Capítulo II
http://www.youtube.com/watch?v=XzFmJkR22io
Dario Marianelli – Robbie’s Note
Darcy e Georgiana permaneceram em Loundsley pelo restante do dia. A noite já se anunciava quando resolveram voltar para casa.
- Foi um dia bastante agradável, não achou? – Georgiana tentava iniciar uma conversa com o irmão taciturno enquanto estavam na carruagem.
- Sim, foi. – respondeu sem fitá-la. Seu rosto estava voltado para a janela, mas sua atenção não estava na paisagem. Na verdade, seus pensamentos estavam em um belo par de olhos castanhos gélidos como a neve de dezembro.
- Foi realmente uma pena a Sra. Wickham ter ficado indisposta após o almoço. Gostaria muito de ter conversado mais com ela. – tentou Georgiana mais uma vez.
- Posso saber a razão de tamanho interesse por essa senhora? – aquilo estava começando a incomodá-lo. A última coisa que desejava era que sua irmã e Elizabeth se tornassem melhores amigas.
- Não sei explicar... Senti uma simpatia imediata quando a conheci. Eu imaginava que a viúva de Wickham fosse uma mulher insensível, fútil, até mesmo vulgar. Mas estava completamente enganada. Ela me pareceu tão gentil! E muito bonita também, apesar de seu olhar triste.
- Ela deve estar sofrendo muito com a perda do marido. – seu tom era carregado de sarcasmo.
- William, gostaria de entender porque fala dela com tanta hostilidade. Se for por minha causa, já lhe disse que sou completamente indiferente a Wickham. Ele não valia absolutamente nada, mas sua senhora me parece ser bastante diferente.
- Não devia julgar as pessoas considerando apenas a primeira impressão. Suas conclusões podem ser mais errôneas do que imagina.
- Neste caso não estou julgando ninguém. Estou apenas querendo conhecer melhor uma pessoa que conquistou a minha simpatia de imediato. Talvez a primeira impressão esteja equivocada, como você mesmo disse, mas é preciso uma convivência maior para que eu possa descobrir.
- Faça como achar melhor, Georgiana. – ele já estava cansado daquela discussão. Por sorte, a fachada de Pemberley já podia ser vista através da janela.
Georgiana entendeu claramente pelo tom do irmão que o assunto estava encerrado. Mas ela não desistiria tão facilmente. Queria observar melhor o comportamento dele na presença da Sra. Wickham para concluir o que de fato se passava entre os dois. Ela notara, durante o almoço, que nenhuma palavra fora trocada por eles. Foram diversas as suas tentativas de envolvê-los no mesmo assunto, mas parecia que ambos estavam irredutíveis em sua decisão de manter uma barreira intransponível separando-os.
Ao chegarem, Darcy foi imediatamente para seus aposentos sem jantar. Georgiana, ficou ainda mais intrigada.
Desde seu retorno do Hertfordshire, Darcy apresentava um comportamento bastante estranho. A princípio, ela acreditara que fosse preocupação por seu estado de saúde. Tal pensamento a fazia sentir-se péssima. Como ela fora tão tola a ponto de se deixar seduzir por Wickham e depois chorar por sua decepção a ponto de entrar em uma crise depressiva que a impedia até mesmo de comer? Era horrível que, ainda por cima, ela fizesse sofrer a pessoa que mais amava no mundo: seu irmão. Porém, com o tempo, ela percebera que o humor do irmão não se alterava significativamente com a sua recuperação. Então desconfiara que algo mais ocupava seus pensamentos.
Darcy sempre fora muito fechado e raramente falava de si próprio ou de suas emoções, mesmo para as pessoas com quem possuía mais intimidade. Georgiana aprendera desde cedo a interpretar os momentos de silêncio de seu irmão. Mas aquele silêncio estava diferente de tudo o que ela já presenciara. Ele parecia profundamente abatido. Seu olhar estava apagado como uma vela que ficara exposta ao vento frio da noite. Em vão ela tentara arrancar dele alguma confidência. Cada vez se fechava mais na fortificação que construíra para se proteger de suas próprias emoções.
