Capítulo IV
Vivaldi – Inverno
Elizabeth dormiu durante a maior parte do percurso. Estava tão exausta que não percebeu quando chegaram ao destino. Charles precisou balançá-la de leve para que despertasse.
Havia levado Susan consigo. A moça preferira acompanhar a patroa a perder o emprego. Poderia enviar o dinheiro para a família a cada mês. Além disso, tinha uma irmã de quinze anos que poderia cuidar dos irmãos menores em seu lugar.
Quando saltaram da carruagem, Elizabeth sentiu o vento gélido em seu rosto. A paisagem ainda mostrava os sinais do inverno. As árvores desnudas brotavam do solo castigado pela neve, onde a grama era apenas uma fina penugem verde que surgia em alguns pontos.
Elizabeth foi recebida por Jane com beijos e abraços apertados.
- Oh, Lizzy, é horrível que você tenha sido privada de seu marido após tão pouco tempo de casada! Imagino como deve estar sofrendo... Sei que é muito egoísta de minha parte sentir-me assim, mas estou tão feliz por você ter vindo! Estava com tantas saudades...
- Também senti muito a sua falta, minha irmã. – respondeu Elizabeth com lágrimas nos olhos
- Eu estava tão preocupada! Você, grávida, viajando toda essa distância. Quem sabe o que poderia ter acontecido!
- Felizmente não aconteceu nada. Estou aqui agora sã e salva.
- Sim, – disse Jane sorrindo radiante – e eu vou cuidar de você agora.
- Quanto a mim, acabo de chegar e já devo partir. – interrompeu-as Charles.
- Mas já? – Elizabeth chocou-se.
- Sim. Vim apenas trazê-la, Lizzy. Preciso ir a Londres resolver alguns problemas ainda. - Não demore muito. Sabe que ficarei morrendo de saudades. Só permiti que fosse a Retford porque era para ajudar Lizzy. Mas não serei tão tolerante com esses negócios em Londres. – brincou Jane dando um beijo em seu marido.
Elizabeth afastou-se para tirar seu casaco de viagem e dar mais privacidade ao casal. Eles se despediram e Bingley partiu novamente na carruagem.
- Eu sinto imensamente pelos transtornos que causei a você e Charles, querida Jane. – desculpou-se Elizabeth quando se viram sozinhas.
- Lizzy, acha mesmo que nós a deixaríamos em uma situação de necessidade? Fico muito feliz por termos podido ajudá-la. Eu sei que é até pecado pensar assim, mas acho que a morte de Wickham foi a melhor coisa que aconteceu a você. Sei que gostava dele, mas era um péssimo marido.
- Essas devem ser as palavras mais duras que já a ouvi dizer sobre alguém. – riu Elizabeth.
- Pobre coitado. Que Deus o tenha. Eu não devia ficar dizendo essas coisas. – disse Jane dando tapinhas na própria boca.
- Ah, Jane! Você não muda nunca... Não sabe a falta que me fez nesse tempo todo. Mas agora eu sei que tudo vai dar certo, porque tenho a minha irmãzinha ao meu lado.
***
Apesar de ter dormido durante toda a viagem, Elizabeth chegara exausta a Loundsley. A fadiga natural, o frio daquela época do ano e os quatro meses de gestação a fizeram adormecer no momento em que se deitou na confortável cama. Acordou somente no dia seguinte com o tímido sol de inverno que penetrava pelas frestas da cortina. Ela se levantou e foi até a janela. Debruçou-se no parapeito e observou a paisagem. Apesar do frio, já não nevava. O céu estava azul e sem nuvens.
Quando criança, Elizabeth adorava brincar na neve. Lembrou-se das guerras de bola de neve que disputava com as irmãs. Naquele tempo de inocência, ela jamais imaginara o destino reservado para ela. Nunca fora romântica como Lydia e Kitty, mas acreditava que um dia se casaria com um rapaz que amasse. Não seriam ricos, mas teriam uma vida confortável. Seus filhos cresceriam no campo e o marido e ela envelheceriam brincando com os netos. Ali, debruçada na janela, ela se perguntava como sua vida havia tomado um rumo totalmente oposto ao que previra.
Após alguns minutos, a posição em que estava tornou-se desconfortável. Ela se virou e sentou na poltrona que ficava ao lado da janela. Então pôde observar, pela primeira vez, a beleza do aposento em que se encontrava.
