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Uma mulher se faz elegante para sua própria satisfação.(Jane Austen)

AS QUATRO ESTAÇÕES - O INVERNO (SEGUNDA PARTE) - CAPÍTULO VI

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Capítulo VI

 

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Steven Cravis – Tears of Joy

 

   O equinócio de primavera chegara finalmente. Logo as flores começariam a brotar e o jardim seria banhado por suas cores e seu perfume. 

 

   O estado de ânimos de Elizabeth, entretanto, permanecia deprimente como uma fria noite de inverno. Ela ainda não conseguira aceitar o fato de que encontraria o Sr. Darcy. Cada minuto que passava a aproximava mais do dia fatídico. Ela sentia o coração disparar todas as vezes em que fechava seus olhos e encontrava os dele. Lembrava nitidamente do sorriso devastador e da voz grave e sensual que fazia os cabelos de sua nuca se arrepiarem. Era como se o tempo não houvesse passado. Por mais que ela se esforçasse para odiá-lo, seu coração a traía. 

 

   Quando Jane entrou no quarto naquela manhã seguida pela criada, que trazia seu café, Elizabeth decidiu abordar o assunto que tanto lhe atormentava. Ela passara a noite em claro pensando em uma forma de evitar o encontro com Darcy. Chegara a conclusão de que seu estado de saúde justificaria perfeitamente sua ausência no sarau. Ela esperava melhorar até o fim da semana, mas fingiria estar sentindo-se fraca, se isso a impedisse de comparecer ao evento. Esperou a criada se retirar e disse:

 

   - Jane, estava pensando e acho que não terei condições de participar do sarau. Seria melhor se eu ficasse aqui em meu quarto durante a festa.

 

   - Você enlouqueceu, Lizzy? Acha mesmo que daremos o sarau com você neste estado?

 

   Elizabeth sentiu-se péssima. Ela sabia o quanto Jane estava ansiosa por aquela festa e detestava-se por ser a causa do cancelamento.

 

   - Você não pode estar falando sério! Os convites já foram enviados! Você passou dias providenciando todos os preparativos! Jane, não há necessidade alguma de desistir agora. Eu posso perfeitamente ficar aqui descansando enquanto você recebe seus convidados. Susan me fará companhia.

 

   - Lizzy, isto está fora de questão. Já enviamos cartas a todos os convidados pedindo desculpas e avisando sobre o cancelamento. Agora pare de se preocupar com isso e descanse. 

 

   Ela não tinha mais argumentos. Uma vez que os avisos a respeito do cancelamento já haviam sido enviados, nada mais poderia ser feito. 

 

   Embora todos os cuidados recomendados pelo médico estivessem sendo tomados, foi só em meados de abril que Elizabeth começou a sentir-se melhor. Até então, a sensação de fraqueza era constante e ela permanecia adormecida durante a maior parte do tempo sob o efeito de alguns medicamentos receitados pelo médico. 

 

   Com a melhora, Elizabeth começou a sentir-se inquieta. Sempre possuíra um espírito livre. Não suportava ficar enfurnada no quarto o dia inteiro. Ela olhava pela janela e admirava o verde vivo das copas das árvores e da grama. Em alguns pontos do jardim já se podia observar os botões das flores se abrindo.

 

   Ela precisava fazer parte daquilo. Tudo era tão colorido e perfumado! Os pássaros cantavam e as borboletas vinham pousar no parapeito de sua janela como se a convidasse a participar da grande festa que se desenrolava lá fora. 

   Jane permitira, a contragosto, que ela se levantasse de vez em quando e circulasse pelo quarto. Elizabeth sabia que não seria fácil, mas arranjaria uma forma de convencer a irmã adeixá-la passear um pouco pelo jardim. 

 

   - Passear? Lá fora? Lizzy! O médico recomendou repouso absoluto! Ah, não. Não me olhe assim... Eu sei o quanto você gosta de ficar ao ar livre e me corta o coração vê-la engaiolada como um passarinho, mas entenda que é para o seu bem. Pense no bebê! Só faltam mais alguns meses para o nascimento! É melhor não arriscarmos. Você sabe que a sua gravidez é complicada...

 

   - Está bem... – respondeu Elizabeth com evidente decepção.

