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Não é uma incivilidade generalizada a verdadeira essência do amor? (Jane Austen)

AS QUATRO ESTAÇÕES - O INVERNO (SEGUNDA PARTE) - CAPÍTULO II

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Capítulo II

 

   - Susan, não esqueça de tirar o pó dos móveis da sala, sim?

 

   - Farei isso assim que terminar de arrumar a cozinha, madame.

 

   - Certo. Eu vou me deitar um pouco. Tenho sentido tanto sono nesses últimos dias...

 

   Susan riu.

 

   - Isso é normal, senhora. Nesse período da gravidez as mulheres costumam ter muito sono. Com a minha mãe, pelo menos, foi assim em todas as vezes. 

 

   - Espero que passe logo. Não consigo ficar o dia inteiro dormindo. Sinto-me uma inútil. – bufou Elizabeth.

 

   - Mas a senhora precisa de repouso. Não se preocupe. Eu cuidarei de tudo por aqui. 

 

   - Está bem. Vou descansar apenas por alguns minutos. No máximo uma hora. Quando eu acordar, prepare um chá para mim, por favor.

 

   - Certamente, senhora.

 

   O cochilo de Elizabeth acabou durando mais de quatro horas. Felizmente, Susan, que estava trabalhando na casa havia apenas uma semana, provara-se uma jovem esperta, aprendendo tudo rapidamente. Assim, quando a patroa despertou, todas as tarefas do dia já estavam prontas e ela aproveitara para passar algumas roupas, adiantando o trabalho do dia seguinte. Quando viu que a Sra. Wickham acordara, foi imediatamente preparar o chá.

 

   A moça revelara-se, além de uma criada competente, uma ótima companhia para Elizabeth. Preocupava-se com a saúde de sua senhora e da criança que ela esperava. Buscava causar a ela o mínimo incômodo, tentando executar tudo o que lhe era mandado com rapidez e eficiência. E também cuidava para que a Sra. Wickham se alimentasse e descansasse bastante.

 

   Fizera biscoitos assados para acompanhar o chá de Elizabeth. Para a patroa, aquela fora uma grata surpresa, uma vez que acordara com mais fome do que imaginara.

 

   À noite, a moça ia para casa, que ficava na vila operária. Voltava no dia seguinte logo cedo, pela manhã. 

***

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Erik Satie – Gnossienne

nº1  

   Wickham chegava tarde todas as noites. Elizabeth já se habituara àquilo e não reclamava. Aproveitava aqueles momentos de paz para colocar a leitura em dia ou tricotar roupinhas de bebê.

 

   Mas quando estava sozinha tornava-se ainda mais  difícil manter a mente longe de William. Não conseguia evitar imaginar o que ele estaria fazendo. Devia estar freqüentando muitas festas na capital. Provavelmente cortejava alguma moça rica. Talvez já estivesse até noivo. 

 

   Não, ele não tinha assumido nenhum compromisso. Jane teria comentado algo a respeito em suas cartas. Ele e Charles eram amigos muito próximos, afinal. 

 

   Elizabeth torturava-se com aquelas conjecturas todos os dias. Na verdade, mesmo quando acreditava estar concentrada em outra coisa, surpreendia-se com o pensamento nele. Perguntava-se se ele ainda se lembraria dela. Não. Ela havia sido apenas mais uma de suas conquistas, como George dissera.

 

   Às vezes, tinha vontade de escrever contando que esperava um filho dele. Mas rapidamente a idéia era colocada de lado. Não, estava fora de cogitação. Que bem aquilo faria? William pouco se importaria. Talvez até a acusasse de estar mentindo. O único resultado seria a sua humilhação e a de seu marido. Ela poderia até merecer o castigo por ter sido tão leviana, mas não tinha o direito de expor George daquela forma.

 

   Desejava ser feliz com Wickham mais do que tudo no mundo. Ele era um bom homem. Era por ele que seu coração deveria bater acelerado. 

 

   Mas as impressões que tinha sobre o caráter do marido seriam fortemente alteradas depois daquela noite. 

 

   Ela lia deitada na cama quando o ouviu chegar. Esperou ouvir os passos pesados na escada de madeira, mas só havia silêncio. De repente, o ruído de louça se partindo chegou até o quarto. 

 

   Levantou-se com pressa e jogou um peignoir por cima da camisola. Pegou a vela sobre a mesa de cabeceira e desceu as escadas correndo. 

 

   Encontrou-o totalmente embriagado. Ele tentava apoiar-se na mesa para andar, mas tudo o que conseguia era derrubar os pratos que lá estavam. Ela o guiou até o sofá e fê-lo deitar-se. Wickham adormeceu imediatamente. 

   Voltou para o quarto e tentou dormir, mas não conseguiu de imediato. Estava muito assustada pelo que acabara de presenciar. Nunca havia visto George naquele estado. 

 

“Céus, era só o que nos faltava - George se tornar um bêbado!”pensava aflita.

 

   Acordou cedo na manhã seguinte e arrastou uma cadeira até a sala. Sentou-se bem em frente ao sofá onde o marido ainda dormia pesadamente. Queria confrontá-lo assim que despertasse.

 

   - Lizzy? – ele balbuciou tentando abrir os olhos – Que horas são?

 

   - Quase hora do almoço, George. – ela respondeu entre dentes.

 

   - Meu Deus! Que dor de cabeça horrível! E que sede... Pegue um copo d’água para mim. – rosnou.

