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Felicidade no casamento e meramente questão de sorte. (Jane Austen)

AS QUATRO ESTAÇÕES - O OUTONO (PRIMEIRA PARTE) - CAPÍTULO IV

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Capítulo IV

Alguns dias após o baile, Elizabeth decidiu caminhar, como era seu costume, pelos

campos que cercavam Longbourn. Tinha a sensação de que algo a chamava. Ela andava

despreocupadamente deixando-se levar para onde seus pés queriam ir. Era como se eles

possuíssem vontade própria. Quando percebeu, havia chegado ao exato local onde vira o Sr.

Darcy pela primeira vez. A coincidência fez com que ela começasse a rir sozinha.

- Não posso imaginar o que haveria de tão divertido nesta campina.

Elizabeth virou-se assustada e deparou-se com um Sr. Darcy sorridente. Ao vê-lo, ela

sentiu seu coração disparar e seu rosto, ruborizar.

- Bom dia, Sr. Darcy. – cumprimentou-o timidamente.

- Bom dia, Srta. Elizabeth. Não sei porque achei que a encontraria aqui esta manhã. Foi

como um pressentimento.

- Talvez tenha algo a ver com o fato de que eu lhe contei quando nos conhecemos que

costumava caminhar por esses campos com freqüência. – brincou.

- Realmente... Pode ser que tenha alguma relação com esse fato. – respondeu encabulado.

Elizabeth riu. Ele ficava adorável quando se sentia embaraçado.

- Devo confessar que também pensei que poderia encontrá-lo aqui hoje.

- Será que eu sou tão previsível?

- De modo algum. Eu jamais o descreveria como previsível. Creio que meu

pressentimento deve-se mais à minha intuição. Sabe, Sr. Darcy, eu tenho um sexto sentido

muito apurado.

- Devo, nesse caso, agradecer ao seu sexto sentido a oportunidade de encontrá-la aqui

hoje.

- Não seja tão presunçoso, Sr. Darcy. Quem disse que vim aqui hoje só porque achei que

poderia encontrá-lo? – perguntou divertida.

- Mas eu pensei que... Eu não quis dizer... – ele estava novamente embaraçado.

- Não se preocupe. Eu o perdôo por seu egocentrismo. Afinal um senhor tão nobre e rico

deve estar acostumado a ser sempre o centro das atenções aonde quer que vá.

- Engana-se nesse ponto, Srta. Elizabeth. Não me agrada nem um pouco ser o centro de

todas as atenções como a senhorita crê.

- Eu não disse que creio que o senhor goste, mas sim que o senhor deve estar acostumado

a ser. Além do mais, eu pude perceber claramente no baile de ontem o seu desconforto com

a atenção que todos dispensavam à sua pessoa.

- O que quer dizer?

- Quero dizer que desde o primeiro minuto em que o vi naquele baile percebi que o

senhor preferia estar em qualquer lugar menos lá. Pelo menos era isso que sua expressão

tão carrancuda demonstrava. – disparou ela sem acreditar na própria ousadia.

Ele não sabia o que dizer.

- Eu não tenho facilidade para conversar com pessoas que não conheço. Também não sou

um grande amante dos bailes. Não gosto de me ver no meio de tanta gente.

- Mas o senhor não parecia desconfortável ao conversar comigo no dia em que nos

conhecemos. Até então eu era uma completa estranha.

- Foi diferente neste dia.

- Eu posso saber o porquê?

- Não sei explicar. Quando vi a senhorita pela primeira vez, tive a sensação de que já a

conhecia.

Elizabeth corou.

- Eu também tive essa sensação. – disse num sussurro quase inaudível.

- Quando dançamos no baile, parecia que havíamos ensaiado várias vezes antes. Eu nunca

havia sentido uma sintonia tão perfeita com uma parceira de dança.

Ela corou ainda mais.

- Perdoe-me se a estou deixando desconfortável. Eu realmente precisava desabafar. Não

faço isso com freqüência.

