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A não mudar nunca de opinião podemos chamar de teimosia. Mudar de opinião com conhecimento de causa é a ação de alguém dotado de inteligência. (Jane Austen)

AS QUATRO ESTAÇÕES - A PRIMAVERA (TERCEIRA PARTE) - CAPÍTULO VIII

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Capítulo VIII

 

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Avril Lavigne – Keep Holding On

 

   A situação de Elizabeth tornava-se cada vez mais complicada. A intensa hemorragia demorara a ser controlada deixando-a sob o risco de um choque hipovolêmico, que seria letal. 

 

   Após algumas horas, Jane tocou levemente a testa da irmã ainda desacordada e percebeu que ela estava febril. Todos entraram em pânico. O medo de uma infecção estava sempre presente, pois ela poderia acarretar a temida febre puerperal, responsável pelo grande número de mortes das parturientes. 

 

   As crianças eram cobertas de cuidados e passavam bem, para a surpresa de Cassandra. Algumas criadas ficaram responsáveis por elas, sendo supervisionadas de tempos em tempos pela parteira, que, assim como Jane, concentravam seus esforços em Elizabeth.

   Uma ama de leite havia sido providenciada para alimentá-las enquanto a mãe se encontrasse enferma.

 

   Ao fim de quatro dias, Elizabeth ainda não havia apresentado uma melhora significativa. A febre baixava após a ingestão de alguns dos medicamentos caseiros produzidos por Cassandra, mas logo voltava. Felizmente não ocorreram novos sangramentos.

 

   Darcy permanecera em Loundsley durante todo o tempo. Ele não se alimentava direito e nem dormia, mesmo diante da insistência de Charles e da Sra. Parkins, a governanta. A angústia lhe tirava o apetite e o impedia de ter um sono tranqüilo. Quando sucumbia diante do cansaço, acordava pouco tempo depois com um pesadelo ou apenas com a preocupação constante. 

 

   Já havia enviado uma carta a Georgiana deixando-a a par dos acontecimentos, sem, é claro, mencionar o seu envolvimento direto na situação. A jovem Srta. Darcy manifestara o desejo de partir imediatamente para Loundsley, mas seu irmão a demovera daquela idéia. Ele pedia em suas cartas que ela permanecesse em Pemberley com suas preces pela Sra. Wickham. Ele próprio orava mais do que de costume. Era tudo o que podia fazer.

   Uma semana após o parto, Darcy decidiu pedir a Charles para ver Elizabeth. Havia muito que desejava fazê-lo, mas não tivera coragem suficiente para pedir. A princípio, Bingley relutou, mas acabou concordando. 

 

   Quando a febre de Elizabeth cedeu por mais do que algumas horas, Jane e Cassandra acharam seguro sair do quarto para comer algo e deixaram uma criada velando o sono da doente. Charles aproveitou a oportunidade para levar Darcy até o aposento. Ele dispensou a criada e pediu-lhe para que não comentasse nada a respeito daquilo com sua patroa. Ficou no corredor atento para o retorno da esposa enquanto o amigo entrou no quarto.

 

   Darcy sentiu seu estômago afundar ao deparar-se com a imagem de Elizabeth. Ela nunca lhe parecera tão frágil. Um pano úmido repousava sobre sua testa. Gotículas de suor brilhavam na face pálida e abatida. A mão esquerda pendia para a lateral da cama. Os cabelos longos e desalinhados estavam esparramados pelos travesseiros.

 

   Ele se aproximou e sentou-se na cadeira à cabeceira, antes ocupada pela criada. Segurou a mão dela delicadamente. Estava fria. William sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo.

 

   Ali, repousando lânguida sobre o leito, com seus lábios alvos e mãos geladas, ela lhe parecia quase sem vida. Ele não se lembrava de jamais haver sentido tanto medo.

 

   - Lizzy... – ele disse com a voz embargada – Volte para mim, amor.

 

   Elizabeth não deu sinais de tê-lo ouvido ou sequer ter percebido sua presença no quarto. Ele continuou:

 

   - Não posso perder você, Lizzy. Eu não sobreviveria. – fez uma pausa e respirou fundo antes de prosseguir – Sei que errei muito e que não mereço o seu perdão. Nada do que eu diga ou faça vai mudar o que passou. Creio que este é o meu castigo... 

 

   Ele soltou um riso cansado e triste. Aquele era o pagamento por todos os seus erros. O destino o estava castigando pela sua irresponsabilidade, sua falta de confiança e seu orgulho através de Elizabeth. Ela estava sendo tirada dele para redimir seus pecados. Mas por quê? Por que tinha de ser ela a sofrer para castigá-lo? Por que não era ele ali estirado e sem forças?

 

   - Eu me sinto tão impotente, meu amor... – as lágrimas escorriam por sua face – Por mais que eu queira, não há nada que possa fazer! Deus sabe que eu daria tudo para poder trocar de lugar com você! Daria a minha vida por você e pelas meninas sem pestanejar.

 

   Num impulso ele beijou a mão dela, que ainda mantinha segura na sua, mas não obteve reação alguma como resposta.

