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Não desesperar nunca do que se quer esperar: Por uma aplicação infatigável alcançaremos o fim.(Jane Austen)

AS QUATRO ESTAÇÕES - O OUTONO (PRIMEIRA PARTE) - CAPÍTULO IX

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Capítulo IX
 
   Elizabeth nunca esqueceria cada detalhe daquele fim de tarde no campo. Os dias que se
seguiram a ele, entretanto, seriam recordados apenas como um turbilhão de emoções em
que havia sido imersa contra sua vontade.
 
   Depois da despedida ao fim do último encontro, ela e William não mais se viram. 
 
   A Sra. Bennet pegara um resfriado e ficara acamada. Todas as suas filhas sabiam não se
tratar de nada sério, porém, atendendo aos insistentes pedidos da mãe, escreveram uma
carta ao pai pedindo que retornasse o mais rápido possível.
 
   Com toda a agitação em torno do resfriado da mãe e dos preparativos para o retorno do
pai, não surgiram oportunidades para que Elizabeth se comunicasse com seu amado. 
 
   Ao final da semana, o Sr. Bingley foi a Longbourn fazer uma visita para saber do estado
da Sra. Bennet, embora fosse do conhecimento geral que seus motivos principais estavam
ligados a um anjo de cabelos louros que ele havia muito desejava rever. Para tristeza de
Elizabeth, apenas a Srta. Bingley e os Hurst acompanharam-no. Quando uma de suas irmãs
mais novas perguntou o motivo da ausência do Sr.Darcy, ela ouviu chocada a resposta:

- Darcy partiu para a capital nesta manhã. Não me explicou muito bem os motivos. Disse
apenas que tinha negócios urgentes a resolver.
 
   Elizabeth sentiu um abismo abrindo-se sob seus pés. 
 
“Negócios urgentes? Que negócios seriam tão urgentes a ponto de impedir que ele me
escrevesse comunicando sobre sua partida ou quando pretende retornar?” 
 
   Ela tentou disfarçar sua angústia dando uma volta pela sala enquanto todos tomavam chá.
Felizmente, Jane estava muito ocupada com o Sr. Bingley para perceber o estado da irmã.
Elizabeth parou diante da janela e, fingindo admirar a vista, mergulhou em suas próprias
reflexões ignorando os demais presentes.

Talvez algo realmente grave houvesse ocorrido e, na pressa de partir, William,
provavelmente, não conseguira arrumar um modo de avisá-la. Ele certamente escreveria quando chegasse à capital explicando-se. Mas como ele faria para enviar uma carta a ela
sem que ninguém mais ficasse sabendo? Estando tão próximo, em Netherfield, ele podia
pagar pelo silêncio e discrição dos criados, mas não seria tão fácil enviar uma
correspondência secreta de Londres.  

“Por que as coisas têm de ser assim? Logo agora que papai está retornando e poderíamos
oficializar o noivado esses malditos negócios vêm para atrapalhar!”
 
   O Sr. Bingley, suas irmãs e seu cunhado ficaram para jantar. Elizabeth passou o resto da
noite calada e pensativa. Estava tão absorta que não percebeu a Srta. Bingley observando-a
atentamente. 
 
   - Está muito quieta esta noite, Srta. Eliza. Não nos dará o prazer de ouvir seus
comentários inteligentes? 
 
   O sarcasmo era evidente na voz dela. 
 
   - Não estou muito disposta esta noite, Srta. Bingley. Agradeço a preocupação. Espero que
me perdoe, mas acho que hoje não ouvirá nenhum comentário inteligente de minha parte.
Por que não tenta fazer um para compensar o meu silêncio?
 
   Todos na mesa perceberam a alfinetada e aguardaram com apreensão a resposta da outra.
Ela, no entanto, fingiu não entender as verdadeiras intenções de Elizabeth e respondeu com
a voz mais falsa que conseguiu:
 
   - Oh, eu jamais teria tal ambição! Imagine, tentar fazer um comentário à altura dos seus,
querida Eliza! 

A isso, Elizabeth respondeu apenas com um sorriso falso. Não estava com disposição
para iniciar uma discussão com a Srta. Bingley. Ao invés disso, ela se voltou para seu jantar
e concentrou-se em comê-lo sem chamar mais atenção para si, evitando, assim, qualquer
possibilidade de conversação. Obteve sucesso, uma vez que ninguém pareceu inclinado a
retirá-la de seu silêncio outra vez.
 

