Citações

Não tenho medo de mostrar meus sentimentos e de fazer coisas imprudentes, pois acredito que o que não se mostra, não se sente.(Jane Austen)

AS QUATRO ESTAÇÕES - A PRIMAVERA (TERCEIRA PARTE) - CAPÍTULO IV

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Capítulo IV

 

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Enya – Amarantine

 

   O grupo permaneceu diante do lago aproveitando a bela paisagem e o clima agradável até que o céu estivesse banhado pelos matizes alaranjados do pôr-do-sol. 

 

   - Acho que já é hora de voltarmos. Preciso dar à Sra. Parkins as instruções quanto ao jantar. – disse Jane fazendo menção de se levantar.

 

   Charles imediatamente ficou de pé e estendeu sua mão para ajudar a esposa a descer da raiz em que estava sentada. Ofereceu a outra mão a Georgiana, que se encontrava ao lado de Jane. Darcy, posicionado logo atrás do amigo, viu-se, então, obrigado a auxiliar Elizabeth.

 

   Com relutância, ele estendeu sua mão, que ela, receosa, aceitou. 

 

   Aquele simples toque provocou uma verdadeira descarga elétrica nele. Era o primeiro contato físico entre eles desde o crepúsculo outonal. Ele a olhou e viu que as maçãs de seu rosto estavam coradas. Apesar disso, ela mantinha a cabeça erguida.

 

   Permaneceram alguns segundos assim: encarando-se sem dizer uma palavra. Ouviam as risadas dos Bingleys e de Georgiana ao longe. O grupo se distanciava sem perceber a ausência deles. Sabiam que estavam sozinhos e o quão imprópria era a situação, mas, naquele momento, as normas sociais pareciam pertencer a uma realidade distante, quase surreal. 

 

   À luz do sol poente, era impossível não se lembrar de seu último fim de tarde juntos no Hertfordshire. Darcy percebeu que os olhos dela estavam marejados. Uma lágrima silenciosa escorreu e ele, instintivamente, secou. Ela estremeceu quando a mão dele roçou em seu rosto. Ele, então, sentiu um incontrolável impulso de beijá-la. 

 

   Delicadamente, ele segurou o rosto dela com as duas mãos e se aproximou. Ambos tinham a respiração ofegante. Seus lábios se encontraram, a princípio, de forma desajeitada. Apenas roçavam um no outro. Mas, à medida que sentiam a saudade reprimida por tanto tempo aflorar, intensificavam o beijo e as carícias. 

   Darcy posicionou sua mão nas costas dela e puxou-a para si. Elizabeth jogou os braços ao redor do pescoço dele buscando apoio. Exploravam a boca um do outro freneticamente. Ele desceu com seus lábios depositando uma trilha de beijos urgentes que começava no queixo dela e seguia em direção ao ombro. Elizabeth gemia de prazer e enterrava seus dedos nos cabelos dele. Darcy passeava com suas mãos livremente pelo corpo dela. Sentiam-se como dois viajantes no deserto que acabaram de encontrar uma fonte de água pura. Bebiam um do outro com uma sede insaciável.

 

   - Lizzy? Sr. Darcy? Onde estão? - A voz de Jane ao longe os arrancou de seu idílio bruscamente. 

 

   Elizabeth empurrou-o com as duas mãos. Dizendo com raiva:

 

   - Fique longe de mim! Nunca mais volte a me tocar!

 

   Darcy ficou sem ação. Precisou de alguns segundos para assimilar o que estava acontecendo. O ambiente já estava mais escuro, mas ainda assim ele podia ver os olhos faiscantes de Elizabeth entre as sombras projetadas pelas árvores.

 

   - Perdoe-me, madame. – ele começou envergonhado, mas logo sua voz ganhou uma descarga de sarcasmo – Não era a minha intenção ser tão descortês com uma dama tão respeitável!

 

   - Como ousa? – ela deu um passo à frente ao falar, enfurecida. Naquele momento, Darcy acreditou que ela o esbofetearia.

 

   - Lizzy? – a voz de Jane se aproximava.

 

   Ambos perceberam que teriam de adiar sua discussão. Naquele momento precisavam pensar em uma desculpa rápida para sua situação imprópria. Ela, então, teve uma idéia.

 

   - Estamos aqui, Jane! – gritou ela para a irmã enquanto se sentava em uma pedra. 

