Citações

Quando as pessoas se decidem a adotar um tipo de conduta que sabem errada, sentem-se injuriadas quando se espera algo melhor da parte delas.(Jane Austen)

AS QUATRO ESTAÇÕES - O VERÃO (QUARTA PARTE) - CAPÍTULO V

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Capítulo V

 

   - G-George? – ela sussurrou incerta.

 

   - Eu mesmo, querida. Não está feliz por rever o seu estimado marido? – perguntou contorcendo ainda mais o rosto em um sorriso sarcástico. 

   - Mas... Como? Você está morto! – ela tentava raciocinar sem sucesso.

 

   - Não, meu bem, estou tão vivo quanto você. – ele explicou como se falasse com alguém mentalmente incapaz.

 

   - O que aconteceu então? Onde esteve todo esse tempo? Eu recebi uma carta me comunicando sobre a sua morte! Diziam que você havia morrido no segundo dia de combate...

 

   - Bom, claramente eu não morri. Eu realmente fui pego desprevenido durante uma explosão, mas só fiquei desacordado um tempo. Por sorte, ninguém notou e só perceberam a minha ausência depois que eu já tinha dado um jeito de escapar de lá. 

 

   - Mas então você é um desertor! George, todos pensam que você está morto. Se o virem andando por aí vão prendê-lo e matá-lo!

 

   - Não se preocupe, meu bem. Não pretendo dar esse prazer a você e ao seu querido Fitzwilliam Darcy. Ou pensa que eu não sei que a primeira coisa que fez quando soube da minha morte foi correr para os braços dele? – os olhos de Wickham se fixavam em Elizabeth com um brilho doentio enquanto ele cuspia as palavras – Mas agora o seu marido está de volta. Essa pouca vergonha vai acabar. – o rosto encolerizado se transmutou em um sorriso malicioso instantaneamente.

 

   Elizabeth sustentou o olhar dele com firmeza, mas recuou alguns passos instintivamente até encostar na bancada onde estavam as mudas das orquídeas.

 

   - Em primeiro lugar, eu exijo mais respeito. – ela falava pausadamente, mas imprimia força a cada palavra – Em segundo lugar, não houve pouca vergonha alguma. Apesar de tê-lo feito apenas pelas convenções sociais, eu respeitei o período de luto. 

 

   - Respeitou o período de luto? Eu vi vocês dois juntos no jardim ainda esta noite, sua vadia! – ele avançou para ela e levantou o braço como se fosse esbofeteá-la.

 

   - Encoste um dedo nela e eu cuidarei pessoalmente para que seja o seu último ato nessa vida miserável. – trovejou uma voz às costas de Elizabeth.

 

   William a havia seguido quando a vira saindo com Lydia. Não sabia bem o porquê daquela atitude; pensara na impropriedade daquilo e no quanto estava sendo indiscreto, mas algo dentro dele dizia para fazê-lo. Quando chegara à estufa e assistira escondido à cena que se desenrolava lá, agradecera aos céus por tê-lo feito.

 

   Ele não fizera ameaças vazias; estava realmente pronto para matar Wickham com suas próprias mãos caso ele tentasse fazer algum mal a Elizabeth.

 

   - Ora, ora, ora. Vejam quem resolveu se juntar à nossa pequena festinha! O grande Fitzwilliam Darcy decidiu nos honrar com sua presença aqui esta noite! - o sorriso cínico voltou a surgir na face de George Wickham.

   William permaneceu calado apenas olhando seu rival com uma expressão que faria um vulcão em atividade congelar. Mas Wickham não se intimidava - não aparentemente, pelo menos – e continuou:

 

   - Infelizmente para o senhor, Sr. Darcy, esta é uma festinha particular. Eu e minha mulher temos alguns assuntos pendentes para resolver, se o senhor não se importa. 

 

   Darcy desviou seu olhar rapidamente para Elizabeth, que o fitava com desespero. Ele interpretou aquilo como uma súplica dela para que ele ficasse e firmou seus pés ainda mais no chão. Não que ele tivesse alguma intenção de deixá-la ali à mercê daquele verme, mas o pedido no olhar dela intensificara sua prévia decisão.

 

   - Não vai mesmo embora? Ora, Darcy, não seja inconveniente! Onde estão suas boas maneiras? – e virando-se para a esposa – Elizabeth, querida, diga a ele o quanto está sendo intrometido. 

 

   - William, vá embora. – Elizabeth implorou e então Darcy percebeu que havia interpretado o olhar dela de forma errada. Ela não suplicava pela sua permanência; queria que ele saísse dali o quanto antes. Mas deixar a estufa não estava nos planos dele.

 

   - E deixar você aqui sozinha com ele? Isso está fora de cogitação!

 

   - Mas não estamos sozinhos, meu caro. – Wickham interrompeu com seu tom cínico, cheio de divertimento - Não que precisemos de uma acompanhante, já que somos marido e mulher perante Deus e a lei, mas nossa adorável Lydia está aqui nos dando o prazer de sua companhia! – todos olharam para a figura encolhida e amedrontada em um canto. Tinham se esquecido completamente da presença dela.

