O frio penetrou sob as cobertas e me despertou naquela manhã de inverno, mas eu tinha medo de abrir os olhos. Tivera uma noite tumultuada. Tudo começou com um pesadelo em que eu estava insana passando a noite de Natal com uma infinidade de Darcys, Lizzys, Charles, Janes, e todos aqueles personagens de Orgulho e Preconceito que eu conhecia tão bem. Aos poucos, se transformou em um sonho à medida em que me acostumava com aquela loucura e interagia com ela. A experiência fora tão intensa que mesmo agora, analisando tudo com uma perspectiva menos assustadora, eu tinha receio de abrir os olhos e descobrir que não havia sonhado, que aquilo era “real”.
“Tá, como se aquilo pudesse ser real! Aham, sua louca!”
Passei a mão sobre a coberta, procurando um toque familiar e descobri que sua textura era completamente diferente daquela do meu edredon. Fiz uma careta de lamento e esfreguei os olhos. Abri um, mas a imagem era turva.
“Droga de astigmatismo de um olho só. Tinha que abrir justo o errado?!”
Abri o olho bom e as imagens se encontraram de uma forma mais nítida. O quarto era imenso, pude perceber, e o pior: não era o meu. Não havia sido um pesadelo! Eu realmente estava em Pemberley com uma infinidade de personagens de Orgulho e Preconceito!
“Lembre-se de Sociedade dos Poetas Mortos: Curta o momento!”
Semi-desnorteada, virei lentamente, ainda deitada, admirando o requinte daquele ambiente até que me deparei com um volume ao meu lado e abafei um grito, sem saber bem o porque. O volume cresceu e a coberta caiu. Saltei e peguei o castiçal mais próximo, apontando-o ameaçadoramente para a pessoa recém revelada.
- Quem... quem... quem é você? - Eu fazia uma idéia de quem seria... mas não podia acreditar!
- Ótima noite não? Você não se lembra? - Ele bocejou, esfregou o rosto e passou a mão pelo cabelo de uma forma estonteantemente sedutora. Estava sem blusa e a coberta escondia o resto de seu corpo.
Fechei os olhos ansiosamente, vasculhando qualquer vestígio de lembrança em minha mente. Inútil. Eu não lembrava de nada relativo a ele... ou não queria lembrar. Ele me encarou. Lindo, era a única definição que vinha a minha mente.
- Você... é... - “Por favor, diga que não, diga que você não é...” - George Wickham?!
- A seu dispor madame. - Seu sorriso foi desconcertante.
- Onde está Lydia? - Pergunta automática e instintiva de proteção formulada e feita.
- Ela estava bêbada e sentiu-se mal. Deixei-a no quarto e voltei para a festa. Deve estar dormindo até agora.
A vergonha me tomou e percebi o olhar malicioso que me foi dado quando corei.
- O que foi que eu... O que nós... Como você veio parar aqui? - Gaguejei torcendo para que as aparências fossem enganosas.
- Não se preocupe. Sua virtude está intacta. Eu também passei do ponto ontem a noite e devo ter deitado na primeira cama que encontrei. Não percebi que estava ocupada.
Ele levantou sem o menor constrangimento e suspirei aliviada.
“Ufa! Ele está de calças!”
Balançei a cabeça meio inconformada com meu alívio, afinal, quando foi que imaginei que estaria aliviada por um homem fisicamente maravilhoso sair da minha cama sem haver acontecido nada? Não fosse ele quem era eu certamente estaria me lamentando profundamente. Ele pegou no chão uma camisa que me era mais familiar do que aquelas roupas de época que eu havia visto e cobriu o tórax perfeito. Calçou os sapatos em seguida. Eu observei a tudo calada, assustada e, tenho que confessar, um tanto fascinada. Em seguida ele aproximou-se de mim e com um sorriso de canto de boca, disse:
- Pena ter apenas acordado ao seu lado. Gostaria de te-la conhecido melhor.
Fiquei tão brava e lisonjeada que perdi a fala. Lendo nitidamente minha reação ele se aproximou e beijou o canto de minha boca..
- Fica para uma próxima vez. - sussurrou em meu ouvido e saiu em seguida, fechando a porta pesada atrás de si.
