Citações

Qualquer coisa nutre o amor que já é forte. Mas no caso de uma leve e diáfana inclinação, estou convencida de que um bom soneto irá matá-lo de fome completamente. (Jane Austen)

AS QUATRO ESTAÇÕES - O OUTONO ( PRIMEIRA PARTE) - CAPÍTULO VI

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Capítulo VI

No dia seguinte, após o café da manhã, o Sr. Darcy saiu para dar o seu passeio. Elizabeth

estava indecisa: deveria encarar o que ele dissera na noite anterior como um convite para

um encontro secreto ou apenas como um comentário sem nenhum propósito a ser

subentendido?

Decidiu ir também. Caminharia até o local onde haviam se encontrado nas outras vezes.

Se houvesse sido um convite, ele estaria esperando por ela lá. Se não, ela sempre poderia

aproveitar para ler um bom livro sob a sombra das árvores.

Antes de sair, ela foi ao quarto de Jane ver como estava a irmã.

- Estou ótima, Lizzy. Acho até que vou descer e tomar o desjejum com os outros.

- Está bem mesmo, Jane? Eu a conheço, sempre fala que está ótima para não me

preocupar.

- Posso lhe garantir que me sinto bem melhor depois dessa maravilhosa noite de sono.

- Nesse caso, desça. Todos já tomaram o café, menos o Sr. Bingley. Com um pouco de

sorte, você pode fazer companhia a ele.

Jane apenas sorriu. Ela podia não dizer nada, mas Elizabeth sabia que a perspectiva de

tomar o café sozinha com o Sr. Bingley era-lhe bastante agradável. Assim, ela se retirou do

quarto e foi dar o seu passeio.

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Jasper

Carregou o romance que pegara na biblioteca de Netherfield consigo, mas, em seu íntimo,

acreditava que o Sr. Darcy a esperava. Entretanto, essa crença não impediu seu estômago

de afundar nem suas mãos de ficarem inconvenientemente suadas quando o avistou. Ele

estava sentado na grama encostado a um tronco. A folhagem, já amarelada naquela época

do ano, projetava sombras no rosto dele que a impediam de ver com clareza a sua

expressão. A brisa balançava os cabelos castanhos que escorriam lisos pela testa. Ela

percebeu, à medida que se aproximava, que ele sorria tanto com os lábios quanto com os

olhos azuis que ela tanto amava.

O amor pela cor da íris era apenas uma metonímia do que sentia; aquilo já estava muito

claro para ela. Ele a cativara desde o primeiro encontro, mas ela não podia precisar o

momento em que aquele encantamento havia se transformado em algo muito mais forte e

profundo. Era como se aquele sentimento estivesse enraizado nela, como se sempre tivesse

existido em sua vida adormecido, apenas esperando o momento de dominá-la por completo.

Só percebera na noite anterior, quando a imagem do rosto dele teimava em não desaparecer

enquanto ela fitava o teto do quarto, tentando inutilmente dormir, mas já não se recordava

de como era viver sem aquela doce agonia que era amar calada.

- Olá. – ela o cumprimentou tímida. Já estava começando a se habituar àquele

acanhamento que marcava os encontros com ele.

- Olá. – ele respondeu sem deixar de sorrir, mas ela percebeu que seu riso tinha um traço

de nervosismo.

Ficaram em silêncio. Aqueles segundos mudos eram extremamente constrangedores.

Elizabeth tentava pensar em algo para dizer, mas nada lhe vinha à mente. Era uma

experiência totalmente nova e lhe despertava emoções que ela, até então, conhecia apenas

de longe.

- O dia está bonito, não está? – ele tomou a iniciativa. Era notável que tentava disfarçar

sua angústia.

- Sim. – ela respondeu, tentando se lembrar de como articular palavras. A garganta

parecia bloqueada, impedindo a saída do som.

- Ótimo para uma caminhada.

- Sim. – repetiu. “Sim” parecia a única coisa segura a dizer.