- Não faz o quê?

- Falar de meus sentimentos.

- Sentimentos? O senhor tem sentimentos por mim? – perguntou ela sem pensar.

Foi a vez de ele corar.

- Eu... Bem, sinto bastante afinidade pela senhorita, Srta. Elizabeth. Acho nossas

conversas agradáveis.

- Oh, sim. É claro. Também considero sua companhia bastante agradável.

No curto período que se passara entre o baile e aquele encontro, Elizabeth e Darcy

haviam se encontrado algumas vezes, mas sempre em presença de terceiros. Cruzaram-se

em Meryton uma vez, mas não tiveram oportunidade de conversar muito. Entretanto, na

visita que os Bennet haviam feito a Netherfield e nas duas vezes em que o Sr. Bingley

estivera com o amigo e a irmã em Longbourn, puderam falar mais um com o outro e

descobriram que tinham muitos gostos em comum, tanto na literatura quanto na música.

Já se consideravam bons amigos abertamente, mas ambos nutriam uma afeição mais

profunda, acreditando, entretanto, que não eram correspondidos. Era natural então que, ao

se encontrarem sozinhos no campo, falassem mais abertamente do que o fariam se

estivessem em companhia de outras pessoas.

Mas mesmo para bons amigos declarados havia uma certa impropriedade em passar o

tempo conversando desacompanhados. Se fossem vistos, poderia haver falatórios

desagradáveis e infundados. Por isso, encerraram a breve conversa a contragosto.

***

Era de conhecimento comum a preferência de Charles Bingley por Jane Bennet. Ele não

fazia segredo de suas opiniões sobre ela. Estava sempre dizendo a quem quisesse ouvir que

jamais vira criatura mais bela nem gênio mais doce. A Srta. Bennet era, para ele, a

personificação de todas as virtudes. Era a própria perfeição.

Jane, apesar de retribuir a afeição que aquele cavalheiro lhe dedicava, era mais comedida

na demonstração de suas emoções. A timidez a impedia de expressar a imensa alegria que a

invadia a cada vez que o Sr. Bingley arranjava uma desculpa para ir a Longbourn vê-la. Ou

quando se encontravam acidentalmente em Meryton. Ou até mesmo nos serões promovidos

por sua tia Philips, que, apesar de ter uma notório favoritismo pelos oficiais, jamais

dispensava a animação e o bom humor que a presença do Sr. Bingley dava às reuniões.

Além disso, desejava ajudar a irmã a casar a filha mais velha com o excelente partido.

É evidente que a Sra. Bennet estava mais eufórica com aquelas atenções de Bingley do

que qualquer um. Se a filha não o fazia, ela mesma enumerava as qualidades do provável

futuro genro por onde quer que fosse. Sempre que o nome do Sr. Bingley era citado em

uma conversa era imediatamente seguido por incontáveis elogios da Sra. Bennet, que não

se cansava de afirmar que a jovem escolhida por ele seria a mais afortunada do mundo.

Havia, contudo, duas pessoas que também se regozijavam pela afeição de Bingley por

Jane sem que ninguém soubesse. Embora dissessem a si mesmos que estavam felizes pela

irmã e amigo, respectivamente, Elizabeth e Darcy sentiam-se contentes com a crescente

aproximação entre Longbourn e Netherfield porque ela também significava o aumento do

convívio entre eles.

***

Uma noite, durante o jantar, o Sr. Bennet acreditou ser o momento adequado para fazer

um importante anúncio:

- Recebi uma carta com notícias bastante desagradáveis. Meu primo, Robert Bennet,

faleceu recentemente. Creio que vocês não se lembram dele. A última vez em que nos

vimos foi há muito tempo. Jane e Lizzy ainda eram pequenas e Mary havia acabado de

nascer.

- Que coisa mais horrível, papai! – exclamou Jane.