 

   - Lydia! Pelo amor de Deus! William, volte para lá e leve Lydia com você. Digam que não estou passando bem e precisei me recolher mais cedo.

 

   - Eu não sei porque a pequena víbora da sua irmã está ajudando este canalha, Lizzy, mas acho que ela já cumpriu a sua missão aqui, não é mesmo, Lydia? Volte para a sala e diga o que sua irmã mandou. Você já causou problemas demais por esta noite.

 

   - Eles vão notar a sua ausência também, William. – Elizabeth tentava manter a voz calma e controlada – É melhor que você volte com ela. Eu ficarei bem, não se preocupe.

 

   Darcy podia ver novamente nos olhos dela a súplica, enfatizando suas palavras. Não entendia. Como ela poderia querer ficar sozinha com Wickham?

 

   - Eu já disse que não vou a lugar algum, Lizzy. – respondeu com um tom que não dava margem para contestações.

 

   - Céus, Darcy! Eu sempre soube que você era um estraga-prazeres, mas pelo menos costumava ser um estraga-prazeres educado. Será que você não ouviu a minha senhora pedir para que você se retirasse e escoltasse a jovem Lydia até a sala? Ela já me fez um grande favor esta noite, mas não precisarei mais dos seus préstimos. Muito obrigado, Lydia, você foi adorável. 

 

   - Mas, George, – Lydia parecia mais confusa do que amedrontada dessa vez – Você disse que iríamos fugir juntos!

 

   - Fugir juntos? Mas o que... – Elizabeth estava estupefata.

 

   - Lydia, querida, depois conversamos melhor sobre isso, está bem? Você já me prestou um grande serviço, agora seja uma boa menina e vá com o Sr. Darcy.

 

   - Eu não vou permitir que você faça mal a Elizabeth ou a qualquer membro da família dela. Lydia, volte para a sala e nunca mais chegue perto deste homem outra vez, entendeu?

 

   - Mas o que é isso, Darcy? Você acha que eu seria capaz de fazer algum mal à minha própria esposa? Eu a amo e ela também me ama. Você não se conforma por ela ter escolhido a mim e não a você. – a face dele se contorceu mais uma vez em um sorriso.

 

   - Você sabe que isso não é verdade. Sabe que ela só se casou com você porque estava grávida e achou que eu a havia abandonado. Aliás, foi você também que colocou essa idéia absurda na cabeça dela, não foi? Queria envenená-la para roubá-la de mim, porque você sempre teve inveja de tudo o que eu tenho e sou. Foi simplesmente irresistível para você, confesse. Uma oportunidade perfeita para se vingar depois de eu ter destruído os seus planos com a herança do meu pai e depois com Georgiana! Era o plano perfeito! Tirar de Fitzwilliam Darcy o que ele tinha de mais precioso no mundo.

 

   - Você está errado se pensa que eu não a amo, Darcy. Tudo o que disse é verdade. Eu realmente encontrei a oportunidade perfeita para me vingar de você. E eu consegui, afinal. Eu tirei de você o que você mais prezava no mundo: o amor de Elizabeth.

 

   - O amor de Elizabeth não é o que eu mais prezo no mundo. É o bem estar dela. Se ela estivesse feliz e segura ao seu lado, eu iria embora por aquela porta antes mesmo que ela me pedisse, por mais que isso doesse em mim. Mas ela não está. E eu não vou permitir que você destrua a vida dela mais do que já fez.

 

   - Destruir a vida do meu único amor? Você só pode estar brincando. Eu passei todo esse tempo afastado dela, morrendo de saudades dos seus beijos e carinhos, e quando finalmente o destino nos une você está aqui para atrapalhar! Acho que o vilão dessa história não sou eu afinal, Darcy.

 

   - Único amor? Mas você disse que me amava, George... Disse que casar com Lizzy havia sido o pior erro que já havia cometido e que fugiríamos juntos essa noite!

 

   - Se planejavam fugir juntos, por que me trouxe até aqui? – perguntou Elizabeth transtornada.

   - George disse que precisava resolver algo com você antes. Eu não entendi e falei para irmos embora de uma vez, mas ele insistiu e me convenceu a trazer você aqui. – Lydia falava inconsolada enquanto as lágrimas escorriam por seu rosto – Eu não sabia... Não queria causar mal a você, Lizzy. Ele disse que me amava... Eu não entendo...

 

   Elizabeth abraçou a irmã mais nova e afagou seus cabelos.

 

   - Ele mentiu para você, Lydia. George não ama ninguém. Ele só sente prazer em destruir a vida dos outros.

 

   - Que cena mais comovente... A vadia consolando a irmãzinha tola e inconseqüente.

 

   - Por que você não nos deixa em paz? – esbravejou Elizabeth – Já passou todo esse tempo se fingindo de morto! Aposto como deve ter se divertido bastante com as vagabundas e jogatinas que encontra por aí. Por que voltar agora? Para que encher a cabeça da minha irmã com mentiras e convencê-la a me levar até você? Por Deus, George, o que você quer de mim?