 

   - Ficou louca? – sussurrou ele.

 

   Ela o olhou feio.

 

   - Ah, aí estão vocês! O que houve? – Jane parecia aliviada e inocentemente curiosa. 

 

   - Eu torci meu pé enquanto subia por essas pedras e o Sr. Darcy estava me ajudando. – respondeu Elizabeth enquanto massageava seu tornozelo.

 

   - É, foi exatamente isso. – disse Darcy inseguro – Nós tentamos chamar por ajuda, mas vocês já estavam longe e eu não quis deixar sua irmã aqui sozinha.

   - Entendo. Bem, acha que consegue andar, Lizzy? – conhecendo a personalidade de Jane, Elizabeth sabia que ela acreditara piamente naquela história. Não que a irmã fosse burra. Ela era simplesmente incapaz de formular um pensamento malicioso. 

 

   - Jane? Ah, você os encontrou! O que aconteceu? – era Charles que chegava e não parecia tão inocentemente curioso quanto a esposa.

 

   - Querido, Lizzy machucou o tornozelo e o Sr. Darcy a estava ajudando. Eles tentaram nos chamar, mas já estávamos longe. 

 

   - Ah, sim, claro. – Charles não parecia nem minimamente convencido.

 

   - Bem, vocês vão ficar aí olhando ou vão me ajudar a levantar? – disse Elizabeth tentando ignorar o olhar desconfiado do cunhado.

 

   Os dois cavalheiros a auxiliaram e serviram de apoio enquanto ela fingia mancar até a mansão.

 

   Chegando lá encontraram Georgiana aflita na sala de visitas.

 

   - Graças a Deus! Vocês demoraram! Eu pensei que algo sério tivesse acontecido!

 

   - Não foi nada de grave. Eu apenas torci o pé. – disse Elizabeth enquanto Charles e Darcy a ajudavam a sentar-se

 

   - Mas nós ficamos realmente preocupados, Lizzy. Eu cheguei a pensar até que você tivesse passado mal novamente por causa do bebê! – disse Jane.

 

   - O importante é que agora está tudo bem, não é, Darcy? – disse Charles lançando um olhar malicioso ao amigo.

 

   - É claro, Bingley. – respondeu ele sem jeito.

 

   Jane, em sua ingenuidade, não notou o olhar do marido, mas aquele fato não passou despercebido por Georgiana, cuja perspicácia logo atinou para qual seria a verdadeira razão daquele atraso. Ela passara o dia observando seu irmão e a Sra. Wickham e cada minuto passado em companhia deles só fazia aumentar a sua certeza de que havia algo entre os dois.

 

   A Sra. Parkins entrou na sala nesse momento e anunciou que o jantar estava servido. O cardápio foi simples, mas elegante. O prato principal consistia numa torta de espinafre e queijo temperada com salsa, hortelã e gengibre frescos. Para a sobremesa, foi servido um belo pudim de groselhas. 

 

   Logo após o jantar, Elizabeth alegou estar muito cansada e se retirou. Darcy sabia que seus verdadeiros motivos estavam intimamente ligados a ele. Queria evitá-lo e ele não podia dizer que não a compreendia. Sentia-se corar todas as vezes que seus olhares se cruzavam. O desconforto de ambos acabaria sendo notado pelos outros. Ele decidiu seguir o exemplo dela e partiu com Georgiana pouco tempo depois.

 

   Os habitantes de Loundsley e Pemberley passaram alguns dias sem se verem. Elizabeth aproveitou para escrever a seus pais. Fazia tempo que não se comunicava com eles. A última vez fora uma carta escrita quando ainda vivia com Wickham em Retford avisando sobre sua gravidez. Desde então passara apenas a enviar lembranças pelas cartas que Jane escrevia. Fora através de uma dessas missivas que eles ficaram sabendo sobre a morte do genro. Ela não conseguira reunir coragem suficiente para escrever, então pedira à irmã que lhes informasse do ocorrido. A Sra. Bennet respondera dizendo que partiriam para Loundsley no dia seguinte. Com medo de que o pai acabasse concordando com os exageros da mãe, Elizabeth pediu a Jane que escrevesse dizendo que a vinda deles não era necessária e que ela estava bem sob os cuidados da irmã. Depois disso não teve mais notícias deles.

