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Eu poderia facilmente perdoar o orgulho dele, se não tivesse mortificado o meu.(Jane Austen)

AS QUATRO ESTAÇÕES - O OUTONO (PRIMEIRA PARTE) - CAPÍTULO V

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Capítulo V

À tarde, Jane se preparava para ir a Netherfield tomar chá com Caroline e Louisa Bingley.

A Sra. Bennet já a havia feito trocar de roupas várias vezes. Seus trajes nunca estavam bons

o bastante.

- Jane, minha querida, esse vestido está muito simples! Você precisa de algo que ressalte

a sua beleza. Algo mais chamativo.

- Mamãe, se quer que Jane chame tanta atenção assim, porque não a manda para

Netherfield nua de uma vez?

- Ora, Lizzy, não diga bobagens! Esta situação é muito séria. A escolha do vestido

apropriado é fundamental para que tudo saia como o planejado.

- Por Deus! Quem a ouvisse falando pensaria que estamos organizando um assalto a um

banco! Mamãe, é só um chá. E, além disso, acho que a Srta. Bingley disse na carta que o

irmão não estaria em casa.

- Ele pode não estar na hora do chá, Lizzy, mas certamente vai jantar em casa.

- A que horas Jane está pretendendo voltar para casa? Até onde sei, ela foi convidada

apenas para o chá da tarde.

- Onde foi que eu errei na sua educação, Elizabeth Bennet? Será que você não percebe?

Olhe para o céu. É evidente que vai chover logo.

- Mais um motivo para ela voltar cedo para casa.

- Resposta errada, menina. Com a chuva, Jane será obrigada a permanecer em Netherfield

até que o tempo melhore.

- Como assim, mamãe? Eu não vou de carruagem? – Jane estivera, até então,

completamente calada e pensativa.

- Não, meu bem. Você irá a cavalo.

- A senhora enlouqueceu, mamãe? Acabou de dizer que vai chover e manda sua filha ir a

cavalo? E se ela pegar chuva e se resfriar? Já pensou nisso?

- Acalme-se, criança. Se Jane pegar um resfriado, melhor. Será obrigada e passar ainda

mais tempo em Netherfield na companhia do adorável Sr. Bingley. Não é simplesmente

perfeito?

Elizabeth estava boquiaberta. Não podia acreditar nas palavras de sua mãe. Preferiu não

responder. Não valia a pena discutir com ela.

Jane continuava calada. Parecia totalmente distante de Longbourn. Quando a Sra. Bennet

finalmente se satisfez com um dos vestidos e se retirou, Elizabeth aproveitou para perguntar

à irmã em que ela tanto pensava.

- Não é nada, Lizzy.

- Você realmente espera que eu acredite nisso?

- Não consigo esconder nada de você, não é mesmo?

- É claro que não. Sou sua irmã e conheço você como a palma da minha mão.

- Está bem. Eu estava pensando nas coisas que a mamãe falou. Ela acha que o Sr. Bingley

vai se apaixonar por mim e me propor casamento. Mas eu sei que isso não vai acontecer,

Lizzy. Seria preciso muito mais do que um vestido bonito para que um homem tão belo,

educado e charmoso como ele prestasse atenção a uma moça como eu.

- Jane, se ele já não estiver perdidamente apaixonado por você, o que eu duvido muito,

certamente não resistirá quando a vir com esse vestido. Você está radiante, minha irmã.

Mais do que o habitual, se é que isso é possível.

- Lizzy, não diga essas coisas. Eu não sou tão ingênua. Sei perfeitamente que o Sr.

Bingley freqüenta bailes da alta sociedade e está acostumado com moças refinadas e

elegantes. Por que se apaixonaria por uma moça do interior sem dinheiro nem relações?

- Por que nenhuma dessas moças refinadas da alta sociedade é tão bela ou doce quanto

você. Agora pare com essa modéstia. Você está linda e atrasada também, se o relógio da

parede estiver certo.

- Oh, céus! É verdade! Preciso ir. Até mais tarde, Lizzy. – e deu um abraço rápido na

irmã.

- Quero saber de cada detalhe depois.

Jane apenas sorriu e saiu apressada.

Pouco após a partida da irmã, Elizabeth viu as primeiras gotas de chuva chicotearem a

janela de seu quarto. Pelo tempo, Jane ainda não havia chegado a Netherfield. A aflição

começou a tomar conta dela. Se algo acontecesse a Jane, a culpa seria toda sua. O Sr.

