Capítulo III
Quando retornou, Darcy encontrou a mesa do café da manhã pronta e intocada. Ao avistar a Sra. Reynolds ele perguntou:
- Georgiana não tomou café ainda?
- Ela havia dito para chamá-la na sala de música assim que a mesa estivesse pronta, mas quando fui avisá-la, disse que preferia esperar pelo senhor.
- Certo. Vou falar com ela.
Seus pés o guiaram até a sala de música. Ele caminhava lentamente. Seus pensamentos não poderiam estar mais distantes. Quando deu por si, já estava em frente ao cômodo e escutava o som do piano lá dentro. Abriu a porta e não pôde evitar a sensação de déjà vu ao ver a irmã sentada tocando. Ele se recordava da cena semelhante que havia presenciado no dia anterior. Os mesmos sentimentos que o dominaram naquele momento voltaram a aflorar. Ele precisava sair dali imediatamente. Virou-se e fechou a porta com mais força do que pretendia. O barulho fez Georgiana parar de tocar. Quando abriu a porta, ela encontrou o irmão escorado na parede do corredor. Havia uma ruga de tensão em sua testa e seus olhos estavam fechados, com as pálpebras comprimidas.
- William, o que houve? – perguntou preocupada.
Ao ouvir a voz da irmã, William se recompôs imediatamente e adotou o semblante de indiferença e frieza que usava para mascarar suas verdadeiras emoções.
- Não há nada, Georgiana. Estou apenas um pouco cansado. Vamos tomar o desjejum?
- Claro. Eu estava esperando por você. – a preocupação ainda não abandonara o belo rosto da moça.
Durante a refeição, eles conversaram pouco. Como na carruagem, no dia anterior, ela tentara iniciar um diálogo diversas vezes, mas sempre recebia um monossílabo ou um aceno de cabeça com resposta.
- Com licença, Sr Darcy – um criado entrou na sala – Chegou esta carta para o senhor.
Ele pegou a carta da bandeja que o serviçal trazia e abriu.
- De quem é? – perguntou a irmã curiosa
- De Loundsley. Estamos sendo convidados para o chá da tarde.
- Ah, vamos, William! Por favor! – ela pedia com olhos suplicantes.
- Você deve estar realmente muito entediada aqui em Pemberley.
- Não é isso. Eu apenas gostaria de conhecer melhor Loundsley Park. Ontem não tivemos a oportunidade de dar um passeio pela propriedade e eu espero que hoje consigamos fazê-lo.
- Entendo. Nesse caso, vou escrever a Bingley confirmando a nossa presença. Com licença. – ele se retirou e foi ao escritório.
Georgiana estava exultante.
“Agora sim poderei prestar mais atenção ao comportamento de William na presença da Sra. Wickham. Mas e se a minha hipótese se confirmar? O que farei? Bom, acho que só me restará fazê-los chegar a um entendimento. Espere um pouco, Georgiana. Você não sabe o que os separou. Talvez William esteja certo... A Sra. Wickham pode não ser o que aparenta. Decididamente preciso prestar muita atenção à atitude de todos hoje para poder tirar minhas próprias conclusões.”
Darcy enviou a confirmação ao amigo e, à tarde, ele e Georgiana partiram em sua carruagem.
Chegando a Loundsley, foram calorosamente recebidos pelos Bingley. O clima estava agradável, então, a Sra. Bingley foi com Georgiana para a varanda, onde o chá seria servido. William e Charles preferiram ficar na sala de visitas conversando mais um pouco antes de se juntarem às damas.
- Onde está sua irmã, Sra. Bingley? – perguntou Georgiana quando as duas já estavam sentadas na varanda.
- Ela estava descansando quando a chamei, mas disse que não demoraria a descer.
- Espero que a disposição dela esteja melhor hoje. Gostaria de conversar mais com ela e, quem sabe, até tocar um dueto.