 

   Escreveu uma carta leve dizendo apenas que estava com saudades, mas omitindo a existência dos problemas que a atormentavam. Finalizou questionando sobre o estado de todos em Longbourn. Livre dessa tarefa, ela pôde voltar a seus afazeres costumeiros. 

 

   Passeava pelos jardins colhendo flores, ajudava Jane a cuidar de suas orquídeas, tricotava alguma peça de roupa para o enxoval de seu bebê, entretinha-se com um bom livro ou apenas desligava-se do mundo enquanto tocava ao piano. Todas essas atividades, entretanto, eram somente tentativas frustradas de ocupar sua mente e manter seus pensamentos afastados de Darcy. 

 

   Não importava o que ela fizesse ou o quanto se esforçasse. O perfume de uma orquídea, o suave toque da lã entre seus dedos, a beleza de um soneto ou até a doçura de uma melodia: qualquer coisa a fazia lembrar-se dele. Darcy estava sempre presente em seu coração e em sua mente.

 

   Jane e Charles haviam decidido marcar o sarau para o sábado seguinte, então, todas as atividades da casa se voltaram novamente para os preparativos da festa. Reenviaram os convites, mandaram polir novamente a prataria, encomendaram novas flores com o jardineiro e novos quitutes com a cozinheira.

 

   Parecia que tudo daria certo daquela vez. Elizabeth desejava com todo o seu coração que nada mais estragasse os planos de sua irmã, embora o receio de encontrar seu amor proibido estivesse latente nela. 

 

   O dia do esperado sarau finalmente chegou. A casa estava em polvorosa. Elizabeth se surpreendia com a agitação da irmã. Jane, que sempre fora o modelo de calma e discrição, estava dominada por uma eletricidade comparável somente à da Sra. Bennet.

 

   Ao cair da tarde começaram a chegar os primeiros convidados. Embora seus trajes fossem simples, ainda traziam estampada a riqueza de sua classe. As vestes e jóias eram feitas dos mais finos materiais e seguiam a última moda. Havia poucos exemplos de ostentação excessiva, tendo a maioria optado pela elegância discreta.

   Embora estivesse com mais de sete meses de gravidez, Elizabeth conseguiu disfarçar sua enorme barriga com um vestido azul marinho bastante sóbrio. O corte da peça ajudava a ocultar a barriga evidente. Embora fosse do conhecimento geral o estado da irmã da Sra. Bingley, não ficava bem exibi-lo.

 

   Ela permaneceu sentada num canto do salão pela maior parte do tempo. Estava de luto e, pela etiqueta, não deveria nem mesmo ter comparecido à festa. Jane conduzia os convidados até ela e os apresentava conforme chegavam. A maior parte a cumprimentava e se retirava logo em seguida para ir socializar com o restante dos presentes. Uma jovem tocava um minueto de Bach ao piano e alguns casais já se preparavam para a dança. Elizabeth os olhava sem realmente os ver. Ela havia acabado de ser invadida por lembranças do baile em que dançara com William pela primeira vez. 

 

   - Elizabeth! – disse uma voz alegre despertando-a.

 

   Era Georgiana. Ela acabara de chegar com o irmão e viera imediatamente falar com a amiga. 

 

   - Georgiana, que prazer em vê-la! – Elizabeth sorriu e tentou aparentar uma serenidade que não sentia.

 

   - Sra. Wickham. – Darcy, que vinha logo após a irmã cumprimentou-a.

 

   - Sr. Darcy. – Ela retribuiu o cumprimento fazendo uma leve reverência.

 

   Georgiana sentou-se ao lado de Elizabeth e fez-lhe companhia por algum tempo, até que um jovem cavalheiro a tirou para dançar. O jovem casal foi fuzilado pelo olhar atento de Darcy, que conversava com alguns conhecidos do outro lado da sala.

 

   Encontrando-se sozinha novamente, Elizabeth distraiu-se ouvindo a conversa de duas senhoras. Elas comentavam sobre como os tempos andavam “modernos demais” e como as jovens ficavam cada vez mais espevitadas. Elizabeth segurou o riso diante daquilo.

 

   - Uma dama tão bela não deveria ficar sentada apenas rindo-se da conversa de duas velhas senhoras enquanto todos estão se divertindo e dançando. – disse uma voz grave.

 

   Elizabeth assustou-se. Voltou-se para o lado de onde vinha a voz e viu o Sr. Cavendish, o amigo de Charles que lhe recomendara o professor de piano e que lhe havia sido apresentado mais cedo naquele dia. Ele falara baixo o bastante para que somente ela escutasse. 

