Capítulo III
John Williams – The
Chairman’s Waltz
Os Wickhams passaram dias sem sequer se olharem. George, a princípio, tentara uma reconciliação, mas, diante da postura irredutível de Elizabeth, desistira e retomara sua rotina viciosa.
A convivência tornava-se cada vez mais difícil. Irritado pela insistência da esposa em manter a distância entre eles, Wickham alongava suas noites de divertimento. Parecia acreditar que, com aquilo, vingava-se dela. Nada do que Elizabeth fizesse seria tão ofensivo para ele quanto a não retribuição de seu amor.
A simples idéia de que ela pudesse estar pensando em Darcy enquanto sequer falava com ele era-lhe absurdamente torturante. Wickham não enxergava seus erros; para ele, a esposa usava aqueles pequenos deslizes que cometera como pretexto para evitá-lo. Via-se como a vítima da situação. Era perfeitamente compreensível que um homem ignorado pela própria mulher fosse buscar entretenimento fora de casa. Reconhecia, porém, que deveria ter sido mais cuidadoso. Elizabeth não precisava ter passado pelo constrangimento da estalagem.
A própria recordação daquele episódio o fazia tremer de raiva; ela não se revoltara por ciúmes, mas, sim, pelo dinheiro que estava sendo desviado das despesas domésticas.
Elizabeth, por sua vez, indignava-se com a conduta de George e não tinha qualquer intenção de voltar atrás em sua decisão de não lhe dirigir a palavra. Ele não mostrava sinais de arrependimento. O máximo que fizera fora tentar retomar o convívio normal entre eles logo após a cena da estalagem, como se nada houvesse ocorrido. Aquilo ela não toleraria. Como ele podia gastar a pouca renda que tinham em bebidas e prostitutas? E ainda achar que eram apenas deslizes?
Além de não se retratar por suas faltas, Wickham também insistia nelas. A paciência de Elizabeth com ele estava chegando ao fim. Estavam quase sem dinheiro naquele ponto. A situação culminou em um sério desentendimento entre eles, no qual Elizabeth ameaçou deixá-lo.
A reação de Wickham àquela mera possibilidade ultrapassou todas as expectativas dela.
- Do que está falando? Você não pode me deixar! Lizzy, não! Não pode fazer isso comigo! – ele gritava enquanto avançava para ela, acuando-a em um dos cantos da sala – Diga, diga que nunca vai me deixar! Prometa!
- George, você está fora de si... – ela tentava manter a voz controlada, buscando acalmá-lo.
- Não fuja do assunto! Eu não vou permitir que você vá embora! Você é minha mulher, ouviu? Tem que prometer ficar ao meu lado para sempre! – ele choramingava.
Seu rosto estava tão pálido quanto a neve. Os olhos fixavam-se nela com um brilho que ela jamais havia visto. Elizabeth, consternada, cedeu.
- Está certo, George, eu prometo. Não vou abandoná-lo.
Ela passou os braços em volta dele com cautela e afagou seus cabelos. Aquilo pareceu acalmá-lo.
- Eu posso suportar não tê-la comigo, Lizzy. Mas não permitiria jamais que você me deixasse para ficar com aquele verme do Darcy. – ele sussurrou após algum tempo.
- E por que eu faria isso, George? – ela se esforçava para manter a calma. Estava começando a sentir medo dos descontroles de Wickham.
- Eu não sei... Mas nunca deixaria isso acontecer.
Elizabeth nada respondeu. Perguntava-se às vezes se George era movido pelo amor que dizia nutrir por ela ou pela raiva que tinha de William.
***
Mesmo após a discussão, George não modificou seus hábitos. Ele parecia esperar algum tipo de atitude da parte de Elizabeth, mas ela já não sabia o que fazer. Confrontá-lo não surtira efeito. E ela passara a temer as reações do marido, por isso, calculava seus atos de forma a evitar qualquer contato entre eles além do estritamente necessário.
Mas o caos financeiro da família Wickham apenas se intensificava. Elizabeth já previa o momento em que teria de demitir Susan.
