Citações

O orgulho se relaciona mais com a opinião que temos de nós mesmos, e a vaidade, com o que desejaríamos que os outros pensassem de nós.(Jane Austen)

AS QUATRO ESTAÇÕES - O VERÃO (QUARTA PARTE) - CAPÍTULO I

  • PDF
  • Imprimir
  • E-mail

O Verão

Quarta Parte

 

Capítulo I

 

Get Adobe Flash player

The Beatles – Here Comes the Sun

   

   Naquela que era a noite mais curta do ano, Elizabeth pouco dormiu. Acordou diversas vezes para amamentar as meninas ou trocar suas roupas sujas. Na segunda tarefa, ela recebia ajuda de Susan, que permanecera no quarto para auxiliá-la com as crianças. No entanto, as gêmeas não podiam receber toda a responsabilidade pela noite em claro da mãe. Mesmo quando as duas adormeciam, ela não conseguia fazer o mesmo. Ficava horas acariciando os cabelos delas e admirando a dança das ondas brancas projetadas no teto do quarto pelo reflexo do luar nas águas da fonte no jardim. Enquanto assistia a esse espetáculo particular, relembrava o momento em que Darcy finalmente havia conhecido as filhas e um sorriso involuntário se formava em seus lábios.

 

   Ela ficara emocionada diante da reação dele. Naquele momento, quis abraçá-lo, beijá-lo e dizer-lhe que aceitava ser sua esposa. Mas as coisas não eram tão simples. As chagas que ele abrira em sua alma ainda não haviam cicatrizado. Com Darcy, ela vira o melhor e o pior de si mesma. Conhecera as emoções mais sublimes e piores sentimentos. Por que o amor tinha dessas controvérsias? Como algo tão doce podia causar tanta dor? 

   Por mais que houvesse sentido a verdade das palavras de William quando ele fora vê-la em seu quarto, ainda estava insegura. Se, por um lado, tinha certeza de sua sinceridade, por outro, sentia-se apreensiva. Havia acreditado nele uma vez e o resultado fora a pior decepção pela qual já passara. Ele afirmava que não a havia abandonado, que tivera motivos justos para partir sem dar notícias, mas não explicara mais do que isso. Como ela podia dar crédito a tais palavras depois de tudo o que sofrera?

 

   Seria possível um final feliz para a sua história? Conseguiria o sol renascer depois do inverno tenebroso no qual ela estivera imersa durante tantos meses? Não. O sol já havia renascido. Ao olhar pela janela e ver os primeiros sinais da aurora no horizonte, ela se deu conta de que sua vida já havia sido iluminada pelos dois anjos adormecidos que estavam diante dela. 

 

   - Vai ficar tudo bem, meus amores. Tudo vai dar certo se estivermos juntas. – sussurrou ela – A mamãe está aqui e não vai deixar nada de ruim acontecer.

 

   Os raios nascentes, que surgiam acanhados entre a larga abertura das cortinas, avançavam pelo chão do quarto até chegarem à beirada da cama. Elizabeth divertiu-se por um minuto com o movimento das partículas de poeira flutuantes reveladas pelo feixe luminoso antes de retornar para suas reflexões existenciais.

 

   Infelizmente, a alma dela ainda trazia uma lacuna que as gêmeas não podiam preencher. Esse espaço, ela sabia, pertencia única e exclusivamente a William Darcy. Como tudo seria mais fácil se ela pudesse esquecê-lo! Poderia aceitar o pedido de casamento de Edward Cavendish e viver feliz ao seu lado. Mesmo que não o amasse ainda, tinha muito respeito e estima por ele. Com o tempo, isso se transformaria em amor. Talvez não aquele sentimento arrebatador que ela e Darcy compartilharam, mas, certamente, companheirismo, lealdade e uma afeição sincera. Infelizmente, não poderia desposar um homem amando outro. Não cometeria aquele erro duas vezes. 

 

   Em seu primeiro casamento, ela sofrera muito. Não acreditava que pudesse se enganar com relação ao caráter de Cavendish como ocorrera com Wickham, mas, ainda assim, não desejava se unir a um homem sem amor. Ela só aceitara o pedido de George por não ter alternativa na época.  

 

   Dessa vez sua situação era diferente. Embora não desejasse depender da generosidade de Charles para sempre, sabia que podia contar com ele para o que fosse preciso. Ela e o cunhado haviam desenvolvido uma verdadeira relação fraternal desde que ela se instalara em Loundsley Park. Além disso, em último recurso, poderia retornar a Longbourn com as filhas. 

 

   Uma carta já havia sido enviada por Jane aos pais informando-os sobre o nascimento das gêmeas e convidando-os para passarem uma temporada em Loundsley. Na missiva, postada poucos dias antes, fora omitida a parte sobre as dificuldades do parto, para poupar os nervos da mãe. 

