Capítulo IV
Vivaldi – Verão
O sol poente derramava suas cores sobre os jardins de Loundsley. Sentada à janela da sala de música, Charlotte admirava aquele espetáculo natural como se estivesse sendo encenado exclusivamente para ela. O Sr. Bingley e o Sr. Bennet conversavam amenidades ao seu lado enquanto Elizabeth tocava para entreter a todos. Na verdade, ela tocava mais para entreter a si mesma, já que nenhum dos outros parecia estar prestando muita atenção. Exceto, talvez, Mary, que fitava o piano com olhos cobiçosos.
Do outro lado da sala, Kitty e a Sra. Bennet tagarelavam. Lydia ainda estava se aprontando em seu quarto e Jane estava na cozinha dando instruções para o jantar.
- Lizzy, – Mary interrompeu – já estou cansada dessa polonaise.
Elizabeth parou a música bruscamente, revirou os olhos e contou até vinte.
- Certo, Mary. Então, toque algo mais interessante. – respondeu entre dentes enquanto se levantava carregando a partitura.
- Não ligue, Lizzy. Ela está querendo se exibir nesse piano desde que chegamos. – disse Kitty alto o suficiente para que Mary ouvisse.
Enquanto Mary dedilhava escalas para se aquecer, Lydia entrou no aposento.
- Você demorou, Lydia, querida! Estava quase indo até lá para ver se precisava de alguma coisa! – falou carinhosamente a mãe.
- Eu não conseguia escolher os brincos certos para combinar com o vestido. – respondeu automaticamente antes de se sentar ao lado de Charlotte, de onde passou a fitar a janela sem realmente ver a paisagem.
As carruagens trazendo os convidados logo começaram a chegar. Da primeira saltaram Lady Shelley e seus dois filhos, Henry e Edmund.
Henry, o mais velho, logo cativou a todos com sua amabilidade e humor inteligente. Kitty, em particular. Em seus pensamentos, ela o comparava a um príncipe. Cada vez que os calorosos olhos amendoados do cavalheiro cintilavam em sua direção, ela sentia seu rosto corar.
O caçula de Lady Shelley, por sua vez, parecia ter tido seu coração fisgado por Lydia. Ele aproveitava cada oportunidade que surgia para tentar atrair a atenção da moça, mas, infelizmente, seus esforços eram inúteis. Ao contrário de Henry, o pobre Edmund não possuía uma personalidade cativante e nem mesmo uma aparência privilegiada. Sua estatura mediana e seus cabelos castanhos ficavam ofuscados pela figura alta e loira do irmão. Por vezes, um bom observador poderia capturar um lampejo de inveja e talvez até ódio nos olhos do rapaz, que, embora fossem idênticos aos do irmão, não brilhavam com a mesma vivacidade. Mas se havia algo que poderia ser dito em favor de Edmund era sobre sua persistência. Mesmo com os modos pouco receptivos de Lydia, ele insistia em tentar travar uma conversa com a moça.
Ela, entretanto, estava alheia a tudo e a todos naquela noite. Na verdade, não parecera ela mesma durante aquele dia. Passava todo o tempo imersa em seus pensamentos olhando por uma janela, desfiando distraidamente a ponta de sua luva. Quando alguém a chamava ela se sobressaltava e respondia com monossílabos irritados. A princípio, Elizabeth acreditara que a distância da irmã se devia à ansiedade pelo jantar, mas depois que os primeiros convidados chegaram e que um rapaz rico e de boa família flertava abertamente com ela sem conseguir qualquer alteração comportamental da parte da moça, percebeu que algo estava errado. Decidiu conversar com ela mais tarde, quando os convidados houvessem partido.
Pouco tempo após a chegada de Lady Shelley, ouviu-se a carruagem de Lady Russel, que vinha acompanhada de seus filhos, Sophia e Thomas. Foi com uma ponta de ciúmes que Elizabeth cumprimentou a jovem senhorita com quem William havia dançado no sarau. Ela estava tão bela quanto da última vez em que estivera em Loundsley e alguns minutos de conversação foram suficientes para que Elizabeth percebesse que ela era uma moça bastante tímida. Seus olhos de esmeralda estavam atentos a tudo o que se passava ao redor; ela, porém, jamais tomava parte nos acontecimentos, se pudesse evitar.
