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Metade do mundo não consegue compreender os prazeres da outra metade.(Jane Austen)

AS QUATRO ESTAÇÕES - A PRIMAVERA (TERCEIRA PARTE) - CAPÍTULO VI

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Capítulo VI

 

   Os dias se seguiram sem ocorrências notáveis. Após o sarau, os Bingley tornaram-se bastante populares na região, sendo freqüentes os convites para jantares, chás e festas.

 

   - Lizzy, acaba de chegar um convite de Lady Shelley para tomar chá essa tarde. Parece que ela convidou Lady Russel e a filha também.

 

   - Ah, que bom. – disse Elizabeth tentando soar casual. Ela sentia sua raiva aflorar com uma simples referência à Srta. Russel. 

 

   - Tem certeza de que não quer que eu fique para ajudá-la com o enxoval? Posso mandar um bilhete a Lady Shelley me desculpando. 

 

   - Não, Jane, você deve ir. Eu vou ficar bem. Não precisa se preocupar.

 

   - Está certo, mas se houver qualquer problema não hesite em mandar um criado me chamar.

 

   Elizabeth assegurou-a de que avisaria imediatamente caso algo ocorresse. Após a partida de Jane, ela foi para a sala de música continuar a confecção do enxoval do bebê. Gostava daquele ambiente, pois era aconchegante e bem iluminado pelo sol da tarde. Enquanto a irmã e o cunhado compareciam aos eventos sociais, ela se dedicava aos preparativos para o nascimento, que deveria acontecer dali a pouco mais de dois meses. Jane a ajudava sempre que podia tricotando ou indo a Lambton comprar algumas peças, mas com tantos compromissos sobrava-lhe pouco tempo.

 

   Naquela tarde, o céu estava límpido e o ar perfumado pelo doce aroma das flores. Elizabeth admirava a beleza natural pela janela e não resistiu: abandonou seu trabalho e foi passear um pouco.

 

   Seu desejo inicial era permanecer nas proximidades da casa, mas acabou se afastando sem perceber. Perdida em pensamentos, seus pés acabavam por conduzi-la. Ela andava devagar: sua barriga estava enorme e ela se cansava rapidamente. De vez em quando parava sob a sombra das frondosas árvores para se recuperar do esforço.

   Quando deu por si, estava diante do lago. Exatamente no mesmo lugar onde ela e William haviam se beijado. Fechou os olhos e sentiu a brisa fresca afagar-lhe o rosto. Logo, grossas lágrimas molhavam sua face. Escorou-se no tronco de um salgueiro e, com dificuldade, sentou-se entre suas raízes. 

 

   Ela deixava as lágrimas correrem livremente. Precisava pôr uma parte do que sentia para fora. Chorar ali, sozinha, aliviava um pouco seu coração. Quando o pranto cessou, ela permitiu-se desfrutar daquela paisagem exuberante. Os arbustos de lavanda floresciam às margens do lago enquanto as cotovias cantavam alegres encobertas pelas volumosas copas das árvores. 

 

   Acabou adormecendo. Estava sentindo mais sono do que o normal nos últimos meses e, além disso, o esforço físico da caminhada a havia extenuado.

 

   Um par de olhos azuis veio visitá-la em seus sonhos, como era freqüente. Ela reviveu, como tantas outras vezes, a cena do beijo. Sentia-se levitar, mas, ao mesmo tempo, uma pesada carga em sua alma a trazia de volta à Terra. Não sabia como explicar o que sentia. Eram emoções tão diferentes, mas pareciam se fundir.

 

   Quando finalmente acordou, a noite já se anunciava.

 

“Espero que Jane não tenha voltado ainda! Não quero que ela fique preocupada com meu sumiço.”

 

   Para sua sorte, a irmã ainda estava na residência de Lady Shelley. Assim, ela pôde voltar a tricotar na sala de música. 

 

   Quando Charles chegou, Jane ainda não voltara. Ele havia ido visitar alguns conhecidos em Lambton pela manhã, e, como sempre, estendera-se demais nas conversações. Falaram amenidades por um tempo, até que Jane finalmente chegou.

 

   - Oh, Lady Shelley e Lady Russel são adoráveis! E a Srta. Russel também é um encanto. Todas tão gentis...

 

   - Fico feliz que tenha aproveitado tão bem a sua tarde, querida. Agora vamos jantar? Eu e Lizzy estamos famintos. Estávamos esperando você chegar para comermos.

 

   - É claro! Pobrezinhos, não precisavam se sacrificar por minha causa... E Lizzy! Você não devia ficar tantas horas sem comer! Precisa se alimentar! Oh, céus! Vou pedir à Sra. Parkins que sirva logo o jantar.

 

   A conversa durante a refeição foi animada. Elizabeth estava se divertindo com o cunhado e a irmã, até que ele disse:

 

   - Estou com saudades de Darcy e Georgiana. Há tempos que não os vemos! Vamos convidá-los para jantar amanhã?