- Seria realmente encantador! Lizzy começou a tocar piano há pouco tempo, mas até mesmo o professor ficou espantado com o seu progresso rápido. Pelo que ouvi dizer, você é uma exímia pianista, não? Adoraria ouvi-la tocar. Imagino você e Lizzy tocando um dueto... Como disse seu irmão ontem, seria um deleite para os ouvidos!
Georgiana corou. Ela era muito tímida e sua modéstia beirava um complexo de inferioridade. Antes que pudesse responder que não acreditava ser uma musicista tão competente quanto Jane dissera, Elizabeth chegou.
- Boa tarde! Como vai, Srta. Darcy?
- Boa tarde! Vou muito bem, Sra Wickham. Obrigada. E a senhora? Espero que esteja se sentindo melhor hoje.
- Estou ótima, mas ficarei muito melhor se parar de me chamar de “senhora”. Faz com que eu me sinta velha. Prefiro meu nome de batismo, se não se importa. – respondeu Elizabeth com falso tom de reprovação.
Pela expressão de Georgiana, Jane percebeu que ela não entendera a brincadeira da irmã. A menina, ainda não habituada com o humor irônico de Elizabeth, provavelmente pensara que ela ficara ofendida e que a repreendia.
- Não se preocupe, Georgiana. Lizzy só está brincando.
O alívio imediatamente se estampou na face da jovem.
- Ah, sim, é claro. Bem, espero que esteja se sentindo melhor, Elizabeth.
- Estou sim, obrigada, Srta. Darcy.
- Já que estamos dispensando as formalidades desnecessárias, por que não me chama de Georgiana?
- Como quiser, Georgiana. Jane, – disse voltando-se para a irmã e mudando o foco da conversa – você, por acaso, viu a minha fita preta de cetim?
- Fita? Não, não encontrei fita alguma.
- Ela deve ter caído quando eu estava usando ontem... Eu a procurei hoje quando estava arrumando meus cabelos e não a achei. Tive de prendê-los só com os grampos. Mais tarde vou perguntar a Susan se a encontrou enquanto limpava o quarto.
- Espero que a encontre. Ela deixa seus cabelos mais bonitos do que já são.
- Ah, Jane, sempre encontrando algo de bom nos outros... Sabe, Georgiana, ela faz isso o tempo todo. Nunca vê defeito em ninguém. Todos são belos e gentis aos olhos de Jane.
Georgiana riu.
- Mas nesse caso, preciso concordar com sua irmã. Seus cabelos são muito bonitos.
- Sendo assim, não discutirei, pois já vi que estou em desvantagem. Ao invés disso, vou me envaidecer com os elogios. Não é todo dia que duas mulheres tão bonitas falam que meus humildes cabelos castanhos são lindos.
As duas louras riram com vontade. Jane ria não apenas pelo comentário de sua irmã, mas também por perceber que ela estava recuperando seu antigo ânimo, tão abalado pelas tragédias recentes.
- Ora, do que as senhoras tanto riem? – perguntou Charles que entrava pelas portas de vidro da varanda seguido por Darcy.
- Nada de importante, meu amor. Bem, agora que os senhores decidiram nos presentear com sua companhia, vou pedir para que o chá seja servido. – Jane saiu deixando os quatro imersos num silêncio constrangedor.
Elizabeth e Darcy não se olhavam. Ela fingia admirar os jardins, enquanto ele parecia ter descoberto algo muito interessante em um dos ladrilhos do piso.
- Então, Georgiana, será que hoje assistiremos a um belíssimo dueto tocado por você e minha cunhada? - perguntou Charles tentando aquecer um pouco a atmosfera gélida que se formara.
- Eu espero que sim. – respondeu a menina entendendo as intenções dele – O que acha, Elizabeth?
- Eu concordo em tocar o dueto, mas acho que o “belíssimo” será por sua conta, Georgiana.
Nesse momento Jane voltou à varanda seguida por duas criadas que traziam o carrinho de chá.