Thomas Russel parecia a versão masculina da irmã. Tinha a mesma beleza estonteante, que provavelmente havia sido herdada do pai, uma vez que os méritos de Lady Russel deviam-se muito mais à sua elegância natural do que a um rosto notável.
Kitty agora se via dividida entre o deus tímido e o príncipe galante. Henry Shelley, ao perceber a concorrência, parecia se esforçar para capturar a atenção da moça, o que antes ocorria naturalmente. Thomas Russel, entretanto, por algum motivo completamente desconhecido, encontrava-se fascinado pela anti-social Mary, que permanecia ao piano fingindo que os olhares intensos do rapaz não produziam efeito algum nela.
A conversa animada foi interrompida pela chegada das duas últimas carruagens aguardadas. Da primeira saltaram Darcy e Georgiana, enquanto da segunda surgiu Cavendish. Elizabeth tentou inutilmente não ruborizar com a chegada deles. Seu coração disparara diante da visão de seu amado e apertara-se quase que instantaneamente ao avistar aquele a quem tinha recusado um pedido de casamento da última vez em que se haviam visto.
Contudo, a estima de Cavendish por ela não sofrera alteração com aquele episódio. Como prova disso, ele a cumprimentou com um sorriso caloroso que se estendia aos olhos cinzentos. Ela retribuiu o sorriso e se surpreendeu ao flagrar o olhar assassino de Darcy no momento.
A conversa foi retomada, dessa vez com a participação de Cavendish. Georgiana, sentada ao lado dele em um dos elegantes sofás da sala de música, observava calada. Somente ela e a Srta. Russel viram quando Elizabeth saiu discretamente pelas portas de vidro que ligavam o aposento à varanda, seguida por Darcy.
Yiruma – River Flows in You
O sol já havia se posto dando lugar a um céu aveludado, cravejado de estrelas. Uma brisa morna balançava as folhagens e espalhava o perfume embriagador da noite.
Elizabeth caminhou até as escadas que levavam ao jardim plenamente consciente de que ele a seguia. Podia sentir os olhos azuis em sua nuca. Desceu vagarosamente os degraus de ardósia e seguiu por uma trilha de arbustos bem cuidados que levavam até um banco de pedra próximo à fonte que ela avistava da janela de seu quarto. Sentou-se de costas para o caminho por onde tinha vindo e esperou que ele se juntasse a ela.
Ouviu os pés dele sobre as folhas caídas e viu quando ele se sentou ao seu lado, mas continuou olhando para os lírios no canteiro à frente, como se nada tivesse percebido.
William estava inseguro sobre como agir. Relutava em quebrar o silêncio, mas precisava dizer algo. Precisava dizer muitas coisas, na verdade.
Ela tomou a iniciativa e, desajeitada, procurou a mão esquerda dele sobre o banco com a sua direita. Quando se tocaram, Elizabeth sentiu uma corrente elétrica, que começava na mão e irradiava para o resto do corpo. Pelo leve sobressalto de William, podia-se dizer que ele sentira o mesmo.
Lentamente, ele entrelaçou seus dedos nos dela. A mão de Elizabeth estava quente e tremia um pouco, ao contrário da dele, que apesar de também tremer, parecia feita de gelo.
Viram os minutos passarem devagar. Ambos permaneciam estáticos. Não desviavam os olhos do canteiro de lírios. Não soltavam as mãos. Não respiravam. Era como se o universo finalmente encontrasse a perfeita harmonia. Atrás deles, o alegre ruído da água caindo sobre o granito da fonte se misturava ao distante canto de um rouxinol e ao murmúrio das folhas dançando ao vento.
- Georgiana veio falar comigo hoje. – ela sussurrou.
- Eu sabia. Ela não quis me dizer o que tinha vindo fazer, mas eu tinha certeza... – ele suspirou – Então agora você já sabe de tudo.
- Sim, eu sei de tudo.
Elizabeth apertou a mão dele entre a sua e a trouxe aos lábios para um beijo longo. Ele se virou com cuidado, acariciando o rosto dela com as costas de sua mão livre. Puxou-a para si com delicadeza e beijou-a na testa.
- Eu devia ter esperado por você... – ela disse sentindo o choro preso na garganta.
- Não foi culpa sua, Lizzy. Vamos esquecer isso, por favor.
- Sim, vamos esquecer tudo isso. – ela disse enxugando as lágrimas que já escorriam – Vamos ter uma vida nova agora, não é?
