Citações

Nossa situação é perfeitamente idêntica. Não temos nada para contar uma à outra; você, por não ter nada a comunicar ; e eu, por nada ter a esconder. (Jane Austen)

AS QUATRO ESTAÇÕES - A PRIMAVERA (TERCEIRA PARTE) - CAPÍTULO VII

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Capítulo VII

 

   - Socorro! – gritou William no auge de sua angústia.

 

   Sua voz ecoou pelos jardins de Loundsley e logo os outros vieram correndo. Diante da emergência, ninguém pensou na impropriedade da situação em que os dois se encontravam momentos antes, exceto, é claro, pela Sras. Palmer e Metcalf, que, como tantas outras, gostavam de fofocar e especular sobre a vida alheia.

 

   O Sr. Cavendish imediatamente ajudou Darcy a carregar Elizabeth e, juntos, eles a levaram para a mansão. Charles foi imediatamente mandar um criado a Lambton buscar o Dr. Andrews. 

 

   Elizabeth foi colocada em seu quarto, onde Jane e duas criadas a despiram, deixando-a apenas com uma leve camisola. As outras duas senhoras ofereceram-se para ajudar, mas eram muito histéricas e atrapalhadas. Uma delas quase desmaiou ao ver o sangue nas roupas.

 

   - Saiam daqui! – gritou Jane irritada, para o espanto de todas. As duas, assustadas, foram para a sala, onde os cavalheiros esperavam.

 

   - Acho melhor irmos embora, Alfred. – disse a Sra. Metcalf para o marido – Não creio que possamos ser de grande auxílio nessa situação. Nossa presença aqui apenas atrapalharia.

 

   - Concordo inteiramente. Vamos, Thomas? – falou a Sra. Palmer. As duas estavam muito desconfortáveis e desejavam sair de Loundsley o mais rápido possível.

 

   - Certamente, Fanny. – respondeu Thomas Palmer – Bingley, se precisar de qualquer coisa, não hesite em nos chamar.

 

   - Digo o mesmo. Agora é melhor irmos. – o senhor Metcalf, assim como o Sr. Palmer, parecia compartilhar do desconforto da esposa.

   - É claro. Muito obrigado. – respondeu Charles ainda transtornado.

 

   Darcy estava isolado num canto andando de um lado para o outro. Por um momento ele parou e olhou pela janela. O céu estava carregado. As nuvens, aos poucos, se acumulavam. Parecia que a chuva estava a caminho.

 

   - William, não acha melhor partimos também? – Georgiana, diferente dos outros casais, estava realmente preocupada com o incômodo que sua presença poderia causar naquela situação.

 

   - Eu não sairei daqui. – ele respondeu resoluto.

 

   - Pode ir conosco, Georgiana, querida. – respondeu a Sra. Metcalf, que ainda não havia partido – há lugar na carruagem. Podemos perfeitamente deixá-la em Pemberley.

 

   A moça parecia incerta quanto à resposta. Olhou para o irmão, que fez sinal afirmativo com a cabeça.

 

   - Está certo. Mas mande notícias assim que puder. – ela se voltou para o outro cavalheiro remanescente - Sr. Cavendish, o senhor não vem? 

 

   Ele estava sentado em uma poltrona de costas para a varanda. Parecia totalmente absorto em suas reflexões e não deu sinais de haver ouvido a moça.

 

   - Sr. Cavendish? – ela insistiu.

 

   - Sim? – respondeu ele menos simpático do que o habitual.

 

   - O senhor não vem conosco?

 

   Ele refletiu por um minuto. Não queria ir embora, mas, ao mesmo tempo, não encontrava uma boa justificativa para ficar. Sabia que os outros comentariam bastante a decisão de Darcy de permanecer lá, embora não possuísse laço algum com a Sra. Wickham ou com sua família. Seu bom senso acabou vencendo e ele concordou em partir, mas não sem reiterar o pedido da Srta. Darcy por notícias.

 

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Adrian Johnston – To Be Apart

 

   As carruagens logo deixaram Loundsley. No interior da mansão, entretanto, o clima era de ansiedade e preocupação. No primeiro andar, Charles tentava, em vão, acalmar o amigo. Ele acreditava que Darcy estava nervoso àquele ponto por ter sido ele o primeiro a encontrar Elizabeth passando mal no jardim sem tirar, é claro, o mérito dos sentimentos que ele sempre desconfiara que o amigo nutrisse por sua cunhada.

