Capítulo III
Henry Purcell – Hole in the
Wall
O dia do tão esperado baile chegara.
O salão estava cheio. Por todos os lados viam-se jovens casadoiras usando seus melhores
vestidos. Todas tinham apenas uma coisa em mente: chamar a atenção do Sr. Bingley. Mas
não eram apenas as moças que aguardavam ansiosamente a chegada dos novos vizinhos:
todos os convidados comentavam sobre o jovem senhor e sua comitiva. Aqueles que já o
haviam visto compartilhavam suas impressões com os outros e os que ainda sofriam com a
curiosidade especulavam sobre sua aparência, seus modos, sua fortuna e, principalmente,
sobre qual seria a moça capaz de atraí-lo.
Enquanto o jovem senhor não chegava, as moças distraiam-se com os rapazes presentes.
A intenção delas era, obviamente, conseguir um bom partido. O Sr. Bingley era, sem
dúvida, o melhor, mas era sempre bom garantir um ou mais pretendentes caso não ele não
demonstrasse interesse por elas.
Os rapazes comentavam entre si sobre a beleza das jovens. Jane Bennet era, por
unanimidade, a mais bela. Além de sua beleza, ela também possuía um temperamento
encantador. Em segundo lugar encontrava-se sua irmã, Elizabeth. Embora não tão bela
quanto a mais velha, ela era dona de uma personalidade cativante que a tornava muito
atraente. Suas irmãs mais novas, Lidya e Kitty, eram consideradas bonitas, mas frívolas e
espevitadas demais. Dançavam e flertavam com todos os oficiais. Eram boas o suficiente
para entretê-los durante o baile, mas nenhum deles pensava em ter algum tipo de
compromisso sério com elas.
Mary nem sequer era notada por eles. Ela monopolizara o piano e não parecia pretender
deixá-lo. Estava decidida a entreter os presentes com uma pequena mostra do seu talento e
dedicação. Infelizmente, nenhum deles parecia deleitar-se com sua performance. Os que
aplaudiam ao fim de uma canção faziam-no com ar de alívio, na esperança de que ela
finalmente desistisse.
A Sra. Bennet circulava pelo salão conversando com vários conhecidos. Ela amava os
bailes e as oportunidades de casamento que estes ofereciam para suas meninas. O Sr.
Bennet falava com Lord Lucas enquanto Jane e Elizabeth conversavam a um canto com sua
filha, Charlotte Lucas.
Elizabeth tentava, em vão, concentrar-se na conversa. Seus pensamentos voavam para o
Sr. Darcy. Ela, certamente, era a que aguardava com maior ansiedade a chegada da
comitiva de Netherfield.
- Lizzy, você está tão distante... Quase não falou nada desde que chegamos. – disse Jane
- É verdade. Está muito calada hoje; você não é assim. O que está acontecendo? –
perguntou Charlotte.
Elizabeth não sabia o que responder. Acreditava estar tendo sucesso em disfarçar seu
nervosismo, mas, pelo visto, não conseguia esconder nada de Jane e Charlotte: as duas a
conheciam bem demais.
- Não é nada, apenas um pouco de dor de cabeça. Vai passar logo.
Nenhuma das duas parecia contente com essa resposta, mas antes que pudessem dizer
mais alguma coisa, a música parou e todos os olhares se voltaram para a porta. O Sr.
Bingley havia chegado.

Henry Purcell
O olhar de Elizabeth dirigiu-se imediatamente para o grupo que adentrava o salão. Com
os olhos, ela procurava o Sr. Darcy. Quando finalmente o avistou, percebeu que ele trazia
em seu belo rosto uma expressão pouco amigável, que contrastava com a animação do
cavalheiro de cabelos ruivos que o acompanhava. Ela logo deduziu que aquele deveria ser o
famoso Sr. Bingley.
Ao lado do Sr. Darcy vinha uma moça de cabelos tão vermelhos quanto os do Sr. Bingley
e atrás deles, um casal. Nenhum deles parecia contagiado com a quase euforia do rapaz.
Pelo contrário, o casal parecia entediado e a moça ostentava um ar de contrariedade. Todos,
exceto o Sr. Bingley, pareciam encarar sua ida ao baile como um grande favor que
prestavam à comunidade local.
Elizabeth sentiu-se muito desapontada ao perceber que o gentil cavalheiro que conhecera
no campo parecia considerar-se muito superior a ela ou a qualquer outra pessoa naquele
aposento. Seus pensamentos foram interrompidos quando Jane perguntou:
- Qual deles é o senhor Bingley?
- É aquele de cabelos ruivos que vem à frente do grupo. – respondeu Charlotte.
- Quem é o cavalheiro que vem com ele?
- Aquele carrancudo?
- Sim, ele mesmo.
- É o Sr. Darcy. – disse Elizabeth sem pensar.
As duas olharam-na intrigadas.
- Eu ouvi alguém comentando. – apressou-se a responder.
Neste momento, a Sra. Bennet aproximou-se delas:
- Jane! Lizzy! Andem! Vamos procurar o Sr. Bennet. Precisamos apresentá-las ao Sr.
Bingley!
Elas encontraram o Sr. Bennet e, assim, dirigiram-se para o local onde o Sr. Bingley se
encontrava.
- Aquele que veio acompanhando o Sr. Bingley é o Sr. Darcy, o melhor amigo dele.
Soube que é muito mais rico do que ele. É dono de metade do Derbyshire! Imaginem! Dez
mil libras por ano! E as irmãs do Sr. Bingley... Vestem-se na última moda. São realmente
damas muito distintas. O cunhado dele também parece ser um verdadeiro cavalheiro. –
tagarelava a Sra. Bennet.
