A Primavera
Terceira Parte
Capítulo I
Dario Marianelli – Atonement
Ele só percebeu que se esquecera de respirar quando se sentiu levemente tonto. Mas seria aquela tontura devida exclusivamente à ausência de oxigênio em seu cérebro? Ele sabia que não. A visão diante da qual se encontrava era certamente a grande responsável pelo seu estado de atordoamento.
As cortinas entreabertas da sala filtravam os raios de sol. A claridade incidia principalmente sobre o piano, cuja madeira lustrosa refletia a luminosidade sobre os cabelos castanhos de Elizabeth. O coque que os prendia estava frouxo e algumas mechas caíam sobre seus ombros e seu rosto. O vestido preto contrastava com os tons claros do ambiente e dava a ela um ar melancólico. O rosto, parcialmente encoberto pela penumbra proveniente de uma das cortinas, trazia um semblante triste, abatido. Ela estava pálida, ele pôde notar, e seus olhos já não traziam o mesmo brilho e vivacidade de antes. Os lábios róseos se comprimiam e ele viu que sua expressão endurecia. Ela inspirou longamente antes de dizer:
- Boa tarde, Sr. Darcy.
Ele não entendia como a voz gélida que proferira aquelas palavras tinha o poder de perfurar seu coração como uma estaca. Achava que já havia arrancado de seu peito qualquer sentimento que ainda pudesse nutrir por ela, mas estava enganado. A presença de Elizabeth ainda afetava seus sentidos e o deixava inebriado.
Por um momento ele esqueceu de tudo o que se passara. Vendo-a, sentiu um impulso quase incontrolável de abraçá-la e beijar sua boca. Ah, que saudades ele tinha daqueles lábios! Ansiava por deleitar-se mais uma vez com o mel deles. Mas quando ela o cumprimentou de forma tão fria, foi trazido de volta à realidade.
Já não eram os amantes de outrora. Entre eles não havia mais a intimidade e o encantamento dos apaixonados. Só restaram a mágoa e o ressentimento pelas palavras não ditas e os sentimentos reprimidos.
- Boa tarde, Srta. Bennet. Digo, Sra. Wickham. – as últimas palavras foram ditas com todo o desprezo que havia em sua alma.
Ele nunca conseguiria esquecer o que ela fizera. Odiaria Elizabeth por aquilo até o dia de sua morte. Ele a amara como nunca antes. Entregara seu coração e sua alma a ela sem pestanejar. Acreditava ser correspondido. Palavras não poderiam exprimir a intensidade da decepção que sentira quando descobrira que estava enganado. Entretanto, por mais que a ferida ainda estivesse aberta em seu peito, não podia deixar de admirar os belos olhos castanhos que o conquistaram no passado.
A gravidez a deixara ainda mais bela. Mas sentiu repulsa ao se lembrar de quem era o pai daquela criança. A imagem de sua Elizabeth entregando-se ao seu maior desafeto lhe causava náuseas.
“Ela não é mais minha Elizabeth. Na verdade, ela nunca foi.” pensava ele com amargura.
- Eu ainda não a felicitei por seu casamento e nem pelo filho que espera. Mas acho que, no momento, o mais adequado seria dar-lhe as minhas condolências. Bingley me contou o que houve com seu marido.
Seu tom era carregado de ironia e desdém. Ela não respondeu. Em vez disso, seu olhar tornou-se ainda mais duro e ela o fitou com tanto ódio que ele recuou involuntariamente.
- Darcy, aí está você! – a voz de Charles ecoou pelo aposento quebrando o silêncio pesado que se instalara.
- Eu estava procurando por Georgiana, mas vi a Sra. Wickham tocando e parei para ouvir.
- Georgiana está tomando chá na varanda com Jane. Estávamos preocupados com você, Lizzy. – disse ele voltando-se para a cunhada.
- Eu acabei me demorando mais do que devia no passeio. Peço desculpas pelo transtorno.
- Não precisa se desculpar. Sua irmã é que estava quase arrancando os próprios cabelos, mas você sabe como ela é.
