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Metade do mundo não consegue compreender os prazeres da outra metade.(Jane Austen)

AS QUATRO ESTAÇÕES - O VERÃO (QUARTA PARTE) - CAPÍTULO II

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Capítulo II

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Carla Bruni – Quelqu’un m’a Dit

 

   Darcy tentava, em vão, concentrar-se na leitura de um dos milhares de volumes da biblioteca de Pemberley. Sentado à janela de seu quarto, ele involuntariamente dirigia seu olhar para os jardins da propriedade, onde, ao final, havia uma saída para a estrada. A estrada que levava a Loundsley.

 

   Havia semanas que não via Elizabeth e suas filhas. Através dos comentários entre a criadagem, ele soubera a respeito da chegada dos Bennets e da Srta. Lucas. Definitivamente aquela não era uma boa hora para fazer uma visita. Além de detestar toda a balbúrdia inevitável quando se tratava das Bennets mais novas e da mãe delas, não queria correr o risco de se expor na frente de tantas pessoas. Ele perdia o controle de suas emoções quando estava diante das filhas. Já havia se arriscado o bastante na presença de Cavendish, na última ocasião.

 

   A recordação daquele dia trouxe um sorriso involuntário aos lábios de William. Ele se lembrava claramente das palavras de Elizabeth quando ela rejeitara o pedido de casamento de seu rival. Ela ainda o amava! Apesar de todo o mal que ele lhe havia causado, Elizabeth ainda correspondia àquele sentimento que ele jamais deixara de nutrir por ela, mesmo quando acreditava que houvesse sido enganado. 

 

   Por mais que a descoberta dos sentimentos de Elizabeth houvesse trazido uma nova chama de esperança a seu coração, ele não podia deixar de se sentir inseguro. Mesmo amando-o, ela ainda suspeitava dele e, precisava admitir a contragosto, com razão. Darcy jamais havia revelado a ela os reais motivos de sua partida. Como podia esperar que elaconfiasse nele sem saber das razões que o levaram a abandoná-la? 

 

   Ele encontraria uma forma de esclarecer as coisas o mais cedo possível. Cada minuto que passava longe de sua amada parecia ter a duração de um século. Depois de todos aqueles meses de sofrimento, os dois mereciam a sua parcela de felicidade. 

 

   Olhando novamente para os jardins, imaginou-a ali, como a senhora de Pemberley, passeando de braços dados com ele enquanto as meninas corriam pela grama verde. Podia quase ouvir as risadas das gêmeas ecoando pelas galerias da mansão. Elas aprenderiam a tocar piano, como a mãe e a tia, e as quatro encheriam de música aquela casa.

 

   Desistindo da leitura, ele abandonou o exemplar que tinha em mãos sobre sua mesa de cabeceira e decidiu buscar outra forma de passar o tempo. Em uma propriedade tão grande como Pemberley, deveria haver algo que ele pudesse fazer para se distrair. 

 

   Caminhou pela casa sem prestar atenção aonde seus pés o levavam. Sua mente estava longe, em Loundsley. Voltou a si, entretanto, após assustar uma jovem criada ao quase colidir com ela em um dos corredores. Pediu desculpas e continuou seu caminho inconsciente.

   Chegando ao primeiro andar da mansão, ouviu o som da harpa de Georgiana e sentiu-se envergonhado. Ela havia iniciado seus estudos no instrumento havia algum tempo, e sua preceptora sempre comentava sobre os progressos fantásticos que ela vinha fazendo, mas Darcy sequer se lembrava da última vez em que a ouvira tocar.

 

   Sua entrada na sala de música foi recebida com surpresa por Georgiana. Ela parou de tocar imediatamente e fitou-o com curiosidade e até um certo espanto nos olhos. 

 

   - Atrapalho? – perguntou incerto.

 

   - É claro que não! – respondeu a moça, transformando o espanto em entusiasmo imediatamente – Venha, sente-se aqui. Estou praticando essa música há um tempo e acho que já está boa o bastante para lhe mostrar.

 

   - Ótimo, porque eu planejo recuperar todo este tempo que passei sem ouvir você tocar. – acrescentou Darcy sorrindo diante da empolgação infantil da irmã. Georgiana já era quase uma mulher, mas ele ainda a enxergava como uma menina em tantos sentidos... Duvidava que algum dia fosse possível deixar de vê-la como o bebê que ele ajudara a criar, mesmo quando ela já estivesse casada e com filhos.

