Capítulo II
Hans Zimmer – Maestro
Como todas as manhãs, Elizabeth levantou-se ainda de madrugada. Naquele dia,
entretanto, ela teve vontade de caminhar. Levantou-se de sua cama e, no escuro, vestiu um
casaco por cima de sua camisola. Desceu lentamente as escadas para não fazer barulho e
acordar os outros moradores da casa. Caminhou até o bosque e sentou-se numa pedra. De
lá, pôde ver quando os primeiros raios de sol surgiram por trás das montanhas. Ela, então,
fechou os olhos e sentiu o vento balançar seus cachos castanhos. Aquele vento, ela sabia,
estava trazendo a nova estação. O verão se despedia. O outono chegava pouco a pouco.
Mas a mudança climática não foi a única coisa que Elizabeth sentiu. Os ventos que traziam
o outono, naquele ano, também trariam novidades para ela. Foi então que soube que sua
vida mudaria para sempre.
Quando finalmente chegou a casa, todos já haviam acordado. Ela resolveu então entrar
pelos fundos para não ser notada. Obviamente, Jane já havia percebido a sua ausência, pois
as duas dividiam o mesmo quarto. Mas ela confiava na discrição da irmã. Não ficava bem
que uma moça saísse de madrugada usando nada mais que um casaco por cima da camisola.
Foi diretamente para o quarto e vestiu-se propriamente. Com um vestido verde-musgo,
desceu as escadas para tomar o café da manhã como se nada houvesse acontecido.
Quando chegou, todos já se encontravam à mesa. Ninguém pareceu reparar em seu atraso,
a não ser Jane, que a recebeu com um sorriso de cumplicidade.
Após o café, Jane e Elizabeth foram à biblioteca escolher algo para lerem. Jane escolheu
um livro de poesias, enquanto Elizabeth preferiu um romance. Ficaram em silêncio por
alguns minutos, durante os quais fingiam ler seus respectivos livros. Jane estava curiosa
para saber o que a irmã fizera fora da cama tão cedo e Elizabeth estava ainda envolvida
pela sensação que sentira no início da manhã.
- Você não quer me contar o que aconteceu hoje? – começou Jane.
- Como assim? – perguntou Elizabeth fingindo não entender.
Jane revirou os olhos.
- Não aconteceu nada, Jane. – respondeu finalmente – Eu apenas senti vontade de
caminhar um pouco. Foi só.
- Está bem. Se você diz que foi só isso, eu acredito em você. Mas confesso que achei
estranho. Você costuma levantar-se cedo, mas sempre fica no quarto me esperando acordar.
- Acho que quis fazer algo diferente esta manhã. O céu estava tão bonito... Eu quis sair e
ver mais de perto.
- Devia estar mesmo, porque desde que voltou notei que você está um tanto diferente.
Está muito calada e pensativa.
- Não é nada. Não precisa ficar preocupada. – disse lançando-lhe um sorriso
tranqüilizador – Sabe, perdi a vontade de ler. O que acha de darmos um passeio?
- Acho ótimo. Também não estou com vontade de ficar dentro de casa hoje. O dia está tão
bonito, não é?
Elas saíram para caminhar. Andaram até o bosque conversando. Acabaram perdendo a
noção do tempo.
- Pela altura do sol já deve estar na hora do almoço. É melhor voltarmos. – disse Jane.
- Vá na frente. Eu vou ficar mais um pouco.
- Está bem, mas não demore muito.
- Não vou demorar.
Elizabeth ficou parada vendo Jane se distanciar. Ela não queria ir para casa. Amava a
sensação de liberdade que tinha quando estava ao ar livre. Resolveu caminhar um pouco
mais, margeando o bosque. Durante o passeio, ela observava as árvores. As folhas
começavam a ficar amarelas e algumas já haviam caído. Ela andava perdida em suas
reflexões quando ouviu alguém se aproximando a cavalo. Virou-se e viu um homem alto,
de cabelos castanhos e porte atlético montando um cavalo branco. Ele estava elegantemente
vestido e não dava sinais de haver reparado na presença dela. Devia ser novo na região ou
estava de passagem, pois ela nunca o havia visto antes.
- Bom dia! – disse ela para tentar fazer-se notar.
Ele a olhou com surpresa e retribuiu:
- Bom dia, senhorita. Por favor, poderia me ajudar? – ele parecia relutante - Eu estava
passeando com o meu cavalo e acabei me distanciando muito do local onde estou
hospedado. Acho que acabei me perdendo...
Elizabeth reprimiu o riso diante do embaraço do homem. Ele estava bastante
desconfortável pedindo informações a uma total estranha.
- Eu o ajudarei com prazer, senhor. Se puder me dizer onde está hospedado, eu lhe direi
como retornar.
- Netherfield Park. A senhorita conhece?