   Elizabeth também havia escrito à amiga Charlotte, com quem passara um longo tempo sem se corresponder. A pedido de Jane, convidou-a para uma visita e sugeriu que viesse com os Bennets.

 

   Quando o sol finalmente assumiu o seu lugar no céu claro da manhã, Elizabeth decidiu que era hora de deixar o quarto. Chamou Susan, que dormia numa cadeira ao lado do berço, para ajudá-la a se vestir e arrumar os cabelos. Quando ficou pronta, foi tomar o desjejum e deixou as gêmeas sob os cuidados da criada.

 

   Chegando à mesa, estranhou a ausência do cunhado e da irmã. Eles normalmente levantavam-se cedo. Quando finalmente se juntaram a ela, Elizabeth já se retirava.

 

   Enquanto o casal tomava o café da manhã, ela retornou ao quarto. As meninas haviam acordado e choravam a plenos pulmões, enlouquecendo a pobre Susan. Era hora de alimentá-las novamente. 

 

   Após algum tempo, Jane foi ter com ela. Elizabeth reparou que os olhos da irmã adquiriam um brilho diferente quando estava diante das meninas. Havia ternura, mas, ao mesmo tempo, uma certa tristeza mal disfarçada. 

 

   - Seria tão lindo se nossos filhos pudessem brincar juntos, Lizzy... Eu sonho com isso desde menina. 

 

   - Também sonho com isso, Jane. Seria realmente maravilhoso. – disse Elizabeth usando um tom que, esperava, fosse confortador.

 

   - Eu não entendo porque, depois de tantos meses de casamento, eu e Charles ainda não fomos agraciados com um filho...

 

   - Jane, essas coisas acontecem quando têm de acontecer. Não fique pensando assim. Você vai ver: quando chegar a hora, seu filho virá.

 

   - Será que há algo de errado comigo? Ou com Charles? Não, não poderia ser com Charles... Recebemos uma carta de Caroline na semana passada. Ela está na residência dos Hurst ajudando Louisa, que está grávida. Isso mostra que não há nenhum problema com relação a isso na família dele. Provavelmente o problema sou eu...

 

   - Jane, não diga isso! Acaso temos algum problema desta natureza em nossa família?

 

   - Bem, mamãe nunca conseguiu dar um herdeiro a papai. 

 

   - Mas, em compensação, deu cinco filhas a ele! Como uma família que tem cinco filhas pode sofrer de algum mal relacionado à fertilidade?

 

   - Eu não sei, Lizzy! Não entendo desses assuntos. Só sei que estou tão confusa... – ela disse com a voz embargada por um choro que não conseguiu mais conter.

   Elizabeth abraçou a irmã e fê-la deitar-se com a cabeça apoiada em seu colo. Ela alisava carinhosamente os cabelos loiros de Jane enquanto esta externava seu sofrimento. 

 

   - Tudo vai ficar bem, meu amor. Você não precisa se preocupar com isso. 

 

   - Eu não quero decepcionar Charles... – ela dizia entre soluços – Ele não merece uma esposa incapaz de gerar filhos.

 

   - Você não é incapaz de gerar filhos! E não vai decepcionar ninguém. Charles já lhe cobrou algo a esse respeito alguma vez?

 

   - Não. Ele não fala, mas eu percebo que também está chateado. 

 

   - Vocês... Têm se entendido bem nesse aspecto? – Elizabeth perguntou sem jeito.

 

   Jane corou.

 

   - Sim, nós nos entendemos muito bem. – e riu maliciosa – Na noite passada inclusive...

 

   - Jane! Eu realmente não quero saber das suas intimidades com o seu marido! – interrompeu Elizabeth rindo também. E continuou:

 

   - Querida, vocês dois são as melhores pessoas que conheço. Tenho certeza de que serão pais maravilhosos. A natureza não seria tão injusta a ponto de lhes negar essa dádiva.

 

   - Você acha? Eu fico imaginando Charles como pai... Acho que ele seria o melhor pai do mundo!

 

   - Nesse ponto preciso discordar. Nenhum pai é melhor do que o nosso, Jane. 

 

   - É verdade. Charles pode ser, então, o segundo melhor pai do mundo? 

 

   - Certo. Eu permito que ele fique com o segundo lugar. Nada mais justo. – disse Elizabeth com seu sorriso zombeteiro fazendo Jane rir.

 

   Nenhuma das duas sabia, mas dali a poucas semanas as regras de Jane não viriam como de costume. Elas não atrasariam um mês, como ela pensaria a princípio, mas nove. E ao final deste tempo, um lindo menino com cabelos cor de fogo nasceria. Mas antes destes acontecimentos, outros viriam.