 

   - Darcy, acalme-se pelo amor de Deus! Não vai ajudar Elizabeth se enfartar aqui na minha sala!

   - Como você pode brincar em um momento como este, Charles? – William disse com desprezo enquanto fuzilava o amigo com o olhar.

 

   - Não estou brincando. Acha que não estou preocupado? Lizzy é como minha irmã! Além disso, Jane não suportaria se algo de errado acontecesse a ela ou ao bebê.

 

   - Você não entende. – disse ele com um suspiro.

 

   - Eu entenderia se você me dissesse o que está havendo. Pensa que ainda não percebi que há algo de muito errado em toda essa história? Não sou tão tolo quanto você imagina.

 

   - Eu jamais pensei tal coisa. 

 

   - Então pare de me tratar como se eu fosse estúpido e me diga logo o que está acontecendo! – Charles estava exaltado. Os ânimos de todos estavam alterados naquela noite.

 

   - Está bem. Eu vou lhe contar. Preciso mesmo desabafar isso com alguém.

 

   - Ótimo. Vamos para a biblioteca. Lá teremos privacidade. 

 

   Eles entraram no luxuoso aposento e se sentaram nas duas poltronas de espaldar alto que havia entre as estantes, em frente a uma grande janela. Lá, Darcy abriu totalmente seu coração para Charles. Contou-lhe tudo: desde o dia em que conhecera Elizabeth até a cena do jardim.

 

   Charles ouviu ao relato boquiaberto. Nem em suas suposições mais mirabolantes ele imaginou algo semelhante àquilo. 

 

   - Meu Deus, William! – foi tudo o que conseguiu balbuciar ao fim.

 

   Darcy nada respondeu. Após seu desabafo, ele se fechou como uma ostra e mergulhou em suas próprias tristezas. O remorso o corroia por dentro. Como ele pudera pensar tão mal de Elizabeth? Não tinha prova alguma da veracidade de tudo o que ela lhe dissera durante a discussão, mas aquilo não importava no momento. Ele vira a verdade em seus olhos. Sua raiva e ressentimento transpareciam a cada palavra cuspida por ela em sua face. E mesmo que ainda não acreditasse, isso não mudaria o fato de que a amava e se preocupava com ela.

 

   Ele sabia que a gravidez de Elizabeth estava sendo complicada e que ela, inclusive, havia sofrido uma hemorragia pouco tempo antes de seu reencontro. Além disso, o sangue que ele havia visto no chão quando a amparara no jardim não era normal naquela situação, e o desmaio só tornava tudo ainda mais alarmante.

 

   Todas aquelas reflexões o atormentavam. Ele já havia se levantado e recomeçava a caminhar de um lado para o outro, quando um trovão atraiu sua atenção para a janela. A tempestade se anunciava.

   Em seguida uma criada veio avisar que o médico não se encontrava em Lambton, mas o rapaz que Charles enviara para buscá-lo trouxera, em seu lugar, uma parteira experiente e bastante conhecida na vila. Darcy não gostou nada daquela notícia. A idéia de entregar as vidas de Elizabeth e seu filho, nas mãos de uma parteira e, não, nas de um médico experiente e conceituado deixava-o bastante apreensivo. Entretanto, ele não tinha escolha. 

 

   A mulher foi conduzida até o quarto da parturiente. Ela já estava acordada e mordia os lábios enquanto apertava as mãos da irmã tentando, em vão, aliviar um pouco a dor das contrações que sentia. O sangramento já havia sido estancado. 

 

   - Sra. Bingley – falou a criada – essa é a Sra. Cassandra Hill. Ela é a parteira do vilarejo. Fez os partos de todos os meus irmãos e o meu inclusive.

 

   Jane, pela primeira vez, desviou os olhos do rosto da irmã e focou-se na mulher que entrara no aposento. Ela usava roupas simples e algumas mechas de seus cabelos grisalhos escapavam da touca que os prendia. Seu rosto era sereno, porém os olhos castanhos possuíam uma vivacidade que transmitia segurança. Sentiu uma confiança inexplicável naquela mulher que sequer conhecia. Mas sua razão lhe dizia que um médico seria mais indicado no caso de Elizabeth.

 

   - O que aconteceu com o Dr. Andrews?

 

   - Ele está fora de Lambton, senhora. Parece que precisou ir a Kent resolver alguns problemas de família.

 

   - Entendo. Bem, Sra. Hill, eu não a conheço, mas acredito que seja uma excelente profissional. Por favor, ajude a minha irmã... – ela se esforçava para manter-se firme. Não podia chorar. Elizabeth precisava de seu apoio.

