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Qualquer ser humano está cercado por uma multidão de espiões involuntários. (Jane Austen)

AS QUATRO ESTAÇÕES - O VERÃO (QUARTA PARTE) - CAPÍTULO VI

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Capítulo VI

 

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McFly - Down Goes Another One

 

 

   - Lydia? Lydia? – gritava Elizabeth em desespero.

 

   - Eu estou bem, Lizzy... – gemeu a moça.

 

   - O tiro pegou de raspão. – disse Darcy examinando o ombro dela.

 

   - Graças a Deus! – o alívio invadiu o peito de Elizabeth com tanta força que era quase doloroso.

 

   Wickham permanecia calado observando a cena. Ele não se movera um centímetro sequer desde o disparo. Não manifestava emoção alguma com a situação.

 

   - Está sangrando. William, pegue alguma coisa para estancar o sangramento! – disse Elizabeth tentando visualizar a lesão por baixo do sangue que escorria, manchando o corpete da irmã.

 

   Darcy pegou um pano que estava sobre a bancada e entregou-o a Elizabeth, que o pressionou contra o ferimento.

 

   - Está satisfeito agora? Era isso o que você queria? Causar mais estragos? Pois conseguiu! – Elizabeth gritava para um inerte Wickham.

 

   - Lizzy... – Darcy lançou-lhe um olhar de aviso. Era melhor que ela se acalmasse. Não era prudente provocar Wickham quando ele ainda segurava uma arma e estava visivelmente perturbado.

 

   Elizabeth, entretanto, ignorou o aviso.

 

   - O que estava pensando? Você podia ter matado alguém, seu imbecil! Já não basta todo o mal que causou antes? Por que você precisa voltar para nos atormentar ainda mais? 

 

   Lydia observava a irmã apreensiva; ela estava fora de si e acabaria fazendo uma besteira.

   - Eu odeio você, George Wickham! Odeio! – Elizabeth gritava a plenos pulmões golpeando o tórax de Wickham com seus punhos.

 

   Darcy, que estava estancando o sangramento de Lydia, percebeu a nota de histeria na voz de Elizabeth e decidiu que era hora de agir.  Colocou o pano na mão de Lydia e indicou onde ela deveria pressionar, antes de se levantar e evolver Elizabeth em seus braços.

 

   - Está tudo bem, Lizzy. Vamos, acalme-se. – ele dizia suavemente ao ouvido dela enquanto afagava seus cabelos.

 

   A respiração ofegante dela se normalizava gradualmente e os tremores diminuíam. 

 

   - Pronto, já passou. – William continuava sussurrando.

 

   - Não é lindo? O final feliz perfeito para a história! – disse Wickham abruptamente, recuperado de seu torpor – Os dois amantes juntos afinal! Pela última vez! - ele fez menção de levantar a arma novamente, mas William foi mais rápido dessa vez e pulou sobre ele antes que pudesse sequer pensar em atirar. Os dois colidiram com uma bancada cheia de jarros, que caíram no chão, espatifando-se. A arma voou das mãos de Wickham, aterrissando embaixo de uma outra bancada, longe do alcance deles.

 

   - Agora, já chega, Darcy! Foi a última vez em que você bancou o herói! – Wickham empurrou William, que tentava imobilizá-lo, e pegou uma faca que estava sobre a bancada das mudas, empunhando-a contra seu rival.

 

   Elizabeth levou as mãos aos lábios para conter um grito de horror.

 

   - George, por favor! Não faça nenhuma bobagem! Vamos conversar! Você quer que eu vá embora com você? Eu vou! – ela tentava inutilmente atrair a atenção de Wickham para si. Mas ele tinha os olhos vidrados em Darcy, cintilando maliciosamente, enquanto um sorriso assassino se formava em seus lábios.

 

   Darcy estava acuado. Preso em um recanto entre as jardineiras, ele via Wickham aproximar-se lentamente, empunhando a faca com firmeza. Tudo o que podia fazer era recuar, mas ao encontrar a parede de vidro atrás de si, viu que estava sem saída. 

 

   - Finalmente vou ter o prazer de acabar com você. – Wickham se aproximava a passos lentos – Finalmente você não será mais uma pedra no meu sapato. – Darcy sentiu a lâmina tocar seu peito, exatamente sobre o local onde seu coração batia acelerado.

 

   Não podia morrer. Não podia deixar Elizabeth e suas filhas nas mãos daquele verme. Precisava encontrar uma saída. Tinha que pensar rápido e calcular o que faria com cuidado. Um movimento errado e estaria perdido. Wickham detinha o controle total da situação. Ele não tinha escapatória.