O quarto era delicadamente decorado, com cortinas e poltronas cor-de-rosa. O papel de parede creme, com detalhes florais em tons pastéis, dava ao aposento um clima aconchegante, porém, refinado. A mobília em estilo Luís XV era composta pelas duas poltronas próximas à janela, uma mesinha entre elas, a grande cama ao centro, duas mesas de cabeceira com tampos de mármore, uma escrivaninha repleta de gavetas, um toucador e uma cômoda.
Elizabeth se levantou e dirigiu-se a mesinha ao lado, onde se encontrava uma jarra com água e uma bacia de porcelana. Depois de fazer sua toilette, ela foi ao toucador escovar os cabelos. Arrumou-os em um coque prático e chamou Susan para ajudá-la a se vestir. Devido à morte do marido, passara a usar as roupas negras do luto.
Após conferir o resultado no espelho, ela saiu para procurar sua irmã. O grande relógio do átrio informou-a de que a manhã já estava adiantada.
“Meu Deus! Como pude dormir tanto?”
No primeiro andar, ela indagou a uma criada sobre a localização de Jane. A moça lhe disse que esta se encontrava na estufa e continuou com seu trabalho. Elizabeth não fazia idéia de como chegar à estufa. Loundsley era a maior propriedade que ela já visitara. Apesar de não ter uma aparência ostentadora, a casa ainda a impressionava com seu tamanho.
Ela vagou por alguns corredores menores até desembocar em uma larga galeria ladeada por vidraças, que mostravam jardins brancos. Seguiu ouvindo seus sapatos ressoarem no piso lustroso. Deparou-se com uma porta de vidro e abriu-a com cuidado. Enfim, encontrara a estufa.
- Jane? – ela chamou incerta. A estufa parecia estar deserta
- Bom dia, bela adormecida! – cumprimentou-a a irmã sorridente – Pensei que você tivesse resolvido aproveitar o inverno para hibernar como os esquilos.
- Muito engraçado. Por que me deixou dormir tanto?
- Ora, você estava tão cansada que eu fiquei com pena de acordá-la. Deve estar morta de fome. Vou até a cozinha pedir para prepararem alguma coisa para você comer enquanto aguardamos o almoço, está bem?
Ela ainda não havia percebido o quanto estava faminta. A gravidez havia aumentado o seu apetite e ela não jantara na noite anterior.
- Pode ficar aqui enquanto eu vou à cozinha. Eu simplesmente adoro este lugar! Passo horas cuidando das orquídeas. Temos algumas bastante exóticas trazidas por um amigo de Charles que costuma viajar pelo mundo. Esta aqui, por exemplo, veio da América do Sul. – disse mostrando uma grande flor amarela
Elizabeth ficara fascinada pelas flores. Eram todas diferentes, mas cada uma possuía uma beleza própria. Era impossível eleger a mais bela.
Jane saiu, deixando a irmã sozinha. Elizabeth passeou por entre as orquídeas demorando-se em uma ou outra que chamasse sua atenção.
A estufa era enorme. Quando Jane voltou precisou elevar a voz para que a irmã, que se encontrava do outro lado do aposento, ouvisse.
- Lizzy! Já está tudo pronto.
Após tomar o desjejum, Elizabeth foi guiada por Jane em um tour pela casa. Ela visitou todas as salas, deslumbrando-se com a decoração de cada ambiente. Jane comentava animadamente sobre a mobília ou sobre as figuras dos painéis. Depois da visita guiada, as irmãs almoçaram juntas.
- Esqueci de perguntar o que achou de seu quarto!
- É perfeito, Jane. São os aposentos mais belos em que já estive – respondeu com sinceridade
- Oh, Lizzy, como eu queria que você ficasse aqui para sempre! Seria maravilhoso! Não consigo ficar longe de você, minha irmã.
- Eu não posso ficar aqui para sempre, Jane. Ainda não sei bem o que vou fazer. Talvez possa alugar um chalé depois que o bebê nascer.
- Sim, mas até lá você ficará conosco. – disse Jane fazendo um movimento com a mão para espantar as idéias de Elizabeth como se espantasse uma mosca.
