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Podem existir sintomas mais otimistas? Não é a desatenção que nos rodeia a própria essência do amor? (Jane Austen)

AS QUATRO ESTAÇÕES - O INVERNO (SEGUNDA PARTE) - CAPÍTULO I

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O inverno

Segunda Parte

 

Capítulo I

 

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Beethoven - Sonata ao

Luar

 

   Jane e Bingley casaram-se alguns dias antes do Natal. A cerimônia foi realizada na pequena igreja de Meryton e contou com a presença de toda a sociedade local, além de parentes e amigos dos Bingleys. 

   Elizabeth temia encontrar-se com Darcy. Não sabia como reagiria na presença dele. Mas seus temores provaram-se desnecessários, uma vez que ele não compareceu à cerimônia, alegando que seus negócios importantes ainda o retinham na capital. 

 

“Sempre a desculpa dos negócios... Eu sei perfeitamente quais foram os seus verdadeiros motivos, Sr. Darcy. Não teve coragem de encarar-me  depois de todo o mal que me causou.” pensava ela com raiva.

 

   A véspera de Natal foi comemorada em Netherfield, onde os recém-casados permaneceram por uma semana antes de se mudarem para uma propriedade que Bingley havia comprado no Derbyshire, para desgosto da Sra. Bennet, que adoraria tê-los sempre por perto.

 

   O casamento de Elizabeth e Wickham ocorreu pouco antes da partida dos Bingley, para que Jane pudesse estar presente. Apesar dos insistentes pedidos da irmã para que fosse feita uma cerimônia dupla, Elizabeth preferiu realizar a sua depois, uma vez que seu casamento seria muito mais simples que o de Jane.

 

   A despedida das duas irmãs foi banhada por lágrimas. Elas, que sempre haviam sido tão unidas, separavam-se pela primeira vez, sendo incerta a data do reencontro.

 

   Logo após o casamento, Wickham foi transferido, junto com o regimento, para a pequena Retford, uma cidadezinha localizada no norte de Nottinghamshire. Elizabeth, obviamente, seguiu o marido. Porém, estava completamente apavorada com a perspectiva de dar a luz em um local desconhecido e distante de sua família.

 

   Na noite de núpcias, ela se decepcionou ao perceber que jamais sentiria com Wickham as mesmas emoções que experimentara com Darcy naquele fim de tarde outonal. A partir daí, passou a sentir repulsa ao toque do marido e a arranjar desculpas para evitá-lo quando ele a procurava para exercer seus direitos matrimoniais. No início, sentia-se culpada por fugir dele, pois Wickham mostrava-se gentil e carinhoso com ela sempre. Além disso, era um homem bastante atraente. Elizabeth não compreendia  porque não conseguia amá-lo ou sequer sentir desejo físico por ele.

 

   Às vezes, as constantes recusas da esposa tornavam Wickham irritadiço, mas ele acabava conseguindo se controlar antes de tomar qualquer atitude impensada. Parecia esforçar-se para fazer Elizabeth amá-lo, o que apenas intensificava o sentimento de culpa dela por não poder corresponder os seus sentimentos. 

    Com o tempo, ele começou a mostrar-se cada vez mais impaciente; não apenas por saciar sua libido, mas também por suprir uma carência afetiva que começava a se tornar cada vez mais profunda. Bastava que Elizabeth ficasse distraída por alguns momentos em sua presença para que ele começasse a interrogá-la.

 

   - Está pensando nele, não está? Em Darcy, não é? Você ainda o ama, eu sei. Por que faz isto conosco, Lizzy? Por que destrói o nosso casamento desta maneira? Eu a amo tanto... Será que não percebe? Eu sou o seu marido! É em mim que você deve pensar agora! 

 

   - George, pare com isso. Eu estava apenas refletindo sobre as entrevistas que fiz hoje. Esqueceu-se de que precisamos contratar uma criada? Conversei com algumas moças mais cedo e estou tentando avaliar qual seria melhor para o cargo.

 

   O casal vivia em uma pequena casa alugada, próxima à vila operária de uma indústria têxtil. Não desfrutavam de luxos, mas tinham o básico. Sua renda não permitia que contratassem mais do que uma criada. Enquanto não conseguiam arranjar uma, Elizabeth precisava se encarregar de todas as tarefas domésticas. E mesmo quando já pudesse contar com o auxílio, ela sabia que ainda teria de supervisionar tudo de perto. 

 

 

***

 

   Era uma fria noite de janeiro. A neve caia lá fora formando um enorme tapete branco. Elizabeth encolhia-se sob as cobertas para aquecer-se. Pensou em acender a lareira, mas mudou de idéia ao lembrar-se de que deveriam economizar lenha. A que possuíam podia ser insuficiente para todo o inverno e não estavam  em condições de comprar mais. O dinheiro andava mais escasso do que o normal naqueles dias e ela ainda se perguntava o porquê.