- A senhorita gosta muito de caminhar, não é? Eu me lembro de tê-la ouvido falando a

respeito quando nos encontramos anteriormente.

- Sim. – aquilo estava ficando ridículo. Precisava encontrar algo melhor para dizer com

urgência. Ele devia estar imaginando que ela tinha problemas mentais.

O mutismo baixou sobre eles novamente. Elizabeth ponderava se não havia sido apenas

uma coincidência o encontro. Talvez ele apenas estivesse ali repousando quando ela

chegara e o interrompera. Estava quase dando uma desculpa qualquer e voltando quando

ele disse de súbito:

- Há algo que tenho de lhe dizer.

O tom urgente na voz dele fez seu coração saltar.

- Eu não sei como começar... – ele continuou, encorajado pelo silêncio dela - Temo que a

senhorita se sinta constrangida com o que vou dizer e passe a me evitar a partir de agora,

mas preciso que saiba.

Ela mordeu o lábio inferior e torceu as mãos discretamente.

- Nunca havia sentido isso antes. Fiquei confuso a princípio, sem saber como chamar esse

sentimento. Eu lhe disse que sentia como se já a conhecesse, quando nos vimos pela

primeira vez. Sua presença sempre foi para mim um sinônimo de conforto, mas, ao mesmo

tempo, eu ficava desconcertado quando a via. Quando a senhorita entra em uma sala, tudo

se ilumina; quando sai, parece que leva consigo a luz. E eu, uma vez tendo visto o sol, fico

cego quando ele se vai. A senhorita entende o que estou dizendo, não é? – ele falava

ansioso.

Parecia que o tempo havia parado. Se Elizabeth morresse naquele momento poderia dizer

com sinceridade que conhecera a felicidade plena. Sentiu seus joelhos fraquejarem e

precisou apoiar-se nele para não cair.

- Eu entendo. Eu... – a voz dela estava embargada. Um nó comprimia a garganta

parecendo ter bloqueado definitivamente sua voz. Ela sentiu os olhos arderem e, em

seguida, a visão ficou turva. Engoliu em seco e prosseguiu, com a voz fraca – Eu sinto o

mesmo. Também não pude identificar o que era no início. Mas agora... Agora tenho

certeza. Não há mais como confundir as emoções que me invadem estando o senhor perto

ou não. Porque mesmo quando está longe, minha mente voa até encontrá-lo.

- É como se meu coração não me pertencesse mais. – ele falou quando ela fez uma pausa,

sorrindo com um misto de alívio, expectativa, e compreensão – Porque ele agora é seu.

Mesmo que não o queira. Enquanto ele bater, será seu.

Ela sentiu lágrimas quentes escorrerem por seu rosto.

- Por que está chorando? – ele perguntou com um leve tom de preocupação na voz

relaxada, que mal disfarçava a intensa felicidade que sentia.

- Eu não sei. – ela respondeu com um fio de voz.

Darcy a abraçou e afagou os densos cabelos castanhos, beijando o topo de sua cabeça

diversas vezes. Lentamente, os lábios dele procuraram os dela. Ele ergueu o queixo de

Elizabeth gentilmente e cobriu a boca dela com a sua.

Seus lábios apenas roçaram. Estavam surpresos e intimidados pela descoberta recente de

uma emoção tão profunda e nova para ambos. Elizabeth principalmente. Ela nunca havia

sido beijada daquela forma. Fora o contato mais íntimo que já experimentara. Seu coração

estava disparado e suas pernas não tinham firmeza alguma.

Ela estava estática. Tinha a sensação de que deveria fazer algo, mas não sabia o quê.

Deixava que ele a conduzisse. O beijo prosseguia numa lenta exploração dos lábios dela

pelos dele. Mas em um dado momento, quando parecia prestes a se intensificar, Darcy

rompeu o contato.

- Quando poderei pedir sua mão em casamento a seu pai? – ele disse após alguns

segundos. Aparentemente, ele compartilhava do atordoamento que ela sentia.