 

   - Não consigo mais viver sem você, Lizzy. Eu tentei, mas é insuportável. E a simples idéia de perdê-la para sempre me causa mais dor do que eu jamais imaginei ser possível sentir! Por favor, querida. Eu e as meninas precisamos de você. Seja forte. Você precisa lutar. Eu estarei sempre ao seu lado. Nunca mais vou deixá-la. É uma promessa.

   Ele roçou a mão suavemente pelo rosto de Elizabeth e beijou-lhe a testa. Dessa vez ela se remexeu levemente e abriu os olhos com dificuldade.

 

   - William... – murmurou ainda em estado de torpor.

 

   - Estou aqui, meu amor. – ele limpava as lágrimas enquanto um sorriso radiante iluminava seu rosto.

 

   Aos poucos ela parecia dar-se conta de onde estava.

 

   - O que está fazendo? Como entrou aqui? Onde está Jane? – ela estava agitada e confusa.

 

   - Calma, meu bem. Jane foi comer algo e Charles aproveitou a oportunidade para me trazer aqui. 

 

   - Charles... – sua confusão apenas aumentara.

 

   - Eu contei a ele sobre nós dois. Ele já sabe tudo o que ocorreu desde o dia em que nos conhecemos.

 

   Não fosse sua palidez devida à perda excessiva de sangue, Elizabeth teria ruborizado.

 

   - Então ele sabe que as meninas...

 

   - São minhas filhas. – completou – Sim, ele sabe. 

 

   - E por que deixou você vir até aqui? – ela parecia irritada, ainda que fraca.

 

   William ficou confuso com aquela pergunta.

 

   - Como assim? Eu pedi para ver você e ele me ajudou...

 

   - Ajudou? Então você disse a ele que foi um canalha comigo? Que me abandonou depois de conseguir o que queria? E ainda assim ele o ajudou? Pensei que Charles tivesse mais consideração por mim...

 

   - Lizzy, eu já lhe disse que não a abandonei. 

 

   - Ah, desculpe-me. Que nome você dá, então, ao ato de partir sem se despedir e nunca mais dar notícias?

 

   - Como você pretendia que eu lhe explicasse os meus motivos ou desse notícias? Por cartas? Endereçadas a uma moça solteira sem nenhuma relação comigo ou com a minha família?

   - Então me explique agora, porque eu estou curiosíssima! – ela disse com sarcasmo carregado.

 

   - Eu preferiria que deixássemos essa conversa para um outro momento. – por mais que desejasse contar toda a verdade a Elizabeth, sabia que aquela não era a hora mais adequada. Ela ainda estava muito debilitada. Não era recomendável que sofresse grandes emoções, e aquela seria, com toda a certeza, uma conversa chocante.

 

   Lembrava-se de que ela havia dito durante a discussão que Wickham não valia o chão em que pisava. Certamente Elizabeth percebera, com o convívio, o crápula que era o marido, mas ele sabia que ela provavelmente não tinha idéia da extensão de sua baixeza. Ficaria abalada ao descobrir o que ele, o homem que a ajudara no momento de máxima necessidade, fora capaz de fazer com uma inocente jovem de quinze anos, que ela conhecia e considerava uma amiga. E mais ainda ao saber que não foram a generosidade ou a grandeza de espírito os motivadores para a sua proposta de casamento, mas, sim, a ganância e o desejo de vingança.

 

   Ela não pareceu muito satisfeita com a resposta. Achou que ele estava querendo fugir do assunto e que não possuía uma explicação convincente para sua atitude no passado. Percebendo isso, ele tentou se redimir:

 

   - O que importa agora é que estamos juntos novamente. Vamos nos casar e criar as nossas meninas. Quero envelhecer ao seu lado, Lizzy. Quero que nossos filhos e netos sejam testemunhas do nosso amor. – ele falou sorrindo.

 

   - Então você realmente acha que vou lhe dar algum crédito depois de tudo o que me fez passar? – ela parecia ultrajada.

 

   - Lizzy, que motivos eu teria para enganá-la? – ele tentava a todo custo convencê-la de sua sinceridade.

 

   - Eu não sei. Mas como posso confiar em você?

 

   - Querida, amor, seja razoável. Tudo o que eu quero é ficar com você, cuidar de você e das nossas filhas até que a morte nos separe! Eu a amo, Elizabeth. E sei que você ainda sente o mesmo por mim.

 

   - Como pode ser tão presunçoso? – ela estava revoltada – Pois saiba que o senhor morreu para mim no dia em que foi embora.

 

   - Elizabeth, para que esse orgulho agora? Para que esse fingimento? Em que isso nos ajudará? Tente ser racional e verá que eu estou certo. Por favor, querida, esqueça o que passou. Sei que você sofreu muito e não há um dia em que eu não me culpe por isso, mas deixe-me reparar o meu erro. Deixe-me fazê-la feliz.