 

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Pachelbel – Cânon

 

   Ela iniciou os primeiros arpejos de uma música conhecida. As cordas vibravam sob os dedos ágeis de Georgiana preenchendo o ar com as notas suaves. As mãos da menina dançavam no instrumento, como se já conhecessem aquela coreografia desde sempre. Ela parecia um verdadeiro anjo tocando a grande harpa dourada com seu vestido branco e seus cachos louros iluminados pelos raios de sol. 

 

   - O que achou? – perguntou ela com seus grandes olhos claros cheios de expectativa ao encerrar o último arpejo da música. 

 

   - Perfeita. – respondeu o irmão com sinceridade. 

 

   - Mesmo? – insistiu tentando esconder um largo e brilhante sorriso que teimava em se abrir.

 

   - Mesmo. – ele confirmou. Ela desistiu de reprimir o sorriso e pulou nos braços do irmão.

 

   - Não sabia que minha opinião contava tanto! Se soubesse que bastavam alguns elogios para ver você assim tão contente, eu teria vindo assisti-la tocar mais vezes. – ele brincou retribuindo o abraço.

 

   - Ora, não se faça de tolo, William. Você sabe perfeitamente que a sua opinião é a mais importante para mim. 

 

   Ele riu em resposta. 

   - Mas eu gostaria de tocar para a Sra. Wickham também... Acha que ela gostaria? – perguntou Georgiana após alguns segundos de silêncio.

 

   - Eu acredito que sim. Ela gosta muito de música e acho que também simpatiza com você. – ele continuou com seu tom brincalhão, que não passou despercebido pela irmã. Ela estava surpresa e muito feliz por perceber o quanto o humor de seu irmão havia mudado.

 

   - É uma pena que eles não tenham uma harpa em Loundsley. Será que não podíamos convidá-la para uma visita? – tentou esperançosa.

 

   - Eu gostaria muito disso, – disse William colocando mais sinceridade do que gostaria nas palavras, o que também foi notado por Georgiana – mas temo que ainda seja um pouco cedo demais para que ela saia de casa. Faz apenas dois meses que as gêmeas nasceram.

 

   - É verdade... – concordou a moça – Acho que precisaremos ter um pouco de paciência. Mas por falar nas gêmeas, elas são realmente lindas, não são?

 

   - Sim, são. – respondeu abrindo um largo e espontâneo sorriso.

 

   - É estranho, porque nenhuma das duas se parece em nada com Wickham. Cassie ainda se parece um pouco com a mãe, mas Jenny... Ela me lembra alguém, mas quem? Talvez seja só impressão minha... Provavelmente deve ter puxado algum outro parente que não conheço.

 

   - Georgiana... 

 

   - Sim?

 

   - Há algo que preciso contar a você. Não é uma conversa... apropriada para uma moça, principalmente na sua idade, mas é preciso que saiba. Você é a pessoa mais importante da minha vida. Não posso continuar escondendo isso de você. 

 

   - Pelo amor de Deus, William! Está me assustando. O que há? – ela estava aflita.

 

   - A verdade é que... Você não é mais a pessoa mais importante da minha vida. Agora você é uma delas.

 

   - O que quer dizer? 

 

   - Eu... Eu sou pai, Georgiana.

 

   - O quê?

 

   - Eu sou o pai de Cassie e Jenny.

 

   - Está louco, William? 

   - Não, minha irmã. Eu e a Sra. Wickham tivemos um envolvimento enquanto estive no Hertfordshire no ano passado. Nós nos apaixonamos e ficamos noivos em segredo. – ele escolhia as palavras cuidadosamente. Não sabia como explicar aquele tipo de coisa à jovem e inocente Georgiana.

 

   - Noivos em segredo? – ela se sentia cada vez mais atordoada com aquela conversa.

 

   - Sim. 

 

   - Mas... Por quê? Se gostava dela, por que não a pediu em casamento formalmente? Eu não entendo.

 

   - Não sabe o quão culpado me sinto por não tê-lo feito. Mas a situação era complexa. O pai dela estava viajando e não sabia ao certo quando voltaria. Eu pretendia esperar por ele, naturalmente, para pedir a mão dela como se deve, mas as circunstâncias... As circunstâncias conspiraram contra nós.

