Citações

As mulheres sempre superestimam facilmente a admiração dos homens ― e os homens fazem de tudo para mantê-las nessa ilusão!(Jane Austen)

AS QUATRO ESTAÇÕES - O OUTONO (PRIMEIRA PARTE) - CAPÍTULO III

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Capítulo III

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Wall

O dia do tão esperado baile chegara.

O salão estava cheio. Por todos os lados viam-se jovens casadoiras usando seus melhores

vestidos. Todas tinham apenas uma coisa em mente: chamar a atenção do Sr. Bingley. Mas

não eram apenas as moças que aguardavam ansiosamente a chegada dos novos vizinhos:

todos os convidados comentavam sobre o jovem senhor e sua comitiva. Aqueles que já o

haviam visto compartilhavam suas impressões com os outros e os que ainda sofriam com a

curiosidade especulavam sobre sua aparência, seus modos, sua fortuna e, principalmente,

sobre qual seria a moça capaz de atraí-lo.

Enquanto o jovem senhor não chegava, as moças distraiam-se com os rapazes presentes.

A intenção delas era, obviamente, conseguir um bom partido. O Sr. Bingley era, sem

dúvida, o melhor, mas era sempre bom garantir um ou mais pretendentes caso não ele não

demonstrasse interesse por elas.

Os rapazes comentavam entre si sobre a beleza das jovens. Jane Bennet era, por

unanimidade, a mais bela. Além de sua beleza, ela também possuía um temperamento

encantador. Em segundo lugar encontrava-se sua irmã, Elizabeth. Embora não tão bela

quanto a mais velha, ela era dona de uma personalidade cativante que a tornava muito

atraente. Suas irmãs mais novas, Lidya e Kitty, eram consideradas bonitas, mas frívolas e

espevitadas demais. Dançavam e flertavam com todos os oficiais. Eram boas o suficiente

para entretê-los durante o baile, mas nenhum deles pensava em ter algum tipo de

compromisso sério com elas.

Mary nem sequer era notada por eles. Ela monopolizara o piano e não parecia pretender

deixá-lo. Estava decidida a entreter os presentes com uma pequena mostra do seu talento e

dedicação. Infelizmente, nenhum deles parecia deleitar-se com sua performance. Os que

aplaudiam ao fim de uma canção faziam-no com ar de alívio, na esperança de que ela

finalmente desistisse.

A Sra. Bennet circulava pelo salão conversando com vários conhecidos. Ela amava os

bailes e as oportunidades de casamento que estes ofereciam para suas meninas. O Sr.

Bennet falava com Lord Lucas enquanto Jane e Elizabeth conversavam a um canto com sua

filha, Charlotte Lucas.

Elizabeth tentava, em vão, concentrar-se na conversa. Seus pensamentos voavam para o

Sr. Darcy. Ela, certamente, era a que aguardava com maior ansiedade a chegada da

comitiva de Netherfield.

- Lizzy, você está tão distante... Quase não falou nada desde que chegamos. – disse Jane

- É verdade. Está muito calada hoje; você não é assim. O que está acontecendo? –

perguntou Charlotte.

Elizabeth não sabia o que responder. Acreditava estar tendo sucesso em disfarçar seu

nervosismo, mas, pelo visto, não conseguia esconder nada de Jane e Charlotte: as duas a

conheciam bem demais.

- Não é nada, apenas um pouco de dor de cabeça. Vai passar logo.

Nenhuma das duas parecia contente com essa resposta, mas antes que pudessem dizer

mais alguma coisa, a música parou e todos os olhares se voltaram para a porta. O Sr.

Bingley havia chegado.

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Henry Purcell

O olhar de Elizabeth dirigiu-se imediatamente para o grupo que adentrava o salão. Com

os olhos, ela procurava o Sr. Darcy. Quando finalmente o avistou, percebeu que ele trazia

em seu belo rosto uma expressão pouco amigável, que contrastava com a animação do

cavalheiro de cabelos ruivos que o acompanhava. Ela logo deduziu que aquele deveria ser o

famoso Sr. Bingley.

Ao lado do Sr. Darcy vinha uma moça de cabelos tão vermelhos quanto os do Sr. Bingley

e atrás deles, um casal. Nenhum deles parecia contagiado com a quase euforia do rapaz.

Pelo contrário, o casal parecia entediado e a moça ostentava um ar de contrariedade. Todos,

exceto o Sr. Bingley, pareciam encarar sua ida ao baile como um grande favor que

prestavam à comunidade local.

Elizabeth sentiu-se muito desapontada ao perceber que o gentil cavalheiro que conhecera

no campo parecia considerar-se muito superior a ela ou a qualquer outra pessoa naquele

aposento. Seus pensamentos foram interrompidos quando Jane perguntou:

- Qual deles é o senhor Bingley?

- É aquele de cabelos ruivos que vem à frente do grupo. – respondeu Charlotte.

- Quem é o cavalheiro que vem com ele?

- Aquele carrancudo?

- Sim, ele mesmo.

- É o Sr. Darcy. – disse Elizabeth sem pensar.

As duas olharam-na intrigadas.

- Eu ouvi alguém comentando. – apressou-se a responder.

Neste momento, a Sra. Bennet aproximou-se delas:

- Jane! Lizzy! Andem! Vamos procurar o Sr. Bennet. Precisamos apresentá-las ao Sr.

Bingley!

Elas encontraram o Sr. Bennet e, assim, dirigiram-se para o local onde o Sr. Bingley se

encontrava.

- Aquele que veio acompanhando o Sr. Bingley é o Sr. Darcy, o melhor amigo dele.