Quando ficaram frente a frente com a comitiva, Lizzy imediatamente procurou o olhar do
Sr. Darcy. Para sua surpresa, ele sorriu para ela discretamente.
O Sr. Bingley parecia encantado com Jane. E, aqueles que a conheciam bem, percebiam a
retribuição do sentimento, mesmo que oculta sob o véu de timidez.
Conversaram um pouco e o Sr. Bingley mostrou-se extremamente simpático. O Sr. Darcy
permaneceu calado, mas já não trazia em seu semblante a expressão pouco convidativa de
antes. Ele olhava constantemente para Elizabeth, que retribuía, para depois desviar os olhos
e enrubescer. Ela temia que alguém percebesse o que se passava entre eles e julgasse que
ela estava flertando com um homem que acabara de conhecer.
- Srta. Elizabeth, concede-me a honra desta dança? – perguntou o Sr. Darcy subitamente.
- Eu adoraria.
Eles dançaram duas vezes seguidas. Depois disso, ele não convidou mais nenhuma outra
jovem para dançar, ao contrário de seu amigo, que dançara com várias moças. Porém, a
única com quem dançou mais de uma vez foi Jane Bennet.
Enquanto dançavam, Elizabeth sentia como se estivesse flutuando. Quando suas mãos se
tocavam, era como se uma corrente elétrica passasse por todo o seu corpo. Ele mantinha
seus olhos nela durante todo o tempo. Falaram pouco, mas as palavras, naquele momento,
eram desnecessárias. Tudo o que tinham para dizer um ao outro podia ser transmitido com
um olhar. Parecia um sonho. Um sonho do qual ela não queria acordar.
Todos no salão comentaram a notória preferência do Sr. Darcy e do Sr. Bingley por
Elizabeth e Jane respectivamente. Havia até mesmo quem dissesse que Elizabeth e seu
parceiro de dança pareciam já se conhecer. As outras moças, despeitadas por terem sido
preteridas, diziam que as Bennets eram namoradeiras e flertavam com todos os rapazes
presentes. Quem conhecia a família sabia muito bem que o comentário poderia se aplicar a
Lydia e Kitty, porém jamais a Elizabeth e Jane.
A Sra. Bennet estava radiante diante da perspectiva de casar as duas filhas mais velhas
com cavalheiros tão nobres e ricos. Após algumas taças de vinho, já estava dizendo para
quem quisesse ouvir que havia educado suas meninas maravilhosamente e que esperava que
as mais novas seguissem, em breve, o exemplo das mais velhas e fisgassem excelentes
partidos.
Quando os oficiais do regimento chegaram ao baile, a euforia da Sra. Bennet aumentou.
Imediatamente chamou Lydia e Kitty, que estavam dançando, para avisá-las.
- Meninas, vocês precisam aproveitar essa oportunidade! Quando terão a chance de
dançar com oficiais novamente? Imaginem se algum deles resolver desposar uma das duas!
- Eu, esposa de um oficial? Seria a realização de um sonho! – exclamava Lydia com toda
a discrição que lhe era característica.
As duas logo foram convidadas para dançar por dois jovens militares. A mãe assistia a
tudo extasiada.
Elizabeth, ao ver o Sr. Wickham, foi cumprimentá-lo.
- Boa noite, Sr. Wickham.
- Boa noite, Srta. Elizabeth. Devo dizer que está radiante hoje.
- Obrigada.
- Gostaria de dançar?
Ela havia sido pega desprevenida, mas concordou em dançar a próxima música. Foi
quando avistou o Sr. Darcy no fundo do salão.
- Venha, Sr. Wickham. Quero apresentar-lhe uma pessoa.
Conduziu-o, então, até o local onde Darcy se encontrava.
- Sr. Darcy! – chamou-o.
Quando ele se virou para olhá-la, trazia no rosto um sorriso. Porém, quando viu
Wickham, seu sorriso se desfez.
- Gostaria de apresentá-lo ao Sr. Wickham. Sr. Wickham, este é o Sr. Darcy. – disse ela
fingindo não perceber a visível antipatia de um pelo outro.
- Como tem passado? – perguntou Wickham visivelmente embaraçado.
Darcy não respondeu. Seu olhar parecia fuzilar Wickham.
- Vamos, Sr. Wickham. Vai começar a próxima música. Vamos dançar. – tentou ela, sem
sucesso, aliviar a tensão.
Ao ouvi-la dizer isso, Darcy olhou-a perplexo. Ela não conseguia compreender a reação
dele. Até ali, ele havia sido um verdadeiro cavalheiro com ela. Por que se comportara
daquela maneira ao ser apresentado a Wickham? Talvez os dois já se conhecessem. Mas
então por que não se cumprimentaram como velhos conhecidos?
Quando a dança terminou Elizabeth e Wickham se afastaram. Ela foi procurar Jane.
Precisava desabafar com alguém suas impressões a respeito da relação entre Wickham e
Darcy, mas a irmã estava conversando com o Sr. Bingley. Ela não atrapalharia o que,
visivelmente, era o início de um lindo romance.
Pensou em falar com ela mais tarde, quando já estivessem em casa, longe dos ouvidos
bisbilhoteiros, mas acabou preferindo guardar para si suas opiniões. Afinal, não queria que
Jane desconfiasse que ela e o Sr. Darcy já se conheciam na ocasião em que foram
apresentados.
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