Capítulo IX
The Beatles – Yesterday
Darcy cavalgava sob o sol matinal em direção a Loundsley Park. O vento desalinhava seus cabelos enquanto os campos do Derbyshire passavam despercebidos por ele. Estava totalmente imerso em suas reflexões.
Ele ainda se torturava com a culpa de ter sido o responsável por todo o sofrimento pelo qual Elizabeth passara. A reparação dos erros passados se tornara o seu principal objetivo desde que descobrira a verdade. Precisava convencer Elizabeth de que seu amor era verdadeiro, recuperar a confiança e o respeito dela e, finalmente, torná-la sua esposa. Infelizmente, ele não fazia idéia de como alcançaria suas metas.
Daria tudo para voltar ao dia em que recebera a carta da preceptora de Georgiana. Não sabia como, mas arranjaria uma forma de avisar Elizabeth sobre os motivos de sua partida e assegurá-la de sua volta. Ou então escreveria uma carta ao Sr. Bennet pedindo a mão dela em casamento. Depois que tudo havia passado, era tão fácil achar respostas para as questões que, na época, pareciam insolúveis! Entretanto, o que ele mais queria era poder ter Elizabeth em seus braços novamente, beijá-la como havia feito nos campos do Hertfordshire e torná-la sua mulher sob um sol poente. Ah, como ele queria poder voltar ao passado!
Refletindo sobre tudo o que ocorrera entre eles desde o dia em que se conheceram, Darcy concluiu que o principal culpado por sua separação havia sido Wickham. É claro que algum crédito deveria ser dado à falta de confiança que ele e Elizabeth haviam demonstrado um pelo outro, mas, William estava certo, nada daquilo teria acontecido se o crápula não houvesse ludibriado e magoado sua jovem e ingênua irmã. Não fosse por Wickham, Georgiana jamais teria entrado no estado de depressão que a fizera adoecer obrigando o irmão a retornar a Pemberley sem sequer se despedir de sua amada. Se George Wickham não estivesse morto, William o esganaria com as próprias mãos.
Entretanto, o tempo de vinganças e ressentimentos já havia passado. Era preciso concentrar-se no futuro. Darcy sorriu ao pensar que era pai de duas meninas, fruto de seu amor por Elizabeth.
Ele completou o curto percurso em pouco tempo. Chegando a Loundsley, foi recebido por um alegre Charles Bingley, que tratou de informar imediatamente o amigo sobre a boa saúde de Elizabeth e suas filhas. Aliviado pelas excelentes novas, William abriu um largo sorriso, que logo se desfez ao chegar à sala de música. Lá estavam Jane, Elizabeth e, para seu desagrado, Edward Cavendish.
Radiante com o fim do período de resguardo, Elizabeth tocava um divertimento qualquer ao piano enquanto uma risonha Jane e um deslumbrado Cavendish assistiam. Ela estava mais bela do que ele jamais havia visto. Seu corpo havia voltado às antigas formas, entretanto, a maternidade lhe acentuara as curvas. Ela usava um vestido castanho escuro que realçava sua silhueta. Os cabelos estavam, como sempre, presos em um coque displicente. Mas o que deixara Darcy realmente encantado fora o sorriso iluminado que ela exibia enquanto tocava. O brilho no olhar que o atraíra quando se conheceram estava de volta.
- Bom dia, Darcy! – cumprimentou-o alegremente Cavendish.
- Bom dia. – respondeu William de má vontade.
Jane o saudou cordialmente, enquanto Elizabeth apenas fez uma reverência e permaneceu calada. Ele notou que o sorriso dela desaparecera.
- Como está Georgiana? – perguntou Jane.
- Muito bem. Ela foi convidada para almoçar na residência de Lady Russel, por isso não veio.
Elizabeth adquiriu uma expressão ainda mais severa ao ouvir aquele nome, o que fez Darcy sorrir internamente.
- Nesse caso o senhor se juntará a nós para o almoço. Não podemos deixá-lo almoçar sozinho em Pemberley! – brincou a Sra. Bingley.
Ele aceitou o convite e reparou que Elizabeth revirou os olhos diante de sua afirmativa. Reaproximar-se dela seria mais difícil do que ele imaginara.
- Enquanto a refeição não é servida, por que não toca mais um pouco para nós, Lizzy? – perguntou Charles.