 

   - Vamos, não fique assim. Quando seu filho nascer lindo, forte e saudável, você verá como todo este sacrifício valeu a pena. 

 

   - Eu sei, Jane. Não pense que não me preocupo com meu filho. Eu penso na saúde dele a cada instante. Mas já me sinto tão melhor... Não acho que apenas um passeio vá prejudicá-lo. Talvez um pouco de ar fresco me fizesse bem.

 

   - Talvez... Vamos esperar mais alguns dias, está bem? Descanse mais um pouco e eu prometo que se você estiver melhor nós sairemos para uma caminhada. Nada muito cansativo, é claro.

 

   - Obrigada, Jane. – abraçou a irmã e deu-lhe um beijo na bochecha.

 

   - De nada, minha querida. Tudo o que eu quero é vê-la feliz e saudável.

 

   - Eu sei... Detesto ser esse fardo para você e Charles.

 

   - Você não é um fardo, Lizzy! Charles e eu a adoramos e eu fico muito mais tranqüila por tê-la aqui, onde eu posso cuidar de você. Imagine se ainda estivesse em Retford sozinha? 

 

   - Eu não vou negar que ficar aqui é infinitamente melhor do que estar lá. Mas ainda assim sinto-me mal por estar abusando tanto de vocês dois.

 

   - Você não precisa se preocupar quanto a isso, Lizzy. Pode ficar conosco pelo tempo que desejar. 

 

   - Não posso depender da sua hospitalidade para sempre, minha irmã. Você e Charles estão casados há menos de um ano. Precisam pensar na família de vocês e, não, em mim. Eu já estou incomodando demais. Assim que meu filho nascer, vou voltar para o Hertfordshire, para a casa de nossos pais.

 

   - Nem mesmo sonhe com isso! Vai ficar aqui, onde eu posso garantir que você e o bebê terão todos os cuidados necessários. Se quiser, posso pedir a Charles que ceda um chalé próximo para você morar depois do nascimento, embora eu prefira que permaneça aqui em casa mesmo.

   - Depois nós decidimos isso, está bem? Eu não estou conseguindo raciocinar corretamente agora.

 

   - É claro, meu bem! Quanta indelicadeza a minha, ficar discutindo enquanto você ainda está debilitada! É melhor tomar o remédio agora. 

 

   - Certo. O frasco está ali em cima. – ela indicou a mesa com a jarra de água.

 

   Jane pegou um copo com água e pingou duas gotas do líquido incolor. Elizabeth bebeu recebeu com gratidão a sonolência que se seguiu. Precisava dormir um pouco. Sentiu sua cabeça ficar cada vez mais leve e dormiu sob o afago da irmã em seus cabelos.

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Enya – Watermark

 

   Elizabeth permaneceu naquele estado de torpor por alguns dias. Acordava somente para as refeições, que eram sempre servidas no quarto. Jane lhe fazia companhia muitas vezes mesmo quando estava dormindo. 

 

   Uma manhã, quando Jane já se preparava para administrar o remédio novamente, Elizabeth disse que não precisava mais tomá-lo. Estava cansada de passar os dias a fio mergulhada naquele sono induzido. Jane concordou com a atitude da irmã e, para a surpresa desta, sugeriu que fizessem um passeio pelo jardim. Obviamente, ela aceitou de imediato. Chamaram a criada para ajudá-la a se vestir. 

 

   Lá fora, o clima estava ameno, mas sob aquele excesso de tecido escuro, Elizabeth sentiu-se cozinhar. Caminharam pelos canteiros de íris até que o calor se tornou insuportável para a jovem viúva grávida e precisaram retornar.

 

   - O sol já está muito alto. Deveríamos fazer esses passeios em um outro horário. – disse Jane enquanto limpava o suor da testa da irmã com seu lenço.

 

   No dia seguinte, ambas se levantaram mais cedo do que o normal e saíram para sua caminhada. Conversavam amenidades quando Jane lembrou-se de dizer que ela e Charles jantariam em Pemberley a convite de Darcy. A simples menção daquele nome fazia o estômago de Elizabeth se revirar como se milhares de borboletas voassem dentro dele.

 

   - Você acha que ficará bem sem mim esta noite?