 

   - Que circunstâncias?

 

   - Eu preferia não ter de lembrá-la disso, minha querida, mas quando sua preceptora me escreveu no outono passado contando sobre o estado em que você se encontrava, eu fiquei desesperado. Parti imediatamente sem conseguir me despedir de Elizabeth ou deixar alguma informação do que estava acontecendo. Ela me esperou, a princípio, mas após semanas sem notícias minhas, acreditou que eu a tivesse enganado. Como ela poderia ter concluído outra coisa? – perguntou amargurado mais para si mesmo do que para a irmã. – Quando ela descobriu que estava grávida, ficou desesperada e desabafou com Wickham, aquele patife, que, na época, fingia-se de amigo dela. Ele, tomado por sentimentos nobres de generosidade, é claro, – continuou com sarcasmo carregado – pediu-a em casamento. Obviamente, ela aceitou. Que outra opção uma mulher na condição dela teria? 

 

   - Então é minha culpa? É por minha causa que vocês dois se separaram? – perguntou Georgiana com a voz embargada e lágrimas nos olhos. Ela sempre se sentira culpada pela preocupação que causara a ele durante aquele período nefasto, mas sabendo da extensão dos danos provocados por sua conduta na vida do irmão, que sempre havia feito tudo por ela, sentiu-se ainda pior. Somente um ser humano desprezível causaria tanta dor a alguém tão querido.

 

   - Não! Não, Georgiana, eu não vou permitir que você se sinta minimamente responsável pelo que aconteceu! Olhe para mim. – ele tomou o rosto choroso da irmã entre suas mãos – Você foi uma vítima, assim como Elizabeth. Eu gostaria de poder dizer que Wickham foi o grande culpado, mas isso não é verdade. A culpa também é minha. Se eu tivesse sido mais responsável, se tivesse esperado pelo retorno do Sr. Bennet como deveria ou se tivesse alertado Elizabeth sobre o caráter de Wickham, tudo isso poderia ter sido evitado. 

 

   - Eu sinto tanto, William... O que aconteceu com vocês é tão... injusto! Mas há algo que não entendo. Por que Wickham pediu Elizabeth em casamento? O que ele ganharia com isso?

   - Dinheiro. Pouco tempo depois do casamento eles se viram em dificuldades e Wickham tentou me extorquir com uma carta alegando que se eu não enviasse ajuda financeira a mulher que eu amava e meu filho morreriam assassinados pelos marginais a quem ele devia dinheiro.

 

   - E o que você fez?

 

   - Ignorei a carta. Na época eu acreditava que Elizabeth fosse cúmplice dele nesse plano de extorsão. Cheguei até a pensar que ela havia se aproximado de mim justamente no intuito de casar-se comigo pelo dinheiro de nossa família. Hoje vejo o quão estúpido eu fui. E não posso deixar de pensar no que podia ter acontecido a ela vivendo com aquele crápula... Eu devia ter mandado o dinheiro.

 

   - Não, William. Isso era exatamente o que Wickham queria que você fizesse. Que você cedesse à chantagem.

 

   - Sim, Georgiana, mas e se Elizabeth realmente estivesse em risco? E se ela ficasse doente? Era inverno, eles viviam em Retford, no norte, onde o frio era ainda pior. Aposto que as condições da vizinhança eram, no mínimo, insalubres e se estavam devendo tanto, não deviam ter dinheiro suficiente para lenha. E se ela... se ela... – ele não conseguiu continuar. Georgiana o abraçou e afagou seus cabelos.

 

   - Está tudo bem agora, William.

 

   - Obrigado, Georgie. – disse com a voz embargada.

 

   - Pelo quê?

 

   - Por estar ao meu lado.

 

   - Não é isso o que as irmãs devem fazer?

 

   - É, acho que sim. – ele respondeu com um riso fraco.

 

   - Mas agora não é hora para se lamentar. O que está feito está feito. – disse a moça erguendo o rosto do irmão para encará-la – O importante é saber como agir agora. 