   - É uma excelente idéia, meu querido! Sinto falta deles e tenho certeza de que Lizzy também. Ela e Georgiana se dão tão bem, não é, Lizzy?

 

   - Sim, é claro. – ela disse tentando esconder suas emoções. Por mais que adorasse Georgiana, a perspectiva de se encontrar com o irmão dela novamente não era nada agradável.

 

   Após o jantar, Elizabeth foi tocar um pouco de piano enquanto Jane e Charles conversavam, mas logo todos decidiram ir dormir.

 

   O dia seguinte trouxe consigo um céu de baunilha. Não estava propriamente nublado, mas havia grandes nuvens esparsas. Parecia-se com uma tela azul onde alguém havia dado pinceladas despreocupadas com tinta branca.

 

   Elizabeth levantou-se sem ânimo. Permaneceu a maior parte do tempo em seu quarto alegando cansaço. Jane pediu às criadas que servissem as refeições da irmã lá. Ela não pode fazer companhia a Elizabeth, entretanto, pois estava atarefada com os preparativos do jantar.

 

   Embora adorasse a companhia de Jane, Elizabeth não lamentou por isso. Queria um tempo para ficar sozinha e pensar. Antes de adormecer diante do lago no dia anterior, ela havia refletido sobre o rumo que sua vida havia tomado. Decidira que a única forma de atingir pelo menos uma parte do que acreditava ser a felicidade seria esquecer William por completo. Mas essa era uma tarefa difícil com todo o convívio entre os Darcys e os Bingleys.

 

   Mais do que nunca ela estava decidida a deixar Loundsley tão logo seu filho nascesse. Voltaria para Longbourn, onde era o seu lugar. Sabia que Jane ficaria desapontada, mas era o melhor a ser feito. A irmã nutria esperanças de que ela passasse a viver em Loundsley indefinidamente. A princípio, a idéia não lhe parecera tão ruim, uma vez que, em sua situação, ela não possuía muitas alternativas. Mas quanto mais tempo passava na companhia de William, mais ela se sentia sufocada. 

 

   À noite, Jane foi pedir-lhe que se aprontasse para o jantar. Elizabeth pensou em dar uma desculpa e ficar no quarto, mas já havia passado o dia todo lá. Precisava sair um pouco daquele ambiente. Escolheu um vestido castanho bastante sóbrio e prendeu os cabelos num coque severo.

 

   Quando desceu, Elizabeth avistou o Sr. Cavendish, os Palmers e os Metcalfs, além dos Darcys.

 

   - Você não me avisou que haveria tanta gente. – ela sussurrou para Jane ao pé da escada.

 

   - Desculpe, Lizzy. Eu estive tão ocupada enviando os convites que acabei me esquecendo. Mas os Palmers e os Metcalfs são muito agradáveis. Pensei que gostasse deles.

   - Não tenho nada contra. Mas também nada a favor.

 

   Jane revirou os olhos.

 

   - Aproveite para conhecê-los melhor essa noite. Tenho certeza de que sua opinião vai mudar.

 

   - Sem dúvidas. A questão é: a mudança será para melhor ou pior?

 

   - Ah, Lizzy, eu desisto! Não sei o que fazer com você!

 

   - Jane, eu já lhe disse que você está cada dia mais parecida com a mamãe?

 

   - Não. Por que diz isso?

 

   - Por nada, querida. Vamos? Seus convidados estão esperando.

 

   As duas cumprimentaram a todos e se sentaram para conversar. A noite estava mais quente do que o normal, então as portas da varanda foram abertas para refrescar o ambiente. Entretanto, logo se viu que não era suficiente. As damas abanavam-se com seus leques e os cavalheiros afrouxavam discretamente suas gravatas.

 

   - Que tal passearmos um pouco pelo jardim? – propôs Jane.

 

   Todos aceitaram prontamente. A sugestão havia sido excelente: lá fora, entre a vegetação, uma brisa suave soprava amenizando o calor.

 

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McFly – She Falls Asleep

 

   O grupo logo se dispersou pelos caminhos do jardim. Elizabeth caminhava conversando com Georgiana. Um pouco atrás delas, os cavalheiros conversavam, entre eles, Darcy, mas este apenas observava a irmã e Elizabeth, sem realmente participar da conversa. 

 

   Jane andava com as senhoras mais à frente e chamou Georgiana um momento. Parecia que uma delas desejava perguntar algo à menina.

 

   Elizabeth, vendo-se sozinha, embrenhou-se por um caramanchão onde cresciam algumas trepadeiras floridas. Ela sabia que aquele caminho levava à estufa, mas, antes, havia um recanto com um banquinho de onde era possível observar os campos que se estendiam além dos jardins.

 

   De vez em quando uma flor lhe chamava a atenção e ela parava para admirá-la. Ah, como ela adorava aquela época do ano! Tudo parecia ganhar vida nova! De todo o coração desejava que aquela atmosfera a contagiasse e provocasse a renovação também nela.