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Steven Cravis – Tears of Joy

No dia seguinte, foi a vez do Sr. Wickham vir mostrar sua preocupação com o estado da
Sra. Bennet. Assim como Bingley, ele foi convidado a ficar para jantar, ao que aceitou com
prazer.
 
   Elizabeth, novamente, permanecera a maior parte do tempo calada. Jane, na ausência do
Sr. Bingley, teve sua atenção voltada para a irmã e percebeu que ela não estava bem.
 
   - O que aconteceu, Lizzy? Você tem andado muito calada nesses últimos dias.
 
   - Não é nada, Jane.
Jane já estava cansada de ouvir as respostas evasivas de Elizabeth a respeito de seu estado
de ânimos. Porém, decidiu respeitar o silêncio da irmã.
 
   Como de costume, após o jantar, todos foram para a sala jogar cartas. A Sra. Bennet,
obviamente, não participaria, então, as mais novas  obrigaram uma relutante Elizabeth a
tomar o seu lugar. As duplas se alternavam no jogo  e, em um determinado momento,
sobraram Elizabeth e o Sr. Wickham. Sentados no sofá, relativamente distantes das outras
presentes, ambos fingiam prestar atenção ao jogo. Os pensamentos dela vagavam
quilômetros até chegarem a Londres, enquanto os dele estavam concentrados nela.
 
   - A senhorita está tão calada esta noite. – ele quebrou o silêncio.
 
   - É impressão sua.

- Oh, certamente não é. Estou tão habituado ao prazer de ouvi-la que, quando sou privado
dele, não posso deixar de questionar o motivo.
 
   - Não há motivo algum, Sr. Wickham. Apenas gosto de meditar um pouco de vez em
quando.
 
   - Um hábito excelente. A senhorita obviamente tem consciência de que fica ainda mais
bela quando está pensativa.
 
   Elizabeth não respondeu. Ele continuou:
 
   - Permita-me a indiscrição de perguntar se a senhorita mencionou algo do que eu lhe disse
a respeito do Sr. Darcy à pessoa dele.
 
   - Eu não disse uma palavra, Sr. Wickham. Não é meu costume contar às pessoas o que
ouço a respeito delas da boca de outros.
 
   - Mas a Senhorita, com certeza, abriria uma exceção e me diria o que ele lhe disse a meu
respeito.

- O que o faz pensar que o Sr. Darcy disse-me qualquer coisa a seu respeito?
 
   - Isso está muito claro, minha cara. É óbvio que ele falou mal de mim na presença da
senhorita. Por que outro motivo uma pessoa que antes me tratava com tanta amabilidade
tornou-se distante e fria de uma hora para a outra?
 
   - Eu não me tornei distante e...
 
   - Peço que não tente negar, Srta. Elizabeth, o que nós dois sabemos. Muito me magoaram
suas últimas atitudes para comigo. Eu sempre a considerei uma amiga querida. Não gostaria
de perder sua amizade, principalmente se o motivo de nosso afastamento forem as mentiras
ditas por aquele crápula.

- Por favor, não se refira ao Sr. Darcy dessa forma. Ele jamais fez algo contra mim ou a
minha família para que merecesse ser ofendido de tal maneira nesta casa.
 
   Wickham olhou-a incrédulo.
 
   - Perdoe-me se me exaltei, mas é preciso que saiba: nem tudo o que o Sr. Darcy diz deve
ser escrito. Eu falo por experiência própria. Já lhe contei sobre o que ele fez a mim.
Entendo que a senhorita nada tem a ver com a história, nem tampouco a culpo por manter
um relacionamento amigável com ele. Falo apenas para alertá-la. Como já disse antes,
gosto muito da senhorita e odiaria vê-la magoada.
 
   Elizabeth permaneceu calada. Por mais que detestasse admitir, Wickham parecia bastante
convincente. Todos os seus argumentos tinham fundamentos e ela própria começava a se
questionar a respeito de William depois de sua partida súbita.
 
   Os dias transformaram-se em semanas e nenhuma notícia de Darcy chegou a Longbourn.
O próprio Sr. Bingley, que vinha visitar as Bennets com freqüência, não sabia informar
muito a respeito de seu amigo.
 
   A angústia de Elizabeth só foi levemente amenizada com o retorno do Sr. Bennet. A volta
do patriarca foi amplamente comemorada em Longbourn. Até a Sra. Bennet pareceu
recuperar-se instantaneamente.

As comemorações só aumentaram quando o Sr. Bingley decidiu pedir a mão de Jane em
casamento. A Sra. Bennet organizou um belíssimo jantar para a família e amigos para
comemorar o noivado.
 
