Capítulo VIII
Netherfield Park jamais vira um baile como aquele. Na frente da propriedade, as
carruagens faziam fila para deixar seus passageiros na porta. A iluminação dos jardins era
feita por archotes flamejantes que lançavam sua luz bruxuleante sobre as damas, dando-lhes
um ar de mistério e tornando-as ainda mais atraentes.
Os salões estavam ricamente decorados. Ao fundo, um conjunto de cordas executava
peças da moda enquanto os casais dançavam. Por todos os lados havia pessoas conversando animadamente enquanto bebiam champanhe em taças de cristal. Todos estavam com suas
melhores roupas de festa.
As irmãs Bennet nunca haviam sido convidadas para um evento tão glamuroso. Os bailes
que normalmente freqüentavam eram públicos e, por isso, muito mais simples do que
aquele.
Instintivamente, Elizabeth pôs-se a olhar à sua volta procurando William. Estava tão
concentrada em sua busca que não percebeu quando o Sr. Bingley a cumprimentou.
- Está procurando por alguém, Srta. Elizabeth?
- Oh, não, Sr. Bingley, de modo algum. Estava apenas admirando o esplendor geral. –
respondeu ela corando levemente por ter sido pega em flagrante.
- Tudo está realmente encantador, Sr. Bingley. – disse Jane.
- Fico muito feliz por terem gostado! – respondeu ele com entusiasmo.
Elizabeth ficou feliz em perceber que ele parecia nervoso e inseguro na presença de Jane.
“Somos todos tolos quando estamos apaixonados.” pensou ela.
Então ela o viu. Como ele estava elegante! Parecia que o ar havia fugido completamente
de seus pulmões naquele momento.
- Está tudo bem, Lizzy?
- Oh! Olá, Charlotte! Eu não havia visto você.
- É claro que não viu. Estava ocupada demais admirando o Sr. Darcy. – disse a amiga
com um sorriso malicioso.
- Eu? Por que eu estaria admirando o Sr. Darcy?
- É uma boa pergunta. Eu sei que ele é rico, elegante, culto e muito bonito também, mas...
- Mas?
- Mas ele é tão desagradável! Parece que olha para todos de cima. Como se fôssemos
todos inferiores a ele.
- Ora, Charlotte, tenho certeza de que é apenas uma impressão errada. Ele deve ser tímido
e por isso não fala muito. É apenas o jeito dele.
- Qual é o problema com você hoje? Está parecendo a Jane, que vê todos com uma
auréola e duas asinhas.
As duas riram.
-Boa noite, Srta Elizabeth, Srta. Lucas. – disse o senhor Darcy fazendo uma leve mesura
para cada uma.
- Boa noite, Sr. Darcy. – responderam as duas em uníssono. Ambas haviam se
surpreendido com a chegada dele. Elizabeth podia ver a pergunta no olhar da amiga. “Será
que ele ouviu?”
- A senhorita poderia me conceder a próxima dança, Srta. Elizabeth?
- Certamente. Eu ficaria encantada.
Charlotte olhou para ela significativamente. Elizabeth sabia o que ela estava pensando.
Ele havia dançado somente com ela no último baile e convidava-a novamente para dançar
neste. Charlotte chegara mais cedo do que as Bennet e não havia visto o Sr. Darcy dançar
com mais ninguém.
Elizabeth preferiu ignorar os olhares da amiga e dirigiu-se ao salão de dança
acompanhada de William. No caminho, passaram próximos ao local em que a Sra. Bennet
conversava com suas amigas e ela pôde ouvir a mãe exclamando:
- Olhem! Parece que não foi apenas a minha Jane que fisgou um milionário! Minha Lizzy
está indo dançar com o Sr. Darcy! Não é simplesmente fabuloso? Vocês não se lembram do
último baile, quando ele dançou apenas com ela? Oh, como as minhas meninas me enchem
de orgulho!
Elizabeth rezou mentalmente para que William não houvesse ouvido as palavras de sua
mãe. Ela olhou discretamente para ele. Não havia nenhuma reação em seu semblante.
Suspirou, então, aliviada. Ele não devia ter prestado atenção.
Uma nova música estava para começar e os casais já estavam enfileirados. William e
Elizabeth tomaram seus lugares e aguardaram o início da dança perdendo-se nos olhos um
do outro. Enquanto dançavam, Elizabeth teve a mesma sensação que sentira no baile
anterior: era como se estivesse flutuando. De repente, não havia mais ninguém no salão. Só
ela e William. Seu William. Sorriu diante desse pensamento. Ele viu o sorriso no rosto dela
e sorriu também. Ambos foram trazidos de volta à realidade quando a música parou.
Mesmo querendo passar o resto do baile dançando, o casal precisou se separar. Sabiam
que dariam margem a comentários maldosos se ficassem muito tempo juntos, por isso,
combinaram que iriam circular um pouco e, mais tarde, voltariam a dançar.