 

   - Fique tranqüila, Sra. Bingley. Farei o que for possível. Já vi muitos casos parecidos com o da Sra. Wickham. Pelo que Nancy me contou, ela já sofreu um sangramento antes, não é isso? E também está entrando em trabalho de parto antes da hora?

 

   Nancy corou. Não queria parecer mexeriqueira. Só havia explicado a situação à Sra. Hill durante o trajeto até o quarto para ajudar. 

 

   - É isso mesmo. Ela ficou acamada durante pouco mais de um mês depois do sangramento. E há pouco ela sofreu uma nova hemorragia e entrou em trabalho de parto. – Jane tinha muitas preocupações em sua mente. Não havia espaço para julgar a conduta da criada. Além disso, mesmo em seu estado normal, ela era incapaz de fazer mau juízo de alguém.

 

   - Certo. Vamos precisar de muitos panos e água quente.

 

   - Susan, vá buscar o que a Sra. Hill pediu. 

   - Imediatamente, senhora. – disse a criada, que assim como Nancy, estava ali para auxiliar.

 

   A atenção das duas voltou-se novamente para Elizabeth. Sem as mãos de Jane para apertar, ela cravava suas unhas na madeira da cama. 

 

   - Jane... – ela gemia.

 

   - Está tudo bem, Lizzy. – respondia a irmã tentando confortá-la – A Sra. Hill é muito experiente. Ela vai cuidar para que nada de ruim aconteça.

 

   Trovões fizeram-se ouvir e, em seguida, o som da tempestade invadiu o quarto. Fecharam as janelas, acenderam a lareira e buscaram algumas cobertas. A chuva esfriaria o ambiente e precisavam evitar, a qualquer custo, que Elizabeth pegasse um resfriado.

 

   As contrações se intensificavam. A princípio, elas duravam poucos segundos e ocorriam com alguns minutos de intervalo. Mas, com o passar do tempo, tornaram-se mais longas e menos espaçadas.

 

   Após algumas horas que mais pareciam séculos, ela sentiu um líquido escorrer pela parte interna de suas coxas. 

 

   - O que está acontecendo? – ela perguntava arfante.

 

   - A bolsa se rompeu. – respondeu Cassandra enquanto limpava o líquido com um dos panos trazidos por Susan.

 

   Ela soltou mais um gemido de dor em resposta. Após o rompimento da bolsa, as contrações tornaram-se ainda mais intensas. Cassandra ajudou-a a posicionar-se da forma mais confortável possível. Ela flexionou as pernas e as abriu.

 

   Elizabeth nunca sentira tanta dor em sua vida. Ela desejava gritar, mas estava exaurida de forças. Já se sentia fraca por causa do sangramento e a dor a estava esgotando. Quando pensou que não suportaria mais, a parteira foi até a sacola de pano que havia trazido e retirou um frasco. Depois, despejou um pouco de seu conteúdo em um dos copos que se encontrava sobre uma mesinha e diluiu com água.

 

   - O que é isso? – perguntou Jane.

 

   - É um concentrado de anêmona dos prados com folhas de framboesa e mais algumas outras ervas. Está bem fresco, pois preparei ontem à noite. Trago sempre um pouco comigo.

 

   - Para que serve?

 

   - Vai ajudá-la a relaxar além de aliviar o sofrimento.

   Entregou o copo a Jane que levou aos lábios da parturiente. Ela sorveu a mistura sem reclamar. Por pior que fosse o gosto, qualquer coisa era melhor do que aquela dor insuportável.

 

   - Você vai precisar empurrar agora, querida. – disse Cassandra gentilmente.

 

   Ela queria perguntar onde aquela mulher pretendia que ela arranjasse energia para empurrar, mas as palavras não saíam de sua boca. Tudo o que ela conseguia fazer era gemer e arfar.

 

   - Vamos, Lizzy, empurre. – disse Jane enquanto pegava novamente a mão da irmã.

 

   Ela apertou a mão de Jane com tanta força que os dedos desta começaram a ficar roxos. Com a outra mão, segurava uma das colunas da cama para se apoiar. Juntou toda a força que conseguiu para tentar expulsar o bebê de dentro dela. Fazia tanto esforço que sua mente parecia estar em branco. Não sabia se estava vazia de pensamentos ou se estes passavam tão rápido por sua cabeça que formavam um turbilhão ininteligível.

 

   - Já estou vendo a cabecinha! Continue empurrando! – exclamava a parteira enquanto puxava cuidadosamente a criança.