   Precisava ser ágil e preciso. Não podia falhar. Teria que surpreender Wickham e desarmá-lo. Talvez fosse ferido, mas tinha que se proteger para que o corte não fosse grave.  Estava prestes a atacar quando ouviu um disparo.

 

   A face sorridente de Wickham murchou instantaneamente e seus olhos sedentos por vingança tornaram-se inexpressivos antes de cair sobre Darcy. 

 

   Ao retirar o corpo sem vida de cima de si, Darcy viu Elizabeth trêmula com as mãos sobre a boca olhando fixamente para o cadáver. Ao olhar na direção de Lydia, viu-a encolhida no chão, com lágrimas escorrendo por sua face e a arma de Wickham nas mãos.

 

   Ela tremia e soluçava muito. Largou subitamente a arma como se o objeto estivesse em brasa. Desviou seus olhos do corpo de Wickham para fitar Darcy.

 

   - V-Você está bem? – conseguiu balbuciar entre os soluços.

 

   - Sim, estou. – respondeu ele com a voz fraca.

 

   - Que bom. – ela tentou forçar um sorriso.

 

   Lydia se arrastara até a bancada que estava às suas costas para se afastar de Wickham quando ele havia pegado a faca. Quando tentara se apoiar para levantar do chão, seus dedos tocaram o cano da arma, que fora parar justamente embaixo daquela bancada. Sem pensar, ela tomara o objeto, fitando-o por longos segundos antes decidir agir. 

 

   Ela havia colocado a irmã e o Sr. Darcy em perigo quando ajudara Wickham a entrar na casa despercebido e levara Elizabeth até ele. Se algo acontecesse, seria inteiramente por sua culpa. Sabia dos sentimentos existentes entre a irmã e Darcy. Sempre tivera desconfianças em relação aos dois desde a época em que ele havia chegado com o Sr. Bingley a Netherfield, mas naquela noite suas suspeitas haviam sido confirmadas. 

 

   Elizabeth já havia sofrido muito. Merecia uma nova oportunidade de ser feliz. Lydia não permitiria que a vida da irmã fosse destruída daquela maneira.

 

   Com tais pensamentos em mente, ela apontou, trêmula, a arma na direção das costas de Wickham. Acabaria de uma vez com aquele crápula. Ele nunca mais prejudicaria ninguém.

 

   Apertar o gatilho não exigira esforço físico algum. Havia sido bem fácil, na verdade. Com um simples movimento de dedos uma explosão de pólvora disparava uma bala que, em menos de um segundo, atingia seu alvo. Era um mecanismo bastante simples. E o resultado fora exatamente o esperado. Então, por que ela fora invadida por tamanho assombro quando vira o corpo de Wickham cair sem vida?

 

   Depois de dar-se conta do que havia feito, Lydia sentira-se enojada consigo mesma. Olhara para as próprias mãos e vira a arma nelas. Por um momento pensara vislumbrar sangue escorrendo por entre seus dedos e soltara o objeto, assustada. 

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McFly – The Heart Never Lies

 

   Elizabeth, que até então estivera em estado de letargia devido ao choque, correu para os braços de William. Ele a envolveu e beijou seus cabelos, sentindo o perfume que emanava deles e permitindo que um enorme sentimento de alívio finalmente invadisse seu coração.

 

   Wickham estava morto. Nunca mais voltaria a atormentá-los. Eles estavam livres

finalmente. 

 

   - Ele não te machucou, não é? Você não está ferido, está? - soluçava Elizabeth se desvencilhando do abraço e passando as mãos pelo rosto dele.

 

   - Não, Lizzy, eu estou ótimo. Não se preocupe. Tudo já passou. – ele a tranqüilizava enquanto a tomava em seus braços novamente.

 

   - Eu tive tanto medo, William... Tanto medo... Eu achei que fosse perder você. Quase morri de aflição quando o vi apontando aquela faca na sua direção. – ela o abraçava com força, como se tivesse medo de que ele pudesse, de repente, desaparecer.

 

   - Eu tive medo de morrer. Não podia deixar você e as meninas desprotegidas nas mãos daquele patife. 

 

   - Você devia ter ido embora como eu falei... Eu poderia lidar com ele sozinha. Daria um jeito.

 

   - Lizzy, está louca? Como eu poderia deixar você com esse lunático? Por que me pediu tanto para ir embora?