- Ele ainda está em Devon. Não tem previsão de retorno. – respondeu com tristeza.

- Quando voltar, vou falar com ele. Acha que ele concordará de imediato? – ele parecia

inseguro.

Elizabeth sorriu.

- A idéia não será muito agradável a papai, mas tenho certeza de que acabará cedendo

quando souber o quanto o amo.

Darcy sorriu também e a abraçou.

Elizabeth não pôde precisar quanto tempo passaram naquela posição, sem dizer uma

palavra. Apenas ouviam as respirações um do outro. Ela sentia como se estivesse vivendo

um sonho. Mas foi trazida à realidade quando Darcy quebrou o silêncio:

- Acho melhor voltarmos. Podem estranhar a nossa ausência.

- Claro. Não devemos dar margem a comentários maldosos. Além disso, preciso ver

como Jane está. Quando saí, ela parecia bem, mas eu nunca deixo de me preocupar. -

respondeu separando-se dele.

- É comovente ver como você e sua irmã são unidas.

- Eu a amo muito. Ela não é só minha irmã, é minha melhor amiga. – os dois começaram

a caminhar, com as mãos entrelaçadas.

- Eu também tenho uma irmã.

- Verdade? Eu não sabia.

- Sim. Sinto muita falta dela quando viajo. Ela está em casa com sua preceptora.

- Eu imagino como deve ser difícil. Não suportaria ficar tanto tempo longe de Jane.

Continuaram conversando durante o resto do percurso. Quando avistaram a casa, Darcy

despediu-se dela tomando suas mãos e beijando-as. Elizabeth foi à frente. Darcy ainda

precisava buscar o cavalo, que deixara amarrado a uma árvore antes de ir encontrá-la. Era

melhor que não os vissem entrando juntos.

Elizabeth assustou-se ao perceber que já era hora do almoço quando chegou. Não

esperara demorar-se tanto. Temeu algum comentário ou olhar reprovador por parte dos

outros presentes, mas ninguém parecia ter notado sua ausência. Caroline estava ocupada

demais lamentando a demora do Sr. Darcy. O Sr. e a Sra. Hurst pareciam completamente

alheios a qualquer coisa que se passasse a sua volta. Bingley e Jane tinham a total atenção

um do outro.

Elizabeth sorriu para si ao perceber que sua irmã estava tão apaixonada a ponto de nem

sequer notar sua demora.

Darcy chegou minutos depois e o almoço foi servido. À tarde todos foram para a sala de

estar, onde Caroline decidiu mostrar suas habilidades ao piano com a visível finalidade de

impressionar o amigo do irmão. Infelizmente, para ela, o único resultado obtido foi tirar os

presentes de seus assentos para dançar. Darcy tomara a iniciativa, convidando Elizabeth,

que prontamente aceitou. Foram seguidos pelos Hurst. Bingley precisou refrear seu impulso

de convidar Jane, em nome da preocupação que sentia pela saúde dela, ainda abalada pelo

forte resfriado. Assim, o casal permaneceu no sofá conversando enquanto os outros

dançavam.

Darcy e Elizabeth mal podiam conter sua felicidade, que era vigiada pelos olhos

desconfiados e ciumentos da Srta. Bingley, ao piano. Os Hurst pareciam dançar apenas para

ter o que fazer.

À noite, quando as duas encontravam-se sozinhas no quarto, Jane comentou com a irmã

sobre o dia maravilhoso que tivera ao lado do Sr. Bingley.

- Ele é tão atencioso, Lizzy. E tão educado. O Sr. Bingley é um perfeito cavalheiro.

- Eu permito que goste dele, Jane. Você já gostou de outros mais estúpidos.

- Ora, Lizzy, não seja tão má.

- Eu me lembro daquele sujeito que lhe escreveu um poema declarando o seu amor eterno.

Será que ele não percebia que era um pouco velho demais para você?

