Citações

Qualquer coisa nutre o amor que já é forte. Mas no caso de uma leve e diáfana inclinação, estou convencida de que um bom soneto irá matá-lo de fome completamente. (Jane Austen)

AS QUATRO ESTAÇÕES - O INVERNO (SEGUNDA PARTE) - CAPÍTULO V

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Capítulo V

 

   Os Bingley eram tão gentis e preocupados com o bem estar de Elizabeth que ela se sentia mal por estar abusando de sua hospitalidade. Eles a faziam se sentir mais à vontade do que se estivesse em sua própria casa.

 

   Charles a acolhera como a uma irmã e logo uma sólida amizade se desenvolveu entre eles. Jane fingia por vezes estar enciumada, dizendo que Elizabeth a trocara por ele.

 

   - Ah, Jane, Charles é o melhor cunhado que alguém pode ter, mas você ainda é a minha irmã preferida! – dizia Elizabeth rindo.

 

   - Vou fingir que acredito nisso. – respondia Jane ainda se fazendo de ciumenta.

 

   O equinócio de primavera se aproximava. A neve já havia derretido completamente, mas a temperatura ainda estava baixa. Apesar disso, Elizabeth nunca deixava de fazer seus passeios matinais.

 

   Após o derretimento do gelo, ela conseguira convencer Jane a deixar que saísse da casa sob a promessa de se agasalhar bem. Então, todos os dias ela acordava mais cedo que seus anfitriões e caminhava pelo belo parque que rodeava a propriedade. Geralmente, quando voltava, Charles e Jane já a aguardavam para tomarem juntos o desjejum.

 

   Os dias se seguiam tranqüilos. Elizabeth e Jane conversavam e bordavam roupinhas para o bebê enquanto Charles saía para visitar seus arrendatários ou ir até Lambton resolver alguma pendência.

 

   Um dia, ao voltar do vilarejo, Charles anunciou que havia contratado um professor de piano para elas. Elizabeth ficou contente, pois achara a sala de música da mansão belíssima. Como nem ela nem Jane sabiam tocar muito bem, não aproveitavam os benefícios deste espaço, onde havia o piano mais belo que Elizabeth já vira.

 

   O professor chegou no dia seguinte. Havia sido recomendado pelo Sr. Cavendish, um amigo de Charles, que possuía uma propriedade próxima a Loundsley e era grande conhecedor de música.

 

   O Sr. Watson, o professor, era pequeno e roliço, com uma espessa cabeleira branca. Seus bondosos olhos azuis conquistaram a simpatia de Elizabeth de imediato.

 

   As aulas aconteciam três vezes na semana, mas Elizabeth se encantara tanto com o instrumento que praticava durante a maior parte de seu tempo. Ela e Jane já haviam aprendido noções básicas de música quando mais novas, mas nunca desejaram aprimorar a técnica ao piano. Porém, o Sr. Watson tinha uma maneira tão especial de ensinar que logo despertou o interesse de Elizabeth. Jane também gostara das aulas, porém não tanto quanto a irmã. Ela preferia ouvir Elizabeth tocar enquanto bordava ou lia.

 

   O progresso de Elizabeth no instrumento acontecera de forma tão rápida que o próprio professor ficou espantado. Jane teve, então, a idéia de organizar um sarau e convidar os conhecidos da região.

 

   - Não seria maravilhoso, Lizzy? É a oportunidade perfeita para você conhecer os nossos vizinhos! São todos tão amáveis! Foram tão gentis quando nos mudamos! Todos vieram nos visitar. Infelizmente, não demos nenhum baile ou jantar desde que chegamos. Agora seria o momento ideal e você encantaria a todos com a sua habilidade ao piano.

 

   - Não sei se me sinto bem tocando na frente de tantas pessoas, Jane.

 

   - Desde quando você é tão tímida? Essa não é a Lizzy que conheço.

 

   - Você está me confundindo com Mary. Posso não ser tímida, mas também não sou uma exibicionista.

 

   - Lizzy! Não fale assim de Mary! Ela não é exibicionista, só gosta que apreciem seu talento.

 

   - Jane, sejamos francas: ela não tem talento.

 

   - Voltando ao assunto – disse Jane lançando um olhar reprovador à Elizabeth – você poderia tocar para o Sr. Cavendish! Tenho certeza de que ele gostaria muito de ouvi-la.

 

   - O amigo de Charles que é quase um especialista em música? Jamais! Ele deve estar acostumado com os melhores concertistas do mundo. Como eu, uma mera iniciante, vou tocar para ele?

 

   - Elizabeth Bennet, quero dizer, Wickham, pare de se depreciar. Você sabe que está indo muito bem nas aulas de piano. Além disso, foi o Sr. Cavendish quem recomendou o Sr. Watson. Acho que ele gostaria de verificar o quanto sua indicação foi boa.

 

   - Sim, Jane, mas você está se esquecendo de um outro problema: eu estou grávida e acabei de ficar viúva. Não seria apropriado me apresentar em público agora.

 

   - Ora, Lizzy, será uma reunião informal. Não é como a Season londrina. E, além disso, basta colocar um vestido um pouco mais folgado que sua barriga não aparecerá tanto.