Bennet lhe havia deixado a missão de cuidar da casa enquanto estivesse fora, já que era

impossível confiar no juízo da Sra. Bennet. Mas tanto Elizabeth quanto o pai sabiam que

quando a mãe colocava uma idéia na cabeça, era impossível demovê-la.

No dia seguinte, receberam um bilhete de Jane no qual ela dizia que pegara muita chuva e

se resfriara. Por isso, os amigos se recusavam a deixá-la partir e insistiam para que o

médico fosse chamado.

- Não é maravilhoso? Tudo correu exatamente como eu previ. – vangloriava-se a Sra.

Bennet.

- Vou até lá ver como Jane está. – falou Elizabeth com firmeza.

- Os cavalos não estão disponíveis, Lizzy. Eles são necessários para o serviço da fazenda.

- Então eu irei a pé.

- Ficou louca? Com toda esta lama, você chegará lá num estado lastimável. O que o Sr.

Darcy diria se a visse toda suja e desarrumada?

Elizabeth sentiu seu estômago afundar. Não havia pensado nisso. Em sua ânsia por ver a

irmã, ela se esquecera totalmente da presença do Sr. Darcy. Preferia lamber a lama da

estrada a deixá-lo vê-la no estado em que chegaria a Netherfield. Entretanto, a preocupação

com a saúde de Jane falou mais alto.

- Por que eu me importaria com o que o Sr. Darcy pensa sobre mim? – perguntou num

tom que não convencia nem a ela mesma.

A Sra. Bennet olhou para o teto. Havia desistido de entender sua filha.

- Faça como quiser, Lizzy.

Saindo decidida de Longbourn, Elizabeth seguiu, quase correndo, na direção de

Netherfield Park. Não parou para admirar a paisagem como de costume. Seus pensamentos

se concentravam em Jane. O trajeto nunca havia lhe parecido tão longo.

Quando finalmente chegou ao seu destino, foi obrigada a dar razão a sua mãe. Parada em

frente às portas da casa do Sr. Bingley, ela pôde constatar o estado em que se encontrava. A

lama que se formara após a chuva sujara toda a barra de seu vestido. O exercício a havia

feito suar e seus cabelos estavam tão desgrenhados que quem a visse poderia pensar que ela

sequer tocara neles desde que acordara.

“Vim aqui para ver Jane. No final, tudo isto terá valido a pena.”

.

Quando a criada veio abrir as portas, era visível o seu choque pela aparência da visita.

Fingindo não perceber o olhar reprovador da crida, Elizabeth perguntou:

- O Sr. Bingley está?

- Não, senhorita. Ele foi à cidade buscar um médico para a Srta. Bennet.

- Ah, sim, claro. Bem, eu estou aqui para vê-la. Sou Elizabeth Bennet, irmã dela.

- Entre, por favor, Srta. Bennet. – pediu a mulher relutante.

Elizabeth percebeu que seu vestido estava sujando o chão. Não podia culpar a pobre

coitada por não querer deixá-la entrar, afinal, era ela quem teria de limpar tudo depois.

- Aguarde um momento. Eu vou anunciá-la.

Logo depois, ela estava na sala sendo olhada de cima a baixo por Caroline Bingley que

trazia em seu rosto, ao mesmo tempo, horror, reprovação e divertimento. O Sr. Darcy, que

estivera sentado ao lado dela tomando chá, olhava-a apenas surpreso. Ao vê-lo, Elizabeth

sentiu que seu rosto devia estar mais vermelho do que os cabelos da Srta. Bingley.

- Bom dia, Srta. Bingley, Sr. Darcy. – cumprimentou-os com uma mesura – Vim para ver

como está a minha irmã.

- Bom dia, Srta. Eliza. Diga-me, veio a pé?

- Sim, Srta. Bingley. Nossos cavalos não estavam disponíveis e eu não podia esperar

mais.

- A preocupação por sua irmã é realmente admirável. Ela está lá em cima, no quarto. Por

favor, peça à criada para que lhe indique o caminho. – disse o Sr. Darcy.