Através das cartas que trocavam constantemente, ela colocara Jane a par de sua situação. A irmã prontificava-se a ajudá-la no que fosse necessário e insistia para que Elizabeth viajasse imediatamente para Derbyshire. Dizia que Loundsley Park estaria sempre de portas abertas para ela e que ficaria muito mais tranqüila se Elizabeth estivesse sob seus cuidados durante a gestação.
Wickham vetara a possibilidade de imediato. Loundsley Park era perto demais de Pemberley. Perto demais de Darcy.
Um dia chegara a notícia de que o regimento partiria para o País de Gales. Havia a suspeita de uma invasão francesa na região.
- George, por favor, seja razoável! Jane já me convidou para passar uma temporada em Loundsley diversas vezes.
- Já disse que você não vai, Elizabeth.
- Mas nem sabemos quanto tempo você ficará fora! Eu estarei melhor lá. Não posso ficar aqui sozinha.
- Você ficará bem aqui. Susan a ajudará no que for preciso. – ele encerrou a discussão.
Wickham partiu com a milícia na semana seguinte. Poucos dias depois, Elizabeth recebeu uma visita que lhe revelou a verdadeira dimensão de seus problemas.
- É a Sra. Wickham? – perguntou um homem mal-humorado de aparência suspeita.
- Sou, sim. E o senhor quem é?
- Meu nome é Burns. Estou aqui a mando do Sr. Stevens. Ele manda avisar que é melhor o seu marido pagar o que deve ou sofrerá as conseqüências.
- Pagar o que deve? Do que está falando?
- Dívidas de jogo, minha senhora. Seu marido pensa que pode brincar com um sujeito como Stevens, mas não pode. Já o vi matar gente por muito menos.
- George tem dívidas de jogo? Eu não sabia... – ela estava atordoada.
- Bem, madame, eu estou apenas dando o recado.
- Espere! George está fora, com o regimento.
- Eu sei, senhora. Sabemos de cada passo que seu marido deu, dá ou dará.
- Se sabe disso, então por que está aqui?
- Bem, o prazo que Stevens deu termina daqui a cinco dias. Vim apenas para lembrar. Se Wickham não a avisou a respeito e muito menos deixou o pagamento com a senhora, não é problema nosso. Sugiro que dê um jeito de arranjar o dinheiro.
- O senhor não tem como conseguir mais prazo?
- Sinto muito. Como disse, sou apenas o mensageiro.
- E de quanto é a dívida?
- Cinco mil libras.
Elizabeth sentiu como se a houvessem esbofeteado.
- Cinco mil libras! Como aquele insano conseguiu perder isso no jogo? – desesperou-se.
O homem parecia desconfortável diante do ataque histérico da Sra. Wickham.
- Escute, madame, vou tentar conseguir mais prazo. Mas não lhe prometo nada.
- Muito obrigada, Sr. Burns. Eu lhe serei eternamente grata.
Ele sorriu sem jeito. Virava-se para ir embora quando ela o chamou novamente.
- Sr. Burns?
- Sim?
- O que acontece se eu não conseguir o dinheiro a tempo? – perguntou com a voz trêmula.
- Arranje o dinheiro, madame. – ele respondeu com algo nos olhos que Elizabeth não conseguiu identificar de imediato. Lembrava muito a expressão que um médico usaria para desenganar os pacientes terminais.
***
O mês de fevereiro se iniciara marcado pelo desespero de Elizabeth. Com Wickham fora, ela se via completamente perdida, sem saber o que fazer para quitar a dívida. Escrevera para o marido, mas não obtivera resposta. Precisava decidir sozinha o que fazer.
O Sr. Burns conseguira mais três semanas de prazo para o pagamento. Sem alternativa, ela resolveu escrever à irmã pedindo ajuda. Poucos dias depois, recebeu uma carta de Jane avisando que Charles pagaria as cinco mil libras e que ele já estava a caminho de Retford para tratar com o Sr. Stevens.