 

   Não conseguia dormir. Olhava para a janela inutilmente. As vidraças, cobertas de gelo pelo lado de fora, bloqueavam a visão da rua. Podia-se apenas ouvir o vento uivando. O frio era tanto que ela já não sentia seus dedos dos pés. Levantou-se para calçar mais um par de meias e decidiu caminhar um pouco pela casa para se aquecer.

 

   George saíra para encontrar alguns amigos do regimento e ainda não voltara. Embora gostasse do marido, ela se sentia grata por alguns momentos sozinha. Na presença dele, tinha que se vigiar constantemente, com medo de que percebesse seu sofrimento. Fazia um esforço sobre-humano para fingir que tudo estava bem. Procurava executar suas tarefas dentro da normalidade e, sempre que conseguia, esboçava um sorriso. Mas não era fácil atuar daquela maneira. E as desconfianças de George não ajudavam.

 

   Sentindo-se menos sufocada, dava livre vazão às suas dores. 

 

   Tentava não pensar em William. Sabia que o marido estava certo. Como poderiam ser felizes se ela insistia em amar aquele homem tão desprezível? Sua consciência lhe mandava esquecê-lo, mas seu coração não permitia.

 

   Foi até o guarda-roupa e pegou sua caixa de jóias, oculta sob o fundo falso do móvel. Sentou-se na cama e espalhou o conteúdo sobre a coberta.

 

   As jóias eram muito poucas. Na verdade, o nome mais correto seria “caixa de recordações”. Ali estavam cartas de pessoas queridas que recebera ao longo da vida, registros que fizera de seus fragmentos literários prediletos, uma flor já seca que colhera em Longbourn antes de partir e, finalmente, os bilhetes que recebera de William.

   Releu cada um dos últimos incontáveis vezes até  que seus olhos marejados já não a deixassem enxergar mais coisa alguma. Dobrou os dois papéis e segurou-os junto ao peito. Permaneceu naquela posição, soluçando sem parar e deixando que as lágrimas escorressem, quando ouviu o ruído do trinco da porta.

 

   Era George que chegava. Guardou rapidamente todas as suas lembranças de volta na caixa e correu para colocá-la em seu esconderijo. 

 

   - Ainda acordada, Lizzy? – ele perguntou entre um bocejo, ao entrar no quarto.

 

   - Estava esperando por você. – respondeu tentando manter a voz equilibrada e virando-se de costas para enxugar as lágrimas na manga da camisola.

 

   - Já é tarde. Estou morto de cansaço. Vamos logo dormir. 

 

   - Vamos, sim. – ela disse enfiando-se entre as cobertas.

 

   Ele trocou a farda pelo pijama rapidamente, depositou um beijo na testa da esposa e adormeceu no momento em que sua cabeça tocou o travesseiro. Elizabeth assoprou a vela que estava em sua cabeceira, mas não dormiu. Sabia que era apenas uma questão de tempo até que as lágrimas recomeçassem.

 

 

***

 

   No dia seguinte, Elizabeth entrevistou mais uma candidata. Seu nome era Susan Gibbs. Tinha apenas dezessete anos e era bastante tímida.  Havia sido recomendada pela Sra. Quinn, a vizinha da casa ao lado.

 

   A mãe de Susan havia morrido em decorrência de problemas pulmonares no ano anterior. Ela trabalhava na fábrica de tecidos, assim como o marido, o Sr. Gibbs. Sozinho, o pai de Susan não conseguia ganhar o suficiente para sustentar todos os filhos. Assim, ela, a mais velha de sete irmãos, precisara arranjar um emprego para ajudar nas despesas da casa. Inicialmente, pensara em trabalhar na fábrica, mas  o pai fora contra. A insalubridade daquele ambiente fora responsável pela doença de sua esposa. Ele não queria correr o risco de perder a filha também. Trabalhava lá por não ter alternativa, mas desejava que sua Susan conseguisse algo melhor, se pudesse.

 

   Felizmente, conseguira o emprego de criada na casa da Sra. Quinn e ficara lá por alguns meses. Mas quando o Sr. Quinn adoecera, a família precisara conter despesas para pagar o tratamento e Susan fora mandada embora. 

 

   Elizabeth compadecera-se pela situação da moça, mas já havia ouvido histórias tão ou mais tristes do que aquela das outras jovens com quem falara. Algumas horas de conversa, porém, despertaram nela uma forte simpatia por Susan. Ela podia ser tímida, mas parecia saber bem como cuidar de uma casa. Além disso, era bem humorada e tinha experiência com crianças, por ter sempre ajudado a mãe com os irmãos mais novos. A Sra. Quinn a elogiava muito, garantindo que ela era honesta e prestativa. Tudo aquilo formara uma impressão bastante favorável de Elizabeth em relação à moça.

 

   Sendo assim, Susan Gibbs foi contratada para trabalhar com os Wickhams.

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