Ela temia o mal que tal atitude poderia lhe causar. Guardar todas as suas tristezas e ressentimentos para si era como encher um copo com gotas de água. Em algum momento ele transbordaria.
Ao perceber a hostilidade com que o irmão se referia à Sra. Wickham, Georgiana desconfiara de que ela pudesse ter alguma relação com a mudança de comportamento dele.
“É impossível... Pelo que ele me disse, conheceram-se no Hertfordshire, mas não falou de nenhum tipo de relação mais próxima entre os dois. Até porque, não é do feitio de William ter romances secretos, principalmente com mulheres que acabou de conhecer. A menos que... Não, não pode ser. Ela se casou com Wickham pouco tempo depois. Será possível ter havido algum envolvimento amoroso entre eles? Você deve estar lendo romances demais, Georgiana.”
No dia seguinte, Darcy desceu para tomar café mais cedo que o habitual. A Sra. Reynolds, a governanta, ainda nem havia preparado a mesa.
- Não tem importância, Sra. Reynolds. Não estou com fome. Se Georgiana acordar, diga a ela que saí para cavalgar um pouco.
- Mas o senhor vai sair sem colocar nada no estômago? Precisa se alimentar! Eu prepararei seu café em um instante.
- Comerei algo quando voltar. Não precisa se preocupar. – e saiu antes que a governanta pudesse argumentar
“Esse menino anda muito estranho ultimamente. Quase não come e vive pelos cantos deprimido. Ele pensa que eu não sei sobre as garrafas que a criada encontra no quarto pela manhã... Isso está me cheirando a dor de amor.”
A Sra. Reynolds sempre vivera em Pemberley. Sua mãe havia servido à família Darcy antes dela. Quando a velha Sra. Reynolds falecera, sua filha assumira o cargo de governanta.
Nunca se casara. Dedicara toda a sua vida a cuidar daquela família. Vira Fitzwilliam Darcy nascer e amava-o como a um filho. Quando a Sra. Darcy morrera após o parto de Georgiana, a governanta vira-se no papel de segunda mãe daquelas crianças. O Sr. Darcy não se casara novamente, vindo a falecer alguns anos após a esposa. Na época, Fitzwilliam tinha apenas quinze anos de idade.
- Sra. Reynolds, onde está meu irmão? – era a Srta Darcy quem perguntava.
- Ele já saiu, minha querida. Foi cavalgar. Disse que comerá quando voltar.
- Entendo. Bem, quando a mesa do café estiver pronta, pode me chamar na sala de música?
- Claro que sim. – respondeu a governanta com um sorriso. Ela adorava ouvir a menina Georgiana tocar e cantar. Parecia um anjo.
Longe dali, um coração atormentado voava pelos campos do Derbyshire no lombo de seu corcel. Sentir o vento em seu rosto fazia-o esquecer-se momentaneamente de seus problemas. Entretanto, o animal começou a dar sinais de cansaço. Por isso, ele achou melhor parar um pouco e refrescá-lo em um riacho próximo.
Enquanto o cavalo bebia a água fresca do regato, Darcy sentou-se sob a sombra de um carvalho antigo. Fechou os olhos por um minuto e pensou sentir o perfume de Elizabeth.
”Será que essa mulher nunca vai parar de me perseguir? Nem em meus pensamentos estou livre dela!”
Abriu os olhos com raiva e, quando estava prestes a se levantar, viu algo que chamou sua atenção. Presa a uma das raízes da árvore, havia uma fita de cetim negro. Ele a pegou com cuidado e a trouxe para perto do rosto. Sim, era o perfume de Elizabeth.
Seu primeiro instinto foi o de atirá-la na água. Queria que o rio a levasse para longe assim como os sentimentos que ele ainda nutria pela mulher que despedaçara seu coração. Mas não conseguiu. Em vez disso, colocou a fita no bolso de seu casaco. Não sabia explicar porque, mas queria guardar uma lembrança daquele que havia sido seu primeiro e único amor. Talvez fosse uma espécie de autoflagelação. Ou um aviso para nunca mais cair na mesma armadilha.
Uma coisa era certa: ele não mais entregaria seu coração a mulher alguma.