Meu queixo caiu de vez e eu fiquei repetindo inúmeras vezes: ele é o Wickham, ele é o Wickham, ele é o Wickham. Ainda assim fiquei em dúvida se corria atrás dele para deixar marcado meus dedos em sua cara ou se para completar o beijo que ele havia começado. Respirei fundo e achei melhor não fazer nada. Embora o lado sedutor dele fosse quase irresistível, o lado canalha não valia o “esforço”.
Caminhei lentamente até uma janela e observei que o movimento de pessoas do lado de fora da mansão, ainda que pequeno, já existia. Olhei em volta do quarto, procurando identificar algo parecido com uma roupa para me vestir e encontrei um vestido azul turquesa pendurado. Não demorou muito e uma criada de quarto entrou e me ajudou com toda a indumentária. Quase desmaiei com a pressão do espartilho, mas eu não ia pagar um mico daqueles. Me agarrei no suporte da cama e enfrentei com bravura a dor nas costelas. Compensou. No espelho estava a materialização de todos aqueles sonhos românticos que tinha ao me imaginar usando um daqueles vestidos. A sensação era bem pior do que eu sonhava, mas a imagem era perfeita.
“ E a gente pensa que no seculo XX as mulheres sofrem para ficar bonitas!”
Desci a escadaria, apreciando cada detalhe da mansão, e, ao entrar na sala para tomar meu desjejum, consegui identificar a minha família Darcy dentre as outras. Em meio a vários cumprimentos aproximei-me deles e Lizzy me ofereceu um lugar ao seu lado.
- Espero que tenha dormido bem Srta. Cruise.
- Sim. Obrigada Sra. Darcy.- Respondi e o pensamento surgiu imediatamente: “Não me peça uma definição sobre o meu despertar, por favor.”
Fui servida de café – brasileiro, o melhor que existia segundo meu querido Darcy.
- Depois de provar esse café a Senhorita nunca vai querer tomar outro. O Capitão Wentworth faz a gentileza de me enviar um pouco sempre que chega alguma carga daquela região.
- Precisamos visita-los em breve querido. Sinto falta de Anne, Frederick e das crianças.
Sorri do absurdo daquela frase e da felicidade que ela me trazia.
- Srta. Cruise, já viu como o sol está iluminando o dia de hoje? Eu posso afirmar que não irá nevar de forma alguma. Algumas pessoas já se aventuraram em um passeio. Porque a Senhorita não se junta a elas?
Proposta tentadora, de fato. A neve consistia em algo completamente estranho a mim e a idéia de conhece-la ao vivo e a cores – se é que eu poderia fazer essa afirmação diante das circunstâncias – era bastante atraente. Segui o conselho de minha anfitriã. Agasalhei-me com luvas, cachecol e capa – tudo me dando um ar muito sofisticado, devo dizer - e saí da mansão.
Branco. Muito branco até a proximidade do bosque, quando traços verticais marrons adicionavam uma cor ao cenário pálido. Instintivamente procurei um grande carvalho que sabia estar próximo. Encontrei-o e segui em sua direção, parando junto a suas raízes. Olhei a minha volta e fui tomada de emoção. Ali estavam as lápides dos pais de Darcy, exatamente como eu descrevera.
“Então será aqui que...”
- Bom dia Senhorita. - Uma voz gentil e aveludada interrompeu meus pensamentos. Virei assustada em sua direção.
- Bom dia... - Corei ao vê-lo. Aquele definitivamente era o dia para ver homens bonitos. Ele era alto – bastante alto - pele clara, cabelo cheio, curto, bem cortado, com uma onda caprichosamente posicionada junto à testa, emoldurada por suaves “entradas” nas laterais, a boca perfeitamente desenhada, o nariz delgado e os olhos... Bem, eu conhecia aqueles olhos: verdes com raios amarelados no centro, formando o desenho de uma flor. Mas ele não era o meu Darcy. Quem seria então? Insegura, continuei - … Senhor...
- Darcy. - Ele respondeu.
Pronto. Minha loucura estava extrapolando todos os limites.
“Paaaara o ônibus que eu quero descer! Como assim? O MEU Darcy, o Darcy daquela Lizzy com quem falei agora a pouco, aquele que estava na mesa tomando café comigo, ESSE Darcy tem esses olhos que eu descrevi na minha estória. QUEM ENTÃO É ESSE DARCY COM QUEM ESTOU FALANDO?”