 

   Avistou o banquinho ao fundo do corredor de trepadeiras. Apressou um pouco seu passo e sentou-se nele soltando um suspiro. Aquele era definitivamente seu local preferido em todo o jardim. Entre os ramos da planta ela podia ver os últimos resquícios de raios solares que ainda apareciam ao longe, além dos campos. O canto dos rouxinóis no bosque podia ser ouvido dali.

 

   Subitamente, ouviu alguém se aproximando. Ao virar-se, ela se deparou com William.

 

   Ele a havia seguido até ali, mas, quando finalmente a alcançara, não sabia o que fazer. Imaginara aquela cena milhares de vezes. Ensaiara o que diria, porém, ali, diante dela, não conseguia reunir as palavras para dizer o que queria. 

 

   O luar penetrava pelas folhas da trepadeira e banhava a grama com seu brilho argentino, contrastando com os poucos raios dourados restantes no horizonte. Elizabeth também parecia ter sido atingida pela chuva prateada. Seus cabelos e, principalmente, seus olhos faiscavam com aquela luz branca.

 

   O primeiro impulso dela, ao vê-lo, foi levantar-se, mas seu estado a impedia de executar essa ação com a agilidade desejada. Ele lhe estendeu a mão, que ela aceitou. Ao se pôr de pé, porém, soltou-a imediatamente.

 

   Ficaram se encarando sem dizer uma palavra. Ela sustentou o olhar dele. Tentava desvendar sua expressão. 

 

   - Sr. Darcy, acho melhor voltarmos... – ela tentava sair daquela situação embaraçosa o mais rápido possível. Não queria repetir a cena do lago.

 

   - Por quê? – ele a interrompeu. 

 

   Ela permaneceu um minuto calada tentando entender o que ele perguntava.

 

   - Porque é impróprio que nos vejam juntos aqui, nesse local deserto...

 

   - Não. Por que você se casou com o crápula do Wickham? – seu tom era urgente.

 

   - Eu... – ela pensou em sua resposta por um momento. O que ele queria com aquelas perguntas? – Eu não acho que lhe deva satisfações...

 

   - Por que? Por que com aquele verme? 

 

   - Eu não vou admitir que fale assim do meu falecido marido! Ele podia não valer o chão que pisava, mas tinha muito mais caráter do que você!

 

   Darcy a olhava estupefato. Ela continuou:

 

   - Ele me ajudou quando mais precisei, quando você virou as costas para mim, e por isso eu serei sempre grata. Então não abra a sua boca imunda para falar mal dele!

   - Do que está falando? Eu fui embora e menos de dois meses depois você ficou noiva dele!

 

   - Por que você foi embora? Por que me abandonou sem dizer uma palavra? – ela não conseguiu mais conter o choro.

 

   - Eu precisei! Não pude explicar na época, mas eu ia voltar! Por que você não me esperou? – ele também estava alterado.

 

   - Esperar por você? E como eu poderia saber se você voltaria ou não?

 

   - Por que, Elizabeth? Por que? O que te impediu de esperar por mim? – seu tom era mais de súplica do que de interrogação.

 

   - O que você acha? Por que pensa que me casei com Wickham tão rápido? – sua voz passara de exaltada para gélida.

 

   Uma idéia passou pela cabeça de Darcy. Não, não podia ser. Mas seria possível?

 

   - Você... Você estava...

 

   - Eu estou. – e olhou discretamente para a barriga.

 

   - Essa criança... Esse bebê...

 

   - É um Darcy. – respondeu no mesmo tom frio.

 

   Ele parecia haver levado uma bofetada.

 

   - Não... Não pode ser... Por que você nunca me contou?

 

   - Ah, claro! Por que eu nunca escrevi uma carta ao homem que me abandonou sem nem ao menos se despedir? 

 

   - Eu não a abandonei! Lizzy, eu amava você! Eu amo você! 

 

   - Você nunca me amou, William! Você nunca teve sequer respeito por mim!

 

   - Não é verdade...

 

   - Eu nunca vou perdoá-lo pelo que me fez! Nunca! Você me prometeu amor eterno, casamento, mas era tudo mentira! Tudo mentira... – ela chorava novamente.

 

   - Lizzy, eu... – ele tentou ampará-la, mas ela se desvencilhou.

   - Não toque em mim! Você pensa que eu sou um objeto que pode usar sempre que quiser e depois jogar fora? É isso o que pensa de mim? – ela cuspia as palavras, mas, de repente, soltou um grito de dor e segurou o ventre com as mãos. 

 

   - Lizzy? Você está bem? – ela estava prestes a desfalecer, quando ele a segurou.

 

   - Meu bebê... Vai nascer... – foi tudo o que ela conseguiu murmurar antes de desmaiar.

 

   William olhou para o chão. Uma pequena poça de sangue podia ser vista. Ele entrou em desespero.

 

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