 

   - Eu sei. Durante o tempo que passei em Loundsley, após o parto das gêmeas, tive a oportunidade de falar com Elizabeth quando ela acordou. Eu pedi perdão a ela e também a pedi em casamento. Imaginei que ela relutaria um pouco, você sabe como ela é orgulhosa, mas achei que no fim aceitaria, nem que fosse pelo bem das gêmeas. Mas ela não aceitou. Eu não sei mais o que fazer, Georgie.

 

   - Você a ama muito, não é? – perguntou acariciando o rosto do irmão.

   - Sim, mais do que a minha própria vida. E sei que ela me ama também. Eu ouvi quando Edward Cavendish a pediu em casamento e ela recusou. Ela admitiu para ele que me amava. Não entendo porque ela não acaba de uma vez com isso! Por que ela tem de ser tão teimosa? 

 

   - William, tente analisar as coisas do ponto de vista dela. Ela se sentiu enganada e abandonada por você durante meses. Precisou se casar com um homem que não amava e ainda passou necessidade durante meses ao lado dele. Além disso, aposto que Wickham não foi o melhor dos maridos. Some tudo isso à personalidade naturalmente orgulhosa de Elizabeth, como você mesmo citou. É claro que ela agiria assim. Não seria ela se fizesse diferente.

 

   - Eu sei, mas o que mais eu posso fazer? Ela precisa ser racional, precisa pensar no que é melhor para as meninas e para nós dois também. Será que ela não vê que esse orgulho só está nos fazendo sofrer?

 

   - William, ela precisa ser racional, sim, mas você também não pode esperar que, depois de tudo, ela vá cair nos seus braços com essa facilidade. Francamente, meu irmão, eu esperava que você conhecesse mais sobre a natureza feminina e, principalmente, sobre o caráter de Elizabeth. Se você realmente a quiser de volta, vai ter de se esforçar mais. Precisa provar a ela o quanto a ama. Palavras não bastam. Lembre-se de que você já fez juras de amor eterno antes e, mesmo que não por culpa sua, não as cumpriu. Por que ela deveria acreditar em você agora?

 

   - Céus, porque eu a amo, Georgiana! Porque ela é o ar que eu respiro! Porque o rosto dela é a primeira imagem que surge na minha mente quando acordo e a última que vejo ao fechar os olhos antes de dormir! 

 

   - Então prove isso a ela! William, meu irmão, você precisa se colocar no lugar dela. Da perspectiva de Elizabeth, você a traiu uma vez e pode perfeitamente fazer isso de novo.

 

   - Mas que motivos eu teria para mentir agora?

 

   - Elizabeth não está sendo racional, William! Entenda isso! Assim como você, ela saiu muito machucada dessa história e acredito que os ferimentos dela levem mais tempo para cicatrizar do que os seus. Não estou dizendo que você não tenha razão, mas quero que você tente compreender que uma mulher que passa pelo que ela passou não se esquece tão facilmente do sofrimento. Você pelo menos já explicou a ela os motivos que o levaram a partir do Hertfordshire sem se despedir?

 

   - É isso! Eu vou contar toda a verdade a ela na primeira oportunidade! Quando souber de tudo, ela entenderá e acabará me perdoando, não é, Georgie?

 

   Georgiana estava surpresa por muitos motivos. Primeiramente, porque nunca imaginara ter uma conversa daquele tipo com seu irmão, sempre tão reservado e austero e, em segundo, por que nunca o vira tão inseguro em toda a sua vida. Aquela era definitivamente uma experiência totalmente nova para ela. Mas gostava da sensação. Sentia-se mais próxima de William do que nunca.

 

   - Meu irmão, o esclarecimento de tudo o que aconteceu com certeza vai ajudar na sua causa, mas não posso garantir que será o suficiente. – ao ver o desapontamento surgir nos olhos esperançosos de William, ela completou confiante - De qualquer forma, é o primeiro passo para um entendimento entre vocês.

 

   - Assim espero, minha irmã, assim espero. – e com um tom mais sombrio, continuou - Não posso perdê-la de novo Georgie. É mais do que eu posso suportar.

 

   Diante daquela declaração, Georgiana ficou sem resposta. Sabia que ele falava sério. Pudera sentir o peso da verdade em cada palavra. Ela tremia ao imaginar o que poderia acontecer se Elizabeth não concordasse em se casar com ele. Evitaria aquilo a qualquer custo. Segurou as duas mãos do irmão entre as suas e beijou sua testa. Já sabia o que precisava fazer.

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