 

   - Claro. Ficarei ótima. Não precisa se preocupar. 

 

   - Já faz semanas que o Sr. Darcy nos convida para ir até Pemberley, mas nós sempre recusamos. Eu estava apreensiva em deixá-la sozinha, minha querida. Mas agora que está melhor, fico mais tranqüila.

   À noite, como planejado, os Bingleys partiram em sua carruagem rumo à residência do amado de Elizabeth. Ela não confessava nem para si mesma, mas seu maior desejo era ir com eles. 

 

   Darcy saberia que ela estava em Derbyshire? Certamente Charles comentaria a respeito da cunhada com o melhor amigo. Se sabia, havia sido muito descortês da parte dele não convidá-la para o jantar também. Mas então ela se lembrou de que estava de resguardo. Mesmo mulheres cuja gravidez fosse tranqüila não costumavam freqüentar jantares ou festas. Essa fora, com certeza, uma excelente desculpa para o Sr. Darcy evitar o encontro.

 

   Tentou afastar aquelas suposições de sua mente. Foi até a sala de música e abriu o piano. Fazia tanto tempo que não praticava. Começou a dedilhar uma melodia aleatória até que iniciou uma canção popular. Passou muito tempo assim, tocando o que lhe viesse à mente, até que o sono chegou e ela voltou para o quarto.

 

   No dia seguinte, tomou o desjejum em seus aposentos, como de costume, e saiu para caminhar sozinha, uma vez que Jane ainda não havia acordado para acompanhá-la. Pediu à criada que avisasse sua irmã a respeito de seu paradeiro caso esta perguntasse. 

 

   O dia estava perfeito. Os raios de sol, ainda pálidos àquela hora da manhã, pareciam finas cerdas de um delicado pincel a tingir de dourado as pétalas brancas das margaridas. O doce aroma das flores a inebriava. O canto dos pássaros mais parecia uma sinfonia que tocava somente para ela. Nesse panorama paradisíaco, Elizabeth caminhou mais do que pretendia. Sentou para descansar um pouco sob a sombra de um velho carvalho. Fechou os olhos por um momento e deixou sua imaginação fluir livremente. Mas dessa vez, seus pensamentos não a conduziram para as lembranças dolorosas que a atormentavam sempre. Em vez disso, tomaram o caminho das memórias prazerosas que guardava. Imagens de sua família, principalmente de seu pai, surgiram diante de seus olhos. Ah, como ela sentia a falta dele! Decidiu que escreveria para Longbourn naquele dia mesmo.

 

  Uma claridade mais intensa começou a penetrar por entre as folhas do carvalho. Sentindo o calor no rosto, ela despertou de seu devaneio para perceber que a manhã provavelmente já estava no fim. Voltou para a casa debaixo do sol de meio-dia.

 

   No jardim de fundos da residência, aquele para o qual seu quarto dava vista, havia uma fonte, onde ela parou para molhar o rosto. Após se refrescar, Elizabeth entrou pela porta da estufa. Tomou o caminho das escadarias, mas parou quando se viu diante da porta aberta da sala de música. O piano a chamava. 

 

   Sentou-se e fechou os olhos. Começou como na noite anterior: dedilhando uma melodia qualquer. Mas logo a melodia tomou forma e uma música suave e profunda ecoou pelos salões de Loundsley. Ela entrou em um estado de transe enquanto tocava. Estava alheia a tudo o que se passava a sua volta. A casa poderia desmoronar naquele exato momento e ela nem sequer notaria.

 

   Novamente, ela se permitiu viajar com liberdade. Mas não havia um só pensamento bem definido em sua mente. Só cores e sons. Os tons da música que tocava com a alma. Seus dedos pousaram nas teclas do acorde de encerramento com a suavidade de uma borboleta. Ela abriu os olhos e gradualmente voltou à realidade. Levantou-se do banco e alisou o vestido que estava amarrotado. Quando ergueu a cabeça, seus olhos encontraram dois lagos de água cristalina onde ela um dia mergulhara. O tempo parou e voou simultaneamente. Séculos se passaram em um segundo. O ar desapareceu do ambiente. O ambiente desapareceu com o ar. Só restavam ela e o homem à sua frente.

 

 

FIM DA SEGUNDA PARTE

 

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