- O poema era realmente muito bonito, mas eu tive de recusá-lo. Não me importo com a

questão da idade, mas eu não o amava.

- Partiu o coração do pobre infeliz.

- Não foi uma situação agradável. Senti-me extremamente culpada, mas o que eu podia

fazer? Não poderia me casar sem amor.

- É claro que não. E é por isso que você se casará com o Sr. Bingley. Eu sei que você o ama

e está evidente que ele sente o mesmo.

- Lizzy, eu...

- Não tente negar, Jane. Eu a conheço melhor do que a mim mesma.

- Está bem, eu admito. Estou apaixonada por ele. Não consigo parar de pensar nele um

minuto sequer e quando estou com ele parece que o dia se ilumina e tudo fica mais

colorido, mais alegre. – disse a mais velha com olhos brilhantes e maçãs do rosto

vermelhas.

- Jane, minha querida... – ela abraçou a irmã emocionada. Era como se Jane houvesse

descrito os sentimentos de Elizabeth. Nem nos seus melhores sonhos de menina ela

imaginara que se apaixonariam ao mesmo tempo por cavalheiros tão distintos e que ainda

eram melhores amigos. Ela já podia ver seu futuro: dois casais felizes em uma reunião

familiar enquanto lindas criancinhas ruivas corriam pela casa ao lado de pequenos anjos

morenos de olhos azuis.

***

No dia seguinte, pela manhã, Elizabeth andava pelos corredores. Ela ia à biblioteca

devolver o romance que havia pegado dois dias antes. Finalizara a leitura na noite anterior

com dificuldade. Não que a história fosse enfadonha, mas não conseguia se concentrar com

a lembrança do beijo que trocara com Darcy invadindo sua mente a cada segundo. Mesmo

no quarto, à noite, com Jane dormindo pesadamente ao seu lado, suas pernas ainda ficavam

bambas à simples recordação do toque de lábios. Seu coração ainda disparava e ela quase

podia sentir uma corrente elétrica por seu corpo; a mesma corrente que passava por ela

sempre que se tocavam.

Quando dançaram, na tarde anterior, ela mal percebera os olhares de Caroline Bingley

sobre si. Estava alheia ao mundo. Tinha os olhos presos nas íris azuis de seu amado.

Com esses pensamentos, ela caminhava despreocupada. Desceu as escadas quase

cantarolando e tomou o corredor que levava à sala dos livros. A casa parecia deserta.

Talvez o Sr. Bingley tivesse resolvido dar um passeio. Caroline deveria estar bordando na

sala de estar. Os Hurst não haviam acordado para tomar café ainda. Jane também dormia

em seu quarto. Onde será que Darcy...

Uma mão saiu do canto escuro que ficava embaixo da escadaria e a puxou para lá. Seu

grito de surpresa foi calado por uma boca descendo faminta sobre a sua. A pergunta não

finalizada estava respondida.

Os braços fortes que tanto amava a envolveram. O cheiro de Darcy invadia suas narinas e

a atordoava. Não conseguia formular um pensamento coerente quando estavam tão

próximos. Ele tirou vantagem dos lábios entreabertos dela, prontos para gritar, e deslizou

sua língua por entre eles.

Os braços dela, que estavam até então aprisionados no abraço, movimentaram-se

lentamente para cima até que as mãos dela repousassem com hesitação nas costas dele. E

então a boca dela se moveu. Elizabeth, embora timidamente, estava beijando-o de volta.

Aquilo pareceu estimulá-lo ainda mais.

Darcy a puxou pela cintura, colando seus corpos. Os lábios movimentavam-se com vigor.

Não sabiam onde começava a respiração de um e terminava a do outro. Ele deixou a boca

dela e buscou seu pescoço, provocando um gemido abafado de Elizabeth. Ela deslizou seus

dedos pelos cabelos dele e foi a vez de Darcy gemer. A língua dele explorava seu pescoço e

estava pronta para retornar à boca dela quando ouviram um barulho no final do corredor.