 

   Ela ficara sem resposta. Não queria ceder tão facilmente. Seu orgulho ferido não o permitiria. Mas, por outro lado, ela o amava e seu coração disparara quando o ouvira dizer que queria passar o resto da vida ao lado dela. Além disso, não tinha muitas opções. Como criaria duas meninas sozinha e sem dinheiro? Jane e Charles não a deixariam desamparada, mas não queria ser para sempre dependente da generosidade deles. William também precisava assumir a responsabilidade pelas filhas e elas não mereciam crescer sem um pai. 

 

   Antes que pudesse dar uma resposta, Charles bateu à porta.

 

   - Darcy, precisamos ir. Jane já está voltando!

 

   Ele pegou a mão de Elizabeth com um movimento ágil, beijou-a e se foi. Ela riu sozinha com o ridículo daquela situação.

 

   Poucos minutos depois, Jane e a parteira voltaram ao quarto. A irmã não cabia em si de felicidade por encontrá-la acordada. Cassandra também estava muito contente e a informou sobre o estado de suas filhas. Segundo ela, as meninas passavam bem e estavam ganhando peso aos poucos.

 

   - Graças a Deus! – ela exclamou com lágrimas nos olhos ao ouvir a notícia – Será que eu posso vê-las?

 

   A parteira foi buscá-las, enquanto Jane inquiria à irmã sobre seu estado. Diante da possibilidade de Elizabeth estar desenvolvendo uma infecção, Cassandra achara mais prudente transferir as crianças para um outro aposento. Ela voltou carregando uma das meninas enquanto a outra era entregue por uma das criadas a Jane.

 

   - Eu ainda não lhe agradeci por sua ajuda, Sra. Hill. – disse Elizabeth segurando os dois bebês ao mesmo tempo.

 

   - Não precisa, Sra. Wickham. Eu apenas fiz o mínimo que se espera de um ser humano: prestar auxílio a um semelhante em um momento de necessidade. – ela respondeu humildemente.

 

   - Ora, não seja tão modesta, Cassandra! Você precisava ver, Lizzy! Ela cuidou de você e das meninas como se fossem parentes dela. Não descansou um minuto sequer. – Jane dizia com lágrimas nos olhos.

 

   - Você está me dando todo o crédito, Jane, mas não se esqueça de que sua ajuda foi fundamental. Eu jamais havia visto alguém tão dedicada à família.

 

   Realizar um parto arriscado e cuidar da mãe e das crianças durante as complicações são atividades que invariavelmente aproximam quem toma parte nelas. Sendo assim, a Sra. Bingley e a Sra. Hill já se tratavam pelo nome de batismo e consideravam-se amigas.

 

   - Lizzy, você já pensou nos nomes que vai dar às meninas? – perguntou Jane.

 

   Ela e a parteira haviam conversado sobre aquilo durante a refeição e estavam muito curiosas para saber qual seria a escolha de Elizabeth.

   - Darei a elas os nomes das duas mulheres que as salvaram.

 

   As duas ficaram tão surpresas que não souberam o que dizer diante de tamanha homenagem. 

 

   - Lizzy, eu... – começou Jane.

 

   - A senhora tem certeza? – perguntou Cassandra.

 

   - Sim. Já está decidido. Elas vão se chamar Jane e Cassandra. – respondeu a mãe enquanto admirava suas crianças.

 

   Jane tinha cabelos castanhos e olhos azuis como o céu primaveril da manhã em que nascera, enquanto Cassandra possuía cabelos louros muito claros e olhos amendoados. 

 

   - Elas são lindas, não são? – perguntou Jane vendo o deslumbramento da irmã.

 

   - Sim, são as duas criaturas mais belas que já vi. Parecem que herdaram a beleza da tia. – brincou – Deus queira que também herdem o gênio!

 

   As três riram gostosamente. Cassandra conhecera o suficiente de Jane para saber que ela era uma criatura dócil e meiga, porém forte nas horas difíceis.

 

   Os dias se passaram tranqüilos e Elizabeth se recuperava rapidamente. Ela não tivera mais febre e nem sangramentos. As meninas também continuavam se desenvolvendo bem, principalmente depois que passaram a ser alimentadas com o leite materno.

 

   Darcy já havia retornado a Pemberley, porém fazia visitas freqüentes levando consigo Georgiana, que ficara encantada pelas pequenas. 

 

   Elizabeth e ele não se viram mais depois do encontro encoberto por Charles. Quando ia a Loundsley, sempre permanecia na sala com o amigo. Apenas Georgiana era levada ao quarto.

 

   Ele já havia sido informado sobre a escolha dos nomes das meninas e a homenagem que ela trazia. Apesar de surpreso, ele concordava com a decisão não só porque achara os nomes bonitos, mas também por considerar a homenagem mais do que merecida.

 

   Um mês após o parto, Elizabeth já se considerava totalmente restabelecida e ansiava pelo fim do período de resguardo. Ela possuía um espírito livre e não conseguia ficar por muito tempo presa entre quatro paredes. 

 

   A parteira já havia retornado à sua residência no vilarejo, mas ainda fazia visitas freqüentes para verificar o estado de Elizabeth e das crianças. Estas já estavam maiores e mais roliças, para a alegria de todos. 

   Os dias tornavam-se cada vez mais quentes e longos. O solstício de verão se aproximava. 

 

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