- Sim, eu sei. – disse ela sorrindo pela primeira vez – Vou à varanda tranqüilizar Jane. Com licença.
Ela fez uma leve mesura e se retirou deixando os dois amigos sozinhos.
- Foi impressão minha ou o clima estava um tanto tenso quando entrei?
- Impressão sua, Charles. Eu estava apenas elogiando sua cunhada pela habilidade dela ao piano.
- Entendo. Eu nunca lhe disse, Darcy, mas sempre achei que você e ela formavam um belo par.
Darcy se surpreendeu com o comentário.
- Verdade? E eu posso saber o porquê?
- Bem, quando estávamos em Netherfield, eu reparei que os dois se davam muito bem. Você até dançou com ela no baile! Não imagina o quanto eu fiquei surpreso com isso. Eu podia jurar naquela época que você a pediria em casamento. Foi realmente uma pena que aqueles negócios urgentes requisitassem a sua presença em Londres. Estou certo de que, se tivessem passado mais tempo juntos, você acabaria cedendo aos encantos dela.
Darcy não respondeu. Charles continuou:
- Por falar nisso, você nunca me disse que negócios foram aqueles.
- Foram questões burocráticas que acabaram tomando mais o meu tempo do que eu desejava.
Bingley entendeu que não conseguiria arrancar nenhuma informação concreta do amigo. Estava muito curioso, mas achou melhor não perguntar mais.
- Bem, espero que tenha conseguido resolver todas as pendências. De qualquer forma, parece que o destino está lhe dando uma segunda oportunidade, Darcy.
- O que quer dizer, Charles?
- Bem, Elizabeth está viúva agora. Seu caminho está livre novamente.
O semblante de Darcy endureceu.
- Não diga bobagens, Bingley. Nunca houve ou haverá nada entre mim e a Sra. Wickham.
Darcy pronunciou as palavras com firmeza, numa tentativa de convencer não apenas o amigo, mas também a si próprio.
- É melhor nos juntarmos às damas para o chá. – disse Darcy para mudar o rumo da conversa
Quando chegaram à varanda, apenas Georgiana e Jane se encontravam sentadas conversando. Ao ver o irmão, Georgiana exclamou:
- Conheci a Sra. Wickham! Ela é encantadora! Sabia que ela também toca piano? Combinamos de tocar duetos mais tarde.
- Será realmente um deleite para os ouvidos. – disse Darcy tentando soar casual.
- Onde está minha cunhada? – perguntou Bingley.
- Ela foi ao quarto se trocar. Estou tão feliz por ela se juntar a nós para o almoço hoje! Mostra que ela está se recuperando bem. – respondeu Jane animada.
- É realmente ótimo, querida. Lizzy ficou muito abatida após a morte do marido e algumas complicações da gravidez. – falou Bingley voltando-se para Georgiana e Darcy.
- Espero que ela esteja melhor agora. – disse Georgiana com sinceridade.
Darcy admirou-se com a rapidez com que a irmã se apegara à viúva do homem que quase destruíra sua vida. Ele lembrava do estado de depressão em que ela entrara após ter sido abandonada por Wickham. Ele a havia feito acreditar que estavam apaixonados e persuadira-a a fugir com ele durante o verão da jovem Srta. Darcy em Ramsgate. Obviamente sua intenção era apoderar-se da fortuna dela. Por sorte, Darcy chegara antes do previsto e impedira que a fuga acontecesse.
Ele aceitara o convite de Bingley para ir ao Hertfordshire acreditando que a irmã estivesse recuperada de seu trauma. Quando se deparou com Wickham lá sentiu toda a sua raiva aflorar, principalmente depois que viu como ele e Elizabeth eram próximos.
Na época, procurou ignorar os ciúmes que o assaltaram, acreditando que Elizabeth o amava e ignorava a verdadeira natureza de Wickham. Ele tentara alertá-la contra o patife, mas não quisera explicar os motivos. Teriam as coisas sido diferentes se ele houvesse dito o que sabia? Não, é claro que não. Ela conhecia o caráter do homem com quem aceitara se casar. Tudo o que houvera entre ele e Elizabeth havia sido uma mentira. Ela provavelmente estava envolvida com Wickham e tentara enganá-lo para dar um golpe. E ele quase caíra naquela armação!