- É claro, meu amor. É claro. Tudo vai ser como deveria ter sido desde o princípio.
- Mas precisamos esperar, William. Teoricamente, eu ainda estou de luto pela morte de Wickham.
- Aquele verme...
- William, não tínhamos combinado de esquecer tudo isso?
- Sim, mas cada vez que eu penso nele casado com você... Nele tocando você... Eu tenho vontade de estrangulá-lo.
- Então não pense nisso. Olhe para mim. – ela levantou o queixo dele e encarou os amados olhos azuis, turvos pela ira – Eu sou sua. Sempre fui. E vou continuar sendo, para sempre. Wickham está morto e enterrado. Vamos deixá-lo descansar em paz, está bem? A questão agora é outra. Para a sociedade, eu ainda estou chorando a morte do meu amado marido. Não fica bem contrair um noivado agora. Você acha mesmo que a sua família vai aprovar a sua união com uma viúva, cujo marido ainda nem esfriou no túmulo e que ainda tem duas filhas para criar?
- Para o inferno com a minha família! Para o inferno com a sociedade inteira! Nós não vamos perder mais tempo por causa dessas convenções sociais hipócritas! Eu vou me casar com você e vou criar as nossas filhas ao seu lado. Pouco me importa o que digam.
- Está bem, William. Depois resolvemos isso. O que importa é que está tudo esclarecido agora. – ela disse acariciando as mãos dele, tentando acalmá-lo – É melhor voltarmos. O jantar deve ser servido daqui a pouco.
- Certo, vamos. – ele respondeu enquanto se levantava e estendia o braço para ela.
Voltaram sem pressa por onde haviam vindo. Ao chegarem à sala, quase todos dançavam uma quadrilha acompanhados por Mary ao piano. A música não era da melhor qualidade, mas a animação dos dançarinos tornava esse fato irrelevante. Com tanta agitação, a entrada do casal passou despercebida. Até mesmo Georgiana dançava. E com o Sr. Cavendish! Mas não foi o par da moça que chamou a atenção de Elizabeth: foi o inesperado brilho nos olhos da amiga que a surpreendeu.
Quando viu o mesmo brilho nos olhos do Sr. Cavendish ela entendeu e sorriu. Formavam um casal tão lindo! Ela não poderia ter ficado mais contente. Era simplesmente perfeito! Seu coração se enchia de alegria ao ver duas pessoas tão queridas encontrarem a felicidade juntas. Mas quando viu o quanto William ficara irado diante daquela cena, percebeu que teria de intervir. Falaria com ele depois. Ele não poderia criar a irmã em uma redoma para sempre! Ela precisava ser livre para fazer suas escolhas e trilhar seu próprio caminho. E Cavendish seria o companheiro ideal para ela. Elizabeth decidiu que faria tudo o que estivesse ao seu alcance para ajudá-los a ficarem juntos.
Após a dança, Jane anunciou que o jantar seria servido e todos se dirigiram à sala de refeições. Charles sentou-se à cabeceira da mesa, tendo a Lady Shelley à sua direita e Cavendish à esquerda. Jane tomou seu lugar à outra cabeceira tendo Darcy à direita e Elizabeth à esquerda. As duas irmãs trocaram um discreto sorriso de cumplicidade; a disposição dos lugares havia sido escolhida a dedo pela anfitriã. Os demais convidados foram dispostos nos lugares restantes intercalando-se sempre homens e mulheres, como mandava a etiqueta.
Apesar do calor, o primeiro prato foi a tradicional white soup*. Quando todos haviam terminado e os pratos já haviam sido recolhidos pelos criados, serviram-se as carnes. Havia carnes de porco, boi e carneiro, além de diversas caças, como lebre, faisão e perdiz. Os cavalheiros serviam-se das travessas que se encontravam próximas e ofereciam aos seus vizinhos. Quando um prato era requisitado pelo outro lado da mesa, um criado se encarregava de servi-lo aos que o desejassem. Cada um saboreava apenas um pouco dos pratos que mais lhe apraziam, negligenciando várias das travessas, pois a fartura era considerável e não era possível provar de todas elas.
