Silêncio. Um silêncio ensurdecedor.
A representação do papel branco na tela a sua frente era convidativa, mas a mente se recusava a lhe dar idéias.
Tip, tip, tip... apaga, apaga, apaga - um ritual de surgir e sumir de letras repetido tantas vezes que lhe pareceram não ter fim.
As unhas tamborilaram na mesa impacientes. Ela sabia que algo estava por surgir, mas as palavras simplesmente se recusavam a se unir.
- Merda! - nenhuma outra palavra definiria melhor o que estava sentindo.
Abaixou com ressentimento a tela do notebook, indignada com sua incapacidade de formar coerentemente uma frase. Permaneceu observando a imagem distorcida dos móveis na superfície reflexiva por alguns segundos e, irritada, abriu novamente o equipamento.
“Vamos lá Mozart. Me ajude aqui!”
Busca: Lacrimosa
“Não... Não... Não... Espera aí: Lacrimosa e Evanescense??? Hummm. Inusitado, mas coerente. Deve ser bom!”
Click!
Aumentou o volume, fechou os olhos e absorveu o som...
Out on your on
Cold and alone again
Can this be what you really wanted baby...
“A claridade despontava no horizonte enquanto o homem, distraído, ouvia os próprios passos no gramado. As mãos úmidas tremiam em um misto de frio e calor intensos. Os olhos ardiam e ele não sabia precisar se de angústia, temor, raiva ou ansiedade. O motivo incontestável seria o fato de não haverem se rendido ao repouso habitual e seria fácil admiti-lo. Para um ser humano comum e ordinário seria simples admitir uma noite insone. Mas ele não era comum, estava longe de ser ordinário e seu orgulho o impedia de admitir tal evidência com simplicidade, afinal, o motivo era considerado torpe e, em tal situação, era imperativo escrever. Precisava tornar tudo claro, combater a mentira com a verdade, confrontar a injustiça com a justiça. Precisava encontrar novamente sua paz, tão habilmente roubada pelas palavras cruéis e duras articuladas pelos lábios convidativos e materializadas na voz envolvente. Sentimentos ambíguos coexistiram naquele momento, levando-o a mágoa e ao desejo. Cedeu ao primeiro ansiando pelo segundo. Afastou-se imaginando aproximar-se. Saiu de sua presença tomando-a em seus braços. Enlouqueceu de paixão ao ser dominado pela raiva.
Palavras... Mais delas... Necessitava-as... Tantas quantas fossem possíveis para se livrar desse pulsar infâme, que somente a luz da vela testemunhava com que avidez corroia sua alma. Não importava se seriam duras ou doces, más ou boas. Precisavam ser escritas. Precisavam sair de sua cabeça, materializar-se, atingir seu alvo e deixa-lo de vez. Deixa-lo... As palavras... O amor... A dor.
O papel dobrado e selado em seu bolso. Recusou-se a tocá-lo novamente senão para que chegasse ao seu destino. A confusão em seu íntimo era intensa e ele repassava as cenas, uma a uma em sua mente, com angustiante cuidado, a fim de certificar-se que suas justificativas não seriam em vão. Queria atingir seu coração, mudar a sua opinião... Acreditar que não era tal monstro de egoismo e indiferença.
Apoiou-se em uma das árvores do bosque e, com os olhos cerrados, concentrou-se na harmonia do farfalhar das folhas ambientando o canto dos pássaros, buscando inutilmente um momento de segurança e tranqüilidade. Desistiu, enfim, e pos-se a caminhar absorto em seus pensamentos. Em algum momento ele a encontraria em seu passeio matinal. Tinha que encontra-la ainda uma vez. Mais uma vez o som de sua voz. Mais uma vez olhar em seus olhos. Mais uma vez...
Um novo barulho o trouxe de volta de seu íntimo. Ele a viu. Percebeu que também fora visto. Apesar da tentativa explícita de evitá-lo, e sem ao menos ter consciência sobre como chegou tão rápido ao seu encontro, estava junto a ela novamente.
A dor. Profunda. Os lábios. Toca-los. Acariciar seu rosto. Desejos em vão. A dor. Infinita. Não ousou encontrar seus olhos. Não ouviu o som de sua voz.
- Miss Elizabeth. - O som custou-lhe sair da garganta.
Ela virou-se, acerca do portão. Ele fez o mesmo. Retirou o objeto de sua redenção e o estendeu, oferecendo-o à dama. Ela o aceitou.
- Andei pelo bosque na esperança de a encontrar. Quer dar-me a honra de ler esta carta? - a voz soou mais altiva do que ele pretendia. A angústia. Insuportável. O desejo. Latente. A raiva. Renovada. O amor. Despedaçado. A dor. Infinita. Com urgência fez uma pequena reverência e partiu, desolado, redimido, sem esperanças e carregando a expectativa de transformar o conceito cultivado de desprezo para justiça.
Virou-se a uma distância segura. A curiosidade o obrigou. Ela caminhava e lia com o semblante carregado as palavras escritas. Abaixou a cabeça e esboçou um sorriso lâguido, mais por esforço em se consolar que por vontade de encontrar consolo. Foi-se, sem mais o que temer e com tanto medo a superar.”
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Obrigada!
K.
Lacrimosa
W. A. Mozart
Adaptação: Evanescense
Out on your own
Cold and alone again
Can this be what you really wanted baby?
Blame it on me
Set your guilt free
Nothing can hold you back now
Now that you are gone
I fell like myself again
Grieving the things I can't repair and wiling...
To let you blame it on me
And set your guilt free
I don't want to hold you back now love
I can't change who I am
Not this time, I wont lie to keep you near me
And in this short life, there's no time to waste on giving up
My love wasn't enough
And you can blame it on me
Just set your guilt free, honey
I don't want to hold you back now love
Lacrimosa dies illa
(Dia de lágrimas será aquele)
Lamentando
Lá fora por sua conta
Frio e sozinho de novo
Pode isto ser o que você realmente queria, meu bem?
Ponha a culpa em mim
Liberte-se da sua culpa
Nada pode te deter agora
Agora que você se foi
Eu me sinto eu mesma outra vez
De luto pelas coisas que eu não posso consertar e desejando...
Deixar você pôr a culpa em mim
E libertar-se da sua culpa
Eu não quero te deter agora, amor
Eu não posso mudar quem eu sou
Não dessa vez, eu não mentirei pra manter você perto de mim
E nessa curta vida
Não há tempo para perder com desistências
Meu amor não foi o suficiente
E você pode pôr a culpa em mim
Apenas liberte-se da sua culpa, querido
Eu não quero te deter agora amor
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