Elizabeth aquiesceu e retornou ao piano. Enquanto ela coloria o ar com suas notas alegres, alheia aos olhares intensos de Darcy e Cavendish sobre si, Jane refletia a respeito do que a irmã lhe confidenciara em seu quarto na noite anterior.
Ela lhe narrara toda a sua história com Darcy, assim como ele próprio havia feito com Charles semanas antes. Por fim, contara sobre o encontro secreto encoberto pelo cunhado e suas dúvidas quanto aos sentimentos expressos por William tanto na discussão no jardim quanto naquele encontro. Primeiramente, Jane ficara sentida por Elizabeth e Charles terem lhe ocultado os fatos por tanto tempo. Charles ainda estava respaldado por aquele ser um segredo da cunhada e do amigo, não cabendo a ele revelar o que quer que fosse à esposa, mas Elizabeth deveria ter confiado nela. As duas sempre foram tão amigas e confidentes! Entretanto, era contra a natureza de Jane permanecer chateada com alguém e esse momento durou apenas alguns segundos. Imediatamente, concluiu que a irmã tivera motivos mais do que suficientes para querer guardar aquela história para si e ficou mortificada por todos os sofrimentos pelos quais ela passara naquele tempo. Logo já estava se culpando por ter se aborrecido com ela.
Ali, assistindo enquanto os dois cavalheiros amigos de seu marido se deslumbravam com a irmã, Jane analisava a situação. Havia muito que ela já notara as atenções do Sr. Cavendish para com Elizabeth. Quanto ao Sr. Darcy, ela apenas percebera uma certa animosidade entre eles, mas acreditou que tudo não passava de antipatia mútua. Nunca imaginara que houvesse uma história tão complexa por trás. Ela procuraria observar melhor para descobrir o que ele sentia realmente por Elizabeth.
Quando o almoço foi servido, o grupo se dirigiu para a grande mesa no salão ao lado. O prato do dia foi um apetitoso peixe assado com molho de ervas finas. Tratava-se do resultado da pescaria realizada por Bingley e Cavendish mais cedo naquela manhã.
Estavam em meados de junho, ou seja, a época perfeita para os morangos. Sendo assim, para a sobremesa, foi servida uma bela torta com as frutas da estação.
Terminada a refeição, todos foram para a varanda aproveitar a brisa da tarde. O dia estava levemente abafado, então, um pouco de frescor seria bem-vindo. Conversaram por um tempo, até que uma criada veio avisar que as meninas haviam acordado, obrigando Elizabeth a se ausentar para amamentá-las. Jane acompanhou a irmã.
Os cavalheiros permaneceram na varanda. O Sr. Cavendish era naturalmente um excelente interlocutor e naquele dia em particular, encontrava-se extremamente bem-humorado. Essa era a combinação infalível para uma conversa agradável. Até mesmo Darcy precisava admitir que estava entretido.
Quando Elizabeth e Jane retornaram, trouxeram as gêmeas. As duas meninas estavam lindas em vestidinhos de algodão. A pequena Jane usava um modelo cor-de-rosa, enquanto Cassandra vestia um azul-claro. Os cabelos de ambas estavam parcialmente ocultos por pequenas toucas que combinavam com os vestidos.
Darcy não conseguiria colocar em palavras a emoção que sentiu naquele momento. Saber que era pai e conhecer as filhas eram sensações bem distintas. A segunda era infinitamente mais intensa do que a primeira. Naquele momento, ele teve certeza de que daria a sua vida para protegê-las de qualquer mal se fosse preciso.
Ele estava tão absorvido pela descarga emocional do momento que não percebeu o olhar atento e sensibilizado de Elizabeth. Ela própria estava tocada ao ver a reação dele diante das filhas. Por mais que tentasse erguer sua muralha de indiferença e frieza, a avalanche de emoções derrubava a fortaleza impedindo-o de disfarçar o que sentia.
- Elas não são lindas? – perguntou Jane a seus convidados.
- São as duas criaturas mais adoráveis que já vi! – respondeu Cavendish rindo e brincando com Cassandra.
Elizabeth, que trazia Jane no colo, aproximou-se discretamente de Darcy.
- Gostaria de segurá-la um pouco? – ela perguntou a um fio de voz.
- Eu... Acho que não sei como fazê-lo... – mas ela já lhe entregava a criança.