 

   Susan varria o corredor que ligava a sala à cozinha. Ao vê-la, Elizabeth fez sinal para que trouxesse o que Wickham pedia. 

 

   - O que houve ontem à noite, George? – perguntou com a voz controlada.

 

   - Ah, não foi nada, querida. Estava jogando bilhar com os rapazes e acabamos passando um pouco da conta na cerveja.

 

   - Passando um pouco da conta? George, você chegou ontem aqui bêbado como um gambá! Quebrou vários pratos enquanto tentava se arrastar para dentro de casa!

 

   - Ora, Lizzy, chega de sermão! Minha cabeça está explodindo!

 

   - Se não quer sermão, pare de agir como um moleque! 

 

   - Bem, que culpa eu tenho por procurar diversão fora de casa se minha mulher se recusa a me entreter? – ele berrou.

 

   Elizabeth ficou lívida.

 

   - Eu já lhe disse que devemos evitar certas atividades porque podem fazer mal ao bebê. - sussurrou ríspida. Aquela havia sido a sua mais nova desculpa para evitar o marido.

 

   - De qualquer forma, um homem precisa se distrair. – ele também baixou o tom, percebendo que exagerara.

 

   Elizabeth fuzilou-o com os olhos e nada mais disse. Estava irritada demais para argumentar. Até então ela se sentira em dívida com George e culpava-se por negar a ele o que lhe era de direito. Mas diante da conduta recente do marido, tinha apenas vontade de esbofeteá-lo.

 

***

 

   Nos dias que se seguiram, o mesmo ocorreu. Wickham chegava mais tarde a cada dia e vinha sempre bêbado. Elizabeth desistira de argumentar. Deixava-o dormindo na sala e limitava-se a olhar feio para ele quando acordava. Se viesse a reclamar de dores nas costas depois de tantas noites passadas no sofá, ela se fingiria de surda. E torcia intimamente para que ele fosse atormentado por sérias dores. Quem sabe daquela forma ele não aprendesse?

 

   Uma noite, Wickham não voltou. Quando o dia amanheceu, Elizabeth saiu para procurá-lo, xingando-o mentalmente de todos os nomes mais baixos que conhecia. 

 

   Foi até a casa do Sr. Denny, um dos amigos mais próximos de Wickham, mas o marido não estava lá. Denny apenas lhe informou que houvera uma festa na casa de um outro oficial na noite anterior e que Wickham talvez ainda estivesse por lá.

 

   No local indicado, também não havia sinal dele. Elizabeth resolveu voltar para casa e esperar mais um pouco antes de avisar a polícia. Estava retornando quando foi abordada por uma mulher desconhecida que dizia saber onde Wickham estava. Em troca de alguns trocados, ela deu a Elizabeth o endereço de uma estalagem e o número de um quarto.

 

   Ela foi até a tal estalagem e, assim que chegou, percebeu que o lugar era bastante estranho. O ambiente sujo era muito mal freqüentado. Por todos os lados viam-se bêbados e vadias. Pensou em sair dali rápido, principalmente depois de perceber os olhares carregados de maliciosa curiosidade sobre si. Mas ela não tinha ido até ali para nada. Veria se Wickham estava mesmo lá.

 

   Fingindo uma coragem que não tinha, foi até o balcão e perguntou pelo marido. O número do quarto que lhe deram, entre risadas, fora o mesmo que a desconhecida da rua lhe fornecera.

 

   Abrindo a porta do aposento, ela se deparou com o marido nu e desacordado sobre uma cama de casal, acompanhado por uma mulher que, obviamente, não estava ali de graça. Ao vê-la, a moça se enrolou rapidamente em um xale e correu para fora do quarto com seu vestido embaixo do braço. Elizabeth pegou uma jarra de água que estava sobre a cabeceira e despejou todo o conteúdo sobre Wickham. O resultado obtido foi o esperado: ele acordou de um salto, assustado. Antes que ele pudesse perceber onde estava, ela começou a gritar:

 

   - Então é nisso que você anda gastando o nosso dinheiro? Agora as coisas fazem sentido! Não é à toa que não sobra nem mesmo para a lenha! E eu tendo que economizar na farinha, no açúcar! Enquanto você fica aí desperdiçando tudo o que temos com vagabundas!

 

   - Lizzy, por favor... – ele pedia com ar cansado, enquanto esfregava os olhos tentando despertar completamente.

   - Ah, é verdade! Não posso falar alto, não é mesmo? Sua cabeça dói... – ela sussurrou com sarcasmo carregado – Que tal se eu falar assim, no seu ouvido, então? – berrou aproximando sua boca da orelha dele.

 

   Wickham pulou da cama, enrolado no lençol, e, tomado pela fúria, ergueu o braço para Elizabeth. 

 

   - Ah, vai me bater? Depois de tudo ainda vai agredir sua própria esposa? – gritou.

 

   Ele pareceu reconsiderar e abaixou a mão. 

 

   - Vá para casa, Elizabeth. Depois conversamos.

 

   - Eu não tenho mais nada para conversar com você e...

 

   - Não me faça perder a cabeça! – urrou, interrompendo-a.

 

   Elizabeth deu as costas a ele e obedeceu, contrariada. Passou por todos os vagabundos e vagabundas pisando firme, fingindo não ouvir os risos e comentários maldosos a seu respeito, e deixou a estalagem.

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