Soube que é muito mais rico do que ele. É dono de metade do Derbyshire! Imaginem! Dez

mil libras por ano! E as irmãs do Sr. Bingley... Vestem-se na última moda. São realmente

damas muito distintas. O cunhado dele também parece ser um verdadeiro cavalheiro. –

tagarelava a Sra. Bennet.

Quando ficaram frente a frente com a comitiva, Lizzy imediatamente procurou o olhar do

Sr. Darcy. Para sua surpresa, ele sorriu para ela discretamente.

O Sr. Bingley parecia encantado com Jane. E, aqueles que a conheciam bem, percebiam a

retribuição do sentimento, mesmo que oculta sob o véu de timidez.

Conversaram um pouco e o Sr. Bingley mostrou-se extremamente simpático. O Sr. Darcy

permaneceu calado, mas já não trazia em seu semblante a expressão pouco convidativa de

antes. Ele olhava constantemente para Elizabeth, que retribuía, para depois desviar os olhos

e enrubescer. Ela temia que alguém percebesse o que se passava entre eles e julgasse que

ela estava flertando com um homem que acabara de conhecer.

- Srta. Elizabeth, concede-me a honra desta dança? – perguntou o Sr. Darcy subitamente.

- Eu adoraria.

Eles dançaram duas vezes seguidas. Depois disso, ele não convidou mais nenhuma outra

jovem para dançar, ao contrário de seu amigo, que dançara com várias moças. Porém, a

única com quem dançou mais de uma vez foi Jane Bennet.

Enquanto dançavam, Elizabeth sentia como se estivesse flutuando. Quando suas mãos se

tocavam, era como se uma corrente elétrica passasse por todo o seu corpo. Ele mantinha

seus olhos nela durante todo o tempo. Falaram pouco, mas as palavras, naquele momento,

eram desnecessárias. Tudo o que tinham para dizer um ao outro podia ser transmitido com

um olhar. Parecia um sonho. Um sonho do qual ela não queria acordar.

Todos no salão comentaram a notória preferência do Sr. Darcy e do Sr. Bingley por

Elizabeth e Jane respectivamente. Havia até mesmo quem dissesse que Elizabeth e seu

parceiro de dança pareciam já se conhecer. As outras moças, despeitadas por terem sido

preteridas, diziam que as Bennets eram namoradeiras e flertavam com todos os rapazes

presentes. Quem conhecia a família sabia muito bem que o comentário poderia se aplicar a

Lydia e Kitty, porém jamais a Elizabeth e Jane.

A Sra. Bennet estava radiante diante da perspectiva de casar as duas filhas mais velhas

com cavalheiros tão nobres e ricos. Após algumas taças de vinho, já estava dizendo para

quem quisesse ouvir que havia educado suas meninas maravilhosamente e que esperava que

as mais novas seguissem, em breve, o exemplo das mais velhas e fisgassem excelentes

partidos.

Quando os oficiais do regimento chegaram ao baile, a euforia da Sra. Bennet aumentou.

Imediatamente chamou Lydia e Kitty, que estavam dançando, para avisá-las.

- Meninas, vocês precisam aproveitar essa oportunidade! Quando terão a chance de

dançar com oficiais novamente? Imaginem se algum deles resolver desposar uma das duas!

- Eu, esposa de um oficial? Seria a realização de um sonho! – exclamava Lydia com toda

a discrição que lhe era característica.

As duas logo foram convidadas para dançar por dois jovens militares. A mãe assistia a

tudo extasiada.

Elizabeth, ao ver o Sr. Wickham, foi cumprimentá-lo.

- Boa noite, Sr. Wickham.

- Boa noite, Srta. Elizabeth. Devo dizer que está radiante hoje.

- Obrigada.

- Gostaria de dançar?

Ela havia sido pega desprevenida, mas concordou em dançar a próxima música. Foi

quando avistou o Sr. Darcy no fundo do salão.

- Venha, Sr. Wickham. Quero apresentar-lhe uma pessoa.

Conduziu-o, então, até o local onde Darcy se encontrava.

- Sr. Darcy! – chamou-o.

Quando ele se virou para olhá-la, trazia no rosto um sorriso. Porém, quando viu

Wickham, seu sorriso se desfez.

- Gostaria de apresentá-lo ao Sr. Wickham. Sr. Wickham, este é o Sr. Darcy. – disse ela

fingindo não perceber a visível antipatia de um pelo outro.

- Como tem passado? – perguntou Wickham visivelmente embaraçado.

Darcy não respondeu. Seu olhar parecia fuzilar Wickham.

- Vamos, Sr. Wickham. Vai começar a próxima música. Vamos dançar. – tentou ela, sem

sucesso, aliviar a tensão.

Ao ouvi-la dizer isso, Darcy olhou-a perplexo. Ela não conseguia compreender a reação

dele. Até ali, ele havia sido um verdadeiro cavalheiro com ela. Por que se comportara

daquela maneira ao ser apresentado a Wickham? Talvez os dois já se conhecessem. Mas

então por que não se cumprimentaram como velhos conhecidos?

Quando a dança terminou Elizabeth e Wickham se afastaram. Ela foi procurar Jane.

Precisava desabafar com alguém suas impressões a respeito da relação entre Wickham e

Darcy, mas a irmã estava conversando com o Sr. Bingley. Ela não atrapalharia o que,

visivelmente, era o início de um lindo romance.

Pensou em falar com ela mais tarde, quando já estivessem em casa, longe dos ouvidos

bisbilhoteiros, mas acabou preferindo guardar para si suas opiniões. Afinal, não queria que

Jane desconfiasse que ela e o Sr. Darcy já se conheciam na ocasião em que foram

apresentados.

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