Separaram-se rapidamente e Elizabeth avançou quase correndo para a porta da biblioteca,

sem olhar para trás. Quando estendeu a mão para a maçaneta, a porta se abriu e a figura de

Caroline Bingley surgiu à sua frente.

- Srta. Elizabeth! – ela exclamou com surpresa e desagrado.

- Bom dia, Srta. Bingley. – Elizabeth cumprimentou-a, tentando controlar a respiração

ofegante.

- A senhorita não saberia onde se encontra o Sr. Darcy, não é?

- Infelizmente, não faço idéia de onde ele possa estar. – respondeu esforçando-se para

conter um sorriso.

***

Ao final da semana, Jane já estava completamente recuperada de seu resfriado e as irmãs

puderam voltar para casa. Nenhuma das duas estava feliz com a partida, mas não seria de

bom tom abusar da hospitalidade do Sr. Bingley, por mais que ele insistisse para que elas se

demorassem mais alguns dias. Ele se preocupava tanto com a saúde de Jane que a cumulava

de cuidados, muitas vezes excessivos. Ela, longe de se aborrecer, ficava absolutamente

encantada com a amabilidade do anfitrião. Elizabeth admirava os dois de longe e ria

sozinha. Sua irmã encontrara o amor e era correspondida. O mesmo acontecia com ela. O

que poderia ser mais perfeito?

Ela e o Sr. Darcy não haviam tido mais nenhuma oportunidade de conversar a sós. De vez

em quando se encontravam pelos corredores da casa ou entre as estantes da biblioteca. Não

tinham tempo para falar muito, por isso só trocavam alguns beijos escondidos. Aquele

clima de romance e aventura deixava Elizabeth com a cabeça nas nuvens.

“Você está começando a pensar como Lydia, Elizabeth Bennet! Pare já com isso!” ela se

repreendia, mas todas as vezes em que a imagem de seu amado lhe vinha à mente ela perdia

totalmente o controle e começava a sonhar novamente.

No dia em que as irmãs Bennet deixariam Netherfield Park, os ânimos pela casa eram

distintos. O Sr. Bingley estava visivelmente abalado pela partida de sua querida Jane. O Sr.

Darcy, embora mais contido que o amigo, também estava deprimido. A Srta. Bingley e sua

irmã comemoravam silenciosamente enquanto o Sr. Hurst não parecia sentir emoção

alguma.

As irmãs do Sr. Bingley, como qualquer outro que se encontrasse próximo a ele naquele

momento, já haviam percebido que ele estava bastante interessado na Srta. Bennet. Ele já

havia se apaixonado por várias moças anteriormente, mas daquela vez as coisas pareciam

diferentes. Ele estava decidido a pedir a mão dela em casamento. Aquilo precisava ser

evitado a qualquer custo. Elas não tinham nada contra Jane Bennet em particular; ela

parecia ser uma boa moça e tinha um gênio absolutamente adorável. Mas definitivamente

não era a esposa adequada para seu irmão. Não possuía dinheiro e nem relações, portanto

somente ela e sua família se beneficiariam com a união enquanto os Bingleys perderiam

uma boa chance de ascender socialmente através de um casamento vantajoso. Mas Charles

não pensava como suas irmãs.

Na hora da partida, todos se encontravam em frente à casa para se despedirem de suas

hóspedes. O Sr. Bingley manifestou abertamente o desejo de que elas ficassem mais um

pouco e as convidou a voltarem sempre que desejassem. A Srta. Bingley e o casal Hurst

apenas se despediram educadamente e nada acrescentaram. O Sr. Darcy fez o mesmo, mas

quando foi ajudar Elizabeth a subir na carruagem deixou discretamente um bilhete na mão

dela. Ela sentiu suas bochechas corarem ao perceber o que ele tinha feito, mas nada disse.