Elizabeth foi procurar Jane. Ela estava conversando com o Sr. Bingley. Como sempre, ele
falava animadamente. Parecia estar eufórico na presença dela. Jane apenas sorria e
respondia as perguntas dele. Elizabeth ficou parada admirando o belo casal que formavam
quando Charlotte veio despertá-la de seus devaneios.
- Você e o Sr. Darcy formam realmente um lindo par. Quase tão lindo quanto aqueles
dois. – e apontou com a cabeça na direção de Jane e Bingley.
- Eles realmente parecem feitos um para o outro, não acha? – ela preferiu ignorar a
primeira parte do comentário da amiga.
- Sim. Não me surpreenderia se as previsões de sua mãe estivessem certas e eles se
casassem antes do final do ano.
- Talvez. Do jeito que estão apaixonados acho que não tardarão a ficar noivos.
- Então os sentimentos do Sr. Bingley são correspondidos?
- Claro, por que a pergunta?
- Bom, qualquer um pode ver que ele caiu completamente de amores por Jane. Mas ela
parece, de certa forma, indiferente.
- Imagine! Ela o ama, Charlotte. Eu posso lhe assegurar.
- Talvez ela devesse demonstrar mais o que sente. Do jeito que está, o Sr. Bingley pode
acabar se sentindo desencorajado.
- Você a conhece. Ela é tímida demais para grandes demonstrações de afeto. Mas um bom
observador vai notar o brilho nos olhos dela quando estão fixos nele. Eu nunca vi os olhos
de minha irmã brilharem assim por ninguém.
- Espero que ele perceba isso. Eu adoraria ir ao casamento dos dois.
- Você irá, Charlotte. Garanto-lhe que o convite não demorará muito para ser entregue.
As duas riram gostosamente. Logo em seguida, um rapaz convidou Charlotte para dançar.
Elizabeth, então, continuou circulando pelo salão e trocando algumas palavras com seus
conhecidos. Depois de um tempo, ela começou a sentir que o ambiente estava abafado e
resolveu ir até o terraço.
Ao atravessar as belas portas de vidro, ela pôde sentir a brisa noturna em seu rosto. Era
uma fresca noite de outono. Algumas pessoas pareciam ter tido a mesma idéia que ela, de
forma que o terraço não estava totalmente deserto. Ela se afastou para um canto vazio e
debruçou-se no parapeito.
- Srta. Elizabeth! Eu ainda não a havia visto!
Ela se virou para trás e deparou-se com o Sr. Wickham.
- Boa noite, Sr. Wickham. – respondeu secamente.
- Está uma bela noite realmente, não?
Ela não respondeu. Ele continuou:
- A senhorita, se me permite dizer, está ainda mais bela do que eu me lembrava.
- Obrigada.
Naquele momento, um vento um pouco mais forte soprou e uma mecha de cabelos caiu
sobre os olhos dela. Ela fez menção de colocá-la novamente no lugar, mas ele se adiantou.
Elizabeth estremeceu com o toque. A mão dele estava gelada e ela havia se assustado com
o gesto inesperado.
- Está começando a esfriar. Acho melhor eu entrar. – e se afastou rapidamente deixando-o
sozinho no canto em que estavam.
Lá dentro ela procurou por William. Queria dançar com ele mais uma vez antes do fim do
baile, mas não o encontrou.
Só foi vê-lo novamente na hora de se despedir dos anfitriões, quando não trocaram uma
só palavra. Estava implícito o combinado de se encontrarem no dia seguinte no mesmo
local de sempre.
***
A ansiedade que Elizabeth sentia enquanto aguardava o momento do encontro com seu
amado fazia o tempo passar vagarosamente. Sua mãe e suas irmãs mais novas haviam
passado praticamente o dia inteiro falando sobre o baile: as roupas que as outras mulheres
usaram, os rapazes presentes, como as fardas deixavam os oficiais ainda mais belos, quem
havia dançado com quem e quantas vezes,...
Jane fora a única que percebera como a irmã estava distante e pensativa. Ela ainda tentou
inquirir sobre as razões para aquele comportamento, mas foi em vão.
Elizabeth nunca havia escondido nada de Jane, mas simplesmente não se sentia
confortável para falar com ninguém sobre sua relação com William. Era como se um
segredo do qual apenas os dois compartilhassem os mantivesse mais unidos.
No início da tarde, quando ninguém estava olhando, uma criada entregou um bilhete a
Elizabeth. Ela disse que um menino de recados havia passado mais cedo e pedira para que a
correspondência fosse entregue diretamente à destinatária com a máxima discrição. O que
Elizabeth não sabia era que algumas moedas haviam sido enviadas em anexo pagando à
criada e ao menino por seu sigilo.
Antes de abrir o bilhete, já tinha certeza quem o enviara. Seu coração bateu mais forte
quando leu as palavras de seu amado.
Minha amada Elizabeth,
Dançar com você no baile de ontem foi como um bálsamo para minha existência apática.