- É realmente terrível, Sr. Bennet! Mas o senhor e ele não eram muito próximos. Não

creio que precisemos comparecer ao funeral.

- Realmente nos mantivemos afastados nos últimos anos, mas acho que deveria pelo

menos fazer uma visita a sua viúva e filhos para prestar as nossas condolências.

- Mas eles moram em Devon! Meus pobres nervos não suportariam tal viagem nesse

momento!

- Fique descansada, Sra. Bennet. A senhora e as meninas não precisarão ir comigo. Irei

sozinho.

- Está bem, Sr. Bennet. Ainda acho que uma carta bastaria para dar-lhes os nossos

pêsames, mas vejo que o senhor está determinado a ir. Aposto que faz isso apenas para me

aborrecer! Não tem pena dos meus pobres nervos?

- Minha querida, saiba que tenho seus nervos em alta estima. Afinal eles me têm feito

companhia por tantos anos...

Elizabeth permanecera muda durante todo o jantar. Não lhe agradava a idéia do pai

viajando sozinho até Devon. Além de saber que sentiria muito a sua falta, ela também

estava preocupada. Seu pai já não era mais um rapaz e não estava acostumado a longas

viagens. Ele mal fazia o percurso de Longbourn a Meryton! Mas ela o conhecia

suficientemente para saber que ele jamais estaria ausente num momento em que um

familiar seu estivesse passando por tanto sofrimento. Podia até vê-lo oferecendo toda e

qualquer assistência à viúva e aos filhos do falecido primo com quem ele raramente se

correspondia. Ela sorriu sozinha ao pensar no homem bom e generoso que era o Sr. Bennet.

Depois da refeição ela se dirigiu ao escritório do pai. Bateu na porta e ouviu-o

respondendo:

- Entre!

- Papai, sou eu. Queria conversar com o senhor sobre essa sua viagem.

- Pode falar, Lizzy.

- Eu não acho que o senhor deva ir sozinho a Devon.

- E o que você sugere, meu bem?

- Sugiro que me leve com o senhor.

- Ora, Lizzy, isso não é necessário. Você não precisa se desgastar desse modo por minha

causa. Eu estarei bem sozinho. Além disso, acho que sua mãe me mataria se a levasse

comigo.

- Mas papai... Eu realmente não me importo com o desgaste. Adoraria ir com o senhor.

Sabe como gosto de conhecer novos lugares, ver novas paisagens.

- Não estou indo para conhecer novos lugares e apreciar a vista, querida. Não se esqueça

do motivo que me leva a partir.

- Eu sei, mas mesmo assim quero ir. Por favor, papai! Não me deixe aqui sozinha com a

mamãe! Ela vai me deixar louca!

- Preciso de você aqui para cuidar dela e de suas irmãs. Sabe que é a única nesta casa em

cujo juízo confio plenamente, não sabe? Com a exceção de Jane, talvez. Mas de qualquer

modo, Jane é meiga e gentil demais para tomar conta de todas enquanto eu estiver fora. Ela

é incapaz de abrir a boca para dizer qualquer coisa levemente desagradável sobre qualquer

pessoa. Apenas você, minha Lizzy, nasceu dotada de perspicácia suficiente para me entreter

com seus comentários inteligentes.

- Oh, papai! – Elizabeth não sabia como responder àquilo – Assim o senhor me deixa sem

argumentos...

- Ainda bem! Se você ainda os possuísse eu estaria em sério risco de ser persuadido pela

minha esperta filha.

- Nesse caso, acho que devo pensar mais um pouco.

- Por Deus, não! Não seja injusta com o seu velho pai! Você sabe muito bem que eu não

sou páreo para a sua argumentação. Eu estaria em séria desvantagem. Por isso, dou o meu

veredito agora: Lizzy, você fica. Sem mais discussões.

- Está bem, papai. – resignou-se com um sorriso triste.