Ao chegar a sua casa foi imediatamente para o quarto ler o bilhete de seu amado.

Minha querida e doce Elizabeth,

Encontre-me no local de sempre, amanhã às 10 horas.

Mal posso esperar para vê-la. Enquanto escrevo este bilhete você ainda está aqui, mas já

sinto saudades.

Eternamente seu,

Fitzwilliam Darcy

Ela releu aquelas palavras várias vezes sentindo seu coração pulsar de emoção cada vez

que tornava a fazê-lo.

Guardou o papel cuidadosamente em sua caixinha de jóias e depois se deitou na cama

deixando-se levar por seus pensamentos.

- Lizzy! Desça agora! Temos visitas! – a voz de sua mãe despertou-a de seus devaneios.

Ela foi até a janela e viu uma carruagem se aproximando. Dela saíram o Sr. Wickham e

seus tios Philips.

“Por que eles tinham que vir agora?” pensava Elizabeth.

Não que ela não gostasse da companhia dos tios e do Sr. Wickham, mas naquele

momento não estava com vontade de conversar amenidades ou jogar uíste. Pensou em dizer

que não estava se sentindo bem para não precisar descer, mas sabia que deixaria todos

preocupados desnecessariamente. Além disso, o Sr. Wickham era uma ótima companhia e

conversar com ele certamente seria bom para fazê-la parar de pensar, pelo menos por uns

minutos, numa determinada pessoa. Foi então que Elizabeth se lembrou do ocorrido entre o

Sr. Darcy e ele no baile. Não tivera oportunidade de discutir o assunto com o primeiro.

Esperava conseguir alguma informação com o outro.

Ela arrumou um pouco o cabelo e desceu para receber os convidados.

- Boa noite, Srta Elizabeth – cumprimentou-a o Sr. Wickham com seu jeito galante.

- Boa noite.

Todos já estavam acomodados na sala conversando, menos a Sra Bennet. Elizabeth,

então, pediu licença e foi procurá-la na cozinha. Encontrou-a dando ordens à cozinheira.

- Mamãe, a senhora não me avisou que teríamos convidados para o jantar.

- É claro que não avisei! Desde que chegou você passou o tempo todo enfurnada naquele

quarto! Pensei até que estivesse ficando doente.

- Não se preocupe mamãe, eu estou bem. Só estava um pouco cansada.

- Felizmente sua irmã teve mais consideração pelos meus nervos do que você e já me

contou tudo o que se passou durante a estadia de vocês em Netherfield.

- Que bom para a senhora, mamãe. – Elizabeth disfarçou um sorriso “A senhora não sabe

da missa a metade.”

- Não é ótimo, Lizzy? Pelo que Jane me contou o Sr. Bingley cobriu-a de cuidados.

- É verdade. Ele ficou bastante preocupado com ela.

- É claro que ficou. Ele está apaixonado por ela! Não me surpreenderia se ele viesse

amanhã mesmo pedi-la em casamento!

- Mamãe, controle sua imaginação. Nenhuma de nós poderá ser pedida em casamento até

que o papai volte de viagem.

- É verdade, eu havia me esquecido desse detalhe. Por que esse primo do seu pai tinha

que resolver morrer logo agora?

- Tenho certeza de que se soubesse o quanto a morte dele atrapalharia os seus planos ele

teria optado por uma outra data.

- Ora, Lizzy, não diga besteiras! O homem não teve como escolher quando ia morrer,

pobre coitado! Que Deus o tenha.

Elizabeth revirou os olhos e riu. Se não fosse por seu pai, ela pensaria que fora adotada.

Voltou para a sala e sentou-se ao lado de Lydia no sofá. Esta sequer percebeu a presença da

irmã, uma vez que só tinha olhos para o Sr. Wickham. Ele conversava com o Sr. e a Sra.

Philips animadamente e parecia ignorar as tentativas de Lydia de atrair sua atenção.

Elizabeth tentou prender o riso diante daquela situação patética, mas não conseguiu.