Fechei os olhos e puxei com todas as forças o ar que o espartilho me roubava.
- A senhorita está bem?
Ele me sustentou, a voz suave junto a mim enquanto eu tentava controlar outra vertigem.
- Será possível que eu não vou passar um dia nessa terra sem ter uma vertigem? - Briguei em um sussurro com Ele, olhando discretamente para cima. Não houve resposta.
- Venha, sente-se aqui nesta raiz.
Obedeci puxando novamente o ar. Não resisti e fitei seus olhos.
- Eu já estou bem. Obrigada Senhor... Darcy. - Forcei um sorriso enquanto falava contrariada.
- Por favor, me chame de Michael.
“Heinnnn?”
- Não seria Fitzwilliam?- Perguntei desconfiada. Ele sorriu. Um sorriso que quase me fez desmaiar novamente.
- Desculpe. A senhorita deve estar me confundindo com meu primo. Ele é Fitzwilliam Darcy. Nossos pais são irmãos. Infelizmente não pude chegar a tempo para a comemoração de ontem pois a neve dificultou muito o acesso a essa região. Acabei de chegar de Londres e...
Ele continuou mas eu não ouvia mais uma palavra. Fiquei hipnotizada por aqueles olhos.
- … Senhorita? Está se sentindo bem? Senhorita?
Voltei a mim.
- Ah, sim claro. - “Que mico! Acorda criatura do além!” – Estou bem sim.
Sorri desconcertada enquanto ele me olhava insistentemente. Percebi que não havia me apresentado. Me esforcei para não gaguejar.
- Sou a Srta. Cruise. Eu... err - “O que eu sou mesmo?” – Eu sou uma... amiga... da família.
- Encantado Srta. Cruise. - Ele fez uma reverência sem tirar os olhos dos meus. Devolvi a atenção com um aceno de cabeça e tentei me levantar em seguida. Ele prestativamente me auxiliou.
- A Senhorita gostaria de companhia em seu passeio? Acredito que não deveria caminhar sozinha.
“Ok. Agora é oficial. Eu estou alucinando!”, analisei aceitando o convite sem pensar uma segunda vez.
Caminhamos pelas imediações da mansão, passando próximo ao bosque e ao labirinto verde antes de voltarmos ao aconchego do interior das paredes da construção. Ele tinha um bom humor contagiante e o tempo passou sem que percebêssemos. Acabamos entrando no fluxo de Bennets, Bingleys e, para meu desgosto, Ladys Catherines, que nos levou até a porta principal da mansão, onde o meu Darcy recebeu o primo com entusiasmo. Juntos poderiam passar por irmãos e aquilo, ainda que condizente com o contexto surreal onde eu me inseria, me intrigou. Eles conversaram animadamente e Michael se despediu de mim com um sorriso.
- Espero vê-la em breve Srta. Cruise.
- Eu também. - Suspirei. - Quer dizer, nos eventos... que ocorrerão... digo, antes do ano novo... -“Ai, isso foi um King Kong!” - Calei constrangida e imaginei que depois disso teria muita sorte se ele ainda me dirigisse a palavra.
Darcy e Lizzy acompanharam o primo, não sem antes se entreolharem e me oferecerem um sorriso enigmático que não consegui decifrar naquele momento.
Voltei para o meu quarto e permaneci ali até a hora do jantar, quando desci e pude perceber que meu lugar estava reservado ao lado do lugar de Michael Darcy. Tremi ao vê-lo novamente e segui para ocupar minha cadeira. Ele gentilmente levantou e puxou o objeto para que eu sentasse. Apesar de meu constrangimento a noite seguiu divertida, com todos os Darcys e Lizzys lançando olhares sorridentes para mim e Michael que estávamos concentrados em uma conversa sobre Deus e o significado do Natal. Nos ocupamos um com o outro durante aquela noite e esse comportamento se repetiu por todo o tempo que estivemos juntos. Eu me desliguei das coisas que me perturbavam desde o primeiro dia e apreciei cada momento ao seu lado, desejando que aquela loucura não tivesse mais fim. Assim foi durante todos aqueles dias até a chegada do último dia do ano. Nesse dia Lizzy passou no meu quarto antes de descermos para a festa.