 

   - Porque se algo acontecesse a você eu não sei o que seria de mim. Eu prefiro morrer mil vezes a viver um só minuto sem você no mundo. – ela falou com convicção segurando as mãos dele e beijando-as em seguida.

 

   - Eu amo você. Amo tanto que chega a doer. – ele disse libertando suas mãos e segurando o rosto de Elizabeth entre elas - Nunca mais duvide disso por um segundo sequer. E se algum dia, por algum motivo, você duvidar, basta olhar nos meus olhos e terá certeza novamente. 

 

   - Eu nunca mais duvidarei de você, meu amor. Eu sempre soube aqui dentro – ela apontou para o próprio peito – que você me amava. Meu coração me dizia isso o tempo todo, mas a minha razão não me deixava acreditar. Que tola eu fui! Eu devia saber... Eu devia saber que o coração nunca mente.

 

   Ele sorriu e a puxou para um beijo que manifestava todo o turbilhão de emoções que os envolvia naquele momento. Saudade, alívio, paixão e desejo reprimido se mesclavam enquanto eles exploravam as bocas um do outro buscando recuperar todo o tempo perdido. Seus corpos se comprimiam como se não desejassem mais ser dois e, sim, um só. 

   - Prometa que nunca mais vai me deixar. Prometa. – pediu Elizabeth com os olhos marejados interrompendo o beijo.

 

   - Eu prometo. Estarei sempre com você. Quando você quiser lutar, eu estarei ao seu lado. E se você cair, estarei logo atrás para lhe ajudar a levantar. – respondeu antes de beijá-la novamente.

 

   Quase um ano havia se passado desde que haviam se conhecido. Naquele meio tempo, eles haviam sido separados pelas circunstâncias, mas o sentimento que os unia nunca morrera. 

 

   Aquela noite estrelada havia sido testemunha dos votos que fizeram. Mesmo que não estivessem legalmente casados ainda, suas almas estavam unidas por laços muito mais fortes do que os que a humanidade poderia forjar. A partir daquele momento, não se separariam mais. Eles sabiam que não seria fácil, mas estavam dispostos a lutar contra quaisquer obstáculos que se apresentassem entre eles e sua felicidade.

 

   Ao se afastarem brevemente para tomar ar, lembraram-se da presença de Lydia e ambos ruborizaram. A moça olhava propositalmente para o outro lado, tentando dar a eles alguma privacidade. Infelizmente teriam de postergar aquele momento tão íntimo. Precisavam resolver algumas coisas antes. A começar pelo cadáver de Wickham.

 

   - O que faremos com ele? – perguntou Elizabeth apreensiva - Não podemos simplesmente chegar na sala e contar a verdade a todos. Seria um verdadeiro escândalo! 

 

   - Oh, meu Deus! Eu vou ser presa! Eu sou uma assassina! – gritou Lydia horrorizada.

 

   - Não, Lydia, você não será presa. – respondeu William com segurança – Ninguém ficará sabendo do ocorrido aqui esta noite.

 

   - Como assim? – perguntaram as irmãs em uníssono.

 

   - Falarei com Charles. Daremos um jeito de nos livrarmos do corpo. Talvez possamos enterrá-lo no bosque. Todos pensam que Wickham está morto desde a invasão. É melhor que as coisas continuem assim.

 

   - Concordo, mas mesmo assim é muito arriscado. Se alguém os vir enterrando um corpo no bosque haverá falatórios que podem até mesmo gerar problemas com a polícia. – Elizabeth ponderou.

 

   - Não se preocupe com isso, Lizzy. Deixe que eu resolvo tudo. Mas teremos de mantê-lo aqui enquanto eu não falar com Charles. Terei de esperar os convidados partirem.

 

   - Os convidados! Céus, todos devem estar se perguntando onde nos metemos! – Elizabeth de repente se deu conta.

   - Vamos fazer como você tinha dito, Lizzy. Vamos dizer que você não passou muito bem e eu e o Sr. Darcy, que estávamos com você no momento, fomos ajudá-la. – sugeriu Lydia.

 

   - Com você nesse estado, Lydia? – perguntou a irmã indicando o ferimento da mais nova, que ainda sangrava – Precisaremos de uma explicação para isso aí também.

 

   - Vamos dizer que vim dar um passeio na estufa e escorreguei. Quando caí, bati com o ombro na quina de uma das bancadas. Essas quinas são bastante pontiagudas. – disse Lydia passando os dedos pela quina de um dos tampos de mármore – Poderia perfeitamente ter acontecido.