Em travessas de prata encontravam-se empilhados os tradicionais muffins ingleses, alguns pãezinhos e um belo pão-de-ló, que ainda exalavam o delicioso aroma quente dos bolos recém-assados. Como acompanhamento havia manteiga, além de geléias de morango, groselha e amora.
Darcy bebericava seu chá enquanto observava Elizabeth disfarçadamente. Ela parecia alheia a sua atenção. Georgiana e ela travavam uma conversa animada enquanto o vento morno da tarde brincava com alguns cachos de seus cabelos castanhos. Ele imediatamente se lembrou da fita de cetim que ainda trazia no bolso e corou.
- Não é verdade, Darcy? – perguntou Charles.
- Desculpe, Bingley, não estava prestando atenção. O que foi mesmo que perguntou?
O amigo o olhou com uma expressão que dizia claramente “Eu sei em que você estava prestando atenção”. Darcy corou ainda mais ao se perceber pego em flagrante.
- Estávamos falando sobre música e Charles disse que sua tia é uma grande apreciadora dessa arte. É verdade? – interveio Jane.
- Sim, é verdade. Minha tia aprecia muito quando nós a visitamos e Georgiana toca para ela.
- Tia Catherine diz que teria sido uma grande intérprete se tivesse se dedicado ao estudo do piano. Ela também fala que Anne, nossa prima, seria uma excelente musicista se não fosse por sua saúde frágil.
- É assim tão delicada a saúde de sua prima que chega a impedi-la de tocar piano? – perguntou Elizabeth incrédula.
- Na realidade, acho que é exagero de minha tia, mas preferimos não contrariá-la. Ninguém nunca contraria a grande Lady Catherine de Bourgh. – respondeu Georgiana com uma nota acentuada de sarcasmo – A pobre Anne é que sofre com os cuidados excessivos da mãe.
Darcy olhou para a irmã espantado. Nunca a vira criticar alguém na presença de outras pessoas. Normalmente, ela só se sentia à vontade o suficiente para expressar opiniões como aquela quando estavam sozinhos.
Até a própria Georgiana se assustou com sua ousadia e corou. Charles também teve dificuldade em esconder a sua surpresa. As únicas que encararam o comentário com naturalidade foram Jane e Elizabeth, que, por conhecerem a menina havia pouco tempo, acharam que ela falava coisas assim com freqüência. A opinião de Elizabeth sobre Georgiana, que já não era ruim, melhorou consideravelmente após aquele episódio.
O grupo ainda permaneceu sentado na varanda após o término do chá apreciando o clima ameno da tarde e a conversa agradável. Os únicos que nunca trocavam uma palavra sequer eram Elizabeth e Darcy. Jane, que já havia percebido a tensão entre os dois, propôs um passeio pelos jardins. O que foi prontamente aceito por Georgiana.
Durante a caminhada, as damas foram na frente e os cavalheiros seguiam-nas a uma curta distância. As três falavam animadamente e apontavam flores e pequenos animais interessantes que encontravam pelo caminho. Charles e Darcy conversavam discretamente, sem serem ouvidos por elas. Bingley tentava abordar com cautela a questão referente ao amigo e sua cunhada.
- Já lhe disse, Bingley: nunca houve e nem nunca haverá nada entre nós. – respondeu Darcy num sussurro irritado.
- Pare de tentar me enganar, Darcy. E pare de tentar enganar a si próprio. Você está apaixonado por ela! Eu soube desde o momento em que se conheceram naquele baile!
- Não nego que ela seja uma bela mulher e que em um outro momento possa ter havido uma certa atração entre nós, mas agora lhe asseguro de que não sinto absolutamente nada por ela. E nem ela por mim. – a última afirmação foi feita com mais emoção do que ele pretendia, o que não passou despercebido aos ouvidos atentos de Bingley.
- Pensa que não vejo como olha para ela? Que não percebo a tensão quase palpável que há entre os dois? Algo aconteceu e você não quer me dizer o que foi.