- Querida, você está pronta?
- Sim Lizzy. - Falei já mais acostumada com a pressão em minha cintura.
- Como eu lhe disse, hoje é o seu último dia aqui. Espero que você tenha aproveitado bastante nosso refúgio de campo e que essa noite lhe seja memorável.
Eu havia esquecido completamente que ela havia me alertado que minha loucura duraria até a noite de Ano Novo. Uma sensação de desespero quase me dominou.
- Eu apreciei sim. Obrigada. Mas gostaria de permanecer por mais algum tempo. - Supliquei olhando de soslaio para o teto, esperando uma resposta d'Ele que, mais uma vez, não me respondeu. Lizzy sorriu significativamente e me convidou para nos juntarmos à família. Obedeci, sem realmente querer saber o motivo daquele sorriso.
Encontramos com as crianças e Darcy que esperava a esposa com um largo e lindo sorriso, presente também em Michael que estava de pé ao lado do outro. Ele me ofereceu seu braço e aceitei. Entramos no salão onde os músicos já tocavam e vários Charles e Janes dançavam uma coreografia típica daquela época. Alguns personagens mais modernos se aventuravam em aprender os passos enquanto outros apenas observavam. Foi quando Michael me perguntou:
- A senhorita dança?
Fiquei assustada.
- Eu não sei dançar esse tipo de música. - Respondi insegura.
- Nem eu, mas vamos tentar.
Nos posicionamos e tentamos imitar os passos conforme víamos os casais vizinhos se movimentarem. Rimos muito até que a música mudou. Não era mais o som erudito que ouvíamos e sim músicas mais modernas. Os personagens modernos aos poucos foram tomando conta do salão, ensinando os outros este tipo de dança mais espontâneo. Nos deixamos levar pela música e, influenciados por ela e pela oportunidade, permanecemos juntos. A melodia a princípio animada foi se tornando cada vez mais suave à medida que a meia-noite se aproximava, até se tornar lenta. Michael e eu olhamos os casais se formando a nossa volta.
Ele me estendeu a mão e me lançou um olhar junto com um sorriso. Foi como um convite irrecusável. Me deixei envolver por seus braços enquanto ele guiava meus passos. Uma sensação de paz e aconchego me invadiu. Eu não queria mais sair dali. Sem nos darmos conta nos afastamos da multidão de casais e permanecemos dançando em um local mais reservado. A música parou para a contagem regressiva, mas nós ignoramos o fato. Continuamos dançando como se todo aquele burburinho de vozes fossem a música que ainda soava aos nossos ouvidos. Ele aproximou mais seu rosto do meu, seus lábios próximos ao meu ouvido:
“10, 9"
- Senhorita Cruise, preciso lhe dizer algo.
Quis responder, mas ele encostou seu rosto em minha boca e disse quase murmurando:
- Por favor, deixe- me falar de uma vez ou não terei coragem de dizer tudo o que preciso.
Aproveitei a proximidade e puxei o ar que me faltava. Senti seu perfume e me sustentei em seus braços.
“8, 7”
- Sinceramente estou um tanto confuso. Não sei bem qual o motivo de eu estar aqui hoje e não compreendo o que está acontecendo nesta casa desde que cheguei. As pessoas... os nomes... os temperamentos... é tudo muito estranho e, em condições normais, eu já teria partido. Mas não pude partir. Algo mais forte que eu, estranho e sedutoramente poderoso não me deixou partir. Algo precioso demais pra deixar, misterioso demais pra não desvendar.
Ele pausou e afastou o rosto para encontrar o meu olhar. Meu coração disparou. As vozes ficaram mais distantes.
”6, 5”
- Desde que cheguei não consegui me aquietar. Toda vez que decidia ir embora era impelido delicadamente a mudar de idéia e desvendar este motivo.
Ele desviou o olhar por um segundo para em seguida voltar a me encarar trazendo junto um sorriso que fez o tempo parar. As vozes sumiram.
“4, 3”
- Mas agora...