- Não há mistério algum. – disse ela enquanto endireitava o bebê nos braços do pai – Apóie a cabecinha dela em seu braço. Isso mesmo! Viu como não é difícil?
Ele segurava a filha desajeitado, mas, ainda assim, aquela era uma bela cena. Darcy olhava para a menina que carregava extasiado. Elizabeth limpou rapidamente uma lágrima furtiva.
- Ela tem os seus olhos. – sussurrou.
Darcy fez que sim com a cabeça.
- Mas os cabelos são escuros como os seus. – murmurou ele em resposta.
Cavendish, que segurava Cassandra demonstrando um pouco mais de habilidade do que Darcy, aproximou-se do casal.
- Não são dois anjos, Darcy? – ele perguntava sorridente.
- Certamente. – William respondeu seco.
- Deixe-me segurar um pouco esta. – disse ele entregando Cassandra a Elizabeth e pegando Jane.
Elizabeth percebeu a fúria com que William olhava para Cavendish diante do gesto deste e interveio antes que uma desgraça ocorresse:
- Tome, Sr. Darcy, o senhor ainda não segurou a Cassie. – disse entregando a menina a ele.
A atitude de Elizabeth pareceu surtir o efeito esperado e a fúria de Darcy por ter a filha tomada de seus braços por seu rival foi aplacada pela substituição desta pela irmã. Com Cassandra nos braços, ele esqueceu qualquer aborrecimento e dedicou-se a admirá-la, como havia feito com Jane.
Cavendish afastou-se deles com Jane nos braços, indo ao encontro dos Bingley e permitindo que Darcy e Elizabeth pudessem mais uma vez partilhar um momento de intimidade com a filha.
- Cassie se parece mais com você. – ele falou.
- Exceto pelos cabelos. – ela completou.
- Sim... Os cabelos lembram os de Georgiana quando nasceu.
- Acho que já é hora de levarmos as meninas de volta, Lizzy. – disse Jane aproximando-se deles com Jane no colo.
- Certo. – ela tomou Cassandra dos braços do pai – Vamos, então.
As duas se retiraram e voltaram poucos minutos depois.
- Acho que depois de todo esse tempo de resguardo eu preciso urgentemente de uma caminhada. – declarou Elizabeth.
- Concordo inteiramente. Todos sabemos que é uma excelente andarilha, minha cara, e acho que já foi demasiadamente privada de tal prazer. Creio até que vou acompanhá-la.
- Eu também. – interveio Darcy rapidamente – Acho que estou precisando de uma caminhada.
- Sendo assim, vamos todos! – propôs Charles.
- Ótima idéia, querido. – aquiesceu Jane.
O grupo saiu para o passeio pelos jardins de Loundsley. Elizabeth, Jane e Cavendish iam à frente, enquanto Darcy e Bingley seguiam mais afastados.
- Percebo que você e Lizzy estão se entendendo melhor. Foi bonito vê-los com as meninas.
- Sim. – Darcy respondeu sisudo.
- Então será que eu posso saber o motivo da sua expressão tão séria? Está começando a me amedrontar. – brincou Bingley.
- Você não percebe como ele olha para ela? Parece um gavião rondando sua presa!
- Quem? Do que está falando? – Charles o olhava sem entender.
- De Cavendish, é claro! Veja como ele está sempre cercando Elizabeth! – apontou para o grupo a sua frente. Cavendish falava algo enquanto as duas damas riam sonoramente.
- É bastante claro o interesse dele nela, mas jamais vi Lizzy dar qualquer encorajamento a uma afeição mais profunda do que amizade.
- Ele não precisa de encorajamento!
- Ainda não entendi o motivo da sua irritação. Ele gosta dela, mas ela não gosta dele. Até aí, não vejo como isso prejudica você.
- Não gosto dele, é apenas isso.
- Darcy, você conhece Cavendish há anos! Sempre se deram muito bem. Não sei o que ele pode ter feito para que sua opinião a respeito de um antigo amigo mudasse tão drasticamente. Mas se quer saber a minha opinião, acho que isso está parecendo ciúmes.
- Ciúmes? Só os fracos e inseguros sentem ciúmes.
- Ora, Darcy, pelo amor de Deus! Todos somos fracos e inseguros quando amamos! Além disso, Lizzy não caiu aos seus pés quando você se declarou a ela. Isso mostra que a sua posição nas afeições dela não está tão garantida quanto você imaginava.