Quando recebera a carta da preceptora de Georgiana avisando-lhe sobre o estado de saúde de sua irmã, partira imediatamente de Netherfield para ir ao seu encontro. Na carta, ela dizia que Georgiana se recusava a comer e que estava cada vez mais debilitada, não conseguindo mais se levantar da cama. Ele não contara a ninguém os verdadeiros motivos de sua partida súbita a fim de preservar a reputação da irmã.
Ele se recordava do quanto desejara escrever para Elizabeth. Imaginava que ela estivesse sofrendo com a falta de notícias e queria tranqüilizá-la. Mas não podia enviar uma missiva a uma moça que, todos acreditavam, fosse apenas uma conhecida e com a qual ele não tinha nenhum compromisso formal. Pretendia voltar ao Hertfordshire o mais rápido possível, porém, a recuperação de Georgiana demorara mais do que o previsto. Durante aquele período, recebera uma carta de Caroline Bingley que fizera renascer em seu íntimo os ciúmes de outrora.
Ela dizia que todos estavam bem e contava sobre o noivado de Charles e Jane. Em meio a relatos dos últimos acontecimentos da região, ela comentava de forma displicente que Wickham e Elizabeth pareciam cada dia mais próximos, sendo comuns as visitas dele a Longbourn. E terminava afirmando sua crença de que em breve haveria mais um noivado na família Bennet.
Primeiramente, ele sentiu raiva de Elizabeth por ela ser tão volúvel. Como podia aceitar a corte de um homem passadas apenas algumas semanas da partida dele? Principalmente um homem sobre cujo caráter ele próprio a alertara. Mas depois se lembrou do quanto Wickham podia ser envolvente e desejou voltar imediatamente, com medo de que o rival conseguisse envenenar Elizabeth contra ele. Quando Georgiana finalmente se recuperou, alguns negócios realmente apresentaram problemas graves. Ele precisou deixar Pemberley e foi para Londres a fim de resolver tudo e finalmente poder regressar para os braços de sua amada. A esta altura o Sr. Bennet certamente já teria retornado e ele poderia pedir a mão de Elizabeth formalmente.
Qual não fora o seu desgosto ao receber uma outra carta, dessa vez de Bingley, na qual o amigo informava a data de seu casamento e anunciava o noivado de Elizabeth e Wickham. Ele dizia que Jane desejava fazer um casamento duplo, mas a irmã se opunha.
Fora então que ele entendera. Todas as evidencias estiveram diante de seus olhos por tanto tempo, mas ele se recusara a enxergá-las. Elizabeth e Wickham eram amantes e estavam mancomunados para dar-lhe um golpe. Em seu plano, Elizabeth o seduzia e o fazia casar-se com ela. Só Deus saberia o que os dois pretendiam fazer depois daquilo. Ela sustentaria Wickham como seu amante debaixo dos olhos de Darcy? Ou os dois planejavam fugir após roubar uma boa quantia de dinheiro? Talvez até pretendessem assassiná-lo para ficar com a herança! Todas as idéias passaram pela cabeça transtornada de Darcy ao terminar de ler aquela carta.
Por sorte, seu plano não obteve o êxito desejado. Ao perceber isso, Elizabeth e Wickham provavelmente decidiram se casar e armaram uma nova maneira de obter dinheiro de Darcy.
Algum tempo após o casamento dos dois, ele recebera uma carta de Wickham. Dizia que sabia dos sentimentos dele por Elizabeth e implorava para que Darcy lhe enviasse uma alta quantia. Estava endividado até a alma e seus credores o estavam ameaçando. Se Darcy não mandasse o dinheiro, a mulher que amava e seu filho seriam mortos.