 

   Elizabeth não mais argumentou. Se Jane estava tão decidida a exibi-la na frente dos vizinhos, ela não faria oposição. Praticaria mais do que o normal, pois não desejava passar por ridícula como acontecia freqüentemente com sua irmã Mary.

   O sarau foi marcado para dali a uma semana. Todos os vizinhos foram convidados, o que significava que Elizabeth estaria rodeada por pessoas ricas e, provavelmente, esnobes. Jane estava uma pilha de nervos, pois seria a sua verdadeira estréia como anfitriã de Loundsley.

Elizabeth tentava acalmar a irmã, que andava pela casa freneticamente verificando cada detalhe dos preparativos. Tudo precisava estar perfeito e cada pormenor era crucial: desde a prataria até as flores do ambiente. Elizabeth se surpreendeu ao vislumbrar por um segundo a Sra. Bennet no corpo de Jane.

 

   Dois dias depois que os convites foram enviados, Charles, Jane e Elizabeth se deliciavam com uma maravilhosa torta de maçãs após o jantar. A conversa fluía normalmente até que Charles lembrou-se de dizer algo:

 

   - Jane, querida, você não imagina quem virá ao sarau!

 

   - Quem, meu amor?

 

   - Darcy! Eu precisei ir até Lambton hoje e o encontrei por lá. Parece que voltou de Londres ontem e pretende ficar em Pemberley por bastante tempo. Eu falei sobre o sarau e ele concordou em vir.

 

   - Que ótimo! Não é maravilhoso, Lizzy? Você e o Sr. Darcy pareciam se dar muito bem durante a estada dele em Netherfield. Tenho certeza de que a presença dele aqui fará você se sentir mais à vontade em meio a tantas pessoas desconhecidas. – Jane falava tão animadamente que não percebeu quando a cor desapareceu do rosto da irmã.

 

   - Com licença. – disse Elizabeth com a voz fraca enquanto se levantava.

 

   - Está tudo bem, Lizzy? Você está pálida. – disse Charles

 

   - Eu não estou me sentindo muito bem. – ela começava a ver a sala de jantar girar.

 

   - Oh, meu Deus! Será que não devemos chamar o Dr. Andrews, Charles?

 

   - Está tudo bem, Jane. Deve ser só cansaço. – ela tentou apoiar-se na cadeira para não cair.

 

   - Charles, vá chamar o médico! Rápido! – foi a última coisa que Elizabeth ouviu antes de perder os sentidos.

 

   Quando acordou, o dia já estava claro. Jane estava ao seu lado com os olhos vermelhos.

 

   - Jane? O que aconteceu? Por que está chorando? – ela não se lembrava de ter ido para o quarto na noite anterior.

 

   - Oh, Lizzy! Graças a Deus! Eu fiquei com tanto medo! – Jane a abraçava e chorava.

 

   - Não fique assim. Está tudo bem agora. – ela dizia tentando acalmar a irmã.

   - Eu vou dizer ao doutor que você acordou. – falou Jane limpando as lágrimas com as costas das mãos – Volto em um minuto.

 

   Jane saiu e voltou logo em seguida, com um homem alto e sério. Ele tinha cabelos grisalhos e olhos graves que impunham respeito. Após examinar Elizabeth ele concluiu:

 

   - Ela e a criança estão bem. Foi apenas um sangramento. Mas eu recomendo repouso e nada de emoções muito fortes, pois podem acarretar mais sangramentos e até um aborto. É recomendável também uma boa alimentação.

 

   - Não se preocupe, doutor. Eu vou cuidar pessoalmente de tudo. – disse Jane com firmeza.

 

   Quando a irmã a deixou para acompanhar o médico até a porta, Elizabeth sentiu-se invadida por um medo terrível. Ela podia ter perdido seu filho! Jane não sabia a real causa daquele sangramento, mas ela sabia muito bem qual fora: Fitzwilliam Darcy. Por causa dele ela quase perdera a única coisa que ainda dava algum sentido à sua vida.

 

   Sentiu lágrimas grossas escorrerem por sua face. Não podia perder seu bebê. Ela não suportaria mais essa punhalada do destino. Enxugou as lágrimas com o lençol. Precisava agüentar firme. Precisava ser forte pelo bem daquela criança que estava em seu ventre.

 

   De repente, lembrou-se de que encontraria com Darcy no final daquela semana. Subitamente toda a pouca coragem que conseguira reunir até aquele momento se esvaiu em menos de um segundo. Como olharia para ele novamente? Como se comportaria em sua presença? E pior ainda: como ele se comportaria diante dela? Trocariam cumprimentos formais como estranhos? Ou haveria olhares de cumplicidade? Não, não havia espaço para olhares de cumplicidade. Não depois de todo o mal que ele lhe causara.

 

   Havia apenas uma coisa a fazer: resignar-se com o fato de que o encontraria mais cedo ou mais tarde e aproveitar o tempo que ainda tinha reunindo coragem o suficiente para olhá-lo nos olhos e erguer a cabeça com dignidade.

 

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