Após as carnes, foram servidos queijos e saladas, para “limpar o paladar” dos convivas, antes que saboreassem os próximos pratos. Ao final, a toalha foi retirada e a sobremesa servida. Das numerosas guloseimas, o sorvete de limão e a popular syllabub* foram as mais apreciadas, devido ao calor da noite de verão.
Ao final da refeição, os cavalheiros permaneceram na sala de jantar servindo-se de vinho do Porto enquanto as damas se retiraram para a sala de visitas. Lá, as senhoras conversavam amenidades e faziam especulações sobre as moças presentes. Lady Shelley acreditava que a Srta. Russel seria a primeira a se casar, pois era a mais bela, enquanto a Sra. Bennet defendia o bom humor e a simpatia de sua Lydia. Entretanto, a disposição de Lydia não se alterara após o jantar. Ela permanecia calada e alheia ao que se passava ao redor, o que fazia com que as outras senhoras questionassem as qualidades atribuídas a ela pela mãe.
As moças conversavam em outro canto da sala, sem saber que eram o principal assunto discutido pelas mais velhas. Kitty tagarelava sem parar sobre bailes e rapazes com Georgiana e Sophia Russel, que a ouviam com um sorriso amável. Mary tentava fazer algum comentário carregado de sabedoria em alguns momentos, mas era rapidamente interrompida por Kitty, que voltava a despejar seu monólogo sobre as ouvintes.
Charlotte e Elizabeth caminhavam pela sala falando sobre os preparativos para o casamento da primeira. Ela estava muito excitada com a idéia de tornar-se uma mulher casada, senhora de sua própria casa, mas não demonstrava tanta empolgação com o noivo. Elizabeth, que não conhecia o primo pessoalmente, tentava extrair da amiga alguma informação mais precisa a respeito dele que justificasse sua falta de entusiasmo, mas ela se limitava a dizer que o Sr. Collins era um bom homem, que se dedicava à pregação da palavra de Deus.
Jane, que ouvia calada a conversa da mãe com as duas outras senhoras, resolveu se juntar à irmã e à amiga em seu passeio pelo cômodo.
Pouco mais de uma hora depois, os cavalheiros se juntaram a elas e foram armadas mesinhas para chá e jogos de cartas na varanda, para aproveitar a brisa noturna vinda do bosque.
Em um determinado momento, após uma partida de baralho, Elizabeth se levantou para tomar chá com Jane e a Sra. Bennet, quando foi abordada por Lydia, que a puxou para um canto.
- Lizzy, posso falar com você um minuto? – sussurrou ela.
- Claro, Lydia. O que houve? – Elizabeth estava intrigada com o comportamento da irmã desde cedo. Aquele não era exatamente o momento ideal para conversar com ela a respeito, mas fora a oportunidade que surgira.
- Eu preciso que venha comigo. – e a puxou pela mão para a sala de visitas.
- O que está acontecendo, Lydia? Por que não me diz logo o que quer? Você está tão estranha... – mas Lydia não respondia nenhuma de suas perguntas. Em vez disso, a moça a conduzia pelos corredores olhando para os lados desconfiada, quase assustada.
- Você já vai ver. Venha, é por aqui. – dizia apenas.
Ao chegarem ao corredor que levava à estufa, Lydia apressou o passo. Elizabeth precisou andar mais rápido para acompanhá-la.
- Vão estranhar a nossa ausência. Diga logo o que é e vamos voltar. – tentava inutilmente Elizabeth.
A estufa estava escura. Via-se apenas os contornos das orquídeas na penumbra. A luz prateada da lua cheia, que penetrava pelos vidros do teto, era a única claridade do aposento.
Elizabeth seguiu a irmã pelos caminhos entre as bancadas e os vasos de planta tomando cuidado para não esbarrar em nenhuma das flores, pois eram muito delicadas. Sua curiosidade inicial havia sido substituída pela irritação com o suspense infantil da mais nova.
- Lydia, estou perdendo a paciência. Quer me dizer logo o que quer aqui?
- Olá, Lizzy. – disse uma conhecida voz atrás dela.
Elizabeth não acreditou no que estava ouvindo. Sentiu toda a cor escapar de seu rosto antes de se virar lentamente e encarar a face sorridente de George Wickham.
*White soup: http://www.janeausten.co.uk/magazine/page.ihtml?pid=85&step=4
*Syllabub: http://www.janeausten.co.uk/magazine/page.ihtml?pid=355&step=4