- Do que você está rindo? – perguntou Kitty.

- De nada. – tentou disfarçar.

- Você às vezes é tão estranha, Lizzy. – disse Lydia.

- Obrigada pela delicadeza, Lydia. Você é realmente muito gentil.

Foi a vez de Lydia revirar os olhos.

- Não ligue para ela, Lizzy. – disse Mary que estava sentada no sofá da frente com Kitty.

- Não se meta onde não foi chamada, Mary. – respondeu Lydia malcriada.

À essa altura a atenção do Sr. Wickham e dos Philips já havia se voltado para a discussão

das meninas. Elizabeth, percebendo isso, decidiu que era hora de acabar com aquilo antes

que as irmãs fizessem uma cena na frente do oficial.

- Já basta por hoje, não? – e depois sussurrou ao ouvido de Lydia – Você não acha que já

apareceu mais do que o suficiente?

Lydia olhou feio para a irmã e cruzou os braços fazendo bico como uma criança mimada.

Wickham parecia divertido com a situação.

- O jantar está servido! – chamou a Sra. Bennet.

Elizabeth e Jane trocaram olhares aliviados. A mãe não poderia ter entrado em melhor

hora.

Após a refeição, como de costume, organizaram-se as duplas para a partida de uíste.

Mary, preferia ficar lendo a desperdiçar tempo com uma diversão tão vazia. Wickham e

Elizabeth também preferiram não participar e sentaram-se para conversar. Todos estavam

concentrados no jogo, o que dava aos dois uma certa privacidade para falar.

- Há quanto tempo conhece o Sr. Darcy? – perguntou ele.

Ela fora pega de surpresa. Queria abordar o assunto mais adiante na conversa, mas não

esperava que ele fosse ser tão direto.

- Há pouco tempo. Na verdade nos conhecemos no dia do baile. – mentiu.

- E nesse pouco tempo qual foi a sua opinião sobre ele?

- Eu o achei bastante agradável. Sempre muito educado e gentil comigo.

Wickham parecia surpreso.

- Eu posso perguntar de onde o senhor o conhece?

- Eu e ele fomos criados juntos, quase como irmãos. - dessa vez foi ela que ficou surpresa

– O meu pai trabalhava para o pai dele. O velho Sr. Darcy gostava muito de mim. Pagou os

meus estudos e me prometeu um bom emprego quando eu me formasse. Mas, infelizmente,

ele se foi cedo e o filho não cumpriu a promessa do pai.

Elizabeth estava chocada. Queria perguntar o que acontecera para que o Sr. Darcy fizesse

aquilo, mas preferiu ficar calada. Visivelmente aquele não era um assunto agradável para

Wickham e ela gostava muito dele para fazê-lo falar de coisas que preferisse guardar para

si. Com certeza havia um mal entendido naquela história. O homem que ela conhecia e

amava jamais faria algo tão cruel.

Precisava esclarecer tudo. No encontro do dia seguinte ela perguntaria a ele sobre

Wickham.

- O que me surpreende é que ele tenha sido agradável com a senhorita. – falou Wickham

de repente.

- Por quê?

- Darcy não é muito dado a amabilidades, principalmente com pessoas que acabou de

conhecer. Ainda mais se essas pessoas forem, perdoe-me por dizer isso, consideradas

inferiores a ele.

- Inferiores? O que quer dizer?

- Bem, os Darcys acreditam que aqueles que não possuem dinheiro e posição social são

inferiores e indignos de consideração.

Elizabeth ficou calada. Não podia acreditar que ele fosse o monstro descrito por seu

amigo. Mas que motivos Wickham teria para mentir? Ela estava confusa. Sua cabeça dava

voltas.

- Perdoe-me, Sr. Wickham, mas não me sinto muito bem. Talvez tenha pegado o resfriado

de Jane. Vou me retirar. Com licença. Boa noite a todos.

E sem esperar resposta ela subiu para o quarto.

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