Eu a amo e admiro mais a cada dia que passo ao seu lado.
Por favor, encontre-me no nosso refúgio secreto ao final da tarde de hoje. Conto os
minutos que faltam para que eu possa tê-la novamente em meus braços.
Sempre seu,
Fitzwilliam Darcy
Após o jantar, ela se certificou de que todos estavam ocupados com seus próprios
afazeres para perceberem a ausência dela e saiu.
Enquanto caminhava pelos campos, ela sentia a brisa suave de fim de tarde balançar seus
cabelos. Aconchegou-se mais em seu agasalho: a temperatura começava a cair. Dali a
algumas semanas começaria o inverno e os dias começavam a ficar cada vez mais curtos e
mais frescos.
Elizabeth não sabia explicar bem o porquê, mas sentia-se apreensiva. Tinha a sensação de
que algo ruim estava para acontecer. Talvez fosse a maneira fria com que ela e William
haviam se despedido ao final do baile. Mas ele não tinha motivos para estar zangado com
ela. Ou talvez tivesse. Será que ele vira a cena no terraço? Ele poderia ter interpretado a
situação de maneira errada.
“Se ele estivesse aborrecido, não teria me dito coisas tão lindas no bilhete. Não teria nem
sequer me escrito um bilhete! Ele não deve ter visto nada. Isso é tudo coisa da sua cabeça,
Elizabeth Bennet! E é claro que ele se despediria de mim daquela forma. O que mais eu
estava querendo? Que ele me abraçasse e beijasse na frente de todos? Olhando por esse
ângulo, eu bem que queria, sim!” e riu sozinha de seus pensamentos.
O crepúsculo começava a se anunciar quando Elizabeth chegou ao local marcado. Ela
sentiu os olhos marejados diante da beleza da cena que se apresentava. As copas das
árvores estavam tingidas de laranja e, aos seus pés, se estendia um tapete avermelhado de
folhas caídas. Ah, como ela amava aquela época do ano!
Um leve roçar de lábios em seu pescoço fê-la despertar de seus devaneios.
- William. – ela sorriu.
- Meu amor, - ele respondeu – como você consegue?
- Consigo o quê?
- Ficar mais linda a cada dia que passa.
Seu sorriso se abriu ainda mais.
- Não sabia que você era tão galante.
- Só quando estou perto da minha amada.
Elizabeth ficou hipnotizada pelo brilho dos olhos dele. Aqueles dois lagos de águas
cristalinas adquiriram um tom de lilás sob a luz do poente que a deixava completamente
sem ar. Ele, percebendo a ausência momentânea dela, chamou-a de volta:
- Onde você está?
- No paraíso. – respondeu sem perder o olhar sonhador.
Ele riu.
- Será que eu posso trazê-la para o local onde eu estou e, assim, fazer daqui o meu
paraíso?
- Tente.
- Aceito o desafio. – e abraçando-a por trás depositou uma trilha de beijos em sua nuca. A
trilha seguiu pelo queixo dela até chegar na boca. Apenas os lábios se tocavam. Mas logo o
desejo os obrigou a aprofundar o contato. Passaram a explorar com cada vez menos pudor a
boca um do outro. Suas línguas dançavam em ritmo alucinante. As carícias começaram a se
tornar mais ousadas e logo qualquer recato foi esquecido.
O local em que se encontravam estava completamente deserto. A luz do poente deixava
tudo ainda mais romântico. Os receios que a atormentavam anteriormente já não existiam.
Tudo parecia tão certo, tão seguro quando ela estava nos braços de William!
Ninguém sabia do noivado deles, era bem verdade, mas essa situação não duraria para
sempre. Mais cedo ou mais tarde eles seriam marido e mulher. Nada poderia mudar isso.
Com os lábios, William deslizou a manga do vestido de Elizabeth pelo ombro dela,
expondo seu busto. Ela não oferecia qualquer resistência. De repente, ele parou e olhou-a
nos olhos.
- O que foi? – ela perguntou com a respiração ofegante.
- Você tem certeza disso? Eu a amo, Elizabeth, e quero que esse momento seja especial.
Não quero que sinta nenhum tipo de arrependimento depois.
- Não vou me arrepender. Eu o amo com todo o meu coração e tenho certeza de que o que
estou fazendo é certo. Logo estaremos casados. Não precisamos esperar até a noite de núpcias. Como esse momento poderia ser mais especial do que agora? Olhe para esse lugar.
Foi aqui que nos conhecemos, lembra?
- É claro que eu me lembro. Como poderia me esquecer? Ah, eu a amo tanto, Elizabeth!
Eu a desejo tanto! – William, então, voltou a beijá-la ignorando toda e qualquer razão.
E assim, sobre um tapete de folhas outonais, eles se entregaram um ao outro e ao amor
que sentiam como se não houvesse mais nada e nem ninguém no mundo.