 

   - Eu quero você, Elizabeth. Vim para reclamar o que é meu. Você não achou que eu deixaria o caminho livre para Darcy, não é mesmo? É claro que o fim do dinheiro que ganhei com algumas partidas de carteado por aí ajudou a apressar as coisas, mas já estava mesmo na hora de vir dar uma olhada na minha amada esposa. E como eu não conseguia arranjar um encontro a sós com você sem me fazer notar, resolvi apelar para a imbecil da sua irmã. – indicou Lydia com um gesto de descaso – Ela sempre teve essa paixão platônica por mim. Foi fácil manipulá-la.

 

   Lydia agarrou-se mais uma vez a Elizabeth para chorar. Engolindo o desprezo e a raiva que sentia, ela encontrou forças para perguntar:

 

   - E o que pretendia depois?

 

   - Como assim? – ele a olhava como se ela perguntasse de que cor era o céu.

 

   - O que pretendia fazer depois que Lydia me trouxesse até você? Planejava me raptar ou você realmente achou que conseguiria me convencer a fugir por livre e espontânea vontade?

 

   - A América me passou pela cabeça, mas no momento estamos sem condições. Eu esperava que a sua razão falasse mais alto e que você concordasse em ir comigo para a França. As coisas andam meio turbulentas por lá e eu andei fazendo alguns contatos no meio do comércio de armas. Sabe, a guerra pode ser muito lucrativa para quem sabe aproveitá-la.

 

   - Você é desprezível! Eu não vou a lugar algum com você nem agora e nem em um milhão de anos! Fique longe de mim, seu verme!

   - É claro que eu imaginei a possibilidade de você e esse seu gênio difícil resolverem se manifestar. Nesse caso, teria que usar a força bruta.

 

   Um rosnado de Darcy foi a única resposta para aquilo. O silêncio, quebrado apenas pelos soluços de Lydia, instalou-se entre eles por longos minutos. Elizabeth e Darcy não desgrudavam os olhos de Wickham, como se ele fosse um predador prestes a dar o bote.

 

   - Acho que essa festinha já foi longe demais. – Wickham finalmente disse – É hora de acabarmos logo com isso.

 

   - Tem razão. – respondeu William pausadamente – Quanto você quer para sumir e nunca mais aparecer nas nossas vidas?

 

   - Nunca pensei que recusaria dinheiro, Darcy, mas não, obrigado. Eu realmente pretendo sumir e nunca mais aparecer na sua vida, mas não pretendo ir a parte alguma sem a minha adorada esposa.

 

   - Isso complica um pouco as coisas, porque eu me recordo de ter deixado bem claro que prefiro morrer a ir com você a qualquer lugar. – disse Elizabeth com a voz gélida.

 

   - Eu e Elizabeth vamos nos casar e vamos criar as nossas filhas juntos. E você vai desaparecer, como se nunca tivesse existido. Agora, de uma vez por todas, o que você quer para nos deixar em paz? – William dizia lentamente, tentando conter a fúria que se apossava dele. Não poderia agir por impulso naquele momento delicado. Precisava pensar friamente e calcular cada uma de suas atitudes.

 

   - Desista, Darcy. Ela é teimosa, mas eu sei que me ama. Acha mesmo que ela agüentaria viver com um idiota como você quando pode ter a mim? É claro que Pemberley e toda a fortuna dos Darcy somam alguns pontos a seu favor, mas...

 

   - Eu não iria com você nem que fosse o homem mais rico de toda a Inglaterra! – cortou-o Elizabeth, irada – Eu o desprezo, George Wickham. Eu nunca o amei, nem mesmo quando acreditava que você fosse um homem honrado. Meu coração pertence a William e você sempre soube disso. Agora pare com essa loucura e vá embora. Fingir que estava morto foi a melhor coisa que você fez na vida. Deveria continuar fingindo. Ou então se mate de uma vez e livre a humanidade da sua existência nojenta!

 

   - Sabe, Lizzy, ainda bem que você me disse que preferia morrer a ir comigo. Isso torna as coisas muito mais fáceis, não é? Afinal, eu não quero uma esposa que não me ame ao meu lado! E também não existe possibilidade de deixar os dois pombinhos desfrutando da felicidade conjugal nos salões de Pemberley. Então, não me resta opção senão respeitar a sua vontade. – dizendo isso, ele puxou uma arma de dentro do casaco e apontou para o coração de Elizabeth.

 

   A partir daquele momento, tudo aconteceu tão rápido que, anos mais tarde, quando Elizabeth tentasse se lembrar do que ocorrera, encontraria dificuldade para narrar os fatos precisamente. Ela só se recordaria do som do disparo, da queda e de se perguntar se já estava morta.

 

   Já William, da posição em que se encontrava, viu com clareza quando Lydia se jogou por cima da irmã, sendo atingida no lugar dela. 

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