 

”Há quanto tempo será que ele está me observando?” ela se perguntava.

 

   - Eu estou de luto, senhor. Não deveria nem mesmo ter comparecido a esta festa. Só estou aqui porque minha irmã insistiu muito. Mas, de qualquer forma, não fica nada bem para uma viúva ser vista dançando alegremente. 

   - Perdão, eu às vezes me esqueço de como a sociedade pode destruir as pequenas alegrias da vida com seus ditames inúteis. – ele respondeu sarcástico. Elizabeth não conseguiu deixar de notar em como ele era charmoso. 

 

   Com seus quarenta e poucos anos, Edward Cavendish tinha o charme irresistível gerado pela combinação dos escassos cabelos brancos com a jovialidade de um solteiro rico e aventureiro. Ela já havia ouvido comentários das duas senhoras a respeito da reputação do homem e não se sentia inclinada a ser mais uma de suas aventuras amorosas. Havia até se surpreendido pela atitude dele de iniciar um diálogo com ela. Afinal, o que ele estaria pretendendo com uma pobre viúva grávida?

 

   - Nesse caso, senhor, não deveria se privar de tais alegrias visto que elas são negadas somente a mim. Há tantas jovens no salão esperando por um par e o senhor aqui perdendo seu tempo comigo?

 

   - Se a incomodo, madame, peço que me fale agora. Uma palavra sua será suficiente para que eu me retire e entretenha uma dessas jovens casadoiras fúteis e mimadas.

 

   - De modo algum, senhor. Se deseja ficar, fique. Não é meu desejo impor tamanho sacrifício a alguém. Afinal, quem pode suportar a conversa superficial de uma moça em busca de um marido, não é mesmo? 

 

   - Ótimo! Agora que estamos de acordo, permita que eu me sente e inicie um diálogo mais aprofundado com a sua pessoa.

 

   - Tem a minha permissão, mas não vejo que assunto profundo uma pessoa simples como eu pode ter para dialogar com um homem tão culto. – o acento irônico que ela dava a cada palavra, longe de intimidá-lo, atraía-o cada vez mais.

 

   - A música, minha cara. Que outro assunto poderia ser mais profundo ou mais prazeroso?

 

   - Música? Bem, certamente ela está entre os meus interesses, mas não sei se tenho conhecimento suficiente do assunto para discuti-lo. Sou apenas uma admiradora dessa arte, senhor.

 

   - Pois eu soube que a senhora é muito mais do que uma simples admiradora. Pelo que ouvi falar, a senhora, embora seja uma iniciante, foi agraciada com o dom da música dos deuses. 

 

   - Agraciada com o dom da música dos deuses? Céus, devo saber imediatamente quem lhe transmitiu tais informações, pois elas estão claramente equivocadas!

 

   - Eu duvido muito, pois quem me disse isso foi o seu próprio professor, madame. Ele falou que está espantado com o seu rápido progresso e que a senhora toca como um anjo.

   - Tenho certeza de que o Sr. Watson exagerou muito em seus elogios ao meu talento. Asseguro-lhe de que não há absolutamente nada de extraordinário em minha performance. Pelo contrário, ainda há muito para aprender.

 

   - Sem dúvidas! Há sempre muito a aprender, não importa em que estágio de desenvolvimento nos encontremos. Mas conheço Watson há tempo suficiente para acreditar quando ele diz ter encontrado um talento excepcional.

 

   - Por favor, senhor, peço que não crie grandes expectativas em relação às minhas habilidades musicais.

 

   - Nesse caso, por que não tiramos a prova?

 

   - Como?

 

   - Toque para mim. Só assim poderei avaliar se sua performance faz jus à descrição de Watson.

 

   - Eu não sei...

 

   - Por favor! Não me prive do prazer de saciar a minha curiosidade.

 

   - Está bem. Mas não agora. Mais tarde, quando o salão estiver mais vazio.

 

   - Perfeito. – um sorrido se formava em seus lábios deixando-o incrivelmente mais bonito.

 

   Elizabeth sentiu que corava e voltou o rosto para o centro do salão, onde os casais dançavam. Ela não percebeu, mas um par de olhos azuis havia se desviado de Georgiana e faiscava agora na direção dela com muito mais intensidade.

 

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