 

   - Oh, Meu Deus! – Jane estava emocionada.

 

   Àquela altura, Elizabeth já gritava. Não lhe importava que todo o Derbyshire lhe ouvisse. Tudo o que queria era o fim daquele suplício. 

 

   Cassandra e Jane lhe falavam algo, mas ela já não ouvia. Estava alheia a tudo. Só conseguia pensar no bebê. Queria que nascesse logo. Precisava senti-lo em seus braços, onde ele estaria protegido de qualquer perigo.

 

   Um choro fraco pôde ser ouvido e seu alívio foi imediato. Porém, por pouco tempo. As contrações recomeçaram e ela sentiu necessidade de empurrar novamente. Depois de algum tempo outro choro misturou-se ao primeiro.

 

   A parteira cortou os cordões das duas crianças e entregou-as a uma exausta Elizabeth.

 

   - São duas meninas, Lizzy! – dizia Jane entre lágrimas.

 

   As duas recém-nascidas eram tão pequenas que superavam por pouco o tamanho das mãos da mãe. Cassandra observava a cena com preocupação estampada em seu rosto. Chamou discretamente Jane para longe da cama e sussurrou enquanto duas criadas limpavam os bebês com água morna e os enrolavam em mantas:

 

   - Sra. Bingley, sinto muito, mas preciso alertá-la. Devemos estar preparadas para o pior. É raro que crianças nessas condições sobrevivam.

 

   - Oh, céus! – Jane levava as mãos à boca – Acha mesmo que não há esperança?

   - Talvez haja, mas não devemos nos iludir. Farei o que estiver ao meu alcance, mas temo que as filhas de sua irmã não vingarão.

 

   - Obrigada por sua sinceridade, mas eu manterei a minha fé. Lizzy não suportaria perder as filhas. Farei qualquer coisa para salvá-las.

 

   - Sua devoção à sua irmã é admirável. É realmente tocante. – disse a parteira sorrindo tristemente.

 

   - Não sei o que faríamos sem a senhora. Nunca poderei agradecer-lhe o suficiente, Sra. Hill.

 

   - Sra. Bingley! – uma das criadas gritou interrompendo-as.

 

   As duas se voltaram imediatamente para Elizabeth. Ela estava tendo uma nova hemorragia. 

 

   - Não se preocupe, esse sangramento é normal. – disse Cassandra para tranqüilizar Jane. 

 

   Ela estava expelindo a placenta, o que era de se esperar. Entretanto, o sangramento persistiu.

 

   - Ela está perdendo muito sangue! – exclamou Jane, aflita.

 

   Elas tentavam estancar o derramamento, mas o volume de sangue perdido era muito grande. Logo, Elizabeth desfaleceu. Seus lábios estavam brancos, assim como o rosto. Os cabelos úmidos com o suor gerado por tanto esforço grudavam na pele também molhada. 

 

   A manhã já estava em seu fim quando, no quarto, iniciava-se a batalha pela vida da parturiente e sua prole. A chuva da noite anterior havia cessado e as nuvens davam lugar a um belo céu ensolarado. Enquanto isso, na sala, um homem se torturava com seus próprios pensamentos e emoções.

 

   A falta de notícias estava enlouquecendo-o. Ele precisava saber o que se passava com Elizabeth. Se algo acontecesse a ela ou ao bebê, jamais se perdoaria.

 

   - Darcy, pelo amor de Deus, você precisa se acalmar! - exclamou Charles. Ele já não agüentava mais ver o amigo andando por sua biblioteca.

 

   - Como você pode me pedir uma coisa assim depois de tudo o que lhe contei? Será que ainda não entendeu, Charles? Eu sou o pai daquela criança! Eu amo Elizabeth com todas as minhas forças e não posso fazer absolutamente nada para ajudá-la!

 

   - Eu compreendi perfeitamente, Darcy. Apenas estou tentando ser racional.

 

   - Racional? Eu não tenho condições de ser racional!

   Naquele momento uma criada veio informar que Elizabeth havia dado à luz duas meninas, mas que seu estado ainda era delicado. As emoções de Darcy, que já estavam à flor da pele, ficaram ainda mais confusas. Ele se sentia simultaneamente feliz, surpreso, preocupado e temeroso. 

 

   Tentou seguir o conselho de Charles e sentou-se para acalmar os nervos, mas sem muito sucesso. Logo se levantou e recomeçou a andar. Aquele dia seria longo. 

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