Enquanto ele falava, ela admirava seus maravilhosos olhos azuis. Com certeza poderia

perder-se facilmente neles. Quase se esquecera do que fora fazer lá. Voltando a si

rapidamente respondeu:

- Obrigada. – e apressou-se a deixar o aposento

Como pôde constatar logo, Jane estava bem apesar de uma dor de garganta. Nada podia

abalar seu bom humor. Além disso, ela estava simplesmente encantada com a atenção e os

cuidados que todos estavam tendo para com ela.

[b][link=http://www.youtube.com/watch?v=-Mkok1KpekU]Uakti – Minimal 8[/link][/b]

Quando o Sr. Bingley chegou, trouxe consigo o médico, que examinou Jane e concluiu

que ela tinha apenas um resfriado. Ele recomendou bastante repouso e boa alimentação. O

Sr. Bingley, então, disse que Jane e Elizabeth permaneceriam em sua casa até que a

primeira estivesse totalmente recuperada. As duas tentaram argumentar, mas ele não cedeu.

Por fim, concordaram e Elizabeth retirou-se para escrever um bilhete à sua mãe avisando-a

sobre sua estadia em Netherfield.

Jane dormia a maior parte do tempo. O resfriado parecia realmente tê-la esgotado.

Elizabeth aproveitou o sono da irmã para explorar a biblioteca de Netherfield.

O aposento era bem arejado e iluminado por largas janelas concentradas em um dos

cantos, onde se encontravam dispostos sofás e poltronas forrados em veludo avermelhado,

que contrastavam com o papel de parede claro. As estantes ocupavam o restante do espaço,

revelando um acervo consideravelmente maior do que o de Longbourn.

Elizabeth iniciou sua exploração pelas estantes mais próximas da porta e observou que as

obras estavam organizadas por gênero e idioma. Sempre apegada aos romances, ela

procurou por aquela seção, descobrindo sua localização na parte mais oculta do aposento,

entre as últimas estantes.

Passou algum tempo escolhendo e acabou optando por um livro cuja capa a atraíra de

imediato. Procurava seguir a regra de nunca julgar um livro pela capa, mas era impossível

não levar o aspecto estético em consideração em meio a tantas opções.

Retirou o exemplar que desejava e dirigia-se para as poltronas, quando ouviu o barulho da

porta. Foi com uma grata surpresa que ela viu o Sr. Darcy entrando. Ele não a vira de onde

estava e exclamou, acreditando-se sozinho:

- Mas que criatura infernal! Será que ela não percebe que suas atenções me sufocam? Não

se pode ter um pouco de paz por cinco minutos?

Elizabeth riu sozinha ao imaginar a quem ele se referia em seu desabafo. Infelizmente o

riso a denunciou.

- Quem está aí? – ele perguntou entre surpreso e apreensivo.

Elizabeth considerou se esconder atrás das estantes, mas acabou considerando aquela

idéia ridícula. Por mais constrangedor que fosse, era preciso tornar sua presença conhecida.

- Desculpe, Sr. Darcy, eu estava apenas pegando um livro quando o senhor entrou. Não

pude evitar ouvir o que disse. – respondeu envergonhada.

- Ah, Srta. Elizabeth, perdoe-me. Eu não sabia que estava aí.

- Isso eu percebi. – sussurrou para si mesma.

- O que disse?

- Nada! Bem, já escolhi o meu livro. Pode ficar à vontade para escolher o seu. – ela disse

apressando-se para sair dali. Começava a sentir um certo desconforto sempre que estava na

presença dele. Parecia que se tornava outra pessoa. Não conseguia fazer seus comentários

espirituosos nem rir de situações como aquela na frente dele. Era sempre invadida por uma

inexplicável timidez, que a fazia corar constantemente, irritando-a ainda mais.

A caminho da porta, ela tropeçou em uma falha do assoalho quando passava por Darcy. É

claro que aquilo se devia mais à fraqueza que sentia nas pernas do que à imperfeição do

piso. Ele a segurou antes que caísse sobre uma das estantes.

O coração dela acelerou como louco com a sensação dos braços dele a envolvendo. Sua

respiração tornou-se ofegante e suas pernas ficaram ainda mais fracas. Os poucos segundos

que passou encarando os olhos dele pareceram horas.

Quando deu por si, já estava de pé novamente. Ele dissera algo que ela não ouvira. Estava

atordoada demais para absorver qualquer informação. Limitou-se a balançar a cabeça

afirmativamente e quase correu para fora da biblioteca.