- Já chega, Charles! Você me convidou para vir a sua casa tomar chá e eu aceitei, mas se soubesse que seria interrogado desta forma, teria recusado o convite. – Bingley estava tocando em uma ferida ainda aberta. Ele ainda não estava pronto para confessar o ocorrido a ninguém.
- Está certo, Darcy. Perdoe-me. Não pretendia incomodá-lo. Você e Elizabeth são duas pessoas muito queridas por mim e eu pretendia apenas ajudar a resolver qualquer questão que pudesse ter ficado pendente.
- Não há questão alguma. Agora, se não se incomoda, será que podemos mudar de assunto?
- É claro. Bem, agora que Lizzy está melhor, eu e Jane pretendemos realizar o sarau aqui em casa. Podemos contar com a sua presença?
- Charles, você sabe que estas festividades não me atraem.
- Ora, Darcy, faça um esforço! Em nome de nossa amizade! Aposto que Georgiana gostaria muito e Jane ficaria extremamente ofendida se não viessem. Além disso, você havia concordado em vir quando anunciamos o sarau pela primeira vez.
- Realmente, creio que Georgiana gostaria de uma festa. Ela não se queixa, mas percebo que a monotonia de Pemberley está começando a incomodá-la. Mesmo uma menina tímida como ela, quando chega a essa idade, gosta de ter uma vida social um pouco mais movimentada. E também não quero ofender Jane.
- Então isso é um sim?
- Sim. – disse Darcy revirando os olhos.
Charles ficou radiante. Era com uma euforia quase infantil que ele pensava no sarau. Sabia o quanto Jane estava ansiosa para revelar à sociedade local seus dotes como anfitriã. E ele próprio adorava a idéia de estar sempre cercado de amigos. Além disso, ele tinha, dessa vez, um motivo a mais para seu entusiasmo: queria aproximar Darcy e Elizabeth. Não importava o que o amigo dissesse, ele acreditava que os dois sentiam algo um pelo outro e que algum mal-entendido os estava separando. O que Bingley não sabia era que estava mais certo do que imaginava.
- Charles! – chamava-o Jane à distância. As mulheres avançaram mais do que eles haviam percebido em sua caminhada e se encontravam a alguns metros – Vamos mostrar a eles o lago?
- Está bem! – ele correu ao encontro da esposa deixando Darcy sozinho
- Vamos, Darcy! – gritou o amigo ao alcançar as damas.
Darcy, que não pretendia correr, apenas apressou um pouco seu passo. Quando os alcançou, todos já estavam diante de um grande e belo lago. As frondosas árvores que o cercavam já estavam completamente floridas àquela época do ano. Algumas flores caídas boiavam na água tranqüila. Outras cobriam alguns trechos da grama, que mais parecia uma verde pelagem sobre a terra.
- O antigo proprietário me disse que há muitos peixes nessa água. Podemos vir aqui pescar quando se cansar do lago de Pemberley. – disse Charles aproximando-se do amigo.
- Creio que jamais me cansarei de nada relacionado a Pemberley, mas aceito a sua oferta. – respondeu Darcy sorrindo pela primeira vez naquele dia. Na verdade, era seu primeiro sorriso em meses.
Elizabeth, Jane e Georgiana se sentaram na grossa raiz de uma árvore que brotava próxima à margem. Elas haviam retirado seus sapatos e mergulhavam os pés na água fresca. Darcy e Bingley juntaram-se a elas, sentando-se numa raiz próxima, mas mantiveram-se calçados.
Conversaram amenidades por um longo tempo. Até mesmo a gélida polidez que havia entre Darcy e Elizabeth pareceu derreter um pouco. Ainda não se falavam, mas também já não se olhavam com ressentimento. Obviamente, era uma calmaria passageira, pois ambos guardavam mágoas profundas que não seriam apagadas apenas com uma tarde de primavera.