Ele fez uma outra pausa. Foi somente um instante mas me pareceu eterno! Pensei: “Fala logo!” mas antes que pudesse terminar o raciocínio ele falou:
- Agora que estou ao seu lado, não consigo cogitar passar mais um instante sem ouvir sua voz, sem faze-la sorrir... É a sensação de ter conseguido desfazer o maior dos mistérios e ter alcançado o maior dos tesouros. Peço que não me considere impertinente, mas gostaria de lhe oferecer minha sinceridade envolta em um amor que nem eu mesmo consigo mensurar. Nunca acreditei em amor a primeira vista, mas agora - pobre de mim! Quis sempre controlar meus possíveis relacionamentos e proteger-me das mais fugazes relações na intenção de manter-me com aparência firme e equilibrada. Mas diante da Senhora... O que posso fazer? Me sinto perdido e sem sem escolhas, como se chegasse ao final de todas as estratégias. Estouram em meu peito sensações que vão do medo ao respeito, da raiva a admiração. Será que ainda possuo alguma sanidade? De certa forma entendo o medo de nossa sociedade puritana e machista... Este é um poder que a Senhora não controla. Tenho vontade de fugir diante dele mas neste momento sou como criança envolta nos braços da mãe. E tomo para mim a coragem que ronda o coração daquela criança protegida diante da ameaça e declaro: Eu a amo Srta. Cruise! Pode parecer uma loucura que saiu direto dos românticos livros da Jane Austen, mas só posso descrever este momento como o nascimento do mais puro e completo Amor.
“2, 1”
Ele aproximou-se lentamente até que senti sua respiração junto à minha, ambas ofegantes porém em mesma sintonia. Seu aroma era envolvente e o toque em minhas costas suave, ainda que me aproximando dele. Me rendi completamente. Eu também o amava. Meus lábios estavam sedentos por sentir seu gosto e apreciei o calor junto á minha face antes de experimentar a sensação de Paraíso que seu beijo me causou. Um beijo terno, suave, gentil, breve e, ainda assim, apaixonado e intenso. Derreti-me em seus braços. Ele se afastou, me sorriu e quase que triunfante perguntou-me:
- Casa-se comigo?
- Sim! - Foi tudo que conseguir dizer entre sorrisos e lágrimas.
Meus Darcy e Lizzy se aproximaram logo em seguida e Darcy me dirigiu a palavra:
- Impressionante como as coisas absurdas podem ter um sentido todo particular não é Srta. Cruise?
- Então já não se sente mais estranho Sr. Darcy? - Perguntei, um pouco mais recuperada da emoção.
- O fato é que um homem precisa de uma mulher para lhe clarear a mente de vez em quando.
Ele sorriu para a esposa e compreendi que ela, a minha doce e querida Lizzy, tinha preparado aquele momento para mim. Me aproximei.
- Obrigada Lizzy.
- Não é a mim que você deve agradecer querida. Você se esqueceu que já é meia-noite?
Arregalei os olhos. Não. Não poderia ser. Aquilo ia acabar?! E Michael? Como eu ficaria sem ele? Não! Agora não. Não
- MICHAEL! NÃO!
Meu coração disparou e me levantei assustada. Olhei a minha volta. Tudo me era familiar... familiarmente moderno. Virei lentamente para o lado e vi um volume na cama. Revirei os olhos e pensei: “Se for o canalha do Wickham eu não me responsabilizo dessa vez!” Puxei o lençol e ele estava lá. Não era o Wickham. Era o Michael. O meu Miguel, dormindo totalmente esparramado na cama, ocupando mais da metade do espaço. Sorri, feliz por saber que não haveria nem estória - nem história - mais bela e tocante para mim do que aquela que eu havia escrito com ele. Corri para verificar o sono dos meus filhos. Eles dormiam como anjos, lindos e perfeitos, como Deus os havia me dado. Deixei-os em silêncio e segui para a cozinha. Procurei na geladeira o calendário: dia 31 de dezembro de 2008. Voltei para o quarto e deitei caprichosamente junto ao meu marido, meditando na perfeição dos caminhos de Deus. Senti seu abraço me envolvendo enquanto ele ainda dormia e me aconcheguei naquele lugar que, eu sabia, era o melhor lugar do mundo.
Meu Darcy era real e, ainda que ele fosse menos perfeito do que o da minha imaginação, eu o amava e era feliz ao seu lado. Olhei para cima e sussurrei:
- É perfeito como é. Obrigada!
A resposta me encheu de alegria:
- De nada.
*** Fim da Parte 2 e Fim do Conto ***
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K.

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