 

   - E o que diabos você vai dizer quando perguntarem o que veio fazer na estufa a essa hora, com a casa repleta de convidados? – questionou Elizabeth em tom de quem achou uma falha num plano perfeito.

 

   - Ora, direi que o Sr. Darcy queria conhecer a estufa da Jane e eu e você nos oferecemos para guiá-lo num tour. – Lydia explicou como se fosse óbvio.

 

   - Lydia, essa é a desculpa mais patética que já ouvi! 

 

   - Lizzy, é a única que temos. Além disso, acho que ninguém vai querer questionar muita coisa diante do escândalo que mamãe fará quando me vir assim.

 

   - Nunca pensei que diria isso, Lydia, mas você tem razão. – cedeu Elizabeth.

 

   - Nesse caso, está tudo arranjado. Mas por via das dúvidas, é melhor forjarmos algumas evidências e escondermos as provas do crime real. – disse William. 

 

   Lydia sentiu seu sangue gelar ao ouvir a palavra “crime”, mas tentou aparentar calma. William continuou:

 

   - Lizzy, esfregue o pano que usamos para estancar o sangue na quina daquela bancada. Eu vou esconder o corpo atrás daqueles vasos maiores.– e apontou para um conjunto de vasos de planta vazios empilhados em um canto – Provavelmente alguém acabará entrando na estufa, então é melhor nos certificarmos de que não encontrem nada que nos comprometa.

 

   Aquele linguajar de romances policiais que Darcy estava usando espalhava calafrios em Lydia, mas, novamente, ela procurou não demonstrar. Afinal, ele tinha razão. Não seria nada bonito se uma das senhoras entrasse no aposento e se deparasse com o cadáver do marido da irmã de sua anfitriã, que supostamente havia morrido em combate muitos meses antes.

 

   Eles fizeram conforme o combinado. Eliminaram todas as evidências do que havia realmente ocorrido e forjaram aquelas que embasariam sua farsa. 

 

   Nenhum dos presentes em Loundsley naquela noite questionou por um segundo sequer a veracidade da história do escorregão da Srta. Lydia Bennet na estufa. Como previsto, a Sra. Bennet não primou pela discrição diante do incidente, o que serviu para desviar a atenção de todos do absurdo da história. Afinal, diante do ataque de nervos da senhora, ninguém se lembrou de examinar a ferida e perceber que havia sido provocada por um tiro. Elizabeth aproveitou a oportunidade para fazer ela mesma um curativo em Lydia.

 

   Charles ficara a par de todos os acontecimentos reais na própria noite em que ocorreram. Ele e William trataram com alguns homens de confiança a retirada discreta do corpo da estufa e o devido desaparecimento deste. Elizabeth nunca perguntou a nenhum dos dois o que havia sido feito do cadáver de seu marido.

 

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Coldplay - Death and All His Friends

 

   Tudo parecia estar bem. Entretanto, no dia seguinte ao episódio da estufa, Lydia começou a ficar indisposta. Sentia muito cansaço e começava a apresentar febre. 

 

   A princípio, não se sabia qual era o problema com ela. Havia uma ligeira melhora às vezes, mas logo a febre subia novamente. Após alguns dias sem que a febre baixasse, o médico foi chamado.

 

   Ao examiná-la, o Dr. Andrews viu a lesão provocada pelo tiro e chamou o Sr. Bingley para falar a respeito. Charles explicou ao médico que a situação era bastante delicada e pediu que ele mantivesse a máxima discrição com relação ao assunto, não falando sobre aquilo com mais ninguém. O médico, que era um antigo amigo de Darcy, mostrou-se receoso a princípio, mas quando o próprio Darcy lhe pediu que guardasse segredo, concordou. Afinal, conhecia o amigo havia anos e sabia que ele era um homem honrado. Se ele lhe pedia segredo sobre aquilo, certamente não seria por motivos indignos.

 

   Os exames revelaram que Lydia estava com taquicardia, porém sua pulsação era muito fraca. Ela tinha calafrios constantemente e respiração ofegante.

 

   Ela recusava comida e bebia muito pouca água. Sentia enjôos e chegara até mesmo a vomitar quando comia algo obrigada pelo médico. Seu organismo ficava cada vez mais debilitado.

 

   Durante dias o clima na casa foi de preocupação. A febre de Lydia se tornava constante e não havia meio de abaixá-la. Por vezes ela chegava a delirar quando a febre estava muito alta.

 

   O coração dela mostrava-se cada vez mais debilitado. Os batimentos eram acelerados, porém fracos e o médico acreditava ter ouvido um leve sopro ao escutá-los durante o exame.