Ao passar por um espelho no corredor, confirmou suas suspeitas: seu rosto estava tão

vermelho quanto um tomate.

***

Mais tarde, após o jantar, Elizabeth retirou-se para fazer companhia a Jane, que estava

sozinha no quarto.

- São todos tão amáveis, Lizzy. Sinto-me culpada por estar abusando tanto da

hospitalidade deles.

- Não seja tola, Jane. O Sr. Bingley só poderia estar mais satisfeito com sua presença aqui

se você estivesse com um anel de noivado em seu dedo.

- Lizzy! Não diga isso! Sabe que não é verdade.

- Está certa, querida. Realmente não é verdade. Ele ficaria mais feliz se você estivesse

usando, em lugar do anel de noivado, uma aliança no dedo da outra mão.

- Você e sua imaginação.

- Você e sua modéstia.

As duas riram e conversaram mais um pouco até que Jane adormeceu. Elizabeth estava

sem sono, por isso achou melhor descer e ficar um pouco na companhia dos outros.

Ao entrar na sala, ela procurou o Sr. Darcy com os olhos. Viu que o lugar ao seu lado já

estava ocupado pela Srta. Bingley. A cena era realmente patética: ele compenetrado na

leitura de um livro e ela fingindo ler o segundo volume do livro dele. Ela até seria uma boa

atriz, não fosse o fato de o livro estar de cabeça para baixo.

Elizabeth sentou-se ao lado do Sr. Bingley, no outro sofá. Ele conversava amenidades

com o cunhado, enquanto a irmã, a Sra. Hurst, brincava com seus anéis e pulseiras.

Elizabeth perguntou-se se a mulher trazia sempre aquela expressão entediada no rosto ou se

a usava somente nos momentos em que ela estava presente. Abafou uma risada involuntária

pelo pensamento, o que atraiu a atenção dos outros presentes para si. O Sr. Darcy, que até

então não desviara a atenção de sua leitura, olhou-a, dando-se conta, pela primeira vez, da

presença dela no ambiente. A descoberta parecia deleitá-lo, levando-se em consideração o

olhar penetrante que ele dirigia a ela e o sorriso que se formou em seu rosto. Ela retribuiu o

sorriso ignorando completamente os outros, que a olhavam com curiosidade.

- O que é tão engraçado, Srta. Eliza? – perguntou Caroline com deboche.

- Nada além do seu livro, Srta. Bingley. – respondeu Elizabeth no mesmo tom.

- Meu livro... – ela percebeu então a falha evidente em seu disfarce.

- Diga-me, a senhorita tem o hábito de ler desse modo ou é apenas com esse livro em

especial?

Todos riram e a face de Caroline enrubesceu de raiva e vergonha, chegando a ficar quase

tão vermelha quanto seu cabelo. Sem ter o que responder, ela simplesmente inverteu a

posição do livro e voltou à sua atividade inicial.

Elizabeth juntou-se à conversa do Sr. Bingley e do Sr. Hurst enquanto a Sra. Hurst

permanecia entediada e os outros dois fingiam ler seus respectivos livros. Caroline para

disfarçar os olhares que lançava na direção do Sr. Darcy e ele para esconder os que dirigia a

Elizabeth.

Quando a Sra. Hurst finalmente cedeu ao sono, seu marido decidiu que era hora de se

retirarem para seus aposentos. O Sr. Bingley resolveu seguir o exemplo dos dois, deixando

Elizabeth, Caroline e Darcy sozinhos.

As duas pareciam travar uma batalha silenciosa para ver quem deixaria a sala primeiro.

Darcy, conhecendo a persistência de Caroline, viu que Elizabeth não conseguiria vencer

aquela disputa. Além disso, ele sabia que, se a irmã do amigo saísse, os dois também não

poderiam permanecer muito tempo sozinhos; seria muito impróprio. Por isso, decidiu tomar

a iniciativa:

- Senhoritas, creio que está bastante tarde e pretendo levantar-me cedo amanhã para dar

um passeio a cavalo.

Elizabeth perguntou-se se aquilo seria uma indireta para ela.

- O senhor tem razão. Já é muito tarde. Vou me retirar também. A senhorita fica, Srta

Bingley?

- Oh, não! Também vou me recolher. Não quero ficar com olheiras amanhã.

Os três subiram juntos as escadas e despediram-se no corredor, rumando para seus

respectivos quartos.

Ela tentava convencerse
 

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