 

   Jane e Elizabeth passaram a manhã no quarto conversando. Charles havia ido visitar alguns arrendatários e só voltaria para o jantar. À tarde, chegou uma carta do Hertfordshire anunciando que os Bennets partiriam para Lounsley o mais cedo possível levando consigo a Srta. Lucas, que, como informavam, estava prestes a se tornar Sra. Collins. Aparentemente, o Sr. Collins, primo e herdeiro do Sr. Bennet, encantara-se por Charlotte durante sua temporada em Longbourn.

   Após o jantar, Elizabeth aproveitou para fazer um convite muito especial. Ela desejava que o cunhado e a irmã fossem padrinhos da pequena Jane.

 

   - Lizzy... – Charles não conseguia encontrar as palavras diante do anúncio inesperado – Eu e Jane ficaríamos muito felizes e honrados em termos Jenny como nossa afilhada. – disse finalmente.

 

   - Não basta a homenagem que me fez ao batizá-la com o meu nome? Você está sempre nos surpreendendo, minha irmã. – Jane estava emocionada.

 

   - Surpreendendo? Ora, não sei porque. Depois de tudo o que fizeram por nós, é o mínimo que posso fazer para mostrar a minha eterna gratidão. Só não sei ainda quem serão os padrinhos da Cassie... Mas isso não tem importância. Não marcarei o batizado até que todos cheguem do Hertfordshire. 

 

   - E quanto à outra madrinha da Jenny? Você já pensou em alguém?

 

   Era costume que, no caso de crianças, fossem escolhidos três padrinhos: um casal e um outro do mesmo sexo que o afilhado.

 

   - Convidarei Charlotte. Acha que ela aceitará?

 

   - É claro! Ela vai ficar encantada com o convite, tenho certeza. – disse Jane.

 

   Os dias se passaram sem grandes ocorrências. Elizabeth dedicava todo o seu tempo às gêmeas. Por vezes, quando os Bingleys recebiam alguma visita, ela se juntava a eles, mas por pouco tempo. Logo retornava ao quarto e às filhas. Quando não estava envolvida com os assuntos da casa, entretendo convidados ou simplesmente ocupada com Charles, Jane passava seu tempo com a irmã e as sobrinhas. 

 

   Às vezes, levavam as gêmeas à sala de música para ouvirem a mãe tocar ou à estufa para verem as orquídeas. Aos poucos, as pequenas iam conhecendo o mundo que as cercava. Entretanto, elas jamais haviam saído da mansão.

 

   Um dia chegou à casa uma encomenda bastante peculiar. Nem Jane nem Elizabeth sabiam do que se tratava. Quando perguntaram, Charles disse que era um presente para as sobrinhas e para a cunhada. Ao abrirem o enorme caixote misterioso, descobriram um objeto que nunca haviam visto. Parecia uma espécie de cesta em formado de concha ricamente ornamentada. A cesta estava sobre um suporte de metal que tinha quatro rodas e uma espécie de arco que, aparentemente, servia para empurrar o conjunto.

 

   - Gostaram? Chama-se “carrinho de bebê”. Parece que foi inventado há muitos anos por um paisagista, cujo nome não me lembro, a pedido do Duque de Devonshire. Eu soube por alguns amigos que este carrinho tem se tornado bastante popular. Achei que seria ideal para Lizzy, que, desde o nascimento das gêmeas, não têm feito os seus tão amados passeios matinais. Agora você pode passear o quanto quiser pelos jardins sem se separar das meninas! – disse Charles cheio de entusiasmo.

   - Charles, eu não sei nem o que dizer... Esse carrinho deve ter custado uma fortuna! Não posso aceitar. – Elizabeth estava encantada e, ao mesmo tempo, pouco à vontade com o presente.

 

   - Querido, é maravilhoso! É perfeito para Lizzy! – Jane também estava muito excitada com a novidade – Não comece, Lizzy. É um presente. Você deve aceitá-lo.

 

   - Jane está certa. Não aceitarei uma recusa como resposta. Encomendei este carrinho com um conhecido em Londres pensando em você. Ficarei muito ofendido se não aceitá-lo. – Charles estava irredutível.

 

   - Está bem, Charles. Aceito o presente. Mas só porque não quero que fique chateado comigo. Já fizeram tanto por nós! Minha dívida para com vocês é imensurável. Não me sinto bem aceitando presentes tão caros.

 

   - Lizzy, por favor! Seremos padrinhos da Jenny. Qual é o problema em presentearmos a nossa afilhada e a irmã dela? – argumentou Jane.

 

   - Certo, você me convenceu.

 

   Planejaram fazer o primeiro passeio com o carrinho na manhã seguinte, entretanto, o tempo chuvoso obrigou-as a adiar o programa. Alguns dias depois, quando o clima finalmente parecia favorável, os Bennets e Charlotte chegaram.