- Enquanto isso, que tal aproveitarmos para relembrar os velhos tempos? – perguntou Elizabeth com uma empolgação quase infantil.
- Elizabeth Bennet, digo, Wickham, o que você está querendo aprontar?
- Ah, Jane, nós podíamos ir lá fora brincar na neve como fazíamos antigamente. – pediu esperançosa.
- De jeito nenhum! E se você se resfriar?
- Jane, você está parecendo a mamãe quando nós tínhamos cinco anos de idade.
- Hoje eu vejo que ela tinha razão. Coitada, pense nos cabelos brancos que nós lhe demos por causa de nossas brincadeiras!
- Ah, sempre a mais sensata... Será que você não pode esquecer essas preocupações só por hoje? Está um dia lindo! A neve lá fora está tão branquinha... Por favor, Jane! – implorava ela piscando os olhos com ar de fingida inocência.
- Está bem! Mas não vamos ficar muito tempo. – respondeu Jane categórica
- Concordo. Agora vamos? – e arrastou a irmã pela mão para os jardins
A primeira coisa que Elizabeth fez quando se encontrou na liberdade do espaço aberto foi jogar-se na neve e balançar os braços e as pernas, fazendo um anjo.
- Lizzy, você vai ficar ensopada! – ralhou Jane sem perder sua habitual doçura.
Elizabeth a calou com uma bola de neve. Foi o suficiente para Jane esquecer-se de sua postura maternal e iniciar uma batalha de bolas de neve com a irmã. As duas passaram a tarde brincando e rolando na neve fofa.
Naquela tarde, Elizabeth e Jane voltaram a ser as duas meninas cheias de sonhos e esperanças que o Hertfordshire vira crescer e a vida se encarregara de separar.
***
As cores do crepúsculo já se fundiam no azul noturno quando Elizabeth e Jane retornaram à casa. Ambas encontravam-se completamente encharcadas. Ao pisarem no saguão de entrada da mansão, a voz da Sra Parkins, a governanta, se fez ouvir instantaneamente:
- Pelos céus! As senhoras enlouqueceram? Nancy! Nancy!
Uma jovem criada apareceu correndo.
- Chamou, madame?
- Vá buscar toalhas e roupas secas para as senhoras!
- Sim, madame. – e saiu apressadamente
- Venham, já acendi a lareira da sala. É melhor se aquecerem ou podem ficar constipadas. – continuou a governanta com seu tom maternal.
Jane e Elizabeth seguiram para a sala rindo baixinho pelo ridículo da situação. Quando já estavam sentadas próximas à lareira, enroladas nas toalhas trazidas por Susan, a Sra. Parkins as deixou.
- Olhe a situação em que você me colocou, Lizzy! – ralhou Jane ainda rindo – Fui obrigada a ouvir um sermão da minha própria governanta! Ela e os outros criados devem estar pensando que eu sou uma completa louca!
- Ora, Jane, podem pensar que você é louca, - respondeu Elizabeth em tom divertido – mas ainda a adoram. Não viu como ela ficou preocupada? Ela não estava apenas fazendo o trabalho dela. Você sempre conquista a simpatia de todos com sua doçura.
- A Sra. Parkins é realmente adorável. Foi muito gentil da parte dela se preocupar dessa forma conosco. Mas quanto a conquistar a todos... Eu não sei. Lembro que antes da minha partida de Longbourn, mamãe me disse “Jane, você precisa aprender a ser mais dura! Se continuar sendo sempre bondosa e gentil, como vai ser respeitada pelos criados?”.
- Ah, você conhece a mamãe! Ela não entende que você nunca vai mudar? Até eu já entendi! Todos estão fadados a amá-la, Jane, e não há nada que você possa fazer a esse respeito.
Jane riu enquanto suas bochechas coravam levemente.
Elizabeth espirrou. A irmã ficou imediatamente alarmada.
- Oh, meu Deus, Lizzy! Onde eu estava com a cabeça quando concordei com essa loucura? Por minha culpa você vai acabar se resfriando ou pior, pegando uma pneumonia!
- Jane, você quer, por favor, se acalmar? Foi só um espirro! As pessoas espirram o tempo todo e nem por isso ficam com pneumonia!
- Está bem, está bem! Mas amanhã mesmo eu vou pedir que o Dr. Andrews venha examiná-la. Só por precaução.