Elizabeth ficou aliviada com a chegada do cunhado, que prontamente resolveu todas as pendências.
- Charles, nunca poderei compensá-lo por todo o transtorno que lhe causei, mas tenha certeza de que pagarei cada penny dessas cinco mil libras.
- Não se preocupe com isso, Elizabeth. Você é irmã de Jane e, agora que eu e ela nos casamos, tornou-se minha irmã também.
- Então por que não me chama de Lizzy, como fazem os outros membros da família?
- Certo, Lizzy. – Charles ainda não parecia confortável em chamá-la daquela forma.
- Mas não pense que esquecerei a dívida. Não sei como, mas vou devolver todo o dinheiro.
- Está certo, então. O que acha de me pagar em cinco mil suaves prestações?
- Essa é provavelmente a única forma de eu conseguir pagar toda esta quantia mesmo. – ela sorriu condescendente – Então, aceito.
Os dois ficaram algum tempo em silêncio. Bingley parecia querer dizer algo, mas não estava à vontade.
- O que foi, Charles? Pode me falar.
- Eu não quero ser indiscreto, mas como pretende continuar vivendo com Wickham depois de tudo isso? Quero dizer, e se ele continuar a fazer dívidas de jogo e a desperdiçar tudo o que ganham com libertinagem por aí?
- Eu realmente não sei, Charles... Mas pode ficar tranqüilo, essa foi a primeira e última vez em que eu lhe pedi dinheiro emprestado.
- Pelo amor de Deus, Lizzy! Não é disso que estou falando! Eu e Jane estaremos sempre à disposição para o que precisar. Mas agora estamos preocupados com você.
- Eu agradeço a preocupação, de verdade. Só que não vejo solução para o problema nesse momento. Não posso deixar Wickham. Minha única esperança é que ele mude de atitude depois que souber dos apuros que passei com essa irresponsabilidade da parte dele.
- E se ele não mudar, Lizzy?
- Então minha situação não será nada boa.
Charles suspirou.
- Você poderia ir para Loundsley passar um tempo conosco. Pelo menos por enquanto. Não faz sentido algum ficar aqui sozinha com a criada. E sua irmã só vive dizendo o quanto gostaria de acompanhá-la durante a gravidez.
- Eu sei, mas já lhe disse que Wickham é contra.
- E ele não diz o motivo?
Elizabeth engoliu em seco. Não podia dizer a Charles que o marido não permitia a viagem por ciúmes de Darcy.
- Não. Ele pode ser bem intransigente às vezes.
- Lizzy, estou pensando em ter uma conversa séria com ele quando voltar. Há coisas que Wickham realmente precisa reconsiderar.
- Ah, Charles, eu agradeço, mas não faça isso, por favor. Ele pode não interpretar bem o seu gesto.
- Se você prefere assim, Lizzy, não vou me intrometer. Mas saiba que se precisar de qualquer intervenção da minha parte, basta me avisar.
- Sei, sim. Obrigada. – ela sorriu. Estava começando a ver Charles realmente como um irmão.
***
Elizabeth ainda não sabia como Wickham reagiria quando descobrisse que ela pedira a ajuda do cunhado. Mas o que podia fazer? Não tinha escolha. Fora ele quem provocara toda aquela situação. E nem sequer estava lá para ajudar a resolvê-la.
Ele não respondera nenhuma das cartas da esposa. Não dera um sinal de vida sequer desde sua partida. Elizabeth estava começando a se preocupar. E se algo houvesse acontecido a ele? Wickham podia ser uma criatura desprezível, mas era seu marido. Precisava dele. Não podia criar seu filho sozinha.
Seus temores terminaram por se concretizar. No final de fevereiro, recebeu uma carta do exército comunicando o falecimento de Wickham no segundo dia de combate. Ela estava grávida e acabara de se tornar uma viúva.
Para sua sorte, Charles ainda estava na cidade quando isso aconteceu. Ao saber das notícias, ele não hesitou.
- Vou levá-la para o Derbyshire comigo, Lizzy. Está decidido.
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