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Não tenho medo de mostrar meus sentimentos e de fazer coisas imprudentes, pois acredito que o que não se mostra, não se sente.(Jane Austen)

A Pequena Pescadora

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   Sentada na beira do riacho, Elizabeth cantarolava uma melodia folclórica e batia os pés no ritmo da música, espalhando água e molhando a barra do vestido.
 
   - Lizzy, se continuar assim vai espantar todos os peixes. – o pai a alertou com um sorriso.
 
  - Nunca consigo pegar nenhum mesmo! Eles preferem as suas iscas. O senhor pega todos!
 
 O Sr. Bennet riu e fez um afago nos cabelos da menina.
 
   - Quer saber o meu segredo? – cochichou no ouvido dela.
 
   - Quero! – ela exclamou com os olhos grandes de expectativa.
 
   - Chama-se paciência.
 
   Elizabeth lançou-lhe um olhar atravessado.
 
   - Espere pelos peixes com calma, sem pressa, que eles virão até você. Não faça tanto barulho ou eles ficarão com medo e fugirão.
 
   - Com medo de mim? – ela perguntou cética – Eu sou tão pequena que nem as galinhas têm medo de mim! Fui tentar espantá-las no outro dia e levei uma bicada em troca. – resmungou emburrada.
 
   - Mas os peixes são menores do que as galinhas e muito menos corajosos. E quem pode culpá-los? Você já é praticamente uma moça! Os pobres peixinhos tão pequeninos sabem que não têm chance diante de uma mocinha tão grande!
 
   - Papai, eu tenho sete anos. – ela retrucou com ar de senhora da razão – Não estou nem perto de ser uma moça.
 
   - Mas é muito mais esperta do que todas as outras crianças de sete anos do Hertfordshire. – e piscou para ela.
 
   - Mais do que os meninos? – questionou maravilhada.
 
   - Mais do que os meninos. – ele assentiu.
 
   - Uau!
 
   - Agora, mocinha, segure direito essa vara de pescar e faça silêncio, ou voltaremos para casa de mãos vazias.
 
   - Mamãe não vai gostar muito se isso acontecer.
 
   - Nem um pouco. Sabemos que ela já fará um escândalo quando vir que você molhou o vestido...
 
   - Droga! – ela se deu conta do estrago.
 
   - Lizzy, olhe a boca. – ela mordeu os lábios com ar de quem é pego em flagrante. Ele acrescentou, com um tom mais brando – Eu a distraio enquanto você vai correndo para o quarto e troca de roupa, está bem?
 
   - Certo. Obrigada, papai.
 
   - De nada, querida.
 
   Os dois se calaram. Elizabeth estava tentando seguir a orientação do pai de não fazer barulho. Infelizmente, para ela, seu esforço parecia apenas beneficiá-lo, uma vez que sua linha não era puxada sequer uma vez, enquanto a dele emergia da água em intervalos de poucos minutos, enchendo o cesto de peixes.
 
   - Ah, eu desisto! – ela exclamou após meia hora. Já estava mesmo agoniada para dizer alguma coisa. Ficar parada em silêncio era uma verdadeira tortura para ela.
 
   - Está bem, Lizzy. Acho que já temos o suficiente. – ele concordou enquanto se levantava. Ela calçou os sapatos e o seguiu.
 
   Subiram a pequena encosta e tomaram o caminho para Longbourn.
 
   - Não é justo! – ela bufou – Jane e Mary vão rir de mim quando chegarmos! Eu sou uma vergonha como pescadora...
 
   - Querida, você sabe que Jane seria incapaz de fazer tal coisa e Mary provavelmente não estará nem minimamente interessada em quantos peixes você pescou ou deixou de pescar.
 
   - Mesmo assim! Todo mundo vai saber que eu sou uma trapaça!
 
   O Sr. Bennet soltou uma gostosa gargalhada.
 
   - E por que você seria uma trapaça, meu bem?
 
   - Porque eu sou muito ruim pescando, oras! – ela colocou uma das mãos nos quadris – O senhor sabe, quando alguém nunca consegue fazer alguma coisa direito ou quando algo muito ruim acontece. É como a mamãe fala que é ter cinco filhas! Uma trapaça.
 
   - Você não quer dizer uma desgraça? – ele a corrigiu divertido.
 
   - Iiiiisso!!! Uma desgraça!
 
   - Não, você não é uma desgraça, Lizzy.
 
   - É claro que eu sou. E quando nós chegarmos em casa todo mundo vai saber disso.
 
   - Não, não vão. Vamos fazer assim: eu coloco um peixe no seu cesto e dizemos que foi você quem pescou, combinado?
 
   Ela fitou seu cesto de palha vazio e refletiu por um momento.
 
   - Fechado. – concluiu com uma piscadela.
 
   - Ótimo. Mas em troca você vai ter que fazer uma coisa por mim.
 
   - O quê?
 
   - Da próxima vez em que o Sr. e a Sra. Spencer nos convidarem para jantar, você será boazinha com o filho deles...
 
   - Mas, papai, ele disse que eu sou feia e cheiro mal! – protestou Elizabeth indignada.
 
   - ... na frente da sua mãe. – concluiu o Sr. Bennet com um sorriso maroto – Faça isso por mim, querida. Vou enlouquecer se ela continuar enchendo os meus ouvidos com “Você está transformando Lizzy em um moleque!” ou “Como ela vai arranjar um marido assim?!”. – explicou ele numa perfeita imitação da voz da Sra. Bennet. – Mas permito que coloque quantos sapos quiser na sopa daquele garoto quando ele a chatear. Só procure fazer isso longe da sua mãe, está bem?
 
   - Tudo bem. Mamãe disse que vai oferecer um jantar para eles na semana que vem como pedido de desculpas. Acha que consigo atirá-lo no chiqueiro e fazer parecer um acidente?
 
   - Confio plenamente na sua capacidade, querida. – ele riu e beijou o topo da cabeça da filha.
 
   A casa já podia ser avistada. Nos fundos, uma criada estendia roupas no varal. Jane, Mary e a pequena Kitty os esperavam sentadas na varanda. De dentro, vinham o choro de Lydia, que ainda não completara um ano, e as lamúrias da Sra. Bennet.
 
   A brisa da tarde embalava a todos.
 

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