- Oh, sim, claro! O senhor deve ser o Sr. Bingley! Muito prazer, eu me chamo Elizabeth
Bennet. Moro em Longbourn.
- Muito prazer, Srta. Bennet, mas eu não sou o Sr. Bingley. Sou amigo dele. Chamo-me
Fitzwilliam Darcy.
- Perdoe-me pela confusão, Sr. Darcy. Eu não sabia que o Sr. Bingley traria amigos com
ele. – agora era ela quem estava embaraçada.
- Não precisa se desculpar, Srta. Bennet. O seu engano é perfeitamente compreensível. –
respondeu ele sorrindo.
Elizabeth reparou que o Sr. Darcy ficava ainda mais bonito quando estava alegre. Notou
também que ele tinha olhos azuis muito profundos que a faziam pensar em um lago de
águas cristalinas. Ela imaginou como seria mergulhar naquele lago.
Recuperando-se de seu rápido devaneio, Elizabeth percebeu que o Sr. Darcy a olhava
com curiosidade. Ela se lembrou, então, de que deveria indicar-lhe o caminho.
- A casa de seu amigo não fica muito longe daqui. Um pouco mais adiante, o senhor
encontrará um rio. Basta segui-lo que chegará a Netherfield.
- Fico muito agradecido por sua ajuda.
Ele, entretanto, não estava preparado para deixá-la partir. Queria conversar mais com ela.
Não sabia o porquê, mas aquela moça que acabara de conhecer fascinava-o. Tinha olhos
castanhos bastante expressivos que o intrigavam.
- A senhorita se importaria de me acompanhar até o rio? Não sei se entendi bem como
faço para chegar até ele.
Mesmo sabendo que era muito imprudente ficar por tanto tempo sozinha com um homem
que mal conhecia e que se atrasaria mais do que o previsto para o almoço, Elizabeth
concordou. Havia algo no Sr. Darcy que a atraía.
Ele desceu do cavalo para continuar a pé ao lado dela com o pretexto de que o animal
provavelmente estava cansado. Ela percebeu a intenção dele, mas ao invés de se sentir
incomodada, sorriu internamente.
Durante o caminho, ela lhe explicou que Longbourn ficava a apenas cinco quilômetros de
distância de Netherfield Park e que costumava caminhar por aqueles campos com
freqüência. Ele contou a ela que morava em Derbyshire, numa propriedade chamada
Pemberley, mas que por mais que gostasse da tranqüilidade do campo, era obrigado a
passar a maior parte do tempo em Londres devido a seus negócios.
A conversa fluía naturalmente entre eles. Quando finalmente chegaram ao rio, nenhum
dos dois queria partir.
- Acho que devo voltar agora. Minha família deve estar preocupada. Logo vai escurecer.
- Perdoe-me por não me oferecer para acompanhá-la até sua casa, mas...
-... o senhor poderia perder-se novamente. – completou ela rindo.
Ele riu também. O riso dela era contagiante.
- Quando a verei novamente? - ele ficou surpreso com a própria coragem.
- O senhor irá ao baile amanhã? – perguntou esperançosa.
- Sim, Bingley acha que é a oportunidade perfeita para nos apresentarmos à sociedade
local.
- Ele está certo. Até amanhã então.
- Até amanhã.
Elizabeth, relutante, virou-se e começou a andar na direção de sua casa sentindo que ele
ainda a observava.
Ela sempre achara que os campos ficavam bonitos àquela época do ano. Entretanto,
naquele dia, ela achou que estavam mais lindos do que nunca.
***
Darcy estava encantado. Parado com seu cavalo às margens do rio, ele observava
enquanto a Srta. Elizabeth Bennet se afastava. O sol se punha a oeste e lançava sobre os
cabelos dela seus últimos raios dourados. Ele se perguntava se já havia visto algo tão belo.
Quando ela desapareceu de sua vista, ele continuou o caminho, seguindo o rio, como ela
lhe dissera.
Enquanto andava, refletia sobre tudo o que havia acontecido naquele dia. Pela manhã, ele
chegara a Netherfield Park, a propriedade que seu melhor amigo, Charles Bingley, havia
acabado de alugar. Inicialmente, a perspectiva de passar uma temporada de dois meses em
Hertfordshire lhe parecera pouco atraente. Embora gostasse do campo, não achava que
aquela região possuísse tantos atrativos quanto sua terra, Derbyshire. Gostava da calma e
do sossego que a vida rural oferecia, mas não lhe agradavam os habitantes com sua
mentalidade limitada e maneiras pouco refinadas. Darcy conhecia a natureza sociável do
amigo o bastante para saber que a primeira coisa que faria quando chegasse seria arranjar
um modo de ser apresentado à sociedade local.