 

   A Sra. Bennet chorava incessantemente. O Sr. Bennet passava quase todo o tempo trancado na biblioteca, voluntariamente afastado de todos. Jane e Elizabeth eram as mais fortes e tentavam, em vão, transmitir um pouco de sua força à mãe e às irmãs mais novas. Elas buscavam ser otimistas e estavam sempre dizendo que Lydia melhoraria logo, embora começassem a duvidar das próprias palavras.

 

   O céu permanecera fechado durante aquele tempo. A chuva ia e vinha, como a febre de Lydia. Era como se o clima estivesse em comunhão com o estado de espírito da família Bennet. Entretanto, depois de duas semanas longas e chuvosas, uma bonita manhã surgiu.

 

   Elizabeth, que estivera velando pela irmã enferma na noite anterior, acordou com os raios de sol que começavam a invadir o quarto pela abertura das cortinas. Levantou-se e foi até a janela. Ao abrir as cortinas, foi surpreendida pelo lindo dia ensolarado.

 

   O límpido céu azul renovou, por um momento, suas esperanças. Se o clima havia mudado daquela forma, talvez o mesmo pudesse acontecer com o estado de sua irmã. Era uma esperança tola, mas ela se apegou àquele pensamento com força.

 

   - Lizzy... – uma voz fraca e quase infantil vinda do leito a chamou. Lydia estava de olhos abertos e parecia bastante lúcida.

 

   Ao colocar a mão na testa da irmã, Elizabeth percebeu que a febre havia cedido um pouco e encheu-se de alegria. Talvez suas esperanças não fossem tão tolas afinal.

 

   - Eu vou melhorar, Lizzy. Não se preocupe. – ela sussurrou.

 

   - É claro que vai, meu bem. Tenho certeza disso. – respondeu a irmã sentindo o choro comprimir sua garganta.

 

   - Eu me sinto tão bem... – sua voz estava quase inaudível e ela respirava com dificuldade – Eu me sinto como um pássaro que vê a porta da gaiola se abrir pela primeira vez. Nunca tinha sentido isso antes. É uma paz tão grande...

 

   A visão de Elizabeth já estava turva pelas lágrimas que se acumulavam em seus olhos. Era bom saber que a irmã se sentia melhor, mas não estava gostando do rumo daquela conversa.

 

   - Eu quero que saiba – continuou Lydia – que eu amo muito você. Por favor, perdoe os meus erros. Eu fui tola e infantil. Desculpe pelo mal que causei a você, Lizzy. Não foi intencional, mas isso não diminui a minha culpa.

 

   - Shh... Está tudo bem, agora, querida. Não fale mais disso. Eu já a havia perdoado antes que você pedisse. Você salvou a minha vida, Lydia. Se não fosse por você, eu estaria morta. Tudo o que mais quero nesse momento é ver você curada.

 

   - Eu estou curada, Lizzy. E salvar você era o mínimo que eu podia fazer. Você é minha irmã e é uma pessoa tão boa... Merece viver e ser feliz.

 

   - Você também merece viver e ser feliz. – as lágrimas já escorriam livremente pelo rosto de Elizabeth.

   - Diga a papai e mamãe que eu os amo muito. E a Kitty e Mary também. 

 

   - Eles sabem, meu amor, eles sabem.

 

   - Olhe o céu, Lizzy. Está tão bonito... – ela disse olhando na direção da janela e levantando o braço com dificuldade para indicar o céu - Estou tão cansada... Acho que vou dormir um pouco. – sua voz estava tão fraca que Elizabeth precisou ler as palavras nos lábios da irmã para entendê-las.

 

   - Durma, minha querida. Durma, sim. Você precisa descansar. – Elizabeth disse enquanto afagava os cabelos da irmã.

 

   Na manhã ensolarada de 25 de julho, aos dezesseis anos de idade, Lydia Bennet fechou seus olhos e não mais os abriu.

 

N/A: Lydia faleceu em decorrência de uma endocardite infecciosa, provocada por um microorganismo que entrou no corpo dela pelo ferimento causado pelo tiro e se instalou no coração, gerando a infecção. Como na época o diagnóstico dessa doença era complicado, o médico não sabia de que se tratava exatamente. Como não havia antibióticos, as infecções geralmente eram fatais, sobretudo aquelas que atingiam órgãos vitais como o coração. Para quem quiser saber mais sobre a doença: http://www.incor.usp.br/conteudo-medico/geral/prevencao%20de%20endocardite%20infecciosa.html 

 

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