- O que você quer dizer com isso?
- Que ela pode até não corresponder os sentimentos de Cavendish agora, mas se ele continuar ganhando espaço, é bem provável que ela “caia nas garras do gavião”.
- E o que você sugere que eu faça?
- Para começar, seria bom você interagir com ela ao invés de perder o seu tempo aqui comigo!
- Mas ela não quer falar comigo! E mesmo que quisesse, eu já disse a ela tudo o que eu tinha para falar.
- O que está havendo com você? Não precisou de tantos conselhos para conquistá-la da primeira vez. Aliás, você se mostrou um conquistador bastante experiente nessa ocasião. – disse Charles com um olhar malicioso.
Darcy enrubesceu.
- Não havia tantas complicações antes.
- Eu desisto! Faça como achar melhor. Mas estou avisando: se não for rápido, Cavendish vai passar a sua frente. – e dizendo isso se afastou de Darcy para juntar-se ao trio.
William ficou pensativo. Ele desejava reconquistar Elizabeth mais do que qualquer outra coisa, mas não sabia por onde começar. Quando desfrutaram daqueles poucos minutos de intimidade com as filhas, ele teve suas esperanças renovadas, mas, ao saírem para caminhar, foi o braço de Cavendish que ela aceitou. Como saber o que ela realmente sentia? Será que já o tinha apagado completamente de seu coração?
Ele enveredou por uma aléia que levava às proximidades do bosque. Andando distraído, começou a ouvir vozes. Seguiu o som e avistou duas figuras entre as árvores.
- A senhora já deve ter percebido – era a voz de Cavendish – que eu a amo com todo o meu coração. Nunca senti isso por mulher alguma. Desde a primeira vez em que a vi, sua inteligência vivaz e sua fibra moral me cativaram. Aceite ser a minha esposa. Eu darei tudo à senhora e às meninas. Nada jamais lhes faltará. Prometo amá-las como se fossem minhas próprias filhas.
- Sinto muito, senhor, mas não posso corresponder a sua afeição. Fico lisonjeada pelos sentimentos que afirma sentir, mas não desejo nada além de amizade de sua parte. Meu coração pertence a outro. Embora saiba que, considerando-se a minha atual situação, sua oferta seja irrecusável, não poderia aceitá-la amando outra pessoa. Seria injusto com o senhor e incompatível com o meu caráter.
- É Darcy, não é? Sei que não amava seu falecido marido tanto assim. A senhora jamais fala nele e quando alguém o menciona não se entristece ou mostra qualquer sentimento mais profundo. Já Darcy... Eu percebo a maneira como se olham.
William não podia ver, pois Elizabeth estava de costas para ele, mas ela corara violentamente.
- Eu... Eu...
- Meu Deus! Vejo que a Sra. Wickham ficou sem palavras! Mas que situação insólita! – brincou Cavendish para tentar amenizar a tensão.
- Meu coração é e sempre foi dele. Não importa que ele não o mereça. Eu o amo desde que o conheci e vou amá-lo até o dia em que morrer. – respondeu decidida.
- Eu entendo. Não esperaria nenhum sentimento menos apaixonado vindo da senhora. – ele respondeu com um sorriso triste - Mas saiba que se mudar de idéia, estarei sempre esperando. Sabe, Sra. Wickham, não estou acostumado a ser rejeitado. Devo admitir que a sensação não é muito agradável.
- Tenho certeza de que um dia o senhor encontrará uma mulher que mereça a sua afeição. – respondeu Elizabeth com um sorriso compreensivo.
- Certamente, mas até lá permanecerei um solteiro convicto e um conquistador incorrigível.
Ambos riram.
- É melhor voltarmos... Já devem estar sentindo a nossa falta. – disse Elizabeth para quebrar o silêncio desconfortável que se instalara após os risos.
Darcy estava exultante. Elizabeth rejeitara Cavendish e ainda confessara amá-lo! Se ainda restasse alguma dúvida sobre o caráter dela em seu coração, teria se dissipado naquele momento. Com um sorriso triunfante ele voltou pelo caminho que o levara até aquele recanto. Não se lembrava quando fora a última vez em que se sentira tão leve.
FIM DA TERCEIRA PARTE