Dois dias depois, o Sr. Bennet já estava pronto para partir. Havia enviado uma carta

avisando a família do falecido primo sobre sua visita.

- Meu caro Sr. Bennet! Por favor, não demore muito a retornar! E não viaje à noite! Deus

sabe como estas estradas andam perigosas esses dias! Quem sabe o que pode acontecer? E

se for atacado por um bando de assaltantes? Não quero nem mesmo imaginar! E pensar que

se o senhor morrer seremos todas escorraçadas de nossa própria casa por aquele odioso Sr.

Collins!

O Sr. Collins era um primo do Sr. Bennet. Como esse não possuía herdeiros do sexo

masculino, quando viesse a falecer, sua propriedade seria passada diretamente ao primo.

A idéia deixava a Sra. Bennet simplesmente mortificada.

- Sra. Bennet, como poderei voltar em breve se a senhora não permite que eu viaje à

noite?

- Ora, Sr. Bennet! O senhor arranjará uma maneira. Não se esqueça de escrever sempre

que puder! Meus nervos não agüentarão se não enviar notícias!

- Fique tranqüila. Escreverei todos os dias.

- Faça uma boa viagem, papai. – adiantou-se Jane beijando-lhe a face.

Todas as outras seguiram o gesto desejando ao pai uma ótima viagem e um rápido

retorno.

A última a se despedir do Sr. Bennet foi Elizabeth. A filha preferida simplesmente

abraçou-o e nada disse. O silêncio entre eles era mais significativo do que mil palavras.

Nos dias que se seguiram à partida do patriarca o clima de melancolia permanecia em

Longbourn. A Sra. Bennet, deitada em sua cama, nada fazia a não ser lamuriar-se. Mary

passava as horas tocando piano. Lydia e Kitty reclamavam do piano de Mary. Jane e

Elizabeth eram as únicas que conseguiam manter o bom humor apesar da falta que sentiam

do pai. Sua natureza otimista não permitia que ficassem em depressão.

Numa manhã fresca de outono, durante o desjejum, chegou a Longbourn um convite para

que Jane fosse tomar o chá da tarde com as irmãs Bingley. A Sra. Bennet rapidamente

substituiu suas lamentações por uma euforia quase insuportável.

- Mais que maravilha! Jane, querida, você precisa ir! Tudo está fluindo tão perfeitamente!

- Mamãe, o que exatamente está “fluindo tão perfeitamente”? – questionou Jane

inocentemente.

- Ora, meu bem, o seu noivado com o Sr. Bingley, é claro!

- Noivado? Com o Sr. Bingley? Mamãe, como pode pensar uma coisa dessas? As irmãs

dele apenas me convidaram para o chá. Elas devem saber que papai está viajando e que

estamos todas muito tristes com isso. Foi amável da parte delas fazer esse convite.

Elizabeth revirou os olhos.

- Jane, você é realmente boa demais. Como pode dizer que aquelas irmãs Bingley são

amáveis? As duas são terrivelmente antipáticas.

- Você pensa assim porque não conversou com elas durante o baile, Lizzy. Estava

ocupada demais dançando com o Sr. Darcy. – retrucou Jane com um olhar significativo.

Eliazabeth corou levemente.

No baile, ela havia sentido antipatia por Caroline e Louisa Bingley no momento em que

foram apresentadas. As duas pareciam acreditar-se muito superiores a todos os que ali se

encontravam e não faziam o menor esforço para esconder o seu incômodo por estarem

naquele local. Após dançar com o Sr. Darcy, porém, ela teve a certeza de que se o

sentimento de antipatia não era recíproco, era retribuído com muito mais intensidade por

Caroline. Ela fuzilara Elizabeth com os olhos quando a vira acompanhada do Sr. Darcy.

Obviamente, Caroline Bingley estava muito interessada nele.

Elizabeth riu para si mesma ao pensar em como o senhor Darcy parecia ignorar as

atenções da irmã de seu amigo.

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