Elizabeth revirou os olhos. Jane definitivamente decidira assumir o cargo de sua mãe. Após o casamento, ela, provavelmente, ficara ansiosa por um filho. Como este ainda não dera sinal de estar a caminho, ela inconscientemente depositou em Elizabeth todo o seu instinto maternal.
Depois da tarde de estripulias na neve, a fadiga começou a dominar as irmãs. Elas foram para o quarto de Elizabeth, onde a lareira também já estava acesa. Jane pediu que o jantar fosse servido lá. As duas se deliciaram com uma sopa que pareceu aquecê-las por dentro e ficaram conversando até que ambas adormeceram.
Steven Cravis – Children of Beslan
Os dias que se seguiram foram como uma ilha de felicidade no oceano de melancolia em que a vida de Elizabeth se transformara. Ela e Jane passavam as manhãs na estufa cuidando das orquídeas e bordavam ou jogavam cartas durante as tardes. Algumas vezes iam até a fabulosa biblioteca ler algum romance. Todas as noites ficavam até altas horas conversando no quarto de Elizabeth e depois Jane acabava dormindo lá. Ela dizia que se sentia muito solitária em seu quarto quando o marido estava fora.
Era comum Elizabeth acordar no meio da madrugada e não conseguir voltar a dormir. Nessas ocasiões ela se levantava cuidadosamente para não despertar Jane e ia até a biblioteca. Escolhia um livro, mas apenas fingia lê-lo, pois seus pensamentos invariavelmente vagavam até o único homem que amara em toda sua vida. Ela se surpreendia relembrando os momentos de intimidade, as palavras doces e os beijos ardentes que trocaram. Parecia, na época, que nada os poderia separar. Nunca se sentira tão fortemente conectada a outra pessoa. Nem mesmo Jane. Sabia em seu íntimo que estava destinada a amá-lo até o fim de seus dias. Mas então ela se lembrava de que ele havia também sido o causador da maior decepção que já sofrera. Seu mundo ruíra por culpa de Fitzwilliam Darcy.
“Vou odiá-lo até morrer.” pensava com amargura.
Entretanto, Elizabeth não podia evitar sentir uma certa gratidão por ele. Afinal, Darcy havia lhe dado o maior presente que alguém poderia receber: seu filho. Mesmo que ainda não houvesse nascido, aquele bebê despertara nela um amor tão grande que ela sentia que seria capaz de qualquer coisa apenas para fazê-lo feliz.
Passava horas conversando com ele. Planejava seu futuro. Seria um médico, ou um advogado, se fosse menino. Caso fosse uma menininha, não seria uma princesa delicada. Seria como ela fora: uma criança extrovertida e brincalhona. E um dia ela se casaria com um bom homem, que a faria muito feliz. Não permitiria que sua menina tivesse o mesmo destino que ela tivera.
Quando conversava com Jane sobre isso, divertia-se ao ver a empolgação da irmã. Ela imaginava todos os mimos possíveis para a criança.
- Oh, Lizzy, será uma menina. Tenho certeza! E eu vou lhe dar uma boneca nova de presente a cada mês!
- Não acha que ela vai ficar enjoada de bonecas, Jane? – perguntava Elizabeth sem conter o riso.
- Tem razão! Então preciso dar a ela também uma casinha de bonecas, um pônei e muitos, muitos vestidos!
O entusiasmo de Jane era contagiante. Elizabeth sabia que não seria bom se seu filho tivesse tudo o que desejasse. Não queria que se tornasse uma criança mimada. Além disso, ela não tinha condições de lhe proporcionar todos esses luxos. Contudo, permitia que Jane sonhasse com os presentes do sobrinho. Ela ficava absolutamente radiante quando falava no assunto.
Uma semana após a chegada de Elizabeth a Loundsley, Bingley voltou de sua viagem. Jane correu para a frente da casa quando viu que a carruagem do marido se aproximava e jogou-se em seus braços assim que ele pisou no chão. Elizabeth sorriu ao ver como o casamento transformara a irmã. Antes, ela jamais seria capaz de uma demonstração tão efusiva de afeto, principalmente em público.
Bingley cumprimentou a cunhada animadamente. Depois disso, ele e Jane dirigiram-separa seu quarto de onde não saíram pelo restante do dia.
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