   Elizabeth, embora feliz pela irmã, estava sempre calada e abatida. Tentava disfarçar com
todas as suas forças, mas a depressão era mais forte do que ela. 
 
   Felizmente, ao longo daqueles dias, as visitas do Sr. Wickham tornaram-se mais
freqüentes. Com o tempo, Elizabeth passou a ignorar as palavras de William a respeito dele
e voltou a considerá-lo um grande amigo, digno da mais alta confiança. Cada vez mais ela
sentia o arrependimento tomando conta dela. 
 
“Por que fui me entregar a ele daquela forma? Ele certamente pensou que eu era uma
mulher qualquer, que podia fazer o que quisesse comigo e depois me abandonar sem
explicações. Por que não me dei o devido respeito? Como pude ser tão inconseqüente?”
 
   As dúvidas a cerca do caráter de Darcy também a  consumiam. Um homem que
abandonava uma mulher da forma como ele havia feito, não merecia respeito algum.
 
   Aos poucos, ela começou a perceber que ele a havia enganado. Wickham sempre fora um
amigo bom e leal, enquanto William fingira ser, o tempo todo, alguém que jamais havia
sido. Tudo fazia sentido. Ele tentara afastá-la do amigo porque sabia que ele denunciaria
seu disfarce de cavalheiro honrado.

O mundo de Elizabeth ruiu definitivamente no dia em que suas regras não vieram. Ela
esperou uma, duas, três semanas, mas nada aconteceu. Só havia uma explicação possível:
ela estava grávida. 
 
   Os livros que havia lido na biblioteca do pai ao longo de sua vida fizeram com que ela
chegasse a essa conclusão sem precisar consultar ninguém. Ao atraso, logo se somaram as
náuseas e o mal-estar típicos do início de gravidez. Ela se recordava de como havia sido
quando sua mãe engravidara de Lydia. 
 
   No auge do desespero, ela correu para o campo. Sem se dar conta, foi parar no mesmo
local onde sempre se encontrava com William. Mas ele não estava lá daquela vez. 
 
   Sentiu as lágrimas escorrerem inevitavelmente por seu rosto. De repente, uma mão
pousou em seu ombro e ela se virou instintivamente. Não era William, mas Wickham.
 
   - Srta. Elizabeth? O que faz por aqui? Por que está chorando? 
 
   - Oh, Sr. Wickham! Eu estou desesperada! Não sei o que fazer. Não posso contar a
ninguém...
 
   - Acalme-se. – disse enquanto a abraçava e afagava seus cabelos – Eu estou aqui. Pode
me dizer o que quiser. Desabafe. Vai se sentir melhor.

Naquele momento de fragilidade, ela se deixou levar pela emoção. Sentaram-se sob a
sombra de uma árvore cuja maior parte das folhas já havia caído e ela contou a ele todo o
seu infortúnio. Wickham ouviu pacientemente a tudo e, quando ela terminou de falar, ficou
alguns minutos pensativo. Finalmente disse:
 
   - Não se preocupe, minha querida amiga. Eu vou ajudá-la. A culpa disso tudo foi minha.
Eu devia tê-la alertado antes que Darcy começasse a enfeitiçá-la.
 
   Ainda entre lágrimas, Elizabeth encontrou forças para responder:
 
   - Mas o senhor me alertou. Eu é que fui uma tola. O senhor não tem culpa de nada.
 
   - Agora não importa quem tem ou deixa de ter culpa. O que está feito está feito. Você está
grávida e essa criança precisa de amor e cuidados. Ela merece uma família de verdade, com
um pai a quem possa amar e respeitar. Elizabeth, você me daria a honra de ser minha
esposa?
 
   Ela ficou estática. Não podia acreditar no que ouvia. Estava a ponto de perguntar se havia
entendido bem quando ele continuou:

- Eu sei que você não me ama, mas tenho certeza de que, com o tempo, esse sentimento
amadurecerá e, quem sabe, a amizade que sente por mim agora não possa crescer e se
transformar em algo mais profundo? Eu preciso confessar que a amo desde o primeiro dia em que a vi. Por isso tentei alertá-la contra Darcy. Tive medo de que ele pudesse seduzi-la,
como já fez tantas vezes com outras moças. Eu conheço o caráter dele. Infelizmente meus
temores se concretizaram e nada me resta agora senão tentar reparar o mal que aquele
desgraçado fez.

Ela respirou profundamente.
 
   - Eu jamais vou poder recompensá-lo pelo que está fazendo por mim. Minha gratidão será
eterna. Eu aceito ser a sua esposa.
 
 
FIM DA PRIMEIRA PARTE

 

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