse casamento seria um escândalo. Você nem sequer completou o período de luto ainda!
- Eu sei, papai. Mas não queremos esperar mais três anos. Quero que Jenny e Cassie sejam criadas pelo pai delas. Quero estar ao lado do homem que eu amo! – ela argumentava com o pai como se, convencendo-o do seu ponto de vista, pudesse mudar a mentalidade de toda a sociedade.
- Você terá o meu apoio seja qual for a sua decisão, Lizzy, mas precisa pensar se está mesmo disposta a enfrentar a reprovação da sociedade inteira. Lembre-se de que estará se unindo a um homem muito rico e influente. Os boatos em torno do seu casamento vão chegar até a América! – ele falou seriamente, mas sorriu na última parte.
Ela soltou um riso cansado.
- A boa opinião da sociedade deixou de ter valor para mim há muito tempo. Na última vez em que me sacrifiquei para ficar bem aos olhos dela, cometi o pior erro da minha vida.
- Está certo, Lizzy. Se essa é a sua decisão, eu abençôo o casamento de vocês do fundo do meu coração. – ele disse abrindo os braços para a filha.
Ela se levantou da cadeira em um pulo e abraçou o pai com força.
- Obrigada, papai. Muito obrigada pelo seu apoio. Sua boa opinião é a única que conta para mim.
- Ora, minha querida, nada agrada mais a sociedade inglesa do que um bom escândalo. Dá às senhoras algo sobre o que falar durante o chá das cinco. – respondeu o Sr. Bennet mostrando claramente de quem Elizabeth havia herdado seu sorriso zombeteiro.
Ela ficou imensamente aliviada ao perceber que o costumeiro humor sarcástico do pai dava sinais do seu retorno. Por alguma razão, tudo parecia ficar bem quando o Sr. Bennet lhe lançava aquele sorriso.
Durante o jantar, naquela noite, Darcy anunciou o noivado para a família de Elizabeth, Charlotte e Georgiana. Todos ficaram boquiabertos diante da novidade, exceto os Bingleys, Georgiana e o Sr. Bennet, que já conheciam toda a história por trás daquele noivado repentino.
Darcy precisou escrever uma carta ao bispo, no dia seguinte, usando sua influência junto a ele para solicitar uma licença especial para o casamento. Julgou necessária a medida, dada a recente viuvez de Elizabeth. O bispo relutou, mas acabou concedendo a licença.
O casamento se realizaria dali a um mês, no fim do verão.
*Morning Glory: http://pt.wikipedia.org/wiki/Morning_glory
LAST_UPDATED2