Seu filho. Darcy passara noites em claro pensando naquelas palavras. Poderiam ser verdadeiras? Ele e Elizabeth haviam dormido juntos apenas uma vez. Seria possível que ela estivesse grávida quando se casara? Obviamente aquilo não passava de uma mentira de Wickham para lhe extorquir dinheiro. Ele provavelmente sabia que a esposa se entregara a Darcy - talvez tivesse até planejado aquilo.
Não, Fitzwilliam Darcy não seria tão facilmente ludibriado. Ele ignorara a carta e tentara esquecer que um dia conhecera Elizabeth Bennet. Enquanto estivera em Londres, freqüentara mais festas do que já havia freqüentado em toda a sua vida. Afogara-se em bebidas. Tentara a todo custo apagar a imagem daquela mulher desprezível de sua mente.
Quando voltara a Pemberley, soubera que Bingley havia comprado uma propriedade próxima. Encontrara-o um dia em Lambton e o amigo o convidara para um sarau que realizaria em sua residência. Darcy aceitara, porém se arrependera quando Bingley comentara que a cunhada, Elizabeth, estava passando uma temporada com eles.
Ele havia contado a Georgiana sobre o sarau e ela ficara extasiada com a perspectiva de sair um pouco de sua rotina para ir a uma festa. A jovem precisava se divertir e socializar um pouco após todo o sofrimento pelo qual passara. Além disso, ela ainda não conhecia a Sra. Bingley e nem Loundsley Park. Darcy temia a reação de Georgiana ao encontrar Elizabeth e descobrir quem era o seu falecido marido. Ele não admitia nem para si mesmo, mas o que ele mais temia era a sua reação ao encontrar-se com ela. Fora com grande alívio que recebera o aviso sobre o cancelamento do sarau.
Georgiana o convencera, então, a convidar Jane e Charles para um jantar. Ele relutara a princípio por não desejar convidar também Elizabeth. Seria muito descortês não incluí-la no convite. Como a irmã insistira, ele achara melhor dizer-lhe quem era o falecido marido da cunhada de Charles. A princípio, ela parecera chocada, mas depois concluíra que a única coisa que ainda sentia por Wickham era indiferença. Para a surpresa de Darcy, ela ainda demonstrara interesse em conhecer Elizabeth. A última desculpa que ele ainda tinha para evitar encontrar-se com ela se esvaíra. Então se lembrara de sua gravidez. Certamente estava de resguardo e não poderia comparecer.
Durante o jantar, Charles comentara sobre o estado de sua cunhada. Dissera que ela estava tendo algumas complicações na gravidez e que aquilo deixava Jane bastante angustiada. Darcy não pudera evitar a preocupação involuntária naquele momento. Por mais que nutrisse um profundo ressentimento por Elizabeth, não conseguia deixar de amá-la e desejar o seu bem.
Os Bingley convidaram os Darcy para almoçar em Loundsley no dia seguinte e, assim, conhecer a propriedade. Fitzwilliam aceitara imaginando que Elizabeth permaneceria em seus aposentos.
Surpreendera-se quando a vira tocando piano tão divinamente. Não possuía uma técnica avançada como Georgiana e tocava uma melodia bastante simples, mas a profundidade dos sentimentos que ela imprimia naquela música o deixara hipnotizado. Quando ela se virou e seus olhos se encontraram, Darcy sentira uma corrente elétrica passar por todo o seu corpo. Ah, como ele havia desejado tê-la em seus braços novamente!
Ali, na varanda, tomando chá e conversando amenidades com os Bingleys e Georgiana, ele se perguntava como conseguiria conviver com ela dali em diante.
- Você está muito calado hoje, meu irmão. – a irmã o abordava com uma expressão preocupada, mas suave.
- Deve ser a fome. – brincou Charles antes que Darcy pudesse responder
- Nesse caso, acho melhor eu ir até a cozinha agilizar um pouco as coisas. Com licença. – disse Jane retirando-se.
O almoço foi tranqüilo. Elizabeth e Darcy não mais se falaram naquele dia. Evitavam até mesmo se olhar. Após a refeição, ela declarou estar indisposta e se recolheu, para a decepção de Georgiana, que desejava tocar um dueto com a nova conhecida.