Outro motivo pelo qual Darcy recusava-se a ir era a presença de Caroline Bingley, irmã
de Charles. Sempre que o via, Caroline tentava agradá-lo ao máximo na esperança de que
ele a pedisse em casamento. O que ela não sabia era que ao invés de conquistá-lo, todas as
suas gentilezas e atenções apenas o sufocavam. Ele estava cansado de ser bajulado por ela o
tempo todo e não estava disposto a agüentar aquilo por dois meses inteiros.
Apesar das numerosas razões para não ir, Darcy concordara em acompanhar o amigo
após muita insistência da parte deste.
E assim partiram o Sr. Bingley, a Srta. Caroline, o Sr. Darcy, a Sra. Hurst - a outra irmã
de Bingley - e o marido desta.
Logo após a sua chegada a Netherfield, Charles recebera a visita do Sr. Bennet, que
morava em uma propriedade próxima.
Darcy, que não estava com ânimo para fazer novas amizades, preferira vasculhar a
biblioteca à procura de algum livro interessante. Entretanto, a Srta. Bingley parecia disposta
a fazer qualquer coisa para conseguir capturar a sua atenção. Ela decidira ir à biblioteca
também, porém não demonstrava vontade de ler. Pelo contrário: falava o tempo todo,
impedindo que Darcy se concentrasse em sua leitura.
Em uma tentativa desesperada de ver-se livre dela, resolvera pegar seu cavalo e passear
com ele pelos campos próximos à propriedade. Só não imaginava que acabaria se
desviando do caminho.
Por sorte, aquela jovem aparecera para ajudá-lo. Depois de conhecê-la, Darcy ficou grato
por ter-se perdido.
Ele não costumava conversar muito com pessoas que não conhecia. Geralmente, tinha
certa dificuldade para se socializar. Era muito discreto, reservado e, apesar de não admitir,
tímido também. Mas com a Srta. Bennet havia sido diferente. Ele não sabia dizer o motivo,
mas sentia-se à vontade perto dela. Pareciam conhecidos de longa data.
Darcy surpreendeu-se pensando com ansiedade no baile do dia seguinte.
***
Elizabeth tentou entrar em casa sem chamar atenção, como havia feito pela manhã, mas
dessa vez não teve sucesso.
- Lizzy! Aí está você! Onde andou esse tempo todo? Quer matar a todos de preocupação?
Não tem pena dos meus pobres nervos? – gritou a Sra. Bennet quando a viu.
- Perdoe-me, mamãe. Eu estava caminhando e resolvi recostar-me a uma árvore para
descansar. Acabei pegando no sono. – mentiu Elizabeth dizendo a primeira coisa que lhe
ocorrera.
- Mas Jane saiu para caminhar com você e voltou a tempo para o almoço. Por que não
voltou com ela?
- Eu quis caminhar um pouco mais. A senhora sabe como gosto de ficar ao ar livre.
- Nunca pensei que diria isso, mas sua mãe tem razão, Lizzy.
- Desculpe, papai. Eu não queria preocupar ninguém. Não vai acontecer outra vez.
- Eu estava quase mandando seu pai organizar uma busca por você! Está tão escuro! Você
podia ter se perdido!
- Mamãe, está tudo bem agora. Voltei para casa sã e salva, como sempre. E, além disso,
eu jamais me perderia nestes campos. Passeio por eles desde que aprendi a andar.
- Eu não sei o que fiz para merecer filhas tão ingratas! Faço tudo por elas! Fico dia e noite
preocupada com seu futuro! Não penso em outra coisa senão em arranjar bons maridos para
elas! E, em troca, o que eu recebo? Cabelos brancos de preocupação!
Elizabeth revirou os olhos. Já estava acostumada com o temperamento da mãe. Era
melhor ouvir calada suas lamentações. Tentar discutir com ela seria perda de tempo.
- Acho que Lizzy já entendeu a mensagem, Sra. Bennet. Tenho certeza de que ela está
muito arrependida e não tornará a fazer algo assim. Agora, se não se importa, é melhor
providenciar algo para ela comer. – disse o Sr. Bennet.
Só então Elizabeth percebeu que estava faminta. Não havia comido nada desde o café da
manhã.
A Sra. Bennet; ainda se lamuriando, foi até a cozinha mandar a criada providenciar o
jantar da filha.
Depois de comer, Elizabeth foi para seu quarto. Ela apagou as velas e deitou na cama,
mas não conseguiu dormir. Só conseguia pensar no cavalheiro de olhos azuis que
encontrara durante seu passeio. Nunca havia conhecido um homem assim. O Sr. Wickham
podia ser belo e muito charmoso, mas sua figura empalidecia quando comparada à do Sr.
Darcy.
Quando Jane entrou no quarto, Elizabeth fingiu estar dormindo. Confiava profundamente
na irmã, mas não desejava falar com ninguém a respeito do que acontecera. Queria guardar
aquele doce segredo só para ela.