 

   Todos ficaram encantados com as gêmeas. Kitty e Lydia não continham sua euforia infantil diante das sobrinhas. Adoravam auxiliar a irmã mais velha com as pequenas. Queriam sempre escolher as roupas, ajudar a dar banho e enfeitar os cabelos das duas como se estivessem brincando com bonecas. 

 

Get Adobe Flash player

McFly – Walk in the Sun

 

   A Sra. Bennet não se cansava de observar as netas, procurando em seus traços semelhanças com os diferentes membros da família.

 

   - Sr. Bennet! Olhe o narizinho da Cassie! Não se parece com o da Jane?

 

   - Sim, minha querida. Estou até começando a desconfiar que ela é filha de Jane e, não, de Lizzy. – respondia o Sr. Bennet com seu costumeiro humor sarcástico.

 

   - Oh, Sr. Bennet! Como pode dizer uma coisa dessas? Será que não presta a mínima atenção às suas próprias netas? Cassie pode ter o nariz de Jane, mas seu rosto é muito mais parecido com o de Lizzy!

 

   Ao contrário do que pensava a Sra. Bennet, o Sr. Bennet prestava, sim, muita atenção às netas. Quando acreditava que não havia ninguém observando, acariciava o rostinho das duas com as pontas dos dedos enquanto falava com elas bobagens de avô. Elizabeth já o havia flagrado mais de uma vez naquela situação, mas preferira deixá-lo acreditar que não era observado. Ela apenas ria sozinha vendo o pai se derreter pelas netas.

 

   Mary fora a única que manifestara pouco entusiasmo ao conhecê-las. Ela se mostrara muito mais interessada em explorar a invejável biblioteca de Loundsley. 

 

   Charlotte parecia ter desenvolvido um profundo instinto maternal depois do noivado. Ela sempre tivera talento para lidar com crianças, pois ajudara a mãe a cuidar dos irmãos mais novos, assim como Jane e Elizabeth, mas, na posição de futura esposa e mãe, esse talento se desenvolvera bastante. Quando Elizabeth a convidou para ser madrinha de Jane, junto com os Bingleys, Charlotte ficou felicíssima. Como Jane, ela já imaginava seus filhos brincando com as meninas de Elizabeth e dando continuidade à amizade das mães.

 

   No dia em que Elizabeth fez o tão esperado passeio com as filhas, foi acompanhada pelas irmãs e por Charlotte. Mary preferira ficar na mansão, entretida com seus livros, mas, diante da insistência das outras, acabou acompanhando-as. 

 

   Forraram o carrinho com mantas e lençóis, garantindo bastante conforto para as pequenas. Saíram pela manhã, quando o sol ainda não estava muito forte. Jane pedira que a Sra. Parkins preparasse uma cesta de piquenique. 

 

   Andaram e conversaram por cerca de meia hora, mantendo-se sempre nas proximidades da mansão. Todas riam e relembravam os tempos das brincadeiras infantis. Kitty, Lydia e Mary, que, apesar de não admitirem, sentiram muitas saudades das irmãs mais velhas depois dos casamentos destas, estavam aproveitando cada minuto da companhia delas. O amor fraternal das Bennets sempre fora muito forte, mesmo com os desentendimentos comuns entre irmãs, principalmente aquelas com personalidades tão distintas. Os Lucas e os Bennet tinham uma amizade tão antiga que Charlotte era considerada praticamente uma sexta irmã.

 

   O sol reinava absoluto no céu azul enquanto uma agradável brisa refrescava o clima. As frondosas árvores ofereciam sombras convidativas.

 

   Escolheram um local protegido pela densa copa de uma aveleira e estenderam as toalhas para o piquenique. Todas se acomodaram sobre a grama fofa e Jane começou a revelar o conteúdo da cesta. Havia uvas, pêssegos, maçãs e morangos; pãezinhos e biscoitos recém-assados; tortinhas de geléia e uma garrafa com limonada. 

 

   Comeram e ainda conversaram por um tempo antes de voltarem. Uma caminhada sob o sol era o remédio perfeito para aliviar a mente de Elizabeth de seus questionamentos e incertezas.

LAST_UPDATED2

 

Link us







Esqueceu seu login?
Sem conta ainda? Registrar

Conectados

Nenhum

Acessos


Hoje84
Neste mês2421
Desde Março de 200985443
Brazil flag 63%Brazil (49600)
United States flag 6%United States (4824)
Portugal flag 5%Portugal (3763)
Russian Federation flag 2%Russian Federation (1438)
Ukraine flag <1%Ukraine (473)
Germany flag <1%Germany (353)
France flag <1%France (318)
Netherlands flag <1%Netherlands (302)
United Kingdom flag <1%United Kingdom (